
| A heart full of soul |
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| Literatura - Contos - Diversos |
Escrito por Fernando Barreto |
Seg, 22 de Dezembro de 2008 06:44 |
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A família Dorfman mudou-se para a Cracolândia em setembro de 2002. O patriarca Vicente Dorfman viu chegar a véspera do Natal sem que tivesse sentido qualquer sabor pela vida desde o dia em que fez a mudança para o Centro com sua mulher e as duas filhas. Naquela tarde de 24 de Dezembro, enquanto faziam a comida, as três mulheres da casa deslocavam-se nervosamente dentro do pequeno apartamento de um quarto, numa falta de harmonia tal que, traçando um paralelo com o Rock, faria as Shaggs parecerem o que sempre houve de mais virtuoso e harmônico em música. As três mulheres da família vinham carregando divergências de todos os tipos entre si já havia algum tempo. Foi algo que concidiu com o início dos problemas financeiros da família. Os problemas de relacionamento eram ruins especialmente entre as irmãs, Paula, de 23 anos, e Clara, de 21, que agora viviam numa proximidade física até então inconcebível para os padrões de sociabilidade dos Dorfman. Cada menbro da família tinha um quarto com saídas independentes na casa em que viviam anteriormente. A esposa de Vicente chamava-se Olga, e era uma espécie de ONU das questões familiares. Questões que sempre lhe causavam mágoas e lhe impunham renúncias até que fossem solucionadas. Ainda ea bonita aos 45 anos, mas já tinha jogado suas fichas num sonho de família ideal. Seu sonho ruiu prematuramente, é claro. Ela não desconfiava que desde que mudou-se para lá, passou a fazer parte dos pensamentos levianos do velho Henry Koda, vizinho de dois andares acima, velho oficial aposentado da marinha, que taradão até o tutano, adorava mulheres casadas.
A filha Paula estava vivendo dias ruins desde que mudou-se para a Cracolândia. Era uma vida nova e estranha, imersa no medo daquele lugar, e também num sentimento de desprezo que passou a nutrir pelos novos vizinhos desde o dia em que chegaram ao novo endereço. Paula era uma sociopata que prezava muito pelo conforto da bolha em que foi criada e na qual vivia até poucos meses antes. Ao longo de sua vida ainda curta, sempre buscou expandir os limites dessa bolha, mas fazendo com que ela permanecesse intransponível para interferências humanas que ela considerasse nefastas. Nunca tivera a chance de aproveitar de verdade as boas condições de que podia dispor para a manutenção de sua privacidade, porque as tinha sem esforço algum, e não conhecia realidades diferentes de vida. Nas poucas chances que tinha de fazer esse tipo de reflexão, quando eventualmente via seres humanos passando por dificuldades, perigos ou humilhações, jogava fora imediatamente os pensamentos sobre ‘poderia ser eu nessa situação'. Era uma individualista radical, que nos dias de fartura era movida por um tipo de otimismo cego que a fazia pensar que teria para sempre o controle das situações, quaisquer que fossem as aventuras ou desventuras que a vida lhe impusesse. A sociabilidade era a única coisa para a qual Paula era econômica. Fazia o impossível para que qualquer interferência de outras pessoas em seu caminho fosse a mínima possível, salvo em circunstâncias favoráveis a ela. E nos bons tempos, vários eram mos fatores favoráveis a ela, é bom que se diga. Era uma morena de beleza perturbadora, que ela sabia usar magistralmente, principalmente nos casos em que as pessoas com as quais fosse lidar não primassem pela inteligência ou discernimento. Fossem essas pessoas seus opositores ou potenciais sócios. Clara adaptou-se ao novo bairro de uma maneira mais tranquila. Pensava naquilo como uma rápida fase de decadência familiar que poderia lhe render a verdadeira emancipação, já que agora precisava trabalhar, e traçando uma análise otimista, poderia viver sozinha logo, talvez ali mesmo no Centro, que apesar de tudo, não achava tão repugnante como os outros membros de sua família o achavam. Tinha o mesmo tipo físico de sua irmã, mas com uma beleza que chamava menos a atenção, por ser mais delicada e menos agressiva do que a de sua irmã. O que a fazia Clara não se desesperar com a repentina derrocada financeira de sua família era o fato de que ela já amargava há algum tempo a derrocada anterior, que era a quebra da unidade familiar, anterior aos problemas financeiros. Mesmo numa casa grande e confortável, como a que viviam antes, as relações eram precárias. O espaço e o conforto da antiga residência amenizaram esse problema enquanto a família permanceu lá. Vicente foi ao corredor tomar uma lata de cerveja. Moravam então no oitavo andar de um edifício na Avenida Rio Branco, entre as ruas Vitória e Aurora. Foi a primeira vez em vários meses que parou para fazer um balanço de sua vida. Estava em dificuldades financeiras inéditas, beirando os 50 anos, tinha uma família destroçada e um orgulho grande demais para buscar ajuda com velhos amigos. As manhãs desses últimos meses eram sempre a pior parte dos dias. Os dias sempre começavam caóticos na região central. Ele foi terminar a lata de cerveja olhando para a Avenida Rio Branco, visão que não tinha de dentro de seu apartamento. Podia vê-la do corredor de seu andar, atrávés de uma parede vazada em gomos quadrados de 20 por 20 centímetros, intermedeados por colunas de 10 centímetros de espessura.. Ele sentiu o cheiro de comida saindo dos apartamentos vizinhos. Eram dez apartamentos por andar. O silêncio vindo das ruas do Centro da cidade era quebrado eventualmente por parentes que chegavam para visitar os novos vizinhos dos Dorfman. A cada vez que um desses grupos chegava, Vicente sentia um duro golpe em seu ego. Aquelas pessoas conseguiam ter no Natal ao menos um pálido fiapo de alegria e esperança, mesmo vivendo em meio a uma degradação social fora de qualquer parâmetro. Acabavam-se na cidra, no frango assado e nas músicas populares. Crianças saíam completamente descontroladas correndo pelos corredores cada vez que uma das portas se abria. Um tipo de gente que em épocas anteriores, ele jamais imaginou ser possível. O nosso protagonista da vez ficou muito tempo na mesma posição, de pé, olhando a rua pelos vãos da parede, e foi para dentro de casa buscar mais uma lata de cerveja. Dos dez apartamentos do andar dos Dorfman, metade já tomada de visitas de amigos e parentes. O ruído das festividades corroía Vicente por dentro, mergulhando-o numa sensação de tristeza, desesperança e desolação. Ele deixou de olhar a rua e foi sentar-se na escada que dava acesso ao andar superior. Estava agora de frente para o apartamento de um jovem casal que ele conhecia apenas de vista. Apenas um apartamento separava a morada dos Dorfman daquela para o qual Vicente estava virado. A garota, Vânia, era de uma beleza singular. Jovem, aproximadamente 22 anos, cabelos curtos castanhos e lisos, olhos verdes e que muitas vezes entrava no apartamento carregando livros. Já havia chamado a atenção de todos os Dorfman, cada um por uma razão O namorado dela era músico. Chamava-se Franco. Era cabeludo, magro e desleixado, mas alegre, e distinto daquela vizinhança sob todos os aspectos. Sabia lidar com aquela gente, sem que aparentemente se desgastasse tanto. Era obrigado a ter com os vizinhos durante seus momentos de descanso em casa, pelas razões de sempre numa cidade-dormitório: festividades com conversas e músicas altas durante a noite. Como todos os apartamentos eram pequenos e suas portas eram próximas, o teor das discussões entre Franco e algum vizinho mais intolerante era facilmente ouvido da casa dos Dorfman. Franco argumentava que geralmente trabalhava à noite, e não gostava de dormir cedo nas noites de folga. E dizia ainda que durante o dia não podia dormir por causa da balbúrdia que as crianças faziam nos corredores do prédio, e por causa de vizinhos que ligavam furadeiras, passavam tardes batendo pregos nas paredes, e também pela brutal poluição sonora causada pelo trânsito caótico do Centro, de segunda à sexta, a não muitos metros abaixo de sua janela. As discussões entre Franco e os vizinhos terminavam sempre da mesma forma. Ele reduzia ao máximo a duração da conversa, dizendo por cima da argumentação do ribeirinho que o som seria abaixado. Finda a conversa, ele voltava para dentro do apartamento, abaixavao som e comentava: ‘Nosso quarteirão é como um estacionamento de mulas. Toda vez que olho pela janela à noite e vejo os prédios ao redor me vem à cabeça essa constatação. Essas pessoas que vivem aqui são destituídas de alma. Vendem sua força de trabalho de uma maneira desumana e suicida. É assustadora a maneira como elas são rapidamente esmagadas pela vida. E a culpa não é do sistema. A culpa é dessas pessoas mesmo, que são submissas, medrosas e burras. Não sabem nem do que tem medo, mas o tem. Todo tipo de proximidade com essas pessoas nivela o conjunto por baixo. É preciso tornar-se inascessível para essa gente.' Vicente nunca havia realmente conversado com nenhum dos dois. Ouvira por várias vezes, no entanto, Franco declarar em conversas com amigos que "devolveria a música ao planeta Merda". Ele vivia carregando uma guitarra e um teclado de brinquedo. Vicente jamais se incomodou com as músicas do jovem casal. Pelo contrário. Teve naquela tarde de 24 de Dezembro de 2002 a prova cabal de que a música nos leva a diferentes níveis de envolvimento com nossa realidade. Para Vicente, isso significava, naquele dia, um mergulho em águas escuras e nas quais nunca havia mergulhado. Se nos Natais anteriores ele sentia indiferença diante da fartura de comida e bebida de que podia desfrutar com a família, agora ele via que além de estar mergulhado na limbose financeira, estava também sem forças para sair dela. Franco e Vânia pareciam estar brincando dentro do apartamento de escolher músicas natalinas. Músicas gravadas por artistas ligados ao Rock, geralmente. Era facilmente perceptível o fato de que o interesse deles era pela música e não pela data em si. Ele podia quase sentir a alegria do casal enquanto mergulhava numa angústia existencial que nunca havia experimentado. Naquele casal Vicente podia ver vida, juventude e algum futuro. Apesar de viveram no mesmo prédio, com suas portas separadas por poucos metros de corredor, as circunstâncias eram completamente diferentes. Enquanto o jovem casal escolhera o Centro para viver com economia e com fácil acesso para diversas áreas da cidade, podendo prosperar e emergir no futuro para onde fosse mais conveniente, os Dorfman foram viver na Cracolândia vindos de uma casa grande e confortável num condomínio em Vinhedo. Vicente tinha ações, viveu de renda por mais de 20 anos e fez, do ponto de vista financeiro, manobras ruins nesse período. Perdeu dinheiro e teve que vender a casa. Teve que saldar algumas dívidas, e com o dinheiro que sobrou, comprou o pequeno apartamento no Centro, guardando ainda uma quantia que lhe garantiria alguns meses de contas pagas. Mas àquela altura já estava chegando muito perto do limite dessa reserva financeira, e já não vinha dormindo bem nas últimas semanas, preocupado com sua falta de habilidade em lidar com dinheiro, e tendo tão pouco guardado para começar o ano seguinte. As duas filhas trabalhavam, mas Olga não admitia que elas ajudassem nas despesas de casa. Não se tratava apenas de valores morais de família. Havia por parte dela o temor de que isso fizesse com que Vicente jamais se mexesse para procurar trabalho se as garotas colocassem dinheiro dentro de casa. De dentro do apartamento do jovem casal saía o som daquele maravilhoso disco de Natal do Phil Spector, gravado em 1963. Vicente ouvia a música e as risadas do casal, e ficava mais e mais desolado. Sentia que havia escolhido desde cedo um caminho totalmente equivocado para sua vida, e a isso era somado um tipo estranho de compaixão natalina pelos dasafortunados, algo que para ele era inédito, e até então considerava esse um sentimento burro. Sendo ele um novo desafortunado, esforçou-se para não pensar em mais nada. Mas isso era impossível no Natal. Ele não era imune aos apelos da mídia e nem ao comportamento das pessoas próximas, que faziam o impossível para não deixar a data passar em branco. Ao mesmo tempo, os valores como família, sociedade e humanidade não diziam-lhe nada. O pior era a sensação de acordar em plena derrocada na vida. A falta completa de perspectivas positivas. A última porta à direita de Vicente, no fim do corredor, abriu-se e dali saiu aquele pequeno garoto boliviano, magro, com 7 ou 8 anos de idade. Vicente já o tinha visto algumas vezes, sem que realmente tivesse prestado alguma atenção nele. Havia em suas feições a expressão da tristeza, da fome , do sofrimento, do abandono e da falta de amor, mas não havia ali nem medo e nem burrice. Nestor era seu nome. Ele saiu descalço, com uma bermuda que antes tinha sido uma calça de moleton cinza, agora cortada na altura dos joelhos, e uma camiseta regata branca. Vinha com um revolver de brinquedo na mão esquerda e assim que dera seu segundo passo pelo corredor afora, já era seguido por seu cão. Um viralata simpático, mas igualmente magro e com olhos tristes. De sua casa não estava saindo cheiro de comida de Natal. Passou pela cabeça de Vicente, ainda que de maneira vaga, a idéia de dar um enquadro de verdade na mãe de Nestor, para a prática de uma bulinação intensa, quando ela desse alguma brecha, como ficar fazendo faxina com alguma saia meio transparente que insinuasse uma calcinha pequena, ou deixar a alça do sutiã aparecendo, e sem que Nestor por perto, e nem sua mulher ou filhas. A mãe de Nestor era uma índia tímida, com cerca de 1,60 de altura e aproximadamente 65 quilos. Ela ainda tinha um resto do vigor da juventude, e Vicente pensava pelo menos no que diz respeito à libído, ela estava viva. Alguns fatos indicavam isso, apesar de nunca ter havido nenhum indício de que ela tivesse feito sexo desde que os Dorfman se mudaram pra lá. Nestor não tinha pai e eles nunca recebiam visitas. Quando cristalizou-se em sua mente a idéia de colocar tudo a perder por causa de uma foda com uma índia de meia idade, e vizinha dele e de sua família, Vicente voltou aos seus desolados pensamentos reflexivos de Natal. Nestor passou por ele, foi até a escada que dá acesso ao andar inferior, e descendo por ali desapareceu de sua visão e de seus devaneios. O pequeno indígena sentia que nascera para perder e ser massacrado tal qual seu povo, com a chegada dos europeus ao continente americano. Nestor derretia os botões das campainhas dos apartamentos durante a noite. Causava verdadeiros pandemônios com o barulho, sempre tarde da madrugada. Quando tudo era silêncio pelos corredores, ele saía com um isqueiro e derretia pelo menos duas campainhas, de andares diferentes, e partia pelas escadas do prédio como um camundongo errante e desesperado, de volta para sua casa. O barulho das campainhas, junto com os latidos descontrolados dos cachorros que acordavam assustados, e ainda os palavrões gritados pelas vítimas, tudo isso nas mais escuras noites de meio de semana na Cracolândia, formavam um contexto que infelizmente as palavras não podem descrever com a devida riqueza de detealhes. Por mais que se descreva os azulejos dos corredores, o piso, as portas dos apartamentos e elevadores, as manchas de infiltrações na parede, o que necessariamente vai ficar faltando é a descrição exata da maneira com a qual o descanso das mulas que vendem burramente sua força de trabalho é molestado por um pequeno humano boliviano que vive tristemente na Cracolândia. Quando Nestor apronta das suas na madrugada, o clima devastado na vizinhança se estende até a hora que o último de todos os envolvidos na bagunça sai para trabalhar no dia seguinte. Nestor nunca havia feito isso no apartamento dos Dorfman porque ali sempre havia alguém acordado e com a luz acesa quando ele saía para a ação. Nestor brincava sempre solitário. Tinha sérios problemas de autoafirmação. Não frequentava a a escola, e todos os dias era cruelmente achincalhado pelos outros garotos do prédio, por conta de seu analfabetismo em português e em espanhol. Um universo terrivelmente duro e limitado para uma criança, no que se refere à formação do caráter e de um repertório para a vida futura próxima. As pessoas honestas que ele conhecia eram sempre esmagadas por toda aquela engrenagem, passando por privações de todas as espécies, e vivendo submissas a qualquer um que fosse um pouco menos desgraçado. Isso fazia crescer um sua cabeça uma confusão corroziva, criadora de conflitos internos que logo tornaram-se irreversíveis. Desde muito cedo, Nestor convenceu-se de que em sua lápide deveria constar respeitáveis rastros de destruição por onde passasse ao longo de sua vida. Afinal, a vida jogava duro com ele também. Foi jogado nela de uma maneira inconsequente, razão pela qual nunca desenvolveu medo de nada que tivesse visto em sua curta existência. Ele já tinha visto pessoas satisfeitas com a vida, com um nível bem satisfatório de felicidade. Via isso especialmente no jovem casal de seu andar, Vãnia e Franco, pela proximidade de seus apartamentos, e em alguns dos outros garotos de sua idade que viviam ali no mesmo prédio. Nestor ainda não tinha repertório para ordenar suas idéias relativas ao que é felicidade, mas o fato de não ter jamais frequentado a escola o fazia menos vulnerável à necessidade de aceitação por parte das outras crianças. Ele queria ser aceito, havia tentado e não obteve sucesso. Nunca houve para ele, no entanto, uma professora dizendo que era extraordinariamente necessário entreter-se. No período em que ele, por conta própria, tentava fazer parte do grupo de garotos que brincava pelos corredores do prédio, o que o movia era uma lógica instintiva. Não eram os valores sociais. Isso nunca lhe foi ensinado. Pôde ter desde cedo um desprendimento que os garotos que o rejeitavam jamais teriam. Naquele momento, isso era a única arma de que dispunha para acordar todos os dias, assistir um pouco dos canais abertos de televisão e sair a esmo pelas escadas e corredores do prédio, vendo todas as crianças saindo com seus uniformes escolares e lancheiras, em meio ao cheiro de café saindo dos apartamentos pela manhã. Sabia que era um excluído e isso o entristecia, mas acabou aceitando esse fato sem com o tempo, sem precisar ouvir de uma educadora que ele era um derrotado por não ter amigos. Assim ele sentia apenas a solidão por si só, com o tédio e a melancolia que ela pode trazer, mas sem que ela fosse potencializada por um sentimento de fracasso. Nestor não entendia direito o que significava aquele monstruoso comércio de drogas nas ruas que circundavam seu prédio, mas entendia que aquilo era algo relativo à mais baixa bandidagem. Quando andava por ali com sua mãe sentia-se estranho ao constatar que todo aquele exército de nóias parecia ser composto por gente que como ele não se enquadrou em nenhum outro grupo social. Os outros garotos do prédio só o deixavam brincar junto com eles se Nestor aceitasse ser o índio massacrado pelos heróis brancos. Esse pobre indiozinho estava definitivamente fadado a despontar para o mais completo anonimato, crescendo numa área muito marginal e sem quase nada por perto que representasse o belo, o saudável ou o viável. E sentado na escada Vicente viu o garotinho passar por ele sem enxergar ali mais do que um pequeno desafortunado. O fato é que Nestor ainda não tinha sido definitivamente tragado pelo meio em que vivia. Ele ainda tinha alma. Seu contexto de vida ainda não a tinha ceifado. Mas naquele dia, Nestor desceria as escadas do prédio e veria muitas crianças com bicicletas novas e outros brinquedos, o que foi determinante para o endurecimento de seu espírito. Ele tinha a cabeça transbordando de mensagens natalinas da televisão, e ao sair de casa naquela tarde foi direto confrontar essas informações com a vida real. Viu aquele homem de meia idade na escada olhando para ontem e não pensou em nada. Foi algo indiferente. Parecia alguém que também não tinha prazer nem perspectivas, só que era mais velho e tinha uma família considerada padrão. O fato é que Vicente tinha perspectivas, embora não fossem agradáveis. Tudo girava em torno de problemas financeiros. Em tese, uma vez resolvidos os problemas financeiros, a felicidade e o prazer emergiriam novamente no horizonte. Ele poderia comprar o que chamava de felicidade. Havia sido displicente com o dinheiro que teve, mas não era o tipo de pessoa que se podia chamar de extravagante. A razão pela qual perdera dinheiro não foi a diversão em excesso, e sim o descaso com os negócios. Era o momento de absorver esse duro golpe e começar de novo, ou deixar-se levar pela inércia, que a essa altura só o levava ladeira abaixo, por causa de sua idade e pelo respeito que perdeu por parte de sua família. Havia de fato razões para que aquele dia pudesse ser considerado especial e diferente, ainda que triste, para o nosso velho protagonista. O fato de ser véspera de Natal e por ser também o dia em que Vicente teve sua crise de depressão agravada pelas circunstâncias natalinas não foram as principais razões para que o dia merecesse ganhar o status de atípico. A derrocada veio mesmo quando Vicente viu o que por segundos parecia ser o antídoto para sua crise, que agora parecia crônica em todos os setores da vida. Até porque nessas horas a vida pode ser reduzida aos setores finaceiros e familiar, apenas. E eis que imerso em seus devaneios, Vicente ouviu o barulho do elevador parar em seu andar. Quase imediatamente, embora de maneira débil, olhou por cima de seu ombro esquerdo e viu sair a irmã de Franco, que nunca tinha visitado o irmão e sua namorada na Cracolândia. Ela estudava veterinária no interior e voltou para São Paulo naquele dia para encontrá-los. Era uma garota realmente bonita, mas de uma beleza comum, e não tão monumental. Parecia ser uma garota realmente meiga, de um metro e setenta de altura, aproximadamente, cinquenta e cinco quilos, cabelos castanhos escuros lisos na altura dos ombros e um corpo bem delineado, por assim dizer. Uma falsa magra. Bons peitos e a alça preta do sutiã aparecendo. Vestia uma camiseta regata da Siouxie and the Banshees por cima, e isso é algo que foi ficando algo cada vez mais bonito de se ver ao longo dos anos. Para Vicente, o melhor foi só o fato de ela vestir uma calça branca que usava na faculdade de veterinária, e isso sem dúvida também a fazia ficar vistosa. O nome dela era Glória. Foi atendida pelo irmão, alguns segundos depois de tocar a campainha. Postava-se a uma distância realmente pequena de Vicente, pois estava entre ele e a porta de Franco. Este a abriu, e foi aí que Vicente viu-se em situação pouco honrosa para um homem que já tinha gasto tantos cartuchos em sua vida. Ao final dos segundos que Glória gastou para percorrer os poucos metros que separavam a porta do elevador da porta do apartamento de seu irmão, tocar a campainha e ser atendida, Vicente estava sentado na escada do prédio, bêbado, sozinho, triste e boquiaberto com a presença de Glória. A parte feminina da família dos Dorfman sentia-se, nesse exato segundo um pouco mais feliz por ele ter saído, em função do espaço e do sossego terem aumentado em sua ausência. E ali perto disso, no corredor, ele era alguém estranho e não tão agradável se não for respeitada uma distância regulamentar. Franco abriu a porta, e Vicente viu dali toda a pequena sala do apartamento do jovem casal. Dali de dentro, eles o cumprimentaram brevemente com movimentos da cabeça, e logo Glória entrou e Franco fechou a porta. A festinha ficou um pouco mais animada na casa do jovem casal, e Vicente sentiu-se realmente sozinho. Voltou para dentro do seu apartamento, e sem fechar a porta, dirigiu-se à cozinha, onde na geladeira serviu-se de mais uma cerveja. Voltou para o corredor. A cerveja chegou na metade e Nestor Passou correndo de volta para sua casa. A cerveja chegou ao fim e ele para dentro de sua casa, de onde sua esposa Olga o chamava para comer. Entrou, sentou-se à mesa, serviu seu prato com lascas de frango assado e arroz om passas. Olhou agora por cima do ombro direito, viu que já era noite. Voltou-se para seu prato e vomitou cerveja em cima dele. Sua filha Paula gritou: "Seu filho da puta!!!!! Você sempre fode tudo!!!!!" Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qui, 25 de Dezembro de 2008 01:47 |
Comentários (1)
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29/06/2009 - 13:18:20 |Registered| Fernando Barreto
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