
Tudo é retórica?!!!
| AS PERIPÉCIAS DE UM GARI |
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| Literatura Juvenil - Contos |
Escrito por carlosmota |
Ter, 30 de Dezembro de 2008 06:20 |
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Celso é um varredor de rua, seu sonho é ser dono de uma fábrica de vassouras. Conhecido por causa da letra da música de sua autoria: "Varro a rua todo dia, como a velha da minha tia!", ele desfila pelas ruas de uma grande cidade, entoando seu canto, sua marca pessoal. Bem-humorado, apesar de varrer o lixo dos outros, observa tudo que está a seu redor, desde os jornais das bancas até a conversa do povo nos pontos de ônibus...
__ "Varro a rua todo dia, como a velha da minha tia..." Ei pessoal, estou varrendo a rua desta cidade há uns seis anos, sei que aprendi muita coisa nessa profissão, inclusive como sujar o chão, xingar a mãe daquele que insiste cuspir na calçada, enfim, matérias que faculdade nenhuma conseguiria ensinar em tão pouco tempo... Durante o período que estou aqui, vi muita coisa acontecer no Brasil e no mundo: Guerras no Oriente Médio, a clonagem de animais, a destruição das torres do Word Trade Center... Hum!!! "Varro a rua todo dia, como a velha da minha tia!" Sabe, gente, não há melhor emprego do que varrer rua... Somos mais conhecidos que atores de televisão! Por onde passamos, o povo cochicha: "aí vêm os lixeiros!" Que profissão! Não há nada melhor! __E aí, seu Celso? Como vai o estômago?-pergunta seu Pedregulho, aproximando-se. __Cheio! A bóia que a mulher mandou estava uma delícia, não sobrou grão sobre grão... __Pois é! Pois é! -diz o homem, sorrindo. Mas agora tenho que ir. Passe bem e varra bem! __Pode deixar!!!! Enquanto Celso varre a rua, duas moças se aproximam. Distraídas, param ao lado do carrinho dele e continuam a seguinte conversa: __Viu, Luara, o Geraldo é mesmo um belo rapaz! __Ih, acho que você está se apaixonando por ele, Lindalva! __Eu, me apaixonando? De maneira alguma, você está louca. Enquanto conversa, Lindalva retira da bolsa uma bala, abre-a e joga o papel no chão. Todos seus movimentos são acompanhados pelos olhos então indignados do varredor, que revoltado, entra na conversa: __Ô, fia!!! Fia!!! Psiu! __O senhor falou comigo? - pergunta Lindalva, com ar esnobe. __Cê acha, Lindalva, deve ter sido com a tal da "Psiu"! - responde, ironicamente, Luara. __Pois eu falei com a senhora sim! Olhe aqui dona, só porque a senhora é chique, isso não lhe dá o direito de sair sujando o que já limpei; pois olhe o papel que jogou no chão! Isso é coisa de se fazer? Se a senhora estivesse nos Estados Unidos, a essa hora estaria levando uma baita multa. __Não me estresse, tio! __Cê acha que eu seria tio de uma...uma...sujeitinha suja como a senhora? Hum! __Olhe o respeito! - exclama, rindo, Luara. __O senhor pensa que está falando com quem, seu lixeiro atrevido? Pois saiba, sou filha do empresário Sérgio Ribanceira, um dos cidadãos mais influentes desta cidade... __Pois eu sou filho da Maria Cidona! __Vou pedir para meu pai mover seus pauzinhos e exonerá-lo... __Exô...o quê? O que é isso? Por acaso é alguma macumba de fundo de quintal? __Seu insolente! __Gostei do senhor!- Brinca Luara. __De que lado está, Luara?- pergunta, enraivecida, Lindalva. __Sei lá!- Afasta-se, gargalhando. __Pois saiba o senhor, não vou pegar este papel de bala nem que me mate, afinal, o senhor é pago pra quê, se não para limpar? __Sou pago sim, e muito bem pago, mas para limpar a sujeira trazida pelo vento, pelo tempo, não por uma garota mimada, que utiliza o nome do pai para fazer ameaças... __Esse homem não é tão chulo assim, Lindalva! __Chulo? Ele é grosseiro! __Isso sou mesmo, olhe minhas mãos, veja os calos que a vassoura faz, estão até estorricados. __Desagradável! __Deixe de insultos, moça, quero apenas que pegue o papel que jogou no chão. __Nunca! __Pegue o ônibus no próximo ponto! __Como? __Vila de São Nunca fica na zona sul da cidade, vai para lá fazer o quê? __Pegue logo esse papel, Lindalva! O que custa? Cumpra sua obrigação em manter limpa a cidade!- diz, zombando, Luara. __Para que ele recebe salário? __Para ser tratado como um "lixeiro", não percebe?- diz Luara. __Qual o nome da senhora?- pergunta Celso a Luara. __Luara do Amanhã, a seu dispor. __Pois gostei da senhora! __Digo o mesmo! __Tem compromisso para esta noite? __Espero ter, desde que me convide... __O quê? Você terá coragem de sair com esse molambento, cheirando a suor, cujo salário não compra sequer a mais chinfrim das gravatas de meu pai?- pergunta, assustada, Lindalva, ao interromper a conversa. __Era só o que me faltava! Qual o problema dele ser varredor? Para mim é um ser como qualquer outro, justamente por isso, deve ser respeitado. Sabe, Lindalva, seu mal é ser esnobe, metida, mimada, como disse este senhor. __Luara...????- interrompe, espantada, Lindalva. __Mimada sim! E para mostrar a você que a humildade nessa vida é a coisa mais bonita que existe, pegarei o papel do chão e o jogarei no carrinho de lixo. Aprenda com esse gesto que um dia estamos por cima, noutro por baixo. Quem sabe um dia não estará varrendo a rua como o senhor...senhor... __...Celso! Seu criado. __...Celso! Obrigada! __Deus que me livre! Prefiro a morte! E lá se vai a mulher, ensandecida. Vendo-a sumir pelas ruas da selva urbana, Luara volta-se para Celso, dizendo: __Esta nunca aprende! Mudando de assunto, aceita um refrigerante? __Só se for bem rapidinho, estou em serviço! __Não vai demorar um minuto... Para demonstrar carinho pelo rapaz, dá-lhe o braço, e ambos, agarradinhos, caminham em direção ao bar do seu Bigode. Ainda no caminho, Celso pega uma bala do bolso, abre-a e joga o papel no chão. Um outro gari, vendo o acontecido, grita: __Ei, a rua não foi feita para lixo! Lixo se joga no lixo! Ironicamente, Celso responde: __Você é pago para quê, se não para limpar? Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qui, 01 de Janeiro de 2009 12:15 |