Parece que você não efetuou o “login”, ou não é registrado. Cadastre-se, é gratuito. CLIQUE AQUI
 
Café Fraco Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Um Dedo de Prosa
(1 voto, média de 5.00 em 5) "Caso queira votar neste texto, clique de uma a cinco estrelas"

Dom, 04 de Janeiro de 2009 14:44
Acordei cedo demais, tomei o café da manhã cotidiano, procurando nele sentir um gosto um pouco diferente, sabendo que, definitivamente, aquilo não poderia ser mudado. Terminei de abotoar a camisa, vi que restou um botão, não tive paciência de ajeitar. Sentei-me um pouco no alpendre, observando o vento levar as palhas das palmeiras e os arbustos que se banhavam com a chuva - havia muitas árvores ao redor de minha isolada casa, no pé de serra. As plantas estariam mais verdes não fosse pela cerração. Sentia falta de ver cores mais intensas.
Balancei um pouco o bigode, algo incomodava meu nariz, era aquele cheiro da chuva, o mormaço, nunca me fizera bem...
- Ara! Vou ter que entrar pra dentro de casa. Não posso nem ficar um pouco no alpendre.
Peguei o primeiro pedaço de pano que vi e assoei com força. Aquilo tudo me incomodava. Encostei-me à viga de madeira, áspera. Nad ali era bom ao tato. Tudo era muito prosaico, tudo era sufocante. O sol já se enfraquecera, vou-me aprontar pra dormir.

Acordei com o sol em meus olhos. Perdi a hora, demorara a dormir, minha espirradeira me acompanhara a noite quase toda.
- Anos que não perco o cantar do galo. - Disse inconformado. Às vezes era bom ouvir ao menos minha voz.
Fiz o café, tomei-o para enfim perceber que não buscara sentir gosto nenhum, dessa vez, ou já começava a gostar do meu café... ou já esquecera o café de minha mulher.
Armei a rede no alpendre. Balancei o sino. Talvez Cândida me ouvisse de algum lugar, e viesse com seu cafezinho tão bom e amoroso pra mim... Desde que o Cabrito se sumiu, estive só. Aquele cachorro era tudo o que restara pra mim. Se foi.

- Ahhh! - ouviu. Levantou-se num sobressalto - Que diaxo é isso, ara! - Esperou coração desacelerar. A chuva já passara, ele via atentamente o verde das árvores. Ouviu dois latidos.
- Ahhh!
- Quem tá ai! Se apresente logo! Ou melhor, vá simbora!
- Estou presa! - Uma voz feminina bradou, um pouco rouca. Já esquecera o que era ouvir a voz de uma mulher. Não pensava mais em nada, não conseguia juntar dois dedos de pensamento, aquilo lhe era muito novo. Acostumara-se a ouvir chiados, barulhos da chuva e seus espirros, apenas.
- Oi! Estou presa aqui! Oi!
Debruçou-se para fora da rede, esforçadamente. Pisou firme na madeira, que ruíu. Apressou o passo após cachingar um pouco, buscando se equilibrar um pouco, restos do ócio prolongado. Foi observando o verdejante ambiente, agrandando-se do cheiro do orvalho, apreciando o canto dos pássaros. Encontrou uma senhora já de sobrancelhas brancas, vestida de vermelho.
- Nestor?!
- Rosa! Faz o que aqui?
- Vim trazer-lhe o Cabrito de volta. Desde que o Adorico morreu, meu marido, lembra dele? - perguntou sem sobrar tempo pra resposta - seu cachorro tem-me feito companhia. Ele me trouxe até aqui, quando tínhamos saído para colher uns tanto de fruta, mas ele bastou ouvir um sino que saiu desembestado, e, no susto, caí e fiquei presa a esses galhos.
- Mais é claro que me alembro do Adorico, ara! Mas que pena, morreu como?
- Talvez se me tirasse daqui, a gente poderia ter alguma prosa melhor, o que acha?
- Claro, claro, aqui, ara... - Nestor se esforçava pra ajudar a companheira dos tempos de escola. Quebrou alguns galhos, inclinou-se envoldendo seus braços nela e levantou-a cuidadosamente. Sentiu sua mão, suave como sempre. Naquele dia ele percebia que todos os seus sentidos estavam tão vivos quanto ele. O cabrito se movia ao longe , em direção a eles, com uma animação que não dava pra se medir.
- Posso te pedir só uma coisa, ô Rosa?
- Depois dessa preciosa ajuda, peça, claro!
- Faz um cafezinho pra mim, faz...



Crie um banner deste artigo em outros sites


Para criar um banner deste artigo em outro site,
copie e cole o texto abaixo em sua página.




Visualizar :

Café Fraco
Dom, 04 de Janeiro de 2009

© 2010 - Autores.com.br


Última atualização em Seg, 05 de Janeiro de 2009 04:29
 
Comentários (2)
  • Aureo_Lima
    avatar
    Adorei esse conto! Gosto de histórias simples, com gente simples. Um belo conto "interiorano" sobre - quem sabe - um recomeço! Parabéns! :) :grin 8)
  • Aureo_Lima
    avatar
    Adorei esse conto! Gosto de histórias simples, com gente simples. Um belo conto "interiorano" sobre - quem sabe - um recomeço! Parabéns! :) :grin 8)
Somente usuários registrados podem comentar!