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ESA #31 - O Ultimo dia de aula de Erick e Joyce Enviar por e-mail
Livros - Romance

Escrito por josweetty
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Ter, 17 de Fevereiro de 2009 15:01
Joyce estava sentada em um banco no pátio. O dia estava nublado e frio, com ares de chuva. Encapotada com um casaco amarelo como sua boina, vestido preto tomara que caia e scarpin. Encostada com as costas na parede, segurando a bolsa vermelha e quadrada.

Por ser uma das alunas mais estudiosas do Colégio Montenegro, Joyce era sempre uma das primeiras a acabar a prova e, portanto, restava sempre ficar esperando os amigos... mas estava esperando demais!

Erick foi um dos últimos alunos a deixar a sala. Saiu com dor de cabeça, de tanto que pensou e calculou naquela maldita prova de matemática. Estava até cansado! Saiu para o pátio e sentiu o vento gelado daquela manhã. Ajeitou o cachecol com listras horizontais verdes e pretas, tratou de fechar o zíper de seu casaco de poliéster impermeável preto. Credo, como estava frio!

Joyce ergueu a cabeça quando viu os coturnos de Erick se aproximarem. Sorriu com carinho e ficou em pé:

- Como foi?

- Nessa não vou passar. – informou.

- Oh. – Joyce chateou-se. Estudaram tão exaustivamente... – Bem, não se pode acertar todas, não é mesmo? No próximo bimestre a gente recupera! – riu e enlaçou o pescoço do namorado com os braços. Deu-lhe um selinho. – Você trouxe a sua câmera como eu pedi?

- Aham. Já pode me dizer o que pretende com ela?

- É segredo, não posso dizer agora. Só quando chegarmos lá!

- Lá, onde?

- Lá, oras! – brincou, enrolando em dar a resposta. Cruzou braços com Erick. – Semana passada fez um mês que começamos a namorar!

- E ainda continuam escrevendo coisas imbecis pela escola. – Erick observou.

- Eu não ligo mais. – Joyce bateu os ombros enquanto andava pelo pátio em direção à saída da escola. Não trocaria Erick por uma reputação melhor. – O que eu quero dizer é que... resolvi retribuir aquele passeio que fizemos até a cachoeira, lembra que me levou lá?

- Não, esqueci! – Erick falou de forma debochada, brincando.

- Deixa de ser bobo! – riu. – Eu estou tentando ser romântica! Não fica estragando!

- Tá bem, desculpe! Já vai me contar aonde vamos?

- Não! Eu ia! Mas você tá pentelhando e não merece saber, vai se afogar em curiosidade até a hora que chegarmos lá!

- Ah, não...!

Caminharam até o ponto de ônibus da rua de baixo e lá tomaram a condução, que não demorou a passar.

- Eu acho que vai chover. – Erick comentou olhando para o céu.

- Eu gosto da chuva. Acho bonito dia assim, frio e nublado, escuro! – afundou a cabeça no ombro de Erick. – O cheiro da chuva ameaçando vir... adoro.

- É muito melhor do que um dia de calor escaldante. – concluiu.

- Quando que você vai para Brasília? – ocorreu repentinamente de perguntar.

- Não sei exatamente... talvez no fim das férias. Eu espero que esqueçam.

- E esquecem?

- Duvido... mas não queria ter que ir.

- Tem algum motivo especial?

- Vários... – e poderia enumerar todos. O primeiro estava bem ali, do seu lado.

Joyce suspirou chateada. Estava tentando não demonstrar que não queria que ele fosse, porque achava importante que Erick reencontrasse seu padrasto e passasse algum tempo com ele.


- Vai ser bom você ir... depois de tudo.

- Já vai fazer cinco meses que estou aqui. Quase meio ano...

- Parece pouco!

- Parece uma eternidade!

Joyce riu. Ergueu a cabeça e o beijou. Depois ficaram em silêncio durante a viagem inteira, que não levou mais que quarenta minutos. Desceram em uma rua deserta onde só havia depósitos e galpões. O silêncio da rua era seco e incômodo.

- Você sabe mesmo onde você está? – Erick perguntou.

- Ah, para de ser chato, Erick! Claro que eu sei! – e deu língua. – E não ache que vai conseguir descobrir para onde vamos!

- Como você é sem graça, Joyce!

- Você não me acha sem graça quando estamos a sós no meu quarto! – debochou e ensaiou um sorriso sensual.

- Isso é porque seu quarto não é cheio de galpão!

- Covarde! Está com medo de uma rua cheia de galpões?!

- Não, mas do que pode ter dentro de um. Vai que estamos no meio de uma fazenda de pó? Pode sair um traficante pulando de um desses muros e correr atrás da gente!

- Oh! É mesmo! Um traficante mutante pulador! – Joyce fez drama. – Isso significa que temos que correr primeiro que ele! Vamos! – e saiu em disparada pela rua, por cima dos saltos.

- Ei! Joyce! – Erick ficou um tempo parado achando que ela estava brincando, mas Joyce continuou correndo, subindo a rua e virou a esquina. Erick não teve outra coisa a fazer senão ir atrás da namorada. Como ela conseguia correr tanto em cima daqueles saltinhos era um grande mistério, e nem tropeçara nem nada!

Já sem fôlego parou pouco antes de chegar à esquina. Ajeitou a mochila pesada no ombro e teve vontade de arrancar o cachecol, que agora esquentava seu pescoço horrivelmente. Recuperou o ar e quando virou a esquina, parou estático.

Joyce estava logo ali, parada no meio do fim da rua.

- Taram! – fez, como quem anuncia uma surpresa. Atrás dela uma grade baixinha e uma vastidão de grama, onde inúmeros vagões de trem estavam estacionados e abandonados. – É o cemitério dos trens!

- Impressionante. – e realmente era.

- Achei que depois de estudarmos tanto, seria legal para você vir aqui e tirar umas fotos! – sorriu com beleza de princesa das neves, encapotada daquele jeito era a própria.

Erick estava era sem palavras. Aquela era a mais incrível declaração de amor que recebera de qualquer menina em toda a sua breve vida!

- Eu sei onde fica um trem de mil oitocentos e tra-lá-lá! Ou um bonde... não sei bem o que ele é... – revirou os olhos tentando se lembrar. – E tem um monte de trem meio enferrujado, uns pichados e um ou outro em reforma, um quase esqueleto! Poderemos ficar at-- - Erick não deixou mais Joyce tagarelando, colando seus lábios de piercing com os dela.




- Meus pais chegam de viagem hoje. – Joyce anunciou sentada em um vagão com as pernas para fora. – Espero que a mamãe tenha trazido umas roupas legais da Itália!

- Você não vai inventar de arrumar o armário justo amanhã, vai? – Erick ajeitou a lente da câmera antes de bater uma foto de Joyce.

- Qual o problema?

- Já esqueceu? Íamos ao cinema!

- Oh é mesmo! – ficou com vergonha por esquecer. Era o primeiro encontro após as provas e a primeira noite que Erick estaria livre dos castigos. Era um dia importante que não deveria ser esquecido. – Vamos poder assistir ao filme da Jennifer Lopez?

- Você quer me matar de tédio me avisa!

- Ela é minha atriz favorita! – Joyce emburrou-se. Erick bateu uma foto da sua feição de contragosto.

- Tá, o que você quiser. – como sempre. – Mas que fique claro que se você escolhe esse, eu escolho o próximo.

- Não sendo nenhum filme alemão ou francês com um daqueles roteiros sem sentido e complicados de entender, por mim tudo bem!

- Eu também não suporto filmes assim. Mas faço questão em ir a todos os filmes de terror que passarem. Todos.

- É só você segurar a minha mão que eu não terei medo de nada. – afirmou. – Mas não vou conseguir dormir a noite, portanto, nem você!

- Ah, eu desligo meu celular e durmo! – ameaçou de forma divertida.

- Que falta de cavalheirismo! – Joyce reclamou debochada. – Você não acha que devia tirar uma foto da gente? Eu queria ter uma foto nossa pra deixar em um porta-retrato!

- Eu não gosto de aparecer em fotos.

- Tem medo de que a máquina roube seu espírito?!

Erick riu.

- Só não gosto, mas se você faz questão tiramos uma agora!

- Ah! Por favor! – pulou do vagão e andou até Erick. – Mas vê se tira uma foto bonita e sem fazer careta! Detesto quando as pessoas fazem caretas nas fotos...!

- A Guta sempre faz careta...

- Exatamente! E estraga tudo! Só tenho foto da Guta de careta! Meus primos já acham que ela é deformada! – riu. – Eu queria uma foto bem bonitinha e romântica!

- Essa é a parte fácil, a parte difícil é não sair com cara de bobo!

- Mas você é bobo Erick, não tem jeito, é assim mesmo...!!

- Engraçadinha, você, hein! Vou programar cinco fotos e você depois escolhe.

- Eba!

Joyce contente ficou cercando Erick até o momento em que ele acertou a câmera e a posicionou usando o chão do vagão como tripé, porque não havia trazido o seu.

A câmera bateu as fotos. Erick foi buscar o aparelho e voltou, sentando-se do lado de Joyce na grama fria.

- Deixa eu ver! – ele estendeu a câmera para ela. Nas cinco fotos programadas Erick fez uma careta diferente em cada uma. – Ah, mas que rato! – exclamou. – Eu vou ficar bem com essa, com a careta mais boba! E vou sempre dizer “Não é uma careta, viu? Meu namorado é bobo assim mesmo!”

Erick gargalhou. Joyce riu também.

- Vou morrer de saudades dessa sua risada quando você viajar. – comentou e entregou a câmera de volta pro namorado.

- Ah, não vamos falar disso agora... só vai estragar tudo. – Erick continuou a fotografar.

- Tem razão. – Joyce respirou fundo, em um suspiro de paz, fechou os olhos. Estava se sentindo tão bem.

Foi quando uma gotinha de chuva pingou do céu.

- Ih! – Joyce estendeu a mão para o céu, para ver se estava chovendo. Sentiu um grosso pingo em sua palma da mão. – Começou a chover! – e ficou em pé. - Vamos nos abrigar! Vem logo Erick.

Entraram no vagão e um clarão rompeu o céu. A chuva que vinha era forte. Logo as gotas fortes e geladas começaram a cair.

- Puxa que droga! – Joyce falou dentro do vagão. Olhou no relógio. – Espero que passe logo, temos só mais uma hora para o ônibus passar, depois disso vai ficar muito tarde para você chegar antes do horário. – era o tempo que Erick tinha para deixar Joyce em casa e chegar em casa antes do limite imposto por Márcio.

- Se não passar em meia hora a gente sai na chuva. – Erick deu de ombros e guardou as câmeras em um saco plástico azul dentro da mochila. Estava sempre preparado. Sua mochila era impermeável, mas sempre colocava mais um saco plástico por garantia, pois com chuvas muito fortes podia molhar alguma coisa.

- Sair na chuva?

- Melhor do que andar aquela rua ao anoitecer, não gostei do aspecto daqueles galpões...

- Você tem razão. A chuva estragou tudo!

- Não estragou nada! – ele a abraçou e lançou-lhe um beijo.

Ficaram esperando a chuva passar. Ela não passou, a contrário, continuou estável com a mesma força. Joyce olhou pela porta do vagão. O vento estava gelado.

- O jeito vai ser sairmos...

- É, acho que sim.

- Vai, me dá seu casaco. – Erick pediu, tirando o seu casaco. Estava com uma camiseta preta de manga comprida e sem estampa. Guardou o cachecol na mochila.

- Pra que?

- O meu tem capuz, vai com o meu. – informou. – e me dá o seu pra cobrir a mochila, se molhar minha máquina digital eu morro de tristeza...!

- Certo. – Joyce tirou o casaco e vestiu o de Erick, colocando o capuz.

Erick usou o casaco de Joyce como uma capa para a mochila, amarrando-o. Vestiu a mochila.

- Você vai se molhar todo, Erick...

- Ah, tudo bem. Meu pé vai ficar seco mesmo se eu afundar na piscina. – estava de coturnos e eles não molhavam tão facilmente. – Mas prepare-se. Vamos correr.

- Certo. – Joyce tirou os sapatos e guardou na bolsa. – Estou pronta.

- Você vai descalça?

- Ué, vou.

- Nem pensar. Vai ficar doente e suja. – Reclamou. Tirou a mochila e entregou para Joyce. – Carrega que eu te carrego.

- Erick você não me agüenta.

- Claro que agüento! – mas sabia que não era assim tão fácil.

- Naquele dia que eu fiquei bêbada você não conseguiu.

- Eu estava bêbado também, um bêbado carregando o outro nunca dá certo!

- Eu estou gorda! Engordei uns quilinhos!

- Vai Joyce, só até a rua. Depois te solto, não vou morrer nem nada! Não dá pra você pisar descalça na grama e com a terra molhada seu salto vai afundar.

Joyce olhou no relógio antes de responder:

- Tá bom, tá bom. Mas se você me derrubar de bunda na lama já sabe, né?

- Não vou te derrubar. – Erick saiu na chuva. – Eu vou te levar de cavalinho!

- Eba! – Joyce brincou e subiu nas costas de Erick, abraçando-o para não escorregar. Travou as suas pernas juntando-as, para não cair.

Erick caminhou devagar e chegou ao portão morto de cansaço. Carregar Joyce mais sua mochila não era tão leve quanto parecia e era extremamente exaustivo... ele não era assim tão forte para carregar Joyce. Fizera um esforço extra. Soltou Joyce na rua, que calçou os sapatos. Pegou a mochila de novo e continuaram a correr, até chegarem ao ponto de ônibus, que era coberto. O vento não colaborava, molhando tudo. Ficaram em pé nos bancos.

Joyce só estava molhada nos pés e no casaco. Dentro sua roupa estava seca e ela estava quentinha. Mas Erick estava encharcado.

- Se molhou todo, vai ficar doente. – disse preocupada.

- Não vou... – e abraçou Joyce. - Vem aqui me esquenta.

Joyce o abraçou com ternura. Uma sensação estranha tomava conta dela, era confortável, aconchegante... preenchia todos os espaços vazios do seu corpo e enchia seus pulmões de suspiros. Erick estava encharcado por ela e a carregara só para que ela não se sujasse... era a mesma sensação de quando passou frio no carro a caminho do hotel e ele tirou o casaco para ela, ficando com frio depois, mas protegendo-a. Ninguém no mundo se importava tanto com o seu bem estar do que Erick. Ninguém.

E era por isso que ela procurava ajudá-lo com os estudos, porque era a única coisa que podia fazer por ele. E era assim que vinha sendo o relacionamento dos dois, tão curto – pouco mais de um mês – mas tão mais profundo que tudo o que ela já tivera com alguém. Sentiu-se verdadeiramente feliz e em um ímpeto de felicidade abraçou o namorado mais apertado e beijou-o com desejo, segurando-lhe as faces geladas.



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Última atualização em Qua, 18 de Fevereiro de 2009 08:59
 
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