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ESA #34 - O desastre em Família Enviar por e-mail
Livros - Romance

Escrito por josweetty
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Ter, 17 de Fevereiro de 2009 15:04
Quando Márcio parou o carro no estacionamento do The Marine, Erick ainda não sabia em que confusão estava se metendo àquela noite.

André saltou do carro com um sorriso enorme na cara, um sorriso de alegria e contentamento. Deu as mãos com Guta, que estava linda, vinha com uma saia jeans escura e rodada, botinha cor-de-rosa de cano curtinho e um casaquinho cor-de-rosa e branco, por cima de uma blusinha cinza sensual. Os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo davam total destaque para suas argolas douradas. Ela estava radiante!

André sorriu para a garota com encanto. Estava com uma boina verde-escura como seu casaco de chuva, calça jeans e tênis novos. Encarava aquele jantar como um encontro com sua linda namorada e, portanto, entupira-se de perfume. Não conseguia parar de olhar para a boca carnuda cheia de batom rosa brilhante de Guta. Desejava-a como nunca desejara antes,

- Hm, você tá cheirosa hoje. – passou a cantada em Guta cheirando seu cangote.

- Obrigada... – Guta sorriu com certa timidez, fechou a porta do carro.

- O que tem de importante nesse restaurante? – Erick quis saber, perguntou para Joyce que se arrumava antes de sair do carro, já com a porta aberta.

- É um restaurante meio chique. – Joyce respondeu descendo do carro. Os cabelos com a franja presa no topo da cabeça, olhos bem pintados. Usava um vestidinho verde-terra com rendinhas creme na saia. Pisou com seu scarpin marrom como seu casaco no asfalto e sentiu os joelhos nus arderem de frio.

- Certo... – Erick desceu do carro logo em seguida, mordendo o piercing. – Eu devia ter vindo com outra roupa!

- Eu avisei. – Joyce deu de ombros ajeitando o cachecol branco do namorado e a gola do seu casaco cinza. Trocaram selinhos. – Mas você quis insistir nesses coturnos horríveis!

- O que há de errado com eles? – não entendeu.

- Deixa pra lá! – Joyce riu e foi andando na frente até a porta, onde Guta e André já estavam. – Um dia te ensino pra que serve graxa de sapato!

- Engraçadinha! – ele a seguiu.

Márcio entregou as chaves para o manobrista e foi dar os braços com Sueli. Sua mulher estava feliz por ter seu desejo atendido! Márcio sentia-se bem em fazer sua família unida, mas estava extremamente preocupado com o valor do jantar. Não estava podendo dar-se ao luxo de muitos gastos.

Ao entrarem no The Marine seguindo o restante da família, Erick teve a certeza de que estava no lugar errado. A recepção do restaurante era grã-fina demais para seus coturnos que nunca eram engraxados. O lustre de cristal pendurado no teto era brilhante demais para sua calça jeans e suas correntes. Os clientes eram terno-e-gravata demais para seus piercings. E o que o chateou de imediato foi que vislumbrar um lugar daqueles cheio de empresários e ricassos fez lembrar imediatamente de Gregory. Por um breve instante, sentiu um pequeno desespero, concluindo que a coisa que menos queria era voltar para Brasília.

- Aqui foi onde ficamos noivos! – Sueli anunciou para as crianças, com um suspiro apaixonado. – Foi um dos dias mais felizes da minha vida!

- Só boas lembranças, imagino! Como foi? – Guta quis saber mais, aproximando-se de sua futura sogra. Imaginou André pedindo-a em noivado. Não seria perfeito? Eles já estavam no The Marine, era só André a olhar com ares apaixonados e dizer ‘Eu te amo’.

- Enquanto isso eu dormia na casa da mina avó! – André não disse o que Guta queria ouvir, mas seu comentário arrancou boas risadas dos outros. – Alguém sempre é o prejudicado!

- Puxa é um lugar muito bonito, uma ótima escolha para o noivado. Meus pais nunca me contaram como foi que eles resolveram se casar... – Joyce devaneou, de mãos dadas com Erick. Virou-se para ele. – Aqui é muito bonito, não é?

- É, é sim. – sorriu para Joyce. Pena que o lugar não tinha um cheiro totalmente agradável. Dava pra sentir o cheiro do óleo. Erick sentiu seu nariz coçar.

No balcão, Márcio escolhia a sua mesa com a hostess, que era uma bonita mulher de cabelos castanhos longos e olhos esverdeados.

- De preferência, perto da janela, estamos comemorando! – Sueli anunciou para a moça, apertando o braço de seu marido por cima do paletó marrom.

- Ah, eu tenho a mesa ideal, é uma das melhores! – a mulher sorriu com alegria, usando um ridículo uniforme do restaurante, que imitava o terno de um marinheiro. – Sigam-me!

A hostess os guiou pelo salão do restaurante conduzindo-os até a mesa escolhida. Toda a decoração era de um barco de madeira, havia até um leme de madeira perolada, pendurado em uma parede com elegância.

Uma música simples de piano enchia os ouvidos. O local estava cheio de gente, mas o restaurante não estava cheio. Márcio, como bom conhecedor do restaurante sabia quais os melhores horários para se freqüentar.

Assim que chegaram à mesa, Erick espirrou, sentindo o nariz arder de imediato.

- Ficando gripado, querido? – Sueli perguntou ao sentar-se ao lado do marido e do filho.

- Fica na rua até tarde da noite, isso que dá. – Márcio não perdeu a chance de cutucar seu filho com uma dose de sensatez e educação didática.

Erick espirrou de novo e Joyce sorriu, debochada. Ele trocou sorrisos com a namorada.

- Seu nariz tá vermelho! – Joyce riu. – Parece um palhacinho!

- É a rena do Papai Noel! – André debochou em seguida. – O nariz vai acender também?!

- Meu nariz tá ardendo horrores... – espirrou de novo.

- O que vão querer? – o garçom se aproximou, com o cardápio em mãos pronto para anotar o pedido.

- Delícia, vou querer duas entradas de empanado! – André estava com fome.

- Ah, traga doze. – Márcio contabilizava seis em sua mesa. – E para beber podemos tomar um pouco de vinho!

- Você vai querer suco de pêssego, Erick?! – André não perdeu a chance de debochar, mas Erick estava ocupado com seus espirros e não prestou atenção.

- Saúde! – Guta brincou. – Tira esse cachecol, Erick!

- É, melhor. – Joyce se ocupou em ajudá-lo a tirar o cachecol.

- Eu tô bem. – falou em uma mentira descarada. Joyce puxou o cachecol e colocou em seu colo. Sentiu falta de ar e espirrou de novo.

- Nossa, o que você tem? - Joyce o encarou nos olhos azuis e tirou da bolsa um pacotinho de lenços. Erick espirrou de novo e sentiu a boca dormente. – Será que não era melhor tomar um remédio pra gripe?

- Eu sei lá... – espirrou de novo. Cobriu o nariz com o lenço de papel de Joyce. – Deu até tontura.

- Podemos passar na farmácia na volta pra casa... – Márcio anunciou. O garçom chegou com o vinho para ele provar no mesmo instante.

- Onde vocês sentaram? Na noite do noivado? – Guta continuava curiosa.

- Em uma mesa mais no centro do salão, eu lembro até hoje! – Sueli abriu um sorrisão com sua boca de Barbie velha. Estava com um vestido preto de bolinhas brancas que a deixavam com cara de mãe do Elvis Presley. – Lembro que eu estava chateada porque queria sentar perto da janela, mas estavam cheios... tínhamos ficado duas horas na recepção.

As meninas que prestavam atenção na história trocaram os ares do suspiro por uma careta de chateação, em condolências à Sueli.

O garçom serviu vinho para todos.

- Mas não achem que foi ruim, não, não. Foi lindo! Márcio havia contratado os músicos da casa para tocarem uma musica especial! Foi algo digno de um filme! – Sueli lembrava-se com nostalgia daquela época tão boa. – Vamos brindar à essa alegria que é estarmos todos aqui em família. – Sueli sugeriu, erguendo a taça.

Erick espirrou mais uma vez, atrapalhando o brinde de todos.

Márcio imediatamente impacientou-se com Erick. Era chato ficar espirrando tanto dessa forma, parecia até de propósito porque Sueli estava falando de sua vida com Márcio e naqueles tempos, Heloísa ficara em casa chorando, sem marido. Foi quando soube do casamento de ambos que sua ex-esposa foi para Brasília, alegando ser transferida no emprego, mas a verdade era que ela estava fugindo. Fugindo e levando seu filho para bem longe. Por isso para Márcio era importante que Erick estivesse ali com ele. Ele agora era seu filho novamente, deveriam curtir aquele momento de lembranças e brindar o seu amor por Sueli. Já que estavam lá gastando a maior grana mesmo!

Mas Erick não conseguia se controlar. Seu nariz coçava e o céu da sua boca também, era infernal. Espirrou de novo.

- Qual o seu problema? – Márcio deixou sair o que estava entalado em sua garganta.

- Márcio, calma. – Sueli interveio com sua paciência maternal, desistiu do brinde porque Erick continuou espirrando. – Querido, não quer ir embora e tomar um reme—

- Não, ninguém vai embora! – Márcio interrompeu a esposa. Erick estava sendo bem mau-educado, isso sim! – Vamos todos ficar aqui e ter um brinde feliz em família!

Outro garçom se aproximou com um prato de camarões empanados e soltou bem no meio da mesa. O cheiro do camarão subiu com todas as forças.

- Arghhhh! – Erick levantou da mesa. Sentiu tontura. Que imbecil, era tão óbvio que o The Marine era um restaurante de frutos do mar! Não era a toa que estava espirrando! Era uma crise alérgica. – Que merda!

- Erick, não fale assim, tenha modos! – Márcio continuou achando que o problema era o brinde em família e a sua história com Sueli.

Todos na mesa ficaram estáticos, diante da briga familiar que parecia começar, mas Erick não esperou, afastou-se da mesa com pressa, fugindo do camarão como se fosse um vampiro fugindo do amanhecer.

- Onde você vai? - Márcio ficou em pé.

- Deixa. – Joyce ficou em pé também e foi a primeira a seguir Erick, sem entender o que estava acontecendo.

Erick só parou quando estava do lado de fora do restaurante. Estava tossindo sem parar, sentindo a garganta comprimir. Sentou no chão, continuou tossindo, sem ar.

Joyce saiu do restaurante e aproximou-se de Erick, ajoelhando-se no chão de granito avermelhado do restaurante.

- Erick, o que você tem? – perguntou preocupada e assustada. – Erick? – notou que ele estava nitidamente se ar. Puxou o casaco do namorado. – Olha pra cima, respira... o que foi? Você engasgou?

Erick fez que não com a cabeça. Curvou-se para tossir e Joyce o segurou:

- Erick, olha pra cima!!

- Eu tenho alergia... a camarão. – confessou com a voz rouca, entre tosses. Os olhos vermelhos.

- Alergia?! – Joyce ficou em pé e jogou o casaco de volta pra Erick. Não precisou saber de mais detalhes e saiu dali o mais rápido possível.

Correu atravessando o restaurante por cima dos seus saltos finos.

Guta estava terminando de saborear um dos camarões empanados, enquanto Sueli cuidadosamente servia mais um para Márcio.

- Vamos guardar esses dois para Joyce e Erick, daqui a pouco eles devem voltar. – Sueli disse com seus ares de mãe.

- Certo. – Márcio resmungou. Já estava de mau-humor. – O que será que deu nesse garoto?

- Ah, pai, até parece que você não conhece o Erick! – André falou de boca cheia. Antes de terminar seu discurso, Joyce chegou à mesa, quase se batendo com um garçom. – Credo o que foi, Joyce?

- É uma crise alérgica, ele tá sem ar! – falou rapidamente esbaforida.

- Onde? – Sueli se assustou, ficando em pé imediatamente.

- Lá fora, lá fora... vem rápido. – Joyce alarmou.

- Vamos logo Márcio. - Sueli virou-se para seu marido, que estava ainda processando a informação. Márcio piscou. – Anda!

Naquele momento foi como se algo dentro de Márcio estalasse. O tempo perdeu o compasso e todos os pensamentos processaram-se depressa em sua mente. Ele sabia exatamente o que tinha que fazer. Ficou em pé e abriu a carteira, tirando o cartão de crédito, entregando para Sueli junto com as chaves e documentos do carro:

- Vá para casa. Eu cuido disso. – e virou-se para Joyce, esperando ser guiado pela garota, que compreendeu o recado e colocou-se na frente, retrocedendo todo o caminho até que chegaram à entrada do restaurante em segundos.

Erick estava sentado no chão, curvado em cima do casaco, tossindo. O segurança do restaurante já estava perto dele, perguntando se precisava de ajuda. Márcio não perdeu tempo, tirou o filho do chão erguendo-o pelo braço e entrou no primeiro táxi que enxergou.

- Pro hospital mais próximo. – anunciou para o motorista.

Joyce viu o táxi se afastar, segurando o casaco cinza de Erick nos braços. Comprimiu os lábios para segurar sua apreensão.

- Joyce! – Guta a chamou, aproximando-se. Abraçou a amiga. Joyce abraçou-se com Guta também tremendo. Sentiu os joelhos falsearem. Estava assustada.








Naquela noite de sábado, Cecília foi até o Café Ville-Leonora para tomar uma xícara de chá e relaxar enquanto escrevia em seu Lap Top. Estava concentrada, procurando acertar a retórica para aquele texto.

Sentada em uma das mesinhas no canto, estava com os cabelos acobreados e lisos presos em um coque por um lápis e de agasalho branco e azul.

- Cecília? É você? – ouviu alguém chamar.

Cecília levantou a cabeça e encontrou com os olhos azuis de Ênio. Ele estava com um cachecol azul que faziam seus olhos brilharem, uma malha cor-de-rosa por dentro de um casaco preto e calça jeans, de tênis xadrês. A franja estava pintada de roxo.

- Ênio? O que você tá fazendo aqui?

- Eu vim deixar esses panfletos! – mostrou um para a garota. O panfleto estava horrível e dizia que a banda “It’s here the world ends” procurava um vocalista. – Sabe como é, agora nas férias esperamos encontrar alguém para cantar para nós!

- Oh, sim. E ficou esse mesmo o nome da banda? – torceu o nariz. – É esquisito, mas até que é forte.

- É, sei lá, foi idéia do Joaquim. Posso sentar?

- Claro. – Cecília salvou o arquivo e voltou a se concentrar em seu texto. – Estou terminando, fica a vontade.

- O que você tá fazendo?

- Um desafio. Saiu essa semana na revista, é um concurso. – Cecília sorriu, sem tirar os olhos do computador. – Se eu ganhar publicarão minha matéria no mês que vem!

- Puxa, que legal. Você está mesmo empenhada nessa de ser jornalista, não é?

- Uma hora vou ter que deixar de ser jornalista da escola e partir para a coisa real, não é mesmo?!

- É, você vai conseguir, tem muito talento.

Cecília riu debochada, fechando o computador, desistindo de terminar porque Ênio estava puxando papo e amaciando seu ego.

- Quem ouve você falar acha que é verdade! Mesmo assim, obrigada pelo apoio moral.

- É sério, eu andei lendo uns jornais lá da sua escola... são muito bons. Você tem muita chance de ganhar esse concurso! – Ênio sorriu com seus dentes brancos. Era um sorriso encantador.

- Ei, como você conseguiu ler um texto meu se não é da minha escola?

- Ah, o Joaquim coleciona esses jornais, eu vi os dele. – Ênio deu de ombros.

- Mas ele também não estuda lá!

- É mesmo... ah, vai ver era da irmã dele e eu confundi.

- Ah, pode ser, isso é bem coisa da Joyce mesmo. Mas então, quer ajuda com os panfletos? Não tenho nada pra fazer mesmo, posso ajudar a pendurar pela rua!

- Puxa, ia ser o máximo! – Ênio ficou em pé. – Eu pago o seu chá!

- Bobinho, já tá pago! – Cecília ficou em pé e guardou o seu computador na mochila. – Só me chama pra ver a seleção dos vocalistas, quem sabe dá uma boa matéria pro concurso!

- Certeza, Cecy. – Ênio entregou para ela uma parte dos panfletos. – Se acharmos um vocalista a tempo, vamos participar do concurso de bandas no final do ano na escola!

- Puxa, que legal! Temos que correr e divulgar logo isso! Vou ajudar colocando anúncio em alguns sites de música que eu conheço.

- Você conhece sites de música? – o tom da voz saiu em deboche.

- Claro, afinal eu escuto música, não é mesmo?!

- Mas do que você gosta?

- Eu gosto bastante de Indie rock.

- O quê? – surpreendeu-se. – Você não tem cara...

- Ah, eu tenho cara de quê?!

- A Sofia gosta de Ashlee Simpson...

- Eu e a Sô somos irmãs, mas somos completamente diferentes!

- Acho que você tem razão. Amanhã vamos fazer um ensaio, por que você não aparece por lá?

- Fica combinado.

- Aí você pode fazer um teste de vocalista!

- E explodir os vidros das janelas da casa da Joyce!

- Ah, só de zoeira, você pode cantar o que quiser.

- Tipo um karaokê?

- É sim!

- Tá, mas você tem que cantar junto!

- Combinado! – Ênio pegou a mochila de Cecília. – Agora vamos colar panfletos, sim senhora jornalista?!

- Claro, senhor baterista! – e com isso, saíram do Café.








O silêncio no carro era aniquilador. Márcio estava devastado por dentro como uma cidade em ruínas. Erick dormia sedado pelo coquetel de antialérgicos que tomou no hospital, a cabeça em seu ombro. Márcio o segurava perto de seu corpo, como se quisesse protegê-lo... mas tudo o que conseguia pensar era que estava atrasado. As memórias daquela desastrosa noite no restaurante ficavam pipocando em sua mente, ferindo seus pensamentos. Sentia-se um péssimo pai por não saber que seu filho tinha alergia a crustáceos, de tal forma humilhante, que chegou a ficar com vergonha do interrogatório do médico. Foi a primeira vez que se sentiu responsável pela vida de Erick... e que sentiu que não sabia responder absolutamente nada sobre seu filho.

Márcio nunca tinha visto alguém que tivesse alergia a alimentos passar mal só com o cheiro, mas o médico explicou que era perfeitamente normal em casos mais graves de alergia. Informação que só piorava tudo: Márcio quase matara o próprio filho! Sentia-se tão culpado que não conseguia conter-se de tristeza. Como um pai faz um negócio desses? Como um pai que se preze não sabe das alergias do próprio filho? A desculpa é claro, estava no fato de que Erick e ele nunca viveram como pai e filho até aquele ano: fosse porque Heloísa não queria, fosse porque ele estava ocupado demais com sua própria vida. A desculpa estava no fato de que ele era apenas pai biológico de Erick, que nunca se importara com nada e que se ocupava em fazer papel de vítima: afinal, era Heloísa a culpada pelo afastamento de seu filho, não ele.

E então Heloísa morreu. E o que sobrou? Um filho. Sangue do seu sangue. Um filho que era uma pessoa totalmente desconhecida! Um filho que ele encasquetara que queria ter perto, que queria cuidar! Mas cuidar de que forma? Sentia-se um fracassado.

Naqueles quatro meses de convívio Márcio odiou e amou Erick, naquele momento mesmo ele não conseguia se decidir se estava preocupado ou com raiva. Se pudesse voltaria atrás, pro passado, antes dessa história toda começar: nunca deixaria Heloísa casar com Gregory. Nunca deixaria sequer Heloísa ter ido pra Brasília... pensando bem, nunca deixaria Heloísa ter tido esse filho! Foi loucura. Loucura de um jovem apaixonado e irresponsável.

E Márcio se sentia mais culpado agora, por ter pensado tal coisa. Seria mais fácil se Erick não existisse, isso era fato, ele sabia e sentia isso no âmbito mais profundo do seu ser... mas havia um sentimento crescente, que se tornava mais forte a cada dia: era o de querer ser verdadeiramente pai. Sentir-se pai: o homem responsável pela vida e educação de seu filho. Era isso que era um pai, não era? Era isso que sentira naquela noite. Aquela fora a primeira vez que Márcio sentiu-se pai de Erick.

Com os cantos dos olhos ousou olhar para baixo, para aquele jovem que ele mal conhecia, para Erick, seu filho. Lembrou-se de uma conversa que tivera com Elias, seu colega de trabalho: aquilo era só a ponta do Iceberg, não era? Essa sensação o apavorava. Era um caminho sem volta.






André estava no sofá, olhava Joyce que estava sentada na poltrona da sala de estar, abraçada com o casaco cinza de Erick. Apreensiva, comprimia de vez em quando a boca, como sempre fazia quando ficava ansiosa. Os olhos castanhos e redondos, perdidos em meio aos seus pensamentos. André não sabia o que dizer, portanto, ficava calado o tempo todo, apenas observando a menina de desfazer em preocupação. Era até engraçado de se pensar que há alguns dias atrás ele estava morrendo de raiva de Joyce, de Erick, de todo mundo... e agora, até estava preocupado também. Queria abraçar Joyce e dizer que ia ficar tudo bem, que ela não tinha o que temer por que ele estava ali.

Sentiu-se meio bobo por pensar essas coisas. Ele estava feliz com Guta, ela era muito mais companheira que Joyce, e não tinha o chato agravante de querer controlar tudo o que ele fazia: com Guta, André estava livre para ser ele mesmo, porque Guta o aceitava da maneira que ele era... mesmo que isso não fosse tão bom assim. No fundo, André sabia que não gostava de Joyce e que havia namorado-a por puro egocentrismo, um desejo estranho de querer possuir a menina mais bonita da escola... e agora, Joyce nem era a menina mais bonita de nada: Guta era muito mais.

- Toma, Joyce. – Guta estendeu para a amiga um copo de vidro comprido. – É água com açúcar, vai te fazer bem.

- Não posso tomar isso. Tem açúcar. – Joyce falou com um bico enorme de chateação. – Tio Márcio já ligou?

- Não precisa ficar tão preocupada. – André tentou ajudar. – Vaso ruim não quebra assim tão fácil! – debochou para ver se com a piada cortava o clima pesado que se instalara na sala.

- Isso foi muito sem graça André! – Guta o repreendeu. – Toma Joyce. – estendeu o copo para a amiga, insistindo. – O Erick daqui a pouco entra pela porta e você vai estar aí, com essa careta dura. Relaxa.

- Tá bem... – Joyce pegou o copo e bebeu de uma vez só. Que sua mãe nunca soubesse que ela fez isso! Devolveu o copo para Guta. – Obrigada.

Guta foi sentar-se do lado de André, ainda segurando o copo de Joyce. Olhou no relógio:

- Puxa, está super tarde... preciso avisar minha mãe que estou bem! – olhou para Joyce, que continuava abraçada com o casaco cinza. – Quer dormir na minha casa, Joyce?

- Por que vocês não dormem aqui mesmo? – André fez o convite, abraçando a namorada. – Assim posso dormir gostosinho do seu lado!

- É uma boa idéia. – Guta concordou.

- Ah, não sei, minha mãe não vai gostar. – Joyce torceu o nariz. – Além do mais, estou sem roupa...

- Diz que você vai dormir na minha casa! – Guta propôs. – E eu tenho roupa aqui. Te empresto o que você precisar!

- Ah. – Joyce fez, sem resposta. Na verdade, saber que Guta tinha roupa na casa de André causou um certo desconforto nela, porque André e Guta compartilhavam de uma intimidade invejável. A única vez que dormiu com Erick fora sábado passado, contabilizou.





Ênio apertou o botão do Play no rádio da sua sala e a música leve, meio alegre, ressoou pelas paredes.

- Até que gosto de Panic at the disco. – Cecília disse e acendeu uma vela, pregou na xícara de vidro transparente azulado. A luz do fogo iluminou a sala. Ela estava sentada em um tapete preto oval, que decorava o chão branco de mármore gelado. As costas encostadas no sofá branco. Deixou a vela no meio do tapete, amparada pela xícara.

- E gosta de uísque? – Ênio perguntou, abrindo a porta armário do bar. Pegou dois copos e uma garrafa de Black Label.

- Sim!

Ênio sentou-se ao lado de Cecília, a vela entre eles. Estendeu um copo para ela e encheu uma dose. Cecília segurou o outro copo, para que ele servisse também. Ênio colocou a garrafa entre eles e tomou um dos copos da mão de Cecília.

Encararam-se em um sorriso mudo. Silêncio. A luz tremeluzia nos cabelos de fogo de Cecília e nos olhos celestes de Ênio. Trocaram olhares intensos.

- A primeira é por conta da casa. – Ênio anunciou, sem graça. Virou o copo. Cecília o seguiu. Ela segurou os dois copos de novo, para ele servir. – Fala a verdade, Cecy, você ficou mesmo com aquele tal Marcelo, o ex-namorado da Sofia?

- Não é algo que eu me orgulhe, mas aconteceu. Eu estava muito bêbada, não lembro direito o que aconteceu, mas ficamos na casa de praia da Guta. – confessou.

- Não foi de propósito? – Ênio a desafiou com o olhar. Fechou a garrafa.

- Pra quê eu ia fazer isso de propósito? Além do mais, a Sofia consegue só arrumar namorado imbecil. Ela devia namorar alguém mais na onda dela, como você. – mais direta, impossível. Cecília percebeu que Ênio ficou sem graça. – Vai, eu percebi. Você fica olhando pra ela de um jeito todo estranho...

- Ah, é... – Ênio deu um gole no uísque para ver se o assunto mudava, mas Cecília continuava ali, encarando-o com aqueles olhos esverdeados redondos. – A Sofia anda meio estranha ultimamente.

- Ela nasceu estranha. – Cecília deu um largo gole no uísque. – Mas não é incrível? Todos os caras que eu conheci preferem a Sofia. Até mesmo quando nem éramos tão diferentes. Todos sempre olham pra ela.

- O quê? Você tem ciúmes?

- Não é ciúme, é bem diferente. Parece que eu sou, sei lá, pior. – Cecília confessou, abaixando os olhos. – Não tem explicação, tem? Até o Renato já chamou a Sofia pra sair, foram no cinema juntos no começo do ano... ela disse que não rolou nada, na época dizia que gostava do Erick...

- Ai, ainda bem que ela terminou com o Erick. Cara escroto. – Ênio com raiva, deu um gole de secar o copo. – Não sei o que as meninas vêem nele. A Joyce está namorando ele agora, não é? Ela perdeu todo o amor próprio que tinha.

- Ah, ele é normal. – Cecília deu de ombros. – Confesso que a gente briga bastante, mas apesar disso, ele nunca me deixou na mão com as coisas do Jornal.

- A Joyce merece coisa melhor, ela combina com o Renato.

- É. Acho que combina. – Cecília chateou-se. Aquilo era atestar que nunca teria chance com Renato. – Eu sou meio apaixonada pelo Renato, não queria ter que passar pela experiência de vê-lo com a Joyce, ou pior, com a Sofia!

- Ah, fala sério, Cecy! – Ênio não se conformou. – O Renato é todo... sem sal. O que ele tem de interessante? Saber jogar basquete? Olhos verdes? Cabelinho loiro? Fala sério. Você é uma garota toda autêntica, de forte personalidade, o Renato não é pra você, ele é muito pouco!

Cecília gargalhou:

- Renato muito pouco?! Ele é tudo de bom e de melhor!! Todas as meninas da escola dariam tudo para ficar com ele! Eu daria, certeza.

- Não vai me convencer. O Renato deve ser daqueles caras que enjoa de tão chatos e entediantes! Aposto que ele joga tanto basquete que não deve nem saber beijar direito...!!

- Ah, eu não me importaria de ensiná-lo! – Cecília continuou rindo. – Mas confesso que no fundo, lá no fundo, sei que ele nunca olharia para uma menina como eu.

- Como você? – Ênio abriu de novo a garrafa de uísque, enchendo seus copos. – Defina-se!

- Quis dizer assim, sem nada “demais”. Eu tenho um caderninho onde eu anoto tudo o que acho dos garotos que conheço.

- Opa, conte-me mais dessa cadernetinha!

- Ah, é uma tremenda bobagem. É onde eu anoto, por exemplo, o nome e as qualidades do garoto, sabe, como se fosse uma enciclopédia. Sou bem desocupada, não é mesmo? O que quero dizer é que, se houvesse uma enciclopédia de garotas, eu não saberia o que colocar na minha página.

- Você escreve bem! – Ênio lembrou-a de seu talento.

- Acho que escrevo normal. A Mariluce vive corrigindo meus erros. Acredite! – Cecília deu um gole no uísque.

- Ah, você também está se prendendo aos detalhes errados. Não é isso que você tem que anotar!

- É o quê?

- Que você é uma garota de personalidade única, convicta de suas idéias e opiniões, decidida, que sabe o que quer, coisa que é difícil de encontrar numa garota hoje em dia... gosta de Indie rock... só aí são mil pontos! É super inteligente. É única! – e foi estranho para Ênio dizer aquilo. Pela primeira vez, notou em Cecília todas essas qualidades, que antes ele diria que eram defeitos.

- Eu sou?

- Claro que é. Por isso não sei por que os meninos se interessam mais pela Sofia do que por você, você é muito mais interessante. – pensando assim, era bem verdade.

- Puxa, obrigada! – Cecília, em uma alegria ébria, o abraçou. Derrubou um pouco de uísque no tapete.

Ênio a abraçou também. Sentiu seu corpo encaixar-se no de Cecília. Aquela sensação era confortável e estranha ao mesmo tempo. O cheiro de uísque misturou-se ao perfume cítrico de Cecília.

No meio do abraço, seus lábios se tocaram. Um beijo surgiu em simplicidade, no princípio os lábios colidiram-se duros e depois, amoleceram. Os beijos intensificaram-se, embriagando-os, acalentando-os. Sentiram o calor de seus corpos preencherem o frio daquela noite. Cecília puxou o casaco de Ênio, despindo-o. Ele a abraçou. Deitou-se por cima de Cecília, no tapete negro.







Joyce despertou na poltrona da sala, percebendo que havia adormecido ali mesmo enquanto conversava com Guta e André, que dormiam abraçados no sofá. Ouviu o barulho da porta da frente fechar e imediatamente ficou em pé, andando até a frente da casa.

Cruzou olhares com Márcio, que entrava guiando Erick.

- Ah, oi, Joyce. – o homem a cumprimentou, a barba já crescia em seu rosto.

- Você tá melhor? – ela quis saber de Erick, que bocejava.

- Agora sim... só com sono. – e sorriu, para demonstrar que estava mesmo tudo bem. – E frio.

- Oh. – Joyce notou que ainda segurava o casaco dele nas mãos. – Desculpe. Aconteceu tudo tão depressa que eu não notei que fiquei com seu casaco.

- Bem se me derem licença, vou me retirar. Boa noite. – Márcio os deixou sozinhos, subindo as escadas do seu quarto.

Joyce suspirou:

- Puxa, fiquei super preocupada... – falou com a voz chorosa.

- Ei, tá tudo bem. – Erick a abraçou. Beijou-lhe a testa. – Não morri nem nada... - Ela apertou o abraço, enterrou a cabeça no corpo do namorado. – E nem foi nada sério.

- Você me assustou... – confessou. Sentiu o nariz arder e segurou o choro bobo que insistia em querer escapar de seus olhos. – Eu fiquei com medo... achei que algo pudesse te acontecer e...

- Tá tudo bem.

- Eu sei... – ela soltou-se dele e secou os olhos. – Você tá com fome?

- Não. Só com sono...

- Certo, vamos dormir. – deu as mãos para o namorado e subiu as escadas. – Vou precisar de um pijama!

- Ah, eu te empresto aquela minha camiseta do Slipknot! – debochou, porque Joyce dizia que ela era tão velha que ele só poderia usar como pijama.

- Certo. – riu.

Subiram as escadas e foram direto para o quarto. Colocaram seus pijamas e Joyce deitou-se na cama com a camiseta do Slipknot, abraçando-se com o namorado. Erick ainda sentia o mundo rodar, com os efeitos soníferos do antialérgico, quando estava quase pegando no sono, Joyce o atrapalhou:

- Erick?

- Oi... – ela o abraçou mais forte, beijou seu rosto.

- Não me assusta assim de novo, tá?

Ele ficou em silêncio. Seria uma boa hora para ele simplesmente contar toda a verdade, não seria? Era só abrir a boca e começar a falar. Não era tão difícil e estavam ali só os dois, podiam conversar sobre qualquer coisa, inclusive sobre isso.

- Tá. – mas ele não tinha coragem.



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ESA #34 - O desastre em Família
Ter, 17 de Fevereiro de 2009

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Última atualização em Qui, 19 de Fevereiro de 2009 04:20
 
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