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Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Fernando Barreto
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Qua, 14 de Janeiro de 2009 06:44
"Eu sou da velha escola
Então vai, minha filha
Tire a roupa
Enquanto eu coloco o disco na vitrola"
André da Rocha


A cabeça de André, o escritor iniciante, começou a fritar por dentro quando ele entrou na idade adulta. Queria de qualquer maneira ser reconhecido como um homem que unia um intelecto privilegiado a um estilo de vida selvagem. Era na verdade um sujeito mediano que conhecia bem suas limitações, mas acreditava que unindo uma vida intelectual razoavelmente ativa, organizada e saudável, a um cotidiano de viagens e experiências prazerosas, tornaria-se com mais facilidade uma pessoa mais vitoriosa, levando em conta o amplo e até certo ponto vago conceito que esse termo carrega. Tinha um metro e setenta e cinco de altura, era cabeludo, magro e um pouco desajeitado, mas era parecido com Ronnie Van Zant, o eterno líder do Lynyrd Skynyrd. Quando alguma garota fazia esse comentário, seu ego inflava.

Ele queria ser um pouco como os velhos escritores andarilhos da primeira metade do século passado. Queria ser um homem das letras e um homem de ação. Queria ser, e queria começar a ser logo. Era um desafio, porque ele não aguentava passar muito tempo parado escrevendo, assim como também não aguentava viagens muito longas. Não estava acostumado a viajar. Nunca tivera estímulo algum por parte de seus pais, que raramente o levavam para fora de Brasília, sua cidade natal. Começou a não gostar de Brasília por causa das informações a que tinha acesso pela internet, e por gostado de escritores de aventura desde a infância. Júlio Verne era ídolo de André. Já era tempo de dar uma guinada na vida. Tinha que tentar equilibrar esses dois lados antagônicos, o racional e o animalesco. Ele aceitava com naturalidade sua condição de indivíduo médio. Qualquer possível lampejo de genialidade já teria aparecido antes, se fosse o caso. A literatura brasileira estava uma vergonha e ele faria algo para tentar mudar isso. Estávamos no ano de 2003 e André tinha 25 anos.

Nessa época, a idéia de viajar tornou-se quase obsessiva. Sentia que tinha perdido em vão uma parte muito grande sua vida parado. Sua formatura no curso de Ciências Sociais o estimulou a viajar também. Passou a ter mais tempo livre quando terminou a faculdade e resolveu partir de vez para sua missão. Realizou umas andanças pelo sul e sudeste do Brasil, e por fim, parou em São Paulo quando sua saúde começou a sucumbir devido às más condições em que estivera viajando naquele período. A escassez de comida na maior parte da viagem, às poucas horas de sono, em camas de todo nível de conforto e desconforto possíveis eram os fatores responsáveis por essas más condições. Havia os bons vinhos do Sul do país, além dos vinhos argentinos e uruguaios a que teve acesso na região sul, por bons preços, e os consumia como se fossem parar de ser fabricados. Quando chegou a São Paulo, estava disposto a dar uma pausa na breve vida de andarilho para se dedicar mais à literatura. Antes de sair de Brasília, André não tinha planos de se instalar em São Paulo. Sempre lhe pareceu que uma cidade tão grande fosse um lugar ruim para um escritor trabalhar.

Não havia para ele o deslumbramento de sonhar com longuíssimas e perigosas viagens como as que os aventureiros dos bons tempos da literatura faziam pelo mundo. Gostava de ler sobre isso em sua cama, mas tudo aquilo foi escrito em outros tempos, num mundo diferente, por pessoas cuja linhagem já não existia mais. Em seu tempo, André sabia que não podia contar também com o tipo de companheirismo característico do velho código, nem com um mundo propício para o tipo de vida que levavam os vagabundos profissionais que existiam nas décadas anteriores. Tudo isso era definitivamente coisa do passado. Agora o mundo era estúpido, claustrofóbico e superpovoado. Era duro ter que admitir finalmente que o cinema e a literatura não são exatamente como a vida. Ele teria que ser Dean Moriarty e Sal Paradise ao mesmo tempo, enquanto durasse sua estrada.

Mas ele buscava, sim, a aventura. Muito mais por seu sabor do que apenas pela inspiração que ela poderia render para seus escritos. Sabia que ao longo da viagem que começava a planejar, escreveria efetivamente apenas nos momentos de tédio, solidão, ou fome. Nessas horas a brisa da noite soprando quando tudo à sua volta fosse breu nada significaria. Não seria nem um pouco poético. As folhas caindo das árvores também não. As borboletas estariam nos poemas das escritoras de sua geração, mas não estariam passando por seu caminho. E se passassem por ali, ele as mataria. Seria então preciso arrancar da desolação solitária motivos e matérias primas para se fazer literatura.

André sabia que o momento da organização de suas idéias no papel não seria propriamente prazeroso. É um trabalho onde joga-se sempre na incerteza, pois dificilmente rende algum dinheiro ou prestígio, ao mesmo tempo em que a luta para que as pessoas leiam as histórias é tão dura quanto a busca pela perfeição quando se está trabalhando numa delas. De qualquer forma, ele usaria esse tempo escrevendo para que a espera pela volta da diversão ou da alegria durante a viagem parecesse mais curta. Então a estrada chegaria ao fim e seria trocada por repouso e isolamento. Daria-se início então ao processo de criação propriamente dito. Os textos brutos seriam devidamente talhados, de acordo com o que André considerava ser a prosa moderna. Uma escrita clara e direta, mas nunca semelhante à linguagem burra e pobre dos escritores de sua geração.

Já havia alguns anos que nosso protagonista pensava muito no quanto uma pessoa inteligente poderia usar a internet a seu favor, nos diferentes setores de sua vida. Apenas um número pequeno de pessoas faziam isso realmente. Era uma ferramenta fantástica que já estava à disposição da humanidade havia algum tempo. Um conceito futurista completamente diferente do que imaginavam as crianças e adolescentes dos anos 80. E eis que quando André concluiu seu curso de Ciências Sociais, tendo como trabalho final e conclusivo um grande tratado sobre a internet e a sociedade, desde o momento em que ela se tornou familiar aos cidadãos médios do mundo inteiro até o dia da entrega do trabalho, pôs-se a explorar essa fonte. Já não havia novidade na internet como ferramenta, é claro. Muito já havia se falado sobre o tema. Mas havia a sensação de que ela havia sido mal explorada desde o início pela maioria de seus usuários ao redor do mundo. Era usada muitas vezes como um meio de comunicação estéril, ou mesmo como um brinquedo. André esperava ansioso pelo dia em que a internet se tornasse de fato um nivelador de condições e uma arma para a derrubada de toda espécie de barreira.

O planejamento da viagem foi feito de maneira rápida, da forma mais simples possível. Andrezinho encheria sua nova mochila de andarilho com aquilo que julgasse realmente essencial, iria de avião de Brasília até Porto Alegre, e de lá partiria de ônibus até uma cidade chamada André da Rocha , ainda no estado do Rio Grande do Sul. A escolha da cidade se deu em parte pelo fato de André da Rocha ser também o nome completo do nosso protagonista, que conseguiu estabelecer contato com uma garota daquele município por meio de um chat convencional, depois de ler o nome da cidade num mapa do Rio Grande do Sul e ficando curioso. Tornou-se amigo da garota gaúcha e foi ao seu encontro para comemorar a graduação, começar sua empreitada de escritor aventureiro e voltar um dia carregado de relatos sobre o que quer que viesse a passar durante a viagem.

Havia mais uma razão para André começar por ali sua viagem. Depois que descesse do avião em Porto Alegre, teria apenas o dinheiro para a alimentação e para o que planejara gastar em seu deslocamento por terra, de ônibus, por caminhos que a princípio o levariam de volta a Brasília. Teria então gasto uma parte significativa de seu dinheiro na passagem de avião até Porto Alegre. Sabia que se sentiria fortemente tentado a partir de então a não desistir tão facilmente do percurso planejado para a viagem, até pelo fato de que se desistisse de tudo ainda no Rio Grande do Sul, teria que fazer todo o caminho de volta a Brasília de ônibus, e assim cumpriria de uma maneira ou de outra sua rota. Pensava em fazer posteriormente uma viagem maior, dessa vez por países da América do Sul, depois de estudar espanhol e poder divulgar sua literatura por esses países, com as traduções de seus trabalhos.

André ficou nove dias na casa de Cecília, a garota do interior do Rio Grande do Sul. Havia conversado por meses com ela via internet e telefone, em interurbanos de madrugada. Ela parecia uma bonequinha européia. Tinha 1,77 de altura, e seus longos cabelos castanho claros eram muito cheirosos. Claro que André já tinha visto sua foto, mas não criou tantas expectativas. Havia o risco dela ser feia de perto. Ele se surpreendeu positivamente ao vê-la pessoalmente, por sua graciosidade. Mas ela já não tinha mais alma. Tinha 19 anos e havia rendido-se à mentalidade completamente provinciana de sua comunidade. André não via meios e nem razões para tentar mudar isso. Ela havia tido sua alma ceifada e isso era irremediável. A estreiteza da moldura da compreensão da garota não a deixava emergir para um tipo de vida menos limitado. Sem alma as pessoas não conseguem sentir nem ao menos alguma infelicidade, algo que momentaneamente poderia lhes ser útil, para que se rebelassem contra a violência a qual eram submetidas. Em todos os lugares por onde havia passado até aquele momento, e mesmo não sendo tantos assim, André via claramente que as pessoas morriam de medo de não seguir tradições familiares e regionais. Via seguidamente por onde passava vários agregados de indivíduos que viviam a repetir cega e insistentemente os erros de seus ancestrais, doando suas vidas para o nada.

Cecília era filha única e vivia com os pais numa casa espaçosa, onde André se instalou com a promessa feita aos pais da garota de que arrumaria um emprego na cidade nos próximos dias, e acharia então outro lugar para morar. Saía cedo a andar pelo município, supostamente para procurar trabalho, via garotas bonitas, vadiava, bebia vinho, voltava à tarde com os bagos pesando uma tonelada e despejava todo o sêmen no cabelo castanho claro, liso e comprido de Cecília. Todas as patifarias imagináveis em circinstâncias como estas tiveram tempo e lugar nesses nove dias, como as já previsíveis fugas da garota de seu quarto durante a noite para fazer sexo com André sem que seus pais percebessem.

Ali havia para André o bom sexo, uma boa comida, uma boa cama, uma boa família, e embora isso às vezes possa parecer o suficiente, André não pôde aguentar por muito tempo. Partiu no meio de uma noite para a rodoviária, para na manhã seguinte seguir em direção a Santa Catarina, para depois tomar o caminho para o Sudeste, e dali rumar de volta a Brasília. Ele queria poder quebrar os vínculos que criava com as pessoas mas nunca soube fazê-lo. Ele não sentiria saudades de Cecília. Era bonita, cabelos longos, castanhos e lisos, alta, bons peitos, belamente proporcional. Mas ele tinha trocado em muito pouco tempo o calor africano que detestava em Brasília para transar escondido, de meia e camiseta no sul, e isso poderia ser bom só por algum tempo. Precisava sair.

Atravessou Santa Catarina e Paraná sem parar por mais que algumas horas para dormir ao longo do trajeto. Comprava passagens que em média o levavam de 300 em 300 quilômetros rumo a São Paulo. Dormia nas cidades onde parava nesses intervalos e seguia seu caminho no dia seguinte. Chegou a São Paulo, que conhecia só por mapas e fotos da internet, e recebeu um dinheiro que seus pais mandaram de Brasília. Instalou-se num pensionato com bom preço e boa comida, e ficou na cidade mais tempo do que havia planejado inicialmente. Queria conhecer um pouco da cidade andando sozinho por ela, tomando inicialmente como pontos de referência as avenidas e prédios grandes do Centro.

Chegou até ali viajando sempre de ônibus, depois que desceu do avião em Porto Alegre. Achou melhor não tentar pegar caronas ao longo do caminho. Já não existiam mais maneiras viáveis de conseguí-las. André não tinha como ideal nessa empreitada viver da boa vontade ou da simpatia das pessoas, e orgulhoso que era, sentiria-se rebaixado se precisasse recorrer às tais caronas, ainda que essas fossem muitas vezes a essência do espírito de aventura de seus heróis literários. Esses heróis não existiam mais em seu tempo. André vivia atormentado com a idéia de que alguém que vivesse como seus heróis inevitavelmente morreria cedo demais, ou mudaria de estilo de vida antes que isso acontecesse.

André precisava agora estar em movimento, e queria poder usufruir de tudo o que as pessoas em seu caminho pudessem oferecer, sem que precisasse estabelecer vínculos com elas. Seria fácil se pudesse pegar caronas com pessoas mudas e que lhe dessem baseados para aproveitar melhor as viagens. Caronas dadas por garotas suburbanas bonitas, mas comuns, carinhosas, altas e compreensivas. Ele sabia portanto o que queria. E sabia que o que queria era algo que só poderia existir mesmo em seus devaneios, ou com uma sorte tão grande, que se por acaso surgisse, o faria esquecer seu passado sem maiores cerimônias e nasceria de novo. Sendo assim, André sempre concluía que o melhor a fazer é não usufruir sempre do que as pessoas oferecerem, pois julgava que o preço do benefício seria quase sempre alto demais.

Às vezes lhe passava pela cabeça que a trama nefasta do sistema bancário mundial é um desdobramento muito natural dos mais simples tipos de relação humana. Ele poderia fazer durante sua viagem um estudo mais prático sobre essas relações humanas, com análises mais livres do que as estudadas no obtuso meio acadêmico com o qual esteve envolvido nos quatro anos anteriores.

Era até certo ponto surpreendente o fato de André ser realmente um bom escritor. Escrevia bons contos, que mesmo com temas populares, eram substanciosos. As histórias chegavam ao fim com as situações abordadas sendo deixadas em aberto, enfatizando o fato de que em nossas vidas, a bonanza e a desgraça são antagônicas, mas ao mesmo tempo são partes de um todo. André não gostava de poesia, mas só pra tirar onda, aceitou participar de uma coletânea de poemas bancadas por jovens poetas de Brasília. Enviou algumas poesias escritas em questão de segundos para um concurso de internet. Os vencedores eram premiados com a publicação de seu poema na tal coletânea. Antes da divulgação do resultado, André via os demais participantes como pangarés arrastando-se na disputa do páreo. Mas humano que era, e consequentemente passível de erro, sentiu-se secretamente orgulhoso por esse feito literário e até arrumou na época uma namoradinha perdedora do concurso, que escrevia sobre as borboletas que só ela via, voando em paisagens por onde só ela andava. Tarado que era, André deixou um rastro de destruição na vida da pequena escritora. Bêbado, a humilhava na frente de quem estivesse por perto. Estorquia o dinheiro da garota, alegando que se suicidaria em caso de recusas.

André tinha grandes trechos esboçados para um romance, que planejava concluir quando julgasse que estivesse experiente o bastante com a frequente composição de contos e outros textos curtos. Felizmente não escrevia sobre andanças entre travestis da Avenida Amaral Gurgel e estadias em pequenos quartos de hotéis baratos naquela região. Sabia que esses temas só eram viáveis nos livros daqueles escritores que foram os primeiros a tratar desse tipo de assunto, e que o fizeram com qualidade e originalidade. Esses caras não glamourizavam suas duras realidades. Elas eram vividas de verdade, e foram cristalizadas em forma de literatura marginal de maneira primitiva e despretensiosa, quando esse gênero não estava em pauta. Mesmo assim, os jovens escritores começaram a escrever sobre isso de maneira gratuita porque liam nos livros. Eles consideravam as verdades sobre suas vidas muito mais vergonhosas e dolorosas do que o alcoolismo e a falta de alicerce de seus ídolos literários, e ao invés de transformarem essas verdades em algum tipo de arte original, preferem escrever sobre o que nunca viveram. Recusam-se terminantemente a compreender que as VERDADES duras e tristes é que tem que servir de matéria prima para criações artísticas. Os caras vão falar eternemente sobre a vida em bares e quartos baratos de hotéis ordinários, e as garotas vão falar de borboletas, de flores e de abelhas e passarinhos.

O que interessava para André naquele momento era rumar para tendências literárias menos exploradas. Será que isso seria possível? Era como perguntar-se se ainda era possível criar inovações reais para a música, onde parecia que tudo já havia sido criado, tentado ou explorado. Sempre pensava nos Stones Roses como uma banda que tinha décadas de rock anteriores a ela para recorrer. Fizeram disso uma vantagem. Aquele maravilhoso álbum de estréia em 1989 foi realmente um marco, um divisor entre o que tinha sido o rock nos anos 80 e adiantando muito do que viria a ser o dos anos 90. André achava necessário tomar como referência esse nível de qualidade para poder realizar seu trabalho com honestidade.

Parecia então não haver mais escritores que pudessem ser chamados de talentosos naquele período. Antes da internet encorajar a nova geração de escritores brasileiros que com ela emergiu, a literatura em nosso país parecia adormecida. No entanto, apesar dela parecer ter ressurgido com alguma motivação no que diz respeito a quantidade de novos escritores, em termos de qualidade ela só piora. As narrativas são ruins, os temas relativos à marginalidade são de mentira. É o lado reverso da moeda. A internet faz aparecer diariamente um monte de escritores, nivelando as condições de divulgação para todos, ao mesmo tempo em que a qualidade da maioria mostra-se extremamente baixa. Ela segura as pessoas na frente do monitor e elas ali vegetam tentando exercitar seus intelectos estéreis. Assim, todo tipo de porcaria é produzida e publicada; desde pretensos textos sujos e marginais, escritos por quem nunca será marginal, até aquelas poesias com mensagens cristãs asquerosas, escritas por gente que nem sabe porque ainda respira, pregando a esperança no ressugimento da humanidade, que afunda nas trevas cada dia mais. Para André, o escritor iniciante, era preciso fazer com que sua vida fosse um bom motivo para se fazer literatura. E era preciso fazer com que sua produção literária fizesse jus à história de sua vida. Era preciso então começar a viver.

Em meio a essas circunstâncias, André foi desenvolvendo planos para que pudesse trilhar adequadamente por entre aquilo que a internet tinha para lhe oferecer de melhor (como uma condição razoável de divulgação em meio a alguns círculos ditos literários, nas mesmas condições que outros escritores inicinates), e a vida real e não virtual (que para ele era a razão pela qual a arte e a vida virtual existiam). Seria preciso habilidade para andar por esse caminho. Embora não acreditasse de verdade na rivalidade entre autores, André sentia que era possível conseguir, a médio prazo e com alguma sorte, viver das letras. As chances de fama e fortuna eram absurdamente baixas, mas o fato de os autores de sua geração serem em sua maioria de baixa qualidade o animava. Esse era o único fator realmente encorajador para o plano de fazer vingar seu próprio tipo de ideologia individualista. Esse ponto favorável ainda parecia insulficiente, mas era melhor que nada.

Viver das letras era uma idéia que lhe agradava demais, não por vaidade, mas por ser um ofício que lhe exigiria condições de trabalho que ele sempre considerou ideais para a qualidade de vida de um modo geral, não apenas para trabalhar. Ele não gostava de trabalhar. Não gostava realmente de escrever. O que sentia era algum prazer quando algum de seus textos ficava pronto. O processo de criação, no entanto, era um trabalho que lhe cansava. Era um trabalho como os outros. No fim das contas, podia até ser considerado um ofício menos penoso do que aqueles aos quais seus amigos se submetiam. Poderia ajustar os outros setores de sua vida nos mesmos moldes usados para o trabalho. Seria fundamental que houvesse isolamento e estudo, elementos que André colocava no topo da lista dos ítens da qualidade de vida elevada. Seria preciso criar condições de se manter indisponível, tendo controle pleno sobre sua concentração e privacidade. A vida teria que vir antes da arte e o homem antes do escritor. André toleraria que lhe achassem apenas as pessoas cujo contato não o incomodasse. Não poderia ter seu trabalho molestado por interrupções grotescas e inesperadas.

Ser escritor seria então como uma licença para viver a vida reservada e cultural ao qual ele aspirava, alternando essa introspecção com alguns momentos controladamente turbulentos, o que de uma maneira ou de outra também o ajudaria a valorizar o sossego, e que também poderia inspirar-lhe no trabalho de escritor. Era um ciclo, sobre o qual seria preciso manter algum controle. A internet o deixaria conectado com toda a bagunça da sociedade, sem que ele precisasse estar bem no meio daquilo. Ele poderia conseguir tudo isso, e mesmo assim poderia entrar em parafuso. Se passasse a viver numa boa casa no interior, com carro, e distante 100 quilômetros de alguma cidade média ou grande, poderia condicionar-se a uma vida tranquila, mas quando ela fosse interrompida por alguma intervenção humama fora de seu controle e de sua vontade...Isso provocaria nele um desespero emocional bem maior ao que está acostumado no centro de uma cidade grande.

O ciclo de André foi curto. Ele conheceu Sara, uma estudante de Letras que saiu de Ribeirão Preto fazer faculdade em São Paulo. Ela vivia do dinheiro que seus pais lhe mandavam. Alugou um apartamento na Cracolândia, mais barato do que o apartamento da Pompéia que anunciou aos pais como sua nova residência. Eles mandavam o dinheiro para pagar o apartamento da Pompéia. Assim ela tinha algum dinheiro a mais, não precisando arrumar um emprego imediatamente. O ciclo de André foi curto depois que conheceu Sara porque ele adorou a Cracolândia. Ele ficava entediado e vagava à noite pelo Centro. Ele achava aquilo feio, mas era preciso estudar aquele meio. Um ciclo que terminou com seu vício em crack, quando chegou a fumar até 20 pedras por dia. Sara fumava apenas maconha e tomava um pouco de bebida alcoólica. Nunca fumou pedra e nunca induziu André a fumar. André viu a Cracolândia que os governantes dizem que não existe mais, e o choque de incredulidade diante daquela bagunça foi demais para ele. Mergulhou de cabeça no vício. Causou uma série de traumas na garota, que trancou a matrícula na faculdade e voltou para o interior. Ele a espancava e trocou na boca tudo o que havia no apartamento.

Tudo é relativo. Até pouco tempo antes disso tudo acontecer, quando ainda estava em Brasília, André da Rocha sabia que se não fizesse nada para sair do anonimato, nele permaneceria. Ele não tentou propriamente a fama. O anonimato não era algo desesperador. Muitas vezes tinha a consciência de que o anonimato poderia ser glorioso. Mas era preciso se mexer, e ele saiu do anonimato para descer para a indigência. Tudo é relativo... Depois que perdeu os valores e o controle da situação, ele pôde olhar seus sonhos de cima, no Centro de São Paulo. Ele ficava jogado na calçada, noiado, moribundo, enquanto seus sonhos ficavam mais abaixo, num estado ainda mais repugnante e desolador, boiando nas valas da Cracolândia. Ele nunca concluiu o romance que tinha começado a escrever. André da Rocha....Depois que virou nóia teve que aguentar piadas dos próprios nóias por causa de seu sobrenome.



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Qua, 14 de Janeiro de 2009

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Última atualização em Qua, 14 de Janeiro de 2009 12:41
 
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