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O Andarilho - decassílabos Enviar por e-mail
Literatura - Poesias

Escrito por HiagoRRdeQueiros
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Sáb, 20 de Dezembro de 2008 12:15
I
Muito prazer, sou um andarilho
vagante, uma estrela sem brilho,
eu triste, ao silêncio caminho,
trancado, vidrado na solidão,
angustiado eu vago sozinho
com um vão no lugar do coração,
contemplando o nada-contemplar,
distante, com meu ar de inútil,
procurando-me dentro do fútil,
somente vendo o tempo passar.

II
Sim, sou aquele olhar opaco
que você desviou na esquina;
era meu aquele gemido fraco,
refluxado de dor em surdina
só... sem nenhuma só alegria,
só, vou penando em cada canto,
dilacerando em melancolia,
sim, vou plantando todo meu pranto...
quem sabe assim, posso ser feliz,
já que nem a morte levar-me quis.

III
Não tenho verdades pra defender,
e nem mesmo ânimo pra chorar,
só o silêncio a me contemplar,
só a tristeza a me abater
neste vão todo cheio de nada,
passam-se os anos em segundos,
vão pingando por uma madrugada
vazia, em tons escuros, profundos,
rajados de letras suicidas,
sangrantes das próprias feridas.

IV
Tenho somente um modelito;
talvez dos feios, o mais bonito;
todo sujo e todo rasgado;
nos pés, sete unhas encravadas,
calçando sem meia um riscado
par de sapatos com descoladas
solas gastas pelo meu caminhar,
perdido no motivo de viver
perdido, mesmo tentando sonhar
e não desistir e não ir voar
dum viaduto para o morrer.

V
Tenho eu uma chama apagada
que um dia por amor se de deflagrou,
logo acendeu, logo apagou,
tão logo tornou assim gelada
a minha alma que antes era
tão lividamente inocente
que lamento hoje e quem dera
se o passado fosse presente
teria de novo aquele brilho...
não seria assim... um andarilho.

VI
São as placas meu desentediar;
tantas direções para se guiar
quando quebrado o meu coração
não quer ir além de um abraço
na morte dar, livrar da solidão
num sorriso de dor ao compasso
triplo da valsa martirizante:
um tempo ao soluço molhado,
um tempo ao olhar lagrimado,
e mais um... ao gemido cortante.

VII
A calça aos trapos e flagelos;
a camisa cascuda de suor,
eu de ilusões faço castelos;
eu, minha miséria canto de cor...
a fome já não mais me rumina,
a sede não me aridifica...
eu de alegria sou uma mina
que de chorar se prantifica,
de sorrir secou, se esgotou
e de sonhar se empobretou.

VIII
Tanto tempo, tantas chances tive
de ser alguém além do querer ser
alguém que não tem ninguém em seu ter
em estar só, onde eu estive...
as tristezas que tentei lamentar
nas madrugadas que nada senti
dos amores que não pude amar,
pois de me adaptar desisti
deste caras-e-bocas encenar
para a um coração conquistar.

IX
Nos domingos, vejo tantos pares,
todos tão dóceis em amares,
todos são felizes ao meu redor...
eu aqui e lá sou sempre tão só
trago no peito tanto amor
que, só de pensar faz mesmo é dó,
tão frio por fora, tão lúcido...
tão radiante, se perde no vão
meu ofegante, meu só coração...
um coração frio... translúcido.

X
Estas réstias de solidão só são,
estes rios de lágrimas cortam,
o que meus olhos tanto suportam:
o silêncio da indeclaração:
não me manda ir deitar num canto,
não me convida ao desfalecer:
me transporta às portas do pranto
e lá me deita, pronto a morrer...
a ser assim: só um andarilho...
um só, uma só estrela sem brilho.

XI
Não ser o que não me resta aqui
é sim não ter o que não me sorri...
que, talvez me agonie aos poucos;
--- a solidão forma sim talentos,
mas professora os loucos...
e, mesmo perdidos, meus lamentos
seguem em vãos, desesperançados
dentre tantos lugares vazios...
tantas lágrimas fazem rios
--- são nascentes meus olhos... cansados.

XII
Caminho eu por aí e acolá,
procurando o motivo de ir
vou sozinho eu daqui para lá,
vou tentando só de mim sorrir,
já que tudo em volta só chora
ao ver uma alma só e perdida
pelas esquinas do só lamentar
tentando, quem sabe, se esconder
das tantas amarguras de viver.

XIII
Das tantas amarguras de não ter,
nas madrugadas vazias chorar,
e só me consolar ao encarar
de frente a tristeza, a dizer
que sozinho, mesmo assim triste,
assim serei, assim que morrerei,
pois, se um fim pra mim sim existe
sei que eu mesmo não o escolherei
como me ver morto, enterrado..
como dizer adeus, não amado.

XIV
Como ver sobre a lápide só
uma placa de madeira sem dó
sem piedade e nem caridade..
lá vai fundo meu podre caixote
sem rosas, somente o rebote,
somente só toda crueldade
dos sorrisos das velhinhas cegas,
beatas, cemitério, procissão,
uma novena vil, de praguejação
rezando por só mais um piegas.



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Sáb, 20 de Dezembro de 2008

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Última atualização em Dom, 21 de Dezembro de 2008 08:48
 
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