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Enviado por: MTM7
MTM7

O Menino e o Medo

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João tinha apenas cinco anos e já era um menino muito famoso. Não, não era um mágico e muito menos um ator. João era conhecido por todos porque tinha medo de tudo, das pessoas fantasiadas em festinhas, de insetos, de bichos, da água e de tudo que não conhecia.
Logo que começou a ir à escola, tinha muitos amiguinhos com quem brincar porque era divertido e legal, mas com o tempo, não era mais chamado a participar das brincadeiras. Isso porque não ia à piscina por causa do medo da água, não ia às festinhas por causa dos personagens, às casas dos amiguinhos que tinham bichos de estimação e nem ao jardim por causa dos insetos. As outras crianças, após algum tempo, começaram a debochar do pobre João ameaçando-o com insetos e dando gargalhadas quando ele fugia.
Você deve estar se perguntando por que João passou a ter medo de tudo.
Bem, todos nós temos medo, até os adultos, mesmo que sejam fortes, grandes e poderosos, mas aprendemos a controlar esse medo e a não deixar que ele tome conta de nós.
Quando bebê, o medo de João era como o de todos nós, tinha o tamanho de uma formiga. Ele, entretanto, não conseguia dominar seu medo e foi sua coragem que acabou ficando do tamanho de uma formiga.
João se entristecia com a ausência de amigos para brincar, com a maneira que debochavam dele e com o medo que o dominava. Na noite anterior ao seu aniversário de cinco anos, fez um pedido à estrela mais brilhante que viu no céu para que seu medo desaparecesse e adormeceu de tanto chorar.
Mas, amiguinhos, no dia seguinte algo incrível e inesperado aconteceu. Ao bocejar quando acordou pela manhã, um enorme urso pardo americano saiu de dentro da boca de João. Era o seu medo em forma de urso. O coitadinho do João ficou tão apavorado que não conseguia se mexer e muito menos chamar seus pais. O urso ficou de pé e parecia que o ataque seria inevitável, levantou a pata direita e...fez uma continência. Continência?! Isso mesmo, aquele cumprimento que fazem os soldados quando levam a mão direita até a testa.

- Soldado! Faça a continência a seu superior! - falou alto e claro para João.
- Continência?
- Sim, continência, faça como eu - e repetiu o movimento com a pata.
João obedeceu, pois era certo que se tratava de uma autoridade.
- Excellent, soldado. Agora vamos ao teste.
- Que teste?
- Que teste senhor, soldado! - gritou autoritário.
- Que teste, senhor?
- C'mon. O teste do medo. Ou seja, o MEU teste. Sua missão é provar sua coragem segurando um tatu bola na mão.
- Nem pensar - falou espontaneamente e depois acrescentou - senhor.
- Ora, vejam só. Não era você o garoto que ontem à noite pediu para não ter mais medo?
João concordou com a cabeça, envergonhado.
- Good - e com voz firme chamou: MAJOR DENTINHO!
Boquiaberto, João viu um castor em uniforme militar aparecer pela janela.
- Sim, senhor coronel! - disse o castor fazendo continência.
- Providencie imediatamente um tatu bola.
- Imediatamente, senhor! - e saiu apressado pela janela. Voltou logo em seguida com uma bolinha que João pensou ser uma semente de mamão.
- Aqui está, senhor! - disse para o coronel - e cochichou para João:
- Não se esqueça soldado, é só um inseto assustado que não lhe fará mal.

O coronel, com as patas atrás das costas, aguardava impaciente que João pegasse o tatu bola. Não havia outro jeito, teria que fazer o que lhe ordenavam, pois tinha mais medo do coronel do que da semente de mamão. Fechou os olhos bem apertados e tentando controlar seu pânico estendeu as mãos para pegar o tatu bola. Depois abriu os olhos devagar e curioso viu apenas um pontinho preto. Até que não tinha sido tão difícil. O tatu bola antes amedrontado, começando a se sentir seguro, foi se desenrolando e começou a andar nas mãos de João fazendo cócegas que o fizeram rir. Sentia-se orgulhoso e triunfante. Quando ia mostrar ao coronel o seu feito, um furacão invadiu o quarto. João se curvou e protegeu os olhos encolhendo a cabeça entre as pernas. Quando a ventania cessou, abriu os olhos e um canguru australiano estava bem à sua frente.
O bicho estava concentrado em pedaço grande de carne, mastigando-o ruidosamente. CHOMP, CHOMP. Parava às vezes para tirar com a língua, um pedaço de carne preso entre os dentes. TCHAK, TCHAK. Só depois de um bom tempo é que pareceu notar onde estava. Surpreso e com um sorriso largo na boca disse:

- Ei, camarada! Desculpe a falta de educação - disse o canguru com uma gargalhada sonora, oferecendo um pedaço de carne todo babado.
João recusou educadamente para não ofender o animal e perguntou:
- Onde está o coronel?
- Ora, ora camarada. Quando passou no teste do coronel e provou sua coragem e seu medo se transformou neste belo espécime de marsupial que vê. Bom, vamos ao que interessa. CHOMP, CHOMP. O negócio é o seguinte. Tenho outro teste.
- Acho que já provei minha coragem, para que fazer mais testes?
- HAHAHAHA. Garoto, você é engraçado. - e tomando um tom mais sério disse - O seu medo ainda está muito grande, além do mais, você não quer que eu permaneça um canguru, pois sou um boxeador por ofício e toda vez que sentir medo, vai receber um golpe da minha pata direita na boca do seu estômago.
João contorceu o rosto imaginando como aquilo iria doer.
- Não se preocupe, o teste é fácil. Basta que dê um mergulho na piscina.
- O que???? Você está maluco? Vou me afogar! Por que não espirra água no meu rosto?
- Camarada, camarada. Você não pode enganar o seu próprio medo. Mas, admiro a tentativa. Precisa ser um mergulho.
- Isso não é coragem, é burrice porque posso me afogar.
O canguru admitiu:
- Não é que você tem razão? CHOMP, CHOMP. Mas, não se preocupe, vai ficar bem.
E sem dizer mais nada, tirou de seu marsúpio uma pequena piscina e depois uma mangueira. Levou poucos minutos para enchê-la dizendo em seguida:
- Tudo que precisa fazer para provar sua coragem é mergulhar a cabeça na água uma vez.
- Eu não vou me afogar?
- Aconselho fechar o nariz e não abrir a boca - disse com ironia.
- E se eu me afogar?
- HAHAHAHA. Relaaaxe. É só prender a respiração. Você sabe prender a respiração, não?
- Sei. Mas, e se acontecer alguma coisa e eu me afogar?
- Se quiser não faça o teste. Estou mesmo precisando treinar o meu gancho esquerdo - disse fazendo o movimento com a pata.
- Se alguma coisa acontecer comigo meus pais vão te matar.
- HAHAHAHA. E como já tentaram. Mas só você pode matar o seu próprio medo. Então, vai ou não vai?

Com muita relutância, João foi entrando na piscina. Sentou-se e sentiu a água no seu peito. Segurando a vontade de chorar, colocou o queixo na água, fechou os olhos e com o indicador e o polegar da mão direita tapou o nariz. Apertou bem a boca e mergulhou a cabeça na água. O quarto ficou em silêncio por uns instantes e só o que ouvia era o PLOFT, PLOFT da água batendo na parede da piscina. Quando não conseguiu mais segurar a respiração, tirou a cabeça da água ofegante. Ainda estava atordoado para perceber o que acontecia no quarto naquele instante. Ele estava flutuando! Olhou para baixo e podia ver a sua cama bem pequena. Estava em cima de uma nuvem! Lentamente ela foi descendo deixando João no chão ao lado de um pastor alemão. O cão de guarda tinha uma postura elegante e um par de óculos na ponta do focinho.
- Muito bem, garrroto. Agorrrrra, vamos a mais uma teste.
- Ah, não, de novo? - disse desanimado.
- Sim, senhorrrr. De novo.
- O que eu tenho que fazer?
- Você terrrr que passar o mão em trrrês de meus cinco companheirrrros. Você deverrrá escolherrr sabiamente, pois dois deles são ferrrozes.
- Eles mordem?
- Todos as cães morrrdem quando se sentem ameaçados. Mas, se souberrr se aproximarrrr deles, gostarrrão do seu carrrinho. Exceto porrrr dois deles, é clarrro.
- Como eu vou saber?
- É parra isto que eu estarrr aqui. Vou ajudá-lo. Primeirra liçon: deixe que o cão conheça a sua cheirrro. Segunda liçon: Se ele rosnarrr, afaste o seu mão lentamente.
- Só isso?
- Sim, só isso. Agorrra, o teste.

Tirando os óculos do focinho, o pastor alemão latiu três vezes e abriu a porta do armário de João. De lá saíram nesta ordem: um São Bernardo, um Labrador, um Poodle, um Fox Paulistinha e um Pincher que se sentaram lado a lado.
O menino observou atentamente todos os cães. O São Bernardo era definitivamente assustador e o Pintcher, o menor, parecia inofensivo, por isso foi por ele que João começou. Mal sabia que as aparências enganam. O Pincher começou a rosnar logo de cara e João teve que recuar. Já havia identificado um dos ferozes. Em seguida, foi se aproximando do Labrador. Levou sua mão para perto de seu focinho molhado e sentiu cócegas quando ele a cheirou. O cão abanou o rabo e João fez carinho na sua cabeça. Faltavam mais dois. Aproximou sua mão do Poodle que lhe mostrou os dentes. Agora estava fácil. O São Bernardo e o Fox Paulistinha aceitaram de bom grado seu carinho, e mais uma vez havia passado no teste.
O pastor alemão, liderando seus companheiros, entrou no armário e fechou a porta. Curioso, João abriu a porta de seu armário, mas não havia nada além de suas próprias roupas.
De repente, SHAK, SHAK, SHAK, escutou um ruído que parecia vir de sua cômoda. Chegou mais perto e teve certeza de que vinha de dentro da sua gaveta de camisetas. Sem perceber que já não tinha tanto medo, colocou a mão no puxador e a abriu lentamente. E então um enorme gato angorá pulou de dentro dela, quase matando João de susto. Era um gato engraçado, tinha olhos puxados e usava um kimono.
- AAHRHH. Outro teste! Não acredito! - disse João.
- "Quem qué colê lósas, tem que supoltar seus espinhos" - falou o gato juntando uma pata com a outra como se fosse rezar.
- Hã?? - murmurou João um pouco confuso.
- Isso mesmo. Flase de Confúcio. Qué dizê que pala conseguirmos coisas boas muitas vezes devemos fazer saclifício. Seu teste selá...
- Não vou fazer. Chega. - disse João interrompendo o gato.
- Seja feita a sua vontade, jovem aplendiz. Mas, esteja avisado, tenho galas muito afiadas e vou usá-las quando sentir medo.
- Tudo bem - respondeu o menino, fingindo despreocupação.

Começou a se trocar ignorando a presença do gato. Depois do café da manhã, foi ver um pouco de televisão e brincar. O angorá sempre ao seu lado. Até que não era tão ruim, poderia suportar sua presença para sempre, pensou ele. Mas, nada é para sempre. Seus pais tinham uma surpresa para João, iriam a um parque de diversões.
Quando lá chegaram, João ficou assustado com os brinquedos gigantes e o barulho que faziam. Seus pais tentaram tranqüilizá-lo inutilmente, pois ele não quis entrar em nenhum brinquedo. Quando sentiu medo, o gato angorá dava arranhões no estômago do menino que não conseguia controlar o choro.
Foi um passeio frustrado que preocupou seus pais e deixaram João muito chateado. Mas, ao voltar para casa, ele estava furioso com aquele gato chinês.

- Foi tudo culpa sua!
- No, no, no. Foi tudo culpa SUA! Podelá fazer o teste agola, se quiser.
- Qual é o teste? - perguntou irritado
- Telá que segular uma lagaltixa nos mãos.
- De jeito nenhum! - respondeu categórico.
- É uma cliatula de Deus como você. - e com um movimento ágil pegou uma lagartixa que estava na parede e ia colocá-la nas mãos de João quando ele gritou:
- Nãããão! Não quero fazer isso, por favor.
- "Colagem é lesistência ao medo, domínio da medo e não ausência da medo"
- O quê?
- Isso qué dizê que todos temos medo, mas plecisamos lesistir e dominar a medo.

João acabou estendendo as mãos para que o angorá lhe passasse a lagartixa. Apertou bem os olhos e murmurava para si: Coragem, coragem, coragem. Primeiro sentiu uma coisa mole e gelada se mexendo, queria soltar aquela coisa horrível e sair correndo, mas o gato lhe disse:
- Você está quase lá, jovem. Nunca desista.

Sentindo a lagartixa se debatendo para se libertar, João não via a hora daquele teste acabar. Percebeu que ela estava mais com medo dele do que ele dela e acabou relaxando.
Então, o quarto ficou muito claro, parecia que o sol havia invadido o ambiente. Estava tão iluminado que não se podia enxergar nada. Mas, assim como viera, o clarão foi embora repentinamente.
Quando João pôde ajustar sua visão, percebeu que estava só, o gato chinês havia desaparecido. Tinha conseguido!! De novo!! Era um menino corajoso!! Pulava contente para cima e para baixo, quando ouviu:

- Olá meu amigo! - disse uma voz suave - Parabéns, você passou em todos os testes.
João olhou para baixo e viu uma coruja das neves.
- Não me diga que preciso fazer mais um teste - disse desanimado
- Não. Você demonstrou coragem e dominou seu medo. Agora serei sempre sua companheira, estarei dentro de você, mas, não lhe machucarei. Quando estiver em perigo vou lhe alertar em forma de pensamento.
- Agora sou corajoso?
- Sim.
Mal contendo sua alegria, João desceu a escada correndo e gritando. Sentia-se leve como um pássaro, corajoso como um urso e esperto como um gato. João nunca mais foi chamado de medroso e teve muitos amiguinhos. Tornou-se um menino confiante e esperto que sabia distinguir entre o medo e o perigo, sempre com a coruja das neves dentro dele.
Quando ia dormir, não pedia mais para perder o medo e sim para conhecer o mundo e viver experiências incríveis como a que viveu no dia do seu aniversário.

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