
REALMENTE É UMA HISTÓRIA PARA SE TORNAR HISTÓRIA.
MAS É COISA DE GAROTO.
GOSTEI DO TEXTO. 
| O jogo de dados |
|
| Crônicas - Crônicas |
Escrito por Gilberto |
Dom, 25 de Janeiro de 2009 03:22 |
|
Quando eu era menino por fora, que por dentro ainda o sou, a gente brincava de esconder, e, quando era o pegador, tinha de contar até 31 de janeiro quem escondeu escondeu quem não escondeu lá vou eu. Quem era pego virava o pegador. Como sempre acontece com os iniciantes, os calouros e os menores, eu era sempre o primeiro a ser pegador, que sempre também era o de menor idade da turma, sei lá porque, talvez os métodos anticegonhais já funcionavam naqueles tempos, eu escondia a cara no muro e contava: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, nove, dez, treze, onze, oito, nove, dez, vinte, vinte e um, vinte e dez, vinte e trinta, trinta e um de janeiro, quem escondeu escondeu quem não escondeu lá vou eu! Lá que eu ficava tiririca da silva quando pegavam no meu pé dizendo que eu não sabia contar. Não sei motivos porque os sapatos encolhiam e a gente danava a conseguir fazer as contas, acontecia com todo mundo, todo mundo ia aprendendo a contar enquanto cresciam calos nos pés, menos eu. Só que não dava o braço a torcer, não, a gente tem de se impor, senão vira pardal amigo de joão de barro, este o mestre de obras, aquele ajudante de pedreiro. Aí, belo dia, os adultos estavam jogando um jogo que nem me lembro qual e não queriam criança por perto, menos eu, que já era tido como meio idiota, sabia fazer contas de dividir só de números inteiros e confundia decimais com desce mais; vivia de decorar a taboada para conseguir notas na escola... Não que eu tivesse dificuldades, mas é que a professora só me deixava entrar na sala se eu soubesse recitar a taboada de um número que a cabeça dela tirasse do saco fechado, por outro que ela obtinha com o mesmo método. Mas os homens estavam jogando alguma coisa que não sei, mas era a dinheiro e tinham de jogar dados. Como eu era meio idiota fui nomeado espião por todos os outros que queriam aprender aquela forma de ganhar dinheiro fácil, ou de perder fácil, no que ninguém acreditava. Eu tinha de ficar ali bezuntando, como quem não quer nada e anotando os números que saiam dos dados assim que parassem no feltro que cobria a mesa. Sempre fui muito observador, desde bebê, mas para consumo próprio... Sabia quando a teta de minha mãe que estava escondida era melhor que a que ela me dava, sabia quando eu podia morder o bico do peito dela e quando o devia recusar... Sabia só de fazer anotações mentais, mas que eram para meu uso próprio. Agora eu devia anotar os números e dar uma dica do motivo porque o resultado fora dar ou tirar pontos a este e não àquele dentre os jogadores. E ninguém podia perceber que eu estava anotando os resultados dos dados. Sempre fui muito inteligente, quer dizer, só para mim, né, e inventava as soluções necessárias a cada situação de dificuldades que enfrentasse. Assim, anotar sem ser percebido isto é só para quem tem memória de papagaio, meus devaneios nunca permitiram decoreba em minha mente, que parecia cabrito pulando e pulando no meio do mato das coisas existentes. Assim, resolví fundir as duas obrigações de anotar, o numero e o motivo, em uma só. Os adultos jogavam os dados, esperavam eles rolarem no tapede de feltro e depois discutiam os números, somavam ou multiplicavam, sei lá, mas o que importava era sempre o conjunto e não um dado isolado. Eu teria de fazer contas – eu que sempre fizera de conta saber ― e anotar o resultado a cada vez, sem que vissem, durante o tempo em que discutiam. Então, passei a noite espionando o jogo deles e anotando na folha com números que a turma havia me dado antecipadamente. Jogavam os dados e o tempo em que discutiam não permitia muitas anotações feitas por quem ainda está bordando a caligrafia, então tive de inventar e anotar o que fosse possível. Lá pelas tantas, um dos adultos pegou um monte de dinheiro e pôs no bolso, todo sorridente. Guardei minhas anotações com cuidado, pois o resultado de minha tarefa me faria subir de posto na turma, passaria de bocó a bobo, subiria um grau e era o que eu mais almejava. No dia seguinte, quando me reuni com a turma de crianças em torno do poste. Não, não era para fazer xixi não, que ninguém era cachorro, era que, naquele tempo, os postes eram no meio da rua, tão poucos carros havia na cidade, e a garotada se reunia em torno de um poste que faria de vez de muro para o pegador fazer a sua contagem até 31 de janeiro. Aí me pediram minhas anotações e lhes entreguei o papel com os seguintes rabiscos:
1 – onze; 2 – nove, diminuiu; 3 – aumentou; 4 – diminuiu; 5 – diminuiu; 6 – aumentou; 7 – diminuiu; 8 – diminuiu; 9 – aumentou; 10 – aumentou. 11 ― aumentou. 12 ― diminuiu. 13... ...98 ― aumentou. 99 ― diminuiu. 100 ― diminuiu. Ganhador: o pai do Luiz. Fui chamado de burro, idiota, ignorante, quadrúpede, cê num sabe nada e que eu nunca saíria da situação de bocoió. E isto significava que eu descia de posto! P.S.: qualquer semelhança com o noticiário a respeito das mortes nas estradas depois da lei seca é mera coincidência. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Seg, 26 de Janeiro de 2009 12:21 |