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ESA #35 - Se arrependimento matasse...! Enviar por e-mail
Livros - Romance

Escrito por josweetty
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Ter, 17 de Fevereiro de 2009 15:05
As gotas de chuva gelada batiam na janela quando Ênio acordou. Sentiu sede e dor de cabeça assim que abriu os olhos azuis. Despertou em susto, um pouco desnorteado pelas memórias que invadiam sua cabeça. Ao seu lado, Cecília dormia enrolada em seu edredon vermelho. Os cabelos alaranjados e lisos jogados por cima do travesseiro improvisado com almofadas do sofá.

Ênio suspirou com desassossego. Não era possível!! Examinou-se, constatando que estava sem suas roupas. Uma sensação imensa de desconforto tomou conta dele. Era arrependimento. Imediatamente sentou-se e procurou suas roupas, encontrando-as perto deles. Vestiu-se, com vergonha de si mesmo. Ah, droga. Não devia ter feito nada disso... maldita hora que convidou Cecília para beber com ele.

Com o canto dos olhos espiou a menina ao seu lado, que serena, dormia como se estivesse deitada em nuvens, e não no chão. A pele branquinha e o rosto de boneca, mãos delicadas. Será que Cecília iria mudar o que tinha escrito sobre ele em sua cadernetinha? E por que se importava com isso agora? Ele não ia com a cara de Cecília, por mais bonitinha que fosse, ele não gostava dela. Então por que tinha feito aquilo?! Ficou em pé. Tinha que fugir dali, sair de perto de Cecília o quanto antes.

Foi quando se mexeu, ficando em pé, que Cecília despertou, em susto. Seus olhos se cruzaram. Ficaram em silêncio, sérios. Um olhando para o outro com a mesma sensação de desconforto.

- É melhor eu ir embora. – Cecília anunciou com a voz meio rouca de sono. Procurou suas roupas e se vestiu com uma agilidade incrível.

Ênio continuou parado feito estátua. Nem respirou enquanto Cecília não se vestiu. Com vergonha, não a olhou, tentando respeitar uma privacidade que não mais existia entre eles. Quando Cecília ficou em pé, a sensação piorou. Ênio ficou encarando seus pés, colocou as mãos dentro do bolso da calça.

Cecília arrumou suas coisas com pressa, nem reparou que estava com a blusa do avesso, cobrindo-se com seu casaco. Evitou encarar Ênio, mas tinha certeza que ele estava fazendo o mesmo. Juntou suas coisas e passou por Ênio indo em direção a porta do apartamento.

Ênio a seguiu, sem dizer palavra alguma. Abriu a porta para ela. Cecília passou e sem despedir-se, foi até o elevador, apertando o botão negro para chamá-lo. Ênio não esperou, fechou a porta com certa pressa.

Se arrependimento matasse, estariam os dois mortos.








- Eu não tenho coragem. – Erick confessou para Guta sentado em sua cama ao seu lado, enquanto ambos jogavam videogame. – O que ela vai pensar?

- Eu acho que a Joyce gosta de você. – Guta tentou tranqüilizá-lo, mas como estava ganhando no jogo de luta, sabia que Erick estava desconcentrado. – Ela vai entender.

- A Joyce tem um quarto cor-de-rosa, Guta, ela não vai entender... ela vai me odiar pra sempre.

- Não exagera, isso também não é motivo pra alguém te odiar... se você tivesse matado alguém, eu entenderia.... – deu de ombros com simplicidade. – A Joyce gosta de você.

- Mas não muda o fato de que ela vai me odiar se souber disso...

- Você tem se controlado ultimamente!

- Mais ou menos...

- Ela gosta de você. Vai te aceitar da forma que você é.

- Ah... – ele falou chateado. O personagem com qual jogava morreu para o personagem de Guta. – Eu queria não ser assim.

- Você está me deixando preocupada com esse papo...

- Por quê?!

- O Erick que eu conheço estaria pouco se lixando pro que uma namorada acha ou deixa de achar... aliás, o Erick que eu conheço nunca namorou sério porque não leva nada a sério...

- É... isso foi antes da Joyce. – irritou-se, soltando o controle. – Ela virou meu mundo de cabeça pra baixo... eu até traí a Sofia! Eu nunca traí e nunca, nunca enganaria ninguém... olhe só pra mim! Estou enganando a Joyce...

- Não está enganando ninguém, está só omitindo certos fatos! – Guta resetou o jogo e mudou o CD. Erick estava dramático demais e isso a chateava de certa forma. Sentia que a amizade de ambos estava um pouco abalada pelos últimos acontecimentos e porque Erick passava mais tempo com Joyce do que com ela. – Vamos jogar Worms?

- Vamos... – respondeu desanimadamente. – Eu não sei o que fazer!

- Já pensou em comprar uma aliança?

- Antes de comprar uma aliança eu tinha que parar de mentir pra ela...!

- Compra a aliança, leva ela pra jantar e conta a verdade. Simples. Ela vai entender você. Jantares românticos são perfeitos. – Queria que André a levasse para um jantar romântico e entregasse-lhe uma aliança... essa era outra coisa que a chateava. André nunca faria isso com ela.

- Duvido, ela nunca fez nada de errado, como ela vai me entender?

- A Joyce te ajudou com as notas, não foi? – Guta colocou o CD e ligou o jogo.

- Foi...

- A Joyce vai te ajudar com isso também! – estava confiante de que Joyce não negaria nada para Erick, conhecia muito bem a amiga para falar essas coisa. – A Joyce é o tipo de namorada que se dedica ao máximo, faz de tudo pra agradar.

- Isso só me faz me sentir pior ainda... o que eu fiz por ela? Nada! E ainda estou mentindo... eu sou um covarde!

- Conta a verdade, Erick...

- Não posso, ela vai me odiar pra sempre.

- Caraca! – Guta reclamou, um pouco irritada. Nunca tinha visto Erick falar com tanta insegurança sobre nada. – Você tá impossível hoje. É só falar a verdade!

- É? Como eu faço isso?

- Chega pra ela e diz: Joyce, eu sou um--

- Não posso fazer isso! – Erick a interrompeu em desespero. – A Joyce vai me odiar...

- Erick, vai por mim, a Joyce não odeia ninguém. No lugar dela eu nunca teria continuado a ser minha amiga...

- Ela me disse que não tem raiva de você.

- E por isso que eu te digo que ela não vai ficar com raiva de você! Ela é uma menina super legal, compreensiva... ela vai é ficar chateada de saber que você acha que ela poderia chegar a te odiar... – e a batalha no jogo iniciou. – Vai por mim, conta a verdade pra ela.

- Não posso. Essas coisas... eu não posso chegar e dizer assim... não é normal.

- Você está me assustando... – Guta confessou.

- Por quê?!

- Daqui a pouco você vai estar ouvindo Madonna só pra agradar a Joyce... cadê a sua personalidade?! Ela gosta de você por aquilo que você é, Erick. Independente do que você ache, ela vai ter a opinião dela... e eu posso dizer com certeza que ela não vai te odiar.

- O que eu faço?

- Já te disse, compra uma aliança, diz a verdade pra ela... diz que você está apaixonado e tem medo de que ela te odeie pra sempre.... é piegas, mas ela gosta desse tipo de romance brega.

- Não consigo.

- Por quê?

- Dizer aquelas palavras e ainda contar a verdade?! Não consigo. Muita coisa de uma só vez.

- Vai por partes então, é fácil, ó... repete comigo. – Guta estava tentando ajudar. – Eu te amo.

- Não consigo.

- Repete, Erick... que saco. É fácil! Eu falo o tempo todo pro André. Eu te amo. – Guta mentiu, para encorajar o amigo. Ainda não tinha dito isso para André, porque esperava ouvir dele primeiro e por isso queria que Erick dissesse primeiro para Joyce.

- Não consigo.

- Erick. – Guta irritou-se.

- Ai, não consigo, Guta. Não vou dizer isso assim, só pra ela me desculpar pela merda de adolescente que eu sou!

- Você não quer dizer?

- Querer eu quero, mas não tenho coragem.

- É fácil. Repete! Se você falar varias vezes vai perder a importância e vai ser fácil dizer pra ela.

- Eu não quero que perca a importância. – Erick perdeu de novo no jogo para Guta.

- Erick, olha pra mim! – Guta aproveitou a parada do videogame para virar de frente para o amigo. – Finge que eu sou a Joyce. Fala tudo o que tem que ser falado.

- Não vai dar certo...

- Claro que vai, larga esse controle. – Guta tirou o controle do Playstation da mão de Erick. – Agora olha bem pra mim e finge que eu sou a Joyce. Eu vou te ajudar é só você repetir, é fácil. Repete: Joyce...

- Joyce...

- Eu preciso te dizer a verdade.
- Eu preciso te dizer a verdade. – Erick se sentiu um papagaio sem sentimentos, repetindo ao léu o que Guta dizia. Revirou os olhos.

- Mas antes, eu preciso que você saiba algo muito importante...

- Mas antes eu preciso que você saiba algo muito importante... – e antes de Guta continuar, se intrometeu. – “Preciso” de novo? Fica meio repetitivo, não?

- É bom que fique, assim ela entende melhor... – Guta suspirou impaciente. Cada coisa idiota que Erick estava dizendo!

- Tá...

- Preciso que você saiba algo muito importante...

- Preciso que você saiba algo muito importante.

- Eu te amo!

- Eu... – Erick respirou fundo. Não tinha graça dizer isso pra Guta e se sentia imbecil! Era um imbecil que não conseguia dizer pra Joyce nada, nem a verdade nem um simples carinho. - Eu te amo...

- Você o quê?! – André da porta do quarto quase morreu do coração quando ouviu aquelas palavras saírem da boca de seu irmão, meio-irmão, irmão por obrigação, pessoa insuportável que dividia o mesmo teto com ele porque era tão insuportável que nem seu padrasto agüentava-o. – Você o quê? – berrou e entrou com toda rapidez e irritação, indo segurar na gola do casaco marrom de Erick. – Você o quê?

- Calma, André, não é nada disso que você está pensando! – Guta se intrometeu.

- Ah, não? – e nesse momento ele se virou para Guta, soltando Erick. – Como não? Eu entro aqui e pego os dois trocando amores... que ridículo! Que ridículo! Eu não acredito que você fez isso de novo... – virou-se para Erick que já estava de pé ao seu lado.

- Você entendeu tudo errado! – Erick tentou argumentar, mas André nesse momento, com tanta raiva fechou o punho e deu-lhe um murro na boca, bem em cima do piercing. – Ai, merda! – e a dor foi horrível.

André irritado não pensou no que estava fazendo. Ao ver Erick levar a mão à boca e sabendo de sua superioridade tanto em altura como em força – porque Erick era mesmo um fracote magricelo – derrubou o irmão no chão e desferiu mais um soco.

- André! – Guta ficou de pé. A boca de Erick sangrou de imediato. Guta correu até ele. – O que você tá fazendo?! – Puxou o braço de André.

- Ai, André! – Erick o empurrou para longe. André caiu pra trás. – Que merda, você tá obsessivo! Seu louco.

- Já chega! – Guta segurou André, para ele não voltar a cair em cima de Erick.

- Ah, é assim? Você vai ficar do lado dele! – André se ofendeu. Sentia uma enorme raiva dentro de si mesmo. Ajeitou o moletom azul marinho, empurrou Guta e ficou em pé. – Eu tinha vindo ficar com você, mas fica aí com esse ladrão de namoradas!

- Pára com isso, André! – Erick tentou protestar. André chutou seu coturno. A mão em sangue. – Pára!

- Eu queria que você nunca tivesse vindo pra cá! – e com isso ele saiu do quarto de Guta mais rápido do que entrou, batendo a porta fechando-a em um estrondo arrebatador.

- O que deu nele? – Erick olhou para sua mão, estava cheia de sangue. – Ah, merda.

- Você tá sangrando... – Guta falou, sentada no chão.

- Tudo bem... – mas quando tentou ficar em pé, viu que não estava nada bem. Sentou de novo, tonto de tanta dor, a pressão baixou imediatamente. Sentiu calor. A visão escureceu.

- Você tá sangrando... – e Guta estava já chorando. As lágrimas escorreram de seus olhos castanhos. – Por que ele fez isso?!

- Guta...

- O que foi? – virou para ele seus olhos molhados, Erick apertava seu ombro.

- Acho melhor chamar meu pai... eu não to bem....







Renato saiu do banho e sentou-se em sua cama de toalha. Pegou o celular que ainda vibrava uma ligação em chamada. Olhou o visor e viu o número de Sofia. Uma parte do seu eu queria ignorar aquela ligação, já tinha perdido as contas de quantas haviam sido... a outra parte do seu eu, atendeu:

- Oi.

- Oi... – a voz de Sofia soou trêmula do outro lado da linha, que foi uma facada bem no meio do seu coração. Era nítido que ela estava chorando. – Eu... eu queria falar com você.

- Sobre o quê? – tentou ser grosso, o mais grosso que conseguiria ser. A voz dura como cimento.

- Sobre a gente...

- Eu não tenho nada pra dizer.

- Pois eu tenho. – Sofia não ia desistir tão fácil. Por que ele foi atender? – E não é pouco, será que a gente podia se ver?

- Não. Não quero te ver, o que você quiser falar, fala aí. – a voz de cimento continuou. Olhou no relógio da cabeceira da cama. – Eu te dou uns cinco minutos, tô com pressa.

Renato estava sendo um otário e Sofia sabia disso, mas se esse era o preço que ela teria que pagar, tudo bem. Respirou fundo e resolveu dizer de uma só vez:

- Renato, deixa de ser idiota, você não pode decidir as coisas assim sem me consultar, sem perguntar realmente o que eu quero ou que eu sinto. A menos que você tenha uma desculpa melhor para terminar comigo dessa forma, dizer que eu ainda gosto do Erick é inaceitável.

Renato engoliu seco.

- Terminar o quê com você? Que eu me lembre a gente não tinha nada.

- É assim que você quer lidar com a situação? Muito maduro da sua parte, mesmo. – agiu com ironia.

- A imatura aqui é você. – continuava como um cimento.

- Eu sei que sou. Sei que fui tola em ficar querendo manter segredo, acho que só colaborei pra você achar que eu não estava interessada em você... e talvez isso fosse verdade no começo da história mas não é mais. E eu não gosto mais do Erick...!

- Ah, para, Sofia. – Renato a interrompeu. – Eu não quero ouvir baboseiras. Já decidi.

- Decidiu? – a voz de Sofia ficou trêmula de novo. – O que você decidiu?

- Que eu não quero mais nada com você. – continuou um cimento. – Agora vê se me deixa em paz, tá bom? Não me liga mais.

- Está bem, Rê. Se essa é a sua decisão final, tudo bem. – Sofia não esperou, desligou a ligação.

Renato suspirou. Seu coração estava apertado. Aquilo era loucura. Soltou o celular e andou até o armário indo se arrumar. Segurou com força na porta. Droga, não devia ter dito aquilo... como foi idiota. Queria abraçar Sofia com força, beijar sua boca... e no fim, tinha dito aquelas coisas horríveis. Era um imbecil.

- Chega, eu não vou mais sofrer. – Sofia disse para si mesma de frente para o espelho soltando seu celular. Se Renato queria lidar assim com a situação, tudo bem! Ele estava sendo imbecil, imaturo e idiota. Mas tudo bem.

A porta do quarto abriu. Cecília entrou como um foguete, correndo para dentro do banheiro.

- Cecy? – e a porta do banheiro bateu, trancando. – Cecy?

- Me deixa em paz! – Cecília berrou lá de dentro e abriu o chuveiro, com nojo de si. Tomou o banho mais longo de sua vida.









- André? – Joyce o chamou. Ele estava sentado em frente à sua porta, com a cabeça baixa enfiada nos braços, apoiado nas pernas. – O que você tá fazendo aí?

- Eu preciso falar com você... é importante, é sobre a Guta... e o Erick.

- Aconteceu alguma coisa? – ela estava chegando do Ballet, ainda com as meias cor-de-rosa por dentro do tênis, com um moletom por cima, cobrindo os braços. Os cabelos presos em um coque com rendinha branca. – Vamos entrar está frio aqui.

- Certo... – ele ficou em pé.

Joyce abriu a porta para André e juntos caminharam até o seu quarto.

André sentou-se em cima da cama com lençol de Hello Kitty do quarto cor-de-rosa da ex-namorada. Estava tudo como sempre fora, exceto por um porta-retrato com a foto dela e de Erick. Pegou o objeto cor-de-rosa e ficou olhando a fotografia.

- Eu vou me trocar, tá? Espera aqui. – Joyce pegou no armário roupas limpas e foi para dentro do banheiro arrumar-se.

André continou lá com o porta-retrato nas mãos. As memórias do que acontecera ainda martelavam sua mente. Fazia quase dois meses que aconteceu aquela reviravolta em sua vida: Guta virou sua namorada. E pra quê? Pra depois o trair? E justo com quem? Com o imbecil do Erick!

Soltou o porta-retrato no mesmo instante que Joyce retornou, de jeans e malha lilás, os cabelos ainda em um coque, tirando a rendinha e soltando o rabo de cavalo.

- O que houve? – ela estava preocupada. Dava pra ver os olhos inchados de André, era obvio que ele tinha chorado.

- Ah, nem sei como vou te falar isso... – e deu espaço para Joyce sentar na cama também. – Você e o Erick estavam bem, não é?

- Estamos. – ela colocou a frase no presente.

- Hoje eu peguei ele e a Guta juntos. – E notou que Joyce não deu importância. – Juntos de juntos, ficando, sabe?

- O Erick?

- E a Guta. – dizer aquilo doeu mais profundamente em seu coração. Era uma facada nas costas. – Estavam juntos. Ele disse “eu te amo” pra ela.

- Não tem graça brincar com essas coisas, André. Quase morri de susto.

- É sério, Joyce.

- Sério?

André apertou a boca, sentiu vontade de chorar. Abraçou Joyce e enterrou a cabeça em seu ombro.

- Droga... eu não queria dizer isso pra você, mas pra onde eu ia?! Não tenho mais ninguém... – e começou a chorar.

- André você está me assustando... – Joyce estava confusa. Abraçou André para confortá-lo mas não queria acreditar na informação que fora passada.

- Desculpe... – ele afastou-se da garota e secou os olhos castanhos das lágrimas. – Eu sei que você gosta do Erick... não devia ter vindo aqui. Desculpe.

- Você tá falando sério? – Joyce o encarou com toda a seriedade do mundo, muito surpresa, com o coração acelerado do susto. Não era possível.

- Estou... desculpe. – André abaixou a cabeça.

Joyce perdeu todo o ar que havia em seus pulmões. Parou de respirar e o mundo perdeu todo o sentido. Tentou raciocinar com calma, pensar que ele estava pregando uma peça nela, mas era nítido que André estava mesmo chorando, estava mesmo chateado... por que ele ia mentir? Por mais inacreditável que fosse... será que Erick e Guta seriam mesmo capazes de fazer isso?

- É melhor eu ir embora, não devia ter vindo aqui. Desculpe. – André ficou em pé mas Joyce o segurou.

- Espera um pouco. – disse com a voz firme. – Você não pode vir aqui me dizer essas coisas e daí ir embora e me deixar assim! – ficou em pé e foi até sua bolsa, pegar seu celular. Discou para Erick. – Vamos tirar isso a limpo agora. – colocou no viva voz. – Não diz nada, só escuta.

Chamou algumas vezes

- Alô? – era a voz de Guta e tinha muito barulho ao redor.

- Guta? O que você tá fazendo com o celular do Erick? – Joyce segurou a gola da sua malha lilás em susto. Não era possível.

- Ai, Joyce, estamos no hospital... o Erick tá lá dentro com o Tio Márcio, não dá pra ele falar agora...

- No hospital? – Joyce não estava entendendo nada.

- Rolou uma confusão, o André meio que perdeu a cabeça e deu um soco no Erick... ai sangrou muito...

- Ai meu Deus. É verdade? – Joyce quis morrer. – Você e o Erick tão ficando? Como você teve coragem?

- Ahn? Tá doida, Joyce? De onde você tirou essa idéia maluca?!

- O André me disse que viu vocês dois juntos.

- Ele tá aí? – Guta quis saber.

André pediu para Joyce dizer que não.

- Não, ele não tá, já foi embora.

- Depois eu converso com ele então... O André não viu nada, eu não acredito que ele foi falar pra você! Que idiota! – Guta pareceu irritada. – Eu vou esperar o Erick sair e vamos pra sua casa conversar.

- Não quero conversar! – Joyce anunciou.

- Não seja idiota você também!

- Em quem eu vou acreditar Guta?

- Que tal no seu namorado, pra início de conversa? O Erick não ia fazer isso com você e você sabe!

- Então pra que ele ia dizer que te ama?!

- Não foi pra mim, sua idiota, ele tava treinando pra dizer pra você. Tá feliz agora? – Guta estava impaciente.

- Ele tava o quê?

- Ai, droga, não era pra eu dizer isso... – como sempre Guta contando o segredo dos outros. – O Erick me mata se souber... Joyce, você não vai dizer pra ele que eu te disse, né?

Joyce não sabia mais o que pensar nem o que dizer. Estava em um turbilhão de sentimentos. Primeiro tinha se assustado com a história maluca de André e agora isso. Erick queria dizer que a amava? Ao mesmo tempo que se sentia muito feliz, sentia-se muito assustada, não com a situação mas consigo mesma, porque ela queria dizer isso para ele também.

- Não, eu não vou dizer. Vem logo pra cá, Guta. – e com isso, desligou o telefone. Virou-se para André, que tinha os dois olhos arregalados. – Você não precisa pedir desculpas.

- E se ela tiver mentindo, Joyce?

- Você precisa aprender a confiar na Guta.

- Você confia no Erick?

- Confio sim.

- Eu não confio no Erick.

- Você tem motivos para não confiar no Erick, da mesma forma que eu tenho motivos para não confiar em você. Isso não anula o fato de que eu confio no Erick e nem que você deveria confiar na Guta. A Guta sempre foi fiel a você.

- É, acho que sim.

- Acho que dá tempo. – Joyce olhou no relógio.

- Tempo?

- De você pensar em uma boa desculpa para dar à Guta por ter desconfiado dela... e pro Erick, por ter mandado ele pro hospital, né?!

- É... acho que sim. – pela primeira vez André sentiu uma enorme vergonha de seus atos. Como tinha sido capaz de desconfiar de Guta dessa forma? – Acho que eu percebi o quanto eu gosto da Guta... – tinha ficado desesperado.










- A Cecília não disse que ia vir hoje? – Joaquim perguntou, em sua garagem, de cachecol preto e um moletom quadriculado branco e preto.

- Ela disse sim. – Isabella confirmou. – Deve ter acontecido alguma coisa. Sabe de algo, Ênio?

- Eu?! – ficou com as bochechas rosadas de vergonha, ajeitou cabelo azul para disfarçar. – Não, por que eu saberia? – Parecia que Isabella sabia.

- Não sei, por isso tô perguntando! – Isabella riu. Os cabelos estavam presos em duas trancinhas e ela estava com uma boina estampada com zebrinhas. – Algum resultado com os panfletos?

- Duas meninas me ligaram hoje. – Ênio respondeu, mais calmo com a mudança de assunto. – Fabíola e Tatiane. Vão vir hoje.

- Não tínhamos combinado que queríamos vocais masculinos? – Joaquim torceu o nariz, sentando-se para afinar o baixo.

- Só elas tinham respondido então eu não vi problemas...

- Acho que não tem problema também... – Isabella deu de ombros. – Só espero que elas saibam cantar pelo menos.

- Oi gente. – Cecília parou na porta da garagem. Veio sozinha, de calça jeans preta, casaco de couro e luvas. Na cabeça um gorrinho branco como a blusinha de lã de gola alta.

Ênio se sentiu arrepiar inteiro quando a viu. Perdeu até o fôlego e sem saber o que fazer, apenas abaixou a cabeça, fingindo que ajeitava alguma coisa em seu bumbo.

- Oi Cecy, a gente já estava aqui achando que você não vinha mais. – Joaquim se adiantou e beijou-lhe as faces.

- Vim fazer uma matéria sobre a busca por um vocalista! – anunciou. – A Joyce tá aí?

- Tá com o André lá em cima... – Joaquim anunciou e a forma como ele falou Cecília dos velhos tempos. – Vai lá, vamos demorar uma meia hora aqui ainda, até porque ninguém chegou.

- Tá bem. – Ela entrou, soltando o caderno em cima de uma cadeira. Cumprimentou Isabella com dois beijinhos e com toda classe fez o mesmo com Ênio. O que Cecília tinha de sobra era cara-de-pau e segurança, o que tornou as coisas ainda piores para Ênio.

Quando recebeu o beijo de Cecília em seu rosto, Ênio sentiu seu coração acelerar com a proximidade da menina. O perfume tão conhecido e a pele macia o fizeram voltar momentaneamente para a noite anterior. Aquilo o chateou. Ele queria beijá-la de novo, mas sabia que gostava de Sofia.

Quando ela foi se afastar, ele a segurou no braço. Encararam-se. Cecília foi obrigada a lidar com aqueles olhos azuis. Sentiu um enorme calor subir o seu corpo até entalar em sua garganta. Sorriu com classe afastando-se do toque de Ênio, andou até a porta que dava na cozinha.

Parou assim que fechou a porta. Respirou fundo. Maldito fosse Ênio. Recuperou a pose e foi em direção ao quarto de Joyce, que tinha a porta aberta.

Joyce estava sentada em sua cama vendo televisão com André, os dois lado a lado como antigamente, rindo de um programa de comédia.

- Estão namorando de novo? – Cecília chegou causando.

- Não seja boba, Cecy. – André quem respondeu. Endireitou-se. – Estamos esperando a Guta e o Erick.

- Ah, desculpe, não resisti à piada! – entrou rindo. – Joyce, onde estão os jornais que você guarda?

- Que jornais?

- Ué, o Ênio disse que leu uns jornais da escola que você guarda, queria ver se você tem todos que nem eu! Não sabia que você era minha fã!

- Deixa de ser boba Cecy, eu trago eles sempre pra casa, mas não guardo. – riu.

- Ah, que pena, achei que tinha uma verdadeira fã! – e foi sentar-se com eles. – Credo que foto horrível. – pegou o porta-retrato cor-de-rosa, que tinha a foto de Erick e Joyce. – Não tinha nenhuma foto melhorzinha?

- Eu gosto dessa. – Joyce torceu o nariz. – Está tendo ensaio?

- Está. Vamos ficar lá embaixo comigo? A Sô não veio hoje, ela anda meio mal-humorada.

- Vamos sim, vou pegar um casaco. – Joyce ficou em pé.

- Ver vocês dois juntos me deu saudades dos velhos tempos. – Cecília comentou. – Lembra quando a gente sempre andava juntos?

- Lembro sim. – André sentiu saudades também, de andarem todos juntos. – Ah, bem que podíamos dar uma festa, não é mesmo?

- Uma festa? – Cecília interessou-se.

- É, pensa bem, o Erick vai viajar pra Brasília, podíamos fazer uma festa de despedida!
- É uma boa idéia. Mas ele não volta mais? – Cecília até se animou em pensar que Erick e Joyce estariam separados.

- Claro que ele volta. – Joyce respondeu. Colocou um casaco vermelho. – Ou eu me mudaria para Brasília!

- Tá brincando, né Joyce? Você merece coisa melhor que o Erick.

- Olha Cecília, todo mundo sabe que você adora implicar com os outros, mas isso é muito feio da sua parte. – André se intrometeu, ficando em pé. – A Joyce gosta do Erick e ele gosta dela, você como amiga da Joyce não devia falar essas coisas.

- Desculpa se o seu irmão é um perdedor.

- Pensa bem, se o Erick a sua coluna do jornal estará condenada as fotos do Adalberto que você tanto reclama! – André defendeu o irmão. Não sabia porque estava fazendo aquilo, mas estava.

- Quem vê até pensa que você gosta do Erick! – Joyce riu, dando um tapa no braço de André.

- Só eu posso falar mal dele.

- Tudo bem, desculpe, Joyce. Você sabe que eu falo da boca pra fora. – Mas a verdade era que Cecília era sincera quando falava aquelas coisas de Erick. Ela não gostava dele e ponto final. E gostar de seu trabalho como fotógrafo nada tinha a ver com gostar ou não de Erick.

- É eu sei. – mas sabia que não. – Vamos?

- Vamos! – Cecília animada foi a primeira a deixar o quarto.

- Obrigada André.

- Ah, de nada. – ele saiu em seguida.



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Última atualização em Qui, 19 de Fevereiro de 2009 04:20
 
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