Autores.com.br

EntrarCadastrar-se
A+ R A-
Enviado por: lu1968
lu1968

O SERVIÇO SOCIAL NO FORTALECIMENTO DA AUTONOMIA DOS ADOLESCENTES DIANTE DA SEXUALIDADE:

Enviar por e-mail
DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho ao meu marido Raul, pelo carinho, respeito e sensibilidade de entender este processo. A sua parceria foi de fundamental importância. E ao meu lindo e querido filho Dudu, por ser a minha luz e minha força em todos os momentos. Aos dois, muito obrigada! Esta conquista é nossa!

HOMENAGEM DE GRATIDÃO

A minha mãe e Assistente Social Lorena Bandeira Recuero por me fazer conhecer e me encantar com o Serviço Social, através de lindos exemplos de amor a profissão.
A minha maravilhosa amiga e cúmplice Angélica Laipelt, por me permitir construir esta história ao seu lado, pois sem esta parceria a trajetória seria menos prazerosa.
A amiga de rara beleza Lúcia Cocolichio, que se foi e nos deixou com tanta saudade, pelo modelo único de bondade e doação.
A minha nova e essencial amiga Adriana Antunes, pela amizade, disponibilidade e carinho que sempre me dedicou.
A minha querida irmã Bel e as grandes amigas Mônica e Neti, pelos choros e risos no bar do Beto.
As minhas orientadoras: Profª Olema Pellizer por ter gerado esta idéia comigo e Profª Kelines Cabral Gomes por tê-la mantido viva. Eu agradeço as duas de todo coração.
A todos os professores que cruzaram meu caminho e que deixaram marcas na minha formação e no meu coração.
A todos os adolescentes da Instituição Vida Centro Humanístico, por me permitirem compartilhar do seu universo.

MENSAGEM


"Bem queria atender, mas não adianta; se fico sossegada e séria, todos pensam que estou tramando alguma e então, tenho que sair da situação inventando nova brincadeira; isso sem falar na minha própria família, que certamente pensaria que estou doente e me faria engolir comprimidos para dor de cabeça, para os nervos, me apalparia o pescoço e a cabeça para ver se tenho febre, me perguntaria se ando com prisão de ventre e, não achando nada, acabaria me criticando por meu mau humor. Não agüento esses cuidados: se me fiscalizam fico malcriada, depois infeliz e finalmente, viro meu coração do avesso para que o lado mau fique de fora e o bom para dentro, e continuo tentando encontrar a maneira de ser como desejo ser, como poderia ser, se... se não houvesse mais ninguém vivo neste mundo..."
Anne Frank


INTRODUÇÂO
O presente trabalho de conclusão de curso aborda a temática da sexualidade na adolescência, delimitando-a na questão do fortalecimento da autonomia, buscando responder à seguinte pergunta: "Como o Serviço Social pode contribuir para o fortalecimento da autonomia dos adolescentes na construção da sexualidade?" Portanto, tenho como objetivo analisar como vem se dando o enfrentamento do adolescente em relação às questões que envolvem a sua sexualidade, a fim de qualificar a política da criança e do adolescente, junto aos usuários inseridos no programa da rede básica SASE - Serviço de Atendimento Sócio-educativo. A temática que desenvolvi neste trabalho foi escolhida a partir das vivências no processo de Prática Profissional I e II, em que evidenciei a necessidade da atuação do Serviço Social junto a esta questão.

A adolescência é um tempo de transição que antecede a fase adulta, marcada por conflitos psicológicos e mudanças físicas, período em que os jovens sofrem rápidas transformações. Adolescer é considerado o momento mais difícil do ciclo vital, exigindo maiores cuidados. A partir disso, torna-se imprescindível a fundamentação teórico-prática, considerando que a interpretação desta realidade possibilita um grande acréscimo na nossa formação profissional.

A relevância social do tema sexualidade na adolescência justifica-se pela necessidade de a sociedade ficar mais atenta aos sinais que os adolescentes apresentam. Muito se fala sobre as mudanças de costumes na contemporaneidade e grande parte das discussões é dirigida à conduta dos jovens. Este trabalho justifica-se no momento em que mostra a importância do fortalecimento da autonomia do adolescente como sujeito na construção da sexualidade para enfrentar este período de transição com maior compreensão do seu universo.

Sendo a sexualidade o eixo em torno da qual vai progressivamente se estruturando a identidade, é na adolescência que se busca a afirmação. A partir disso, analisar o enfrentamento dos jovens em relação as suas questões tendo como fio condutor a sexualidade na atual realidade toma uma proporção significativa, pois se constitui num exercício fundamental para a prática profissional, uma vez que a investigação permite visualizar demandas atuais, bem como construir, coletivamente, propostas e práticas interventivas, capazes de responder, efetivamente, às emergentes necessidades sociais.

Para atingir os objetivos, o trabalho foi estruturado em três partes: no primeiro capítulo, apresentarei um breve olhar sobre a adolescência, procurando entender esta etapa sob uma ótica multidimensional, seguido pela trajetória do adolescente na sociedade como sujeito, procurando identificar os possíveis avanços conquistados.

No segundo capítulo, farei apontamentos sobre sexualidade através dos tempos, com o intuito de visualizar as mudanças ocorridas ao longo da história. Após, apresentarei como vem se formando o adolescente contemporâneo, identificando as fragilidades desta etapa no atual contexto, procurando pontuar as influências por ele recebidas.

No terceiro capítulo, discorrerei um sucinto histórico do Vida Centro Humanístico de Porto Alegre como espaço institucional e como se desenvolve o processo de trabalho do Serviço Social na instituição. Por fim, apresentarei o Projeto de intervenção qualificada tendo a proposta de grupo como alternativa de fortalecimento da autonomia dos adolescentes diante da sexualidade, identificando as fragilidades evidenciadas através dos encontros, permitindo ressaltar a importância do Serviço Social neste processo.

Finalizarei o trabalho com algumas considerações que a pesquisa bibliográfica e a análise das Práticas profissionais I e II me permitiram construir.


1 O CONTEXTO DA ADOLESCÊNCIA

A partir do momento em que a sociedade moderna reconheceu a adolescência no processo de vida humana e quando esta se tornou passível de compreensão e representação, passamos a tomá-la como um fenômeno individual e social. Este capítulo nos traz elementos de reflexão, objetivando possibilitar-nos um olhar mais amplo, sobre como se manifestam as transformações nesta fase do ciclo vital dentro de um contexto multidimensional, buscando também apresentar um sucinto resgate histórico da trajetória do adolescente como sujeito na sociedade, procurando identificar as mudanças do conceito e princípios referentes a esta etapa. Sabe-se, desde já, que tal retomada será parcial, considerando a vasta dimensão do tema.

• 1.1 Adolescer: Um breve olhar

Segundo Outeiral (1994), a palavra adolescência assinala muito bem esta etapa do ciclo vital, pois
Tem uma dupla origem etimológica e caracteriza muito bem as peculiaridades desta etapa da vida. Ela vem do latim ad (a, para) e olescer (crescer), significando a condição ou processo de crescimento, em resumo o indivíduo apto a crescer. Adolescência também deriva de adolescer, origem da palavra adoecer. Temos assim, nesta dupla origem etimológica, um elemento para pensar esta etapa da vida: aptidão para crescer (não apenas no sentido físico, mas também psíquico) e para adoecer (em termos de sofrimento emocional, com as transformações biológicas e mentais que operam nesta faixa da vida). (p.6)

É importante ressaltar a dificuldade de se tentar enquadrar a adolescência cronologicamente, pois ela é descrita muitas vezes como uma fase surgida apenas no século XX, mas pode-se encontrar referências ao comportamento típico do adolescente desde há muito tempo, quando este já demonstrava uma conduta rebelde e irreverente, como Sócrates (Apud Souza, 1996) nos traz em sua citação:

Nossos adolescentes atuais parecem amar o luxo. Têm maus modos e desprezam a autoridade. São irrespeitosos com os adultos e passam o tempo vagando nas praças, mexericando entre eles... São inclinados a contradizer seus pais, monopolizam a conversa quando estão em companhia de outras pessoas mais velhas; comem com voracidade e tiranizam seus mestres". ( p. 5).

Para podermos nos situar com uma maior precisão sobre o período cronológico dessa etapa, embasamos-nos nas idéias de Bee (1997). A autora vê a adolescência como um período de transição que difere entre as sociedades e culturas. Em nossa cultura, esse estágio costuma ser prolongado, dos doze aos dezoito anos, até mesmo mais.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente:

Artigo 2º - Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade.
Parágrafo único - nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade.

Conforme o ECA a idade da adolescência no Brasil se limita dos 12 (doze) aos 18(dezoito) anos, mas esta definição se deu para fins de aplicação das leis, porque se formos analisar esta etapa em um contexto mais amplo, sabemos que é definido mesmo, conforme a maturidade do sujeito; pois hoje se fala em adolescência precoce e adolescência tardia sem se fazer referência às transformações pubertárias. A adolescência precoce caracteriza o momento anterior ao aparecimento das características indicativas da puberdade[1]; e a adolescência tardia, a sua manutenção, quando, pelos critérios biológicos, o indivíduo já é um adulto. Então, podemos entender que a puberdade trata-se de um fenômeno que ocorre em um determinado momento do período de adolescer e a adolescência é uma etapa do ciclo vital.

Sobre a puberdade, Osório cita, em sua obra, trechos do aclamado diário da jovem Anne Frank[2] (Apud Osório, 1989), no qual ela transcreve quando passa a ter sensações diferentes relativas ao período da puberdade:

Penso que é tão maravilhoso o que me acontece_ não só o que aparece em meu corpo, mas o que se realiza por dentro... Cada vez que tenho menstruação _ e isto só aconteceu três vezes! _ sinto que apesar de toda a dor, desconforto e sujeira, possuo um segredo delicado e é por isso que, embora de certo modo não passe de uma maçada, eu anseio pelo tempo em que sentirei dentro de mim aquele segredo...Depois que vim para cá, logo ao fazer 14 anos comecei a pensar em mim, mais cedo que a maioria da meninas, e a perceber que era uma "pessoa". Às vezes deitada na cama de noite, tenho um desejo terrível de apalpar meus seios e escutar as batidas calmas e rítmicas do meu coração... Vi no espelho o meu rosto; esta bem diferente, meus olhos estão límpidos e profundos, minhas faces estão rosadas e _ coisa que há semanas não acontece_ minha boca está macia... Sinto dentro de mim a primavera que desperta em todo o meu corpo e na minha alma... Estou tão confusa, não sei o que fazer, só sei que sinto em mim um querer! (p.22)

Através dessa passagem, Anne vivencia a emergência da sua sexualidade de forma difusa e perturbadora através do desabrochar da puberdade, constatando as mudanças do seu "eu", descobrindo os mistérios biológicos da natureza de seu corpo aflorando por meio do desejo, momento típico desta fase. O jovem, neste processo, passa a se enxergar com outros olhos, vê-se diferente, não entende ao certo o que está lhe acontecendo. Neste momento o jovem sofre com a dificuldade de expressar este anseio e pedir ajuda, pois nem todos que o cercam percebem essas mudanças.

Segundo Erickson (Apud Osório, 1989), na adolescência o indivíduo vive um momento de "crise", mas no sentido positivo, ou seja, o significado dessa crise não pode ser considerado uma catástrofe, e sim um ponto conjuntural necessário ao desenvolvimento, pois, a partir dela, é que o adolescente define melhor seus objetivos, adquirindo novos conhecimentos, reestruturando-se e amadurecendo. Este período é fundamental e necessário, podendo resultar em um ser mais saudável, maduro e preparado para enfrentar a vida adulta.

Erickson (1971) comenta que a principal tarefa do adolescente é adquirir a identidade, que ele definiu como a consciência de quem se é e para onde se está indo, e este momento normalmente é difícil para o adolescente, pois ele encontra o universo social e cultural a lhe exigir mudanças, para as quais muitas vezes não está preparado. Podemos citar, como exemplo, o relato de Anne Frank (Apud Osório, 1989)

Um dia Anne é tão ajuizada que consentem que tudo saiba; e no dia seguinte ouço que Anne é uma cabrita estouvada que não sabe nada... Às vezes tenho um jeito esquisito: consigo ver a mim mesma como se fosse pelos olhos de outra pessoa. Então observo os negócios de certa "Anne" e percorro as páginas de sua vida como se fosse uma estranha. De súbito uma segunda Anne tomou seu lugar, uma segunda Anne que nada tem de estouvada e brincalhona e só deseja ser muito meiga e amar. Já lhe disse antes que possuo, por assim dizer, personalidade dupla. Em metade encarna-se minha alegria exuberante que faz graça de tudo, meu entusiasmo e, sobretudo o modo porque levo tudo com pouco caso. Aqui inclui-se o caso de não me ofender um beijo, um abraço, uma pilhéria suja. Este lado, quase sempre, está à espreita e empurra o outro que é muito melhor, mais profundo e mais puro. Você precisa compreender que ninguém conhece o melhor lado de Anne e por isso a maior parte das pessoas me acha insuportável. (OSÓRIO, p.23)

É possível contemplar, através do desabafo de Anne, as oscilações de sentimento de identidade que caracterizam esta etapa. A dicotomia criança-adulto, que, por muitas vezes, traz ao adolescente a sensação de ter outras pessoas distintas dentro de si, revela-se de forma assustadora. O adolescente já não se sente como criança, mas por momentos procede como tal e ao mesmo tempo adota determinadas atitudes que demonstram um comportamento adulto e maduro.

Aos poucos, os adolescentes começam a mesclar valores diferentes, de todas as espécies de fontes, expressas pela família, mídia, escola e por seus grupos de afinidade, criando através dessas influências os seus próprios valores. Anne Frank (Apud Osório 1989), em seu diário, deixa claro o momento em que passa a se entender como indivíduo, manifestando seus desejos e a busca de sua afirmação, pois parte da resolução da crise de identidade diz respeito a deixar de ser uma pessoa dependente para tornar-se independente.

Eu mesma tomarei o leme de minha vida e mais tarde procurarei onde aportar. Apesar de só ter 14 anos sei bem o que quero_ tenho idéias minhas, princípios meus, opiniões minhas e, mesmo que vindo de uma adolescente isso pareça loucura, sinto-me mais como pessoa de que como criança e bastante independente de quem quer que seja...Cheguei ao ponto em que posso viver por mim mesma. Mas isso não sucedeu da noite para o dia; foi amarga, foi dura a minha luta e muita lágrima chorei até que me tornasse independente como agora sou. Sei que sou individualidade à parte e não me sinto responsabilidade alguma de nenhum de vocês. Sou independente de espírito e corpo. Não preciso mais de mãe, pois todo este conflito me tornou forte.

O adolescente, ao buscar sua identidade, opõe-se aos valores estabelecidos, busca sua autonomia, o que faz gerar conflitos com a família, mas essa autonomia não significa independência. Segundo Faleiros, a autonomia implica,

o poder viver para si no controle das próprias forças, e de acordo com as próprias referências...implica a aproximação pela consciência, da necessidade que está inscrita na história e pelo descobrimento e uso da própria força no contexto em que as necessidades e possibilidades se inscrevem. (2003, p.63).

Parafraseando o autor, a autonomia existe quando o sujeito passa a adquirir potencialmente a capacidade, através da sua própria força e consciência, de conduzir a sua própria vida. Mas, no caso dos adolescentes, as estruturas biológica, mental, afetiva e social se assemelham às do adulto, mas falta-lhes a experiência, que é o elemento que vai dirigir as correções necessárias, alimentando o funcionamento dessas estruturas.

Del Nero (2002) comenta ainda que um dos grandes desafios da adolescência é o estabelecimento de um código de ética próprio. É na adolescência que o indivíduo, a partir de todos os referenciais de valores que recebeu dos seus pais, da escola, da mídia, da religião, dos colegas e de todas as experiências que passou na sua vida, vai constituir o seu próprio código de ética e este é, inclusive, um dos sinais que indica a conclusão da adolescência.
A construção do ser adulto impõe ao adolescente o enfrentar-se com uma série de tarefas; vencê-las depende não apenas do sujeito, mas do seu passado e do seu meio. Se as vivências forem satisfatórias, ele terá mais condições de fazê-lo.

Na próxima parte deste trabalho, será tratada a trajetória do sujeito adolescente na sociedade, procurando identificar como a adolescência surgiu no contexto histórico e como ela era compreendida diante do ponto de vista social, tendo por objetivo identificar os possíveis avanços conquistados.

• 1.2 A TRAJETÓRIA DO "SUJEITO" ADOLESCENTE NA SOCIEDADE

Vittielo (1988) afirma que o conceito de adolescência existe há pouco mais de 300 anos, pois, antes disso, não se fazia menção a esta etapa da vida, considerando que até mesmo a infância não era reconhecida.

Ariès (1981) refere que, na sociedade medieval, o sentimento da infância não existia. Não havia a consciência da particularidade infantil, isto é, a distinção entre criança e adulto. A idéia de infância estava ligada à idéia de dependência, e a saída dela para o ingresso pleno no mundo dos adultos ocorria quando a criança tinha condições de viver sem a solicitude constante de sua mãe ou ama. Nesse momento, ela ingressava na sociedade dos adultos, sem se distinguir mais deles. Essa indeterminação da idade se estendia a todas as atividades sociais, aos jogos e brincadeiras, às profissões e às armas.

No final do século XVIII, a percepção que até então se tinha da criança foi gradualmente se modificando e a concepção de infância como uma etapa distinta da vida se consolidou na sociedade. Essa percepção, de acordo com Ariès (1981), é concomitante à constituição da família nuclear, do Estado-Nação e da nova organização do trabalho produtivo. A criança foi, então, excluída do mundo do trabalho e de responsabilidades; foi separada do adulto, não participando mais de atividades nas quais até então a sua presença era usual.
Neste período a criança passa a estabelecer uma nova relação com os pais. O fortalecimento da família deixa de ser uma unidade econômica para tornar-se um lugar onde se estabelecem relações de sentimento entre o casal e os filhos. Para combater essa atitude potencialmente desintegradora, o Estado e a Igreja surgem com novas estruturas educativas: os colégios. A infância, então, é enquadrada em lugares separados e fechados, sob a autoridade de especialistas adultos.

Ariès (1981) nos coloca que, a partir do momento em que a infância é encerrada nas escolas, surge a despreocupação dos cuidados para com os jovens. As famílias passam a ter um novo comportamento, considerando o modelo imposto pela sociedade antiga desprezível, destacando para esta ascendência moral o efeito de um fenômeno burguês, caracterizando o sentimento de família relacionado ao sentimento de classe.

Segundo Ariès (1981), a partir do século XIX, a figura do adolescente é delineada com maior precisão, sendo para o menino o período que se estende entre a primeira comunhão e o bacharelado e, para a menina, da primeira comunhão ao casamento. A constante vigilância aos adolescentes e o distanciamento com que são tratados por suas famílias despertam uma necessidade de conquista de sua privacidade e esta é alcançada através dos diários íntimos e das amizades. A escolha de uma amiga íntima constituía-se em episódio importante na vida de uma adolescente. Era, também, intensa a amizade entre os adolescentes do sexo masculino, povoada dos relatos das experiências vividas, principalmente as confidências amorosas e sexuais. Sabe-se que a adolescência constitui a fase dos sonhos, porém os sonhadores eram considerados suspeitos, porque sonhar era considerado um mal e o corpo era massacrado para não cair em pecado. A partir disso, produziram-se adolescentes rígidos e controlados "porque a civilidade é o que resta quando nada se aprende. Ao longo deste século, a adolescência passa a ser reconhecida como um momento crítico da existência humana e temida pela sociedade por ser considerada uma fase de potenciais riscos para o próprio indivíduo. A partir disso, a adolescência torna-se tema presente de estudos de médicos e educadores.
Ariès (1981) aponta que a família do século XIX era caracterizada por ser nuclear, heterossexual, monógama e patriarcal, possuidora de um modelo excessivamente rígido e normativo. Nesse período o filho homem era o centro das atenções, o herdeiro viril para servir à pátria, sendo educado sob rígidas e violentas normas. Essa família era dominada pela figura do pai: ele era a honra, o chefe, o gerente e seus interesses sempre prevaleciam sobre as aspirações dos membros que a compunham, dispondo da vida dos filhos e da esposa conforme lhe convinha. A mulher se restringia a uma figura sem vontades próprias e sem expressão, destinada ao lar e aos muros de sua casa, dedicando ao marido fidelidade absoluta.

No século XX, após os períodos das duas grandes guerras, surgem movimentos que inauguram um novo estilo de mobilização e contestação social, bastante diferente da prática tradicional. A constatação do fracasso criada pelas gerações anteriores por meio das guerras, injustiças sociais, violência, opressão e a transformação do homem pela sociedade de consumo, explodiram na consciência dos jovens que passaram a se manifestar, às vezes recorrendo através do apelo pela paz e, por outras, usando das armas e da violência. Inicialmente, o fenômeno seria caracterizado por seus sinais mais evidentes: cabelos compridos, roupas coloridas, misticismo, um tipo de música e drogas, mas rapidamente, no entanto, ficaria claro que aquele conjunto de manifestações não se limitava a essas marcas superficiais, pelo contrário, significava uma nova maneira de pensar, modos diferentes de se relacionar com o mundo e com as pessoas. Os jovens passariam a tentar transformar tudo o que estivesse estabelecido e consagrado: valores e instituições, idéias e tabus.

Em resumo, o adolescente foi gradativamente conquistando uma maior expressão na sociedade, mas, desde já, pode-se afirmar que esta construção se deu de maneira lenta, permeada de proibições e controle. Nesse processo chegamos até a adolescência contemporânea com fortes seqüelas que dificultam o cotidiano do adolescente. Partindo dessa perspectiva, no próximo capítulo será trabalhada a temática do adolescente de hoje, tendo como fio condutor a sexualidade, já que esta é conseqüência natural do desenvolvimento do indivíduo e de suas relações.

2. SEXUALIDADE: UMA ABORDAGEM REFLEXIVA

Quando se fala de sexualidade, pressupõe-se falar de intimidade, uma vez que ela está estreitamente ligada às relações afetivas. A sexualidade é um atributo de qualquer ser humano e, para ser compreendida, não se pode separá-la do indivíduo como um todo. Ela é parte integrante e intercomunicante de uma pessoa consigo mesma e para com as outras. Portanto, é muito mais do que simplesmente ter um corpo desenvolvido ou em desenvolvimento, apto para procriar e apresentar desejos sexuais trata-se, também, de uma forma peculiar que cada indivíduo desenvolve e estabelece para viver suas relações pessoais e interpessoais a partir de seu papel sexual. Daí se pode afirmar que a sexualidade é um instrumento relacional importante, que se expressa concretamente nas relações que o sujeito estabelece, desde a mais tenra idade, consigo mesmo e com os outros.

2.1 APONTAMENTOS SOBRE A HISTORICIDADE DO CONCEITO.

Em Costa (1986), encontramos que a nossa civilização ocidental tem suas raízes entre o povo hebreu, de quem foram herdados os princípios morais, legais e religiosos. Os hebreus adotavam a forma patriarcal de casamento e o consideravam de cunho divino. Da mulher era exigido que se mantivesse virgem até o casamento, mas não além da juventude, portanto, nesse período, as jovens se entregavam ao casamento muito cedo, praticamente crianças.
O autor pontua que a função reprodutiva também era a mais importante no casamento, uma vez que havia necessidade de homens para as infindáveis guerras de conquistas de novos territórios. As meninas eram educadas para as tarefas domésticas e preparadas para se casarem logo após as primeiras menstruações, geralmente com homens mais velhos, e os meninos, ao contrário, eram desestimulados ao casamento antes dos 21 anos de idade. As masturbações eram condenadas pelo medo do enfraquecimento e perda de energia, no entanto o homossexualismo era estimulado, mas somente com os mestres responsáveis pelo desenvolvimento moral e intelectual dos jovens aprendizes, até que estes terminassem seus estudos.

Já para os romanos, os costumes sexuais compreendiam todas as formas e tipos. Com a riqueza que possuía, a classe dominante entregava-se totalmente aos prazeres sexuais: as orgias eram intensas e não existia nesse período nenhum culto à virgindade e à castidade.

Com o advento do Cristianismo e a decadência do império romano, apareceram outros hábitos e outros costumes diferentes do que até agora se havia colocado, pois "a virgindade passa a adquirir cunho religioso; a castidade é exaltada. Homens e mulheres se casam e, muitas vezes, se mantêm virgens por toda a vida." (COSTA, 1986.p.15).

Neste momento a sexualidade passa a ser reprimida. A doutrina cristã construída pela Igreja transforma o comportamento sexual, passando tudo a ser "pecado". O sexo passa a ser visto única e exclusivamente para reprodução e desvinculado do prazer, favorecendo, então, o surgimento de um ideal celibatário, que tinha como princípio a idéia de que a castidade era a maior virtude.

Segundo Gauderer (1994), as regras foram surgindo como mitos e tabus para estabelecer limites ao sexo. Um exemplo era o tabu do incesto, cuja finalidade era evitar a mistura de material genético de pessoas consangüíneas, o que poderia acarretar uma deterioração da espécie. Da mesma forma, o uso de roupas cobrindo partes eróticas e sensuais do corpo tinha como objetivo não estimular eventuais parceiros. Por outro lado, os tabus e mitos a respeito da masturbação, sexo anal e homossexualismo originaram-se exatamente por não se tratarem de atividades procriativas, pondo em risco a perpetuação da espécie. Segundo o autor citado, esses mitos surgiram numa época em que a sobrevida do ser humano girava em torno dos 30 anos e havia necessidade de homens para as guerras, lavouras e para o trabalho.
Costa (1986) ressalta que a sexualidade dentro da concepção religiosa é carregada de tabus que afetam na maneira de encará-la, e o primeiro deles refere-se ao "pecado" de Adão e Eva, a partir do qual tudo o que diz respeito ao relacionamento sexual está ligado a um sentimento "de vergonha". Outros tabus são os de que os anjos são assexuados e, portanto, puros, e o diabo representa a sexualidade vivida em promiscuidade. Todos os tabus atestam uma atitude desfavorável da igreja com relação ao sexo e ao prazer.

Na Idade Média, com os mecanismos de controle da Igreja, a sexualidade passa a ser motivo de condenação ao inferno, sendo que, diante da confissão, as pessoas expunham os seus mais íntimos segredos relacionados ao sexo. Mesmo com tudo isso, pode-se dizer que não houve um controle total da sexualidade na Idade Média, pois, neste período,

as casas não tinham quartos separados entre homens e mulheres. A linguagem da sexualidade era rica e picante, músicas, piadas, formas de expressão. Todo esforço da Igreja não fora capaz de enquadrar o materialismo das camadas populares. Sexo com animais, sexo entre clérigos, tudo isso era proibido e praticado. (NUNES, 1987, p.63)

Parafraseando o autor, neste período a Igreja ainda não conseguia controlar de forma plena o povo, pois as camadas mais baixas ainda mantinham atos considerados "pecadores", indo contra o que pregava a Igreja em relação à sexualidade, enquadrada como maléfica.

A partir do século XVI, segundo Costa (1986), as normas, os valores cristãos e as necessidades do Estado foram emoldurando a sexualidade, principalmente a partir de quando inicia o processo de modernização da sociedade e a ascensão da burguesia, aliando as influências da Igreja e dos moralistas no controle da vida social. Quando o autor se refere à modernização da sociedade, podemos dizer que, neste momento, a sociedade passa a ter um novo padrão, foram se distribuindo e produzindo riquezas, o homem modifica-se social e psicologicamente, passa a adquirir um comportamento mais individualizado.

Foucault (1988) nos traz que, no século XVIII, o sexo foi colocado em discurso. Em vez de uma restrição, o que se viu foi um mecanismo crescente de estimulação com o nascimento das ciências humanas, originando uma explosão discursiva, quando

houve um refinamento do vocabulário autorizado, um controle das enunciações, definiu-se onde e quando falar sobre sexo, em quais situações, quais os locutores e interlocutores. Essa foi a forma que a sociedade contemporânea encontrou de vigiar, normatizar e controlar a sexualidade, falando intensamente sobre ela. (p.21)


Para o autor, nesse momento se passou a falar sobre sexo demasiadamente e esta medida ainda sofreu uma maior intensificação quando houve um maior conhecimento científico sobre sexualidade, usando-se, na forma de expressá-la, informações aprimoradas e falas rebuscadas, visando à intenção de controle.

Esta explosão descrita pelo autor surge concomitantemente com o nascimento do capitalismo, pois, nesse período, existia um grande interesse em que o homem não dispensasse suas forças com sexo em demasia, pois poderia refletir na sua produção junto ao trabalho. A partir deste momento, houve uma mudança no comportamento da sociedade. O casamento, por exemplo, passa a ser considerado uma unidade de preservação que exalta a noção de família unida, e o lar passa a ser um ambiente distinto e separado do trabalho.

Surge, então, através disso, o amor romântico, como nos aponta Giddens (1993), que vincula a idéia de liberdade para a busca do parceiro ideal, considerado um aspecto desejável no matrimônio. O amor romântico, juntamente com outras mudanças sociais, afeta a visão sobre o casamento até então e suscita a questão de intimidade e de cumplicidade do casal. O sexo se une ao amor e começa a fazer parte do casamento, dada a possibilidade de escolha do parceiro, unida à preocupação da criação dos filhos. As famílias passaram a se preocupar em limitar o número de filhos, iniciando, então, um interesse em relação a métodos contraceptivos e de planejamento familiar.
Seguindo na perspectiva de planejamento familiar, as mulheres adquirem uma maior autonomia em relação ao sexo, pois este, em grande parte dos períodos da história, estava intrinsecamente ligado ao medo das gestações repetidas e, por muitas vezes, devido à precariedade de condições, acabava resultando na morte do filho, da mãe ou de ambos. Em conseqüência disso, as mulheres começaram a se ausentar sexualmente, o que decorreu nas traições dos maridos, pois para os homens,

As tensões entre amor romântico e o amor paixão sexual eram tratadas separando-se o conforto do ambiente doméstico da sexualidade da amante prostituta. O cinismo masculino em relação ao amor romântico foi prontamente amparado por esta divisão, que não obstante aceitava implicitamente a feminilização do amor "respeitável". (GIDDENS, 1992, p.54)

Parafraseando o autor, a mulher idealizava um amor distinto do homem, fantasiando um romance sonhador ao qual o parceiro não conseguia corresponder, pois o marido considerava que a mulher deveria ser tratada com "respeito" e que as necessidades sexuais dele deveriam ser providas por meio de prostitutas, assim ele preservaria a imagem casta de mãe e de esposa do seu cônjuge. Podemos ver nesse aspecto como o confinamento da sexualidade feminina ao casamento era importante como um símbolo de mulher "respeitável".

Nesse período o capitalismo inaugura um enorme progresso nas comunicações, fazendo surgir as grandes massas consumidoras e, no século XX, explodem os movimentos de contestação: os jovens, o rock, os grupos feministas, negro, homossexual. Houve muitos avanços em relação a questões que não eram abordadas, uma maior libertação sexual foi conquistada pelas mulheres, os jovens contestavam através da música, os homossexuais passaram a manifestar seus princípios na intenção de serem ouvidos e o capitalismo apreende a sexualidade com um grande grito e a incorpora a sua máquina de consumo, transformando o sexo em objeto de consumo por excelência, pois "toda a propaganda passa a falar de sexo, a estimular e referir-se aos anseios sexuais de nosso tempo. Até mesmo as coisas mais simples são vendidas com o distintivo do sexo." (NUNES, 1987, p.74).
Nesse sentido, o sexo torna-se o meio de suprir a ansiedade, chegando ao exagero, tornando as relações cada vez mais mecanizadas, isto é, completamente desconectadas da afetividade e contaminadas pelo princípio do desempenho, valorizando as ações, e não o sentimento, fenômeno comum da sociedade contemporânea.

Nos anos 80, instala-se o medo e o terror com o surgimento da AIDS[3]. Mais importante do que discorrer sobre as suas causas e formas de transmissão, interessa-nos, sobretudo, a sua relação com o comportamento sexual da sociedade contemporânea. As primeiras informações sobre a doença já vieram acompanhadas de uma forte relação junto a dois grupos: os homossexuais e viciados. O preconceito que já existia então se estabelece mais rigorosamente e a doença passa a ser vista mais como um veículo de discriminação social e de preconceitos do que uma questão de saúde, o que caracteriza todo um claro contexto de repressão assimilado ao longo da história.

A chamada revolução sexual tem levado até as últimas conseqüências a idéia do libere-se, o que se faz presente na necessidade, por parte do sujeito atual, de vivenciar situações novas e na dificuldade de estabelecer relações afetivas mais duradouras e estáveis, pois o prazer fala mais alto e determina que o sexo precisa ser uma coisa absolutamente descomplicada e descomprometida, sugerindo que quem não vive sob estes padrões é considerado reprimido.

Até aqui vimos como a sexualidade foi fortemente influenciada pelas idéias cristãs, culturais, políticas e econômicas. Passamos da ideologia da castidade para uma situação de difícil delimitação que representa os dias de hoje. Percebe-se que o comportamento do homem de hoje frente a esta questão é reflexo da estruturação da sexualidade ao longo das épocas, considerando que foi extremamente alterada, vigiada e discursada, passando a não ser mais encarada como o ato de constituir-se, mas como algo que necessite ser tratado com extremo pudor, ou, ao inverso, através de uma excessiva banalização. Seguindo neste aspecto é que surge a preocupação em relação aos jovens de hoje e adultos de amanhã. Será possível proporcionar-lhes uma sexualidade mais prazerosa e menos conturbada?

Seguindo nessa perspectiva, será apresentado no capítulo seguinte o perfil do adolescente contemporâneo, procurando evidenciar as fragilidades dos jovens em relação às questões que envolvem o seu universo e os instrumentos por eles utilizados no enfrentamento desta conjuntura.

2.2 O ADOLESCENTE CONTEMPORÂNEO

Existem alguns mitos, preconceitos e estereótipos que se criam em relação à adolescência de hoje que afetam as atitudes dos adultos. São representações sociais e idéias generalizadas do senso comum que retratam os adolescentes sistematicamente da mesma forma, ignorando a sua individualidade. Essas idéias influenciam os comportamentos e atitudes dos adultos e, muitas vezes, dificultam a sua relação com os adolescentes e a sua capacidade de compreendê-los.

Segundo Osório (1989), o grau de conhecimento dos adolescentes contemporâneos sobre sexualidade ainda é muito rudimentar, independente do fator socioeconômico ou das vertentes culturais, sendo que os ensinamentos da questão ainda se limitam à anátomo-fisiologia dos órgãos sexuais e ao mecanismo de reprodução. O autor também afirma que, através da família, o adolescente quase não amplia o conhecimento sobre seu universo, que as questões permeiam somente ao corpo e aos cuidados para com ele.

Segundo Suplicy (1991), a questão da sexualidade mudou tão rapidamente nas últimas décadas, que deixou os pais meio perdidos. Antigamente as famílias não tinham muitas dúvidas em saber o que era certo ou errado, o que podiam permitir ou não. Hoje vivemos um momento difícil para a construção de um sistema de valores sexuais.
Outro aspecto é que, para lidar com a sexualidade dos filhos, os pais necessitam se defrontar com a própria sexualidade e essa situação pode gerar, muitas vezes, angústia. A sexualidade dos filhos traz à tona para muitos pais aspectos reprimidos da própria sexualidade.

Suplicy nos traz:
A preocupação da maioria dos pais é proteger seus filhos de uma iniciação sexual frustradora ou decepcionante. Desta maneira tentam impor seus padrões morais ou normas religiosas. Mas, surpreendentemente, os adolescentes estão em busca de seus próprios valores, rejeitando esse tipo de "ajuda". (1991 p.11).

Parafraseando a autora, os pais normalmente querem passar os seus conceitos e experiências para os filhos, no sentido de que não sofram, mas é muito complicado para o adolescente entender e aceitar naturalmente certas emoções que ainda não experimentou.

Por outro lado, a família tem total valor quando nos mostra que é através dela que surgem importantes diferenças, pois "é no espaço familiar que fervilham as contradições e os jogos do amor e do ódio, da proteção e da violência, as disputas e os ‘choques de gerações' que formam a estrutura psicológica do indivíduo". (GUIMARÃES, 1995, p.30). Em função desse "choque de gerações" é que, por vezes, é motivada a falta de diálogo familiar, e, através dessa problemática, os adolescentes vão buscar conhecimento por outros meios, adquirindo, muitas vezes, informações erradas e impróprias para a sua maturidade emocional.

Para amenizar esta questão, torna-se muito importante o adolescente ser tratado com prioridade, e sua educação atrela-se à família, a qual costuma se revelar como base de tudo. Faleiros diz que a família é a rede de apoio primária dos seres humanos. A família ainda é o berço de onde provêm fatores bons ou ruins, e a educação dos filhos depende da troca de diálogo. A troca de idéias, no contexto familiar, previne fenômenos emergentes, como, por exemplo, a gravidez precoce.

Por outro lado, Benvegnu (2005) nos traz que existem diferentes fatores que contribuem para a gravidez precoce e que essa questão não se limita em termos de cuidados somente à família, considerando que a falta de acesso à informação, a miserabilidade, a precariedade dos setores da saúde pública também colaboram para este aspecto. A gravidez precoce influencia em projetos de vida das jovens mães e, muitas vezes, desconstrói sonhos e fantasias.

Segundo Ballone (2003), esses fenômenos ocorrem devido aos avanços socioculturais, em termos de sexualidade, pois os jovens, em muitas situações, são impulsionados pelo instinto de provar a si mesmos que são capazes de praticar o sexo desde o namoro ou do simples "ficar", contrariando as normas tradicionais da sociedade e os conselhos da família.

Dentre os vários tipos de relacionamentos afetivos, o ‘ficar', sem dúvida, é o mais expressivo da cultura adolescente na atualidade. Este ato tornou-se comum entre os jovens, pois não implica compromissos futuros e é visto como um relacionamento passageiro e superficial, sem maiores conseqüências ou envolvimentos profundos, como apontam as falas dos adolescentes abaixo:

"... Ficar: é só ficar um ou dois dias, não é gostar da pessoa, é só para se divertir" (12 anos, sexo fem.). (DIÁRIO DE CAMPO, 2006)

"Ficar é quando se conhece legal, ficamos apenas por algumas horas para curtir aquele momento [...] (13 anos, sexo fem.) (DIÁRIO DE CAMPO, 2006)

Pelas falas, pode-se perceber que o ato de "ficar" já não pode mais ser considerado um modismo ou um fenômeno superficial e isolado entre os jovens, pois já é considerado normal e faz parte do cotidiano deste público. Podemos avaliar que esse fenômeno é um produto da sociedade contemporânea, a qual apresenta como característica um caráter efêmero e provisório em praticamente todos os seus aspectos.

Também as mudanças na composição e no funcionamento da família influenciam no processo de socialização. Na família moderna, cujo maior fenômeno foi a inclusão da mulher no mercado de trabalho, conseqüentemente a redução do número de filhos, o aumento das separações, pais sozinhos vivendo com seus filhos, ou ainda a chamada família agregada, composta por pares que trazem filhos de relações passadas, surge a situação do adolescente. Por ser um período de construção de valores, o jovem tem certa dificuldade de lidar com essas mudanças, o que acaba, por vezes, implicando a ausência de referenciais importantes para a sua formação. E, se estas mudanças não forem bem administradas através do diálogo com os pais, podem resultar uma série de frustrações para o jovem, que acaba por comprometer o seu emocional, refletindo no seu comportamento.

Muito se fala sobre as mudanças de costumes na contemporaneidade, e grande parte das discussões é dirigida à conduta dos jovens, o que nos leva a debater sobre um grande fenômeno que vem contribuindo para a formação do adolescente: a mídia. Hoje em dia, a mídia é a maior fonte de informação do adolescente, e o grau de influência que ela tem sobre os jovens é considerado um fenômeno de grande proporção que, por vezes, extrapola a normalidade, pois "muitos jovens são ‘forçados' a crescer rápido demais emocionalmente". (CARR-GREGG, 2002, p.16)

É importante destacar, neste momento, que a contribuição dos meios de comunicação não pode ser considerada, no que diz respeito à informação, de todo perigosa. Hoje em dia é fundamental, diante do mundo globalizado, que se tenha acesso às informações, já que todos os dias surgem novas descobertas e avanços.

Porém, é válido ressaltar que alguns veículos, como a Internet e a televisão, oferecem, através de alguns sites e programas, algumas informações no mínimo duvidosas em relação a sua veracidade e questionáveis quanto aos benefícios na formação dos jovens.

Muitos programas de televisão que são oferecidos ao público jovem abordam de maneira distorcida alguns temas, como o namoro, por exemplo. Os jovens de hoje não têm mais no seu ideal de relacionamento nenhuma referencia do romântico, pois estão habituados a enxergar o namoro expressado de uma maneira banal, proporcionado por alguns programas que pregam a não existência de namoro sem o sexo, este que pode ser desvinculado de afetividade.

Os jovens sofrem a pressão dos apelos da mídia em vários sentidos. As meninas que não correspondem aos padrões de beleza estipulado como o ideal passam a odiar o seu corpo, submetem-se a dietas não controladas e, por estarem em fase de crescimento, acabam com transtornos alimentares, deficiências nutricionais, sentimentos de frustração e alterações na imagem corporal, apelando, por muitas vezes, ao uso de algum tipo de substância psicoativa.

Seria impossível falarmos de adolescência sem nos referirmos à questão das drogas. Como já foi dito anteriormente, o jovem está em constante transformação, ou seja, ainda tem o comportamento de criança e ao mesmo tempo quer ser adulto, embora não o seja, e neste contexto busca formar a sua identidade. Conforme Outeiral (1994), o adolescente poderá usar drogas por vários motivos, destacando o interesse em permanecer no grupo, provocando experiências e possibilitando a identificação com a turma com a finalidade de não sofrer exclusão pelos demais.

De acordo com esse terapeuta gaúcho, que tem larga vivência com a juventude, esse alicerce para o uso de drogas é construído como um ritual de iniciação no grupo, tendo o jovem que tomar um "porre" ou ingerir algum tipo de droga para se exibir ou para provar que nada de errado pode lhe acontecer. Em síntese, alerta Outeiral (1994) que o receio de ser diferente dos outros e ser tido como "medroso" também é um incentivo.

Em se tratando do aspecto, há muitos momentos em que o jovem quer colocar à prova seus limites, indo além da sua capacidade, sem saber exatamente o preço das conseqüências. O comportamento do usuário de drogas está associado à rebeldia e à irreverência, procedimentos com os quais o adolescente se identifica para mostrar que ele é "diferente" e que está na "moda". Na busca dessa afirmação e através de sociedade que se mostra cada vez mais consumidora, ditando moda, costumes e culturas, é que os jovens vão tentando se enquadrar, considerando que muitos deles não têm condições de acompanhar, como os adolescentes de baixa renda.

Para a maioria da população jovem de baixa renda, as possibilidades são precárias, pois os níveis de escolaridade são bastante baixos, tornando o desemprego uma realidade nos seus cotidianos, observando-se poucas perspectivas de vida diante disso; portanto, não têm condições de adquirirem o tênis da moda, o celular de última geração e outros sonhos de consumo que a mídia projeta no adolescente, pois, segundo Faleiros,

O marketing enfatiza não as necessidades, mas aos objetos fabricados através de "imagem da marca", veiculados pelos meios de comunicação e principalmente pela televisão, que estimula constantemente o apetite de consumir o mais moderno, o mais fácil, o mais sedutor, o mais bonito na busca de símbolos do prazer e da felicidade (2003, p.191)

A partir deste cenário é que surgem os traficantes de drogas, usando da fragilidade social desses jovens, vendo neles a possibilidade de uma mão-de-obra barata e disponível para seus empreendimentos que se situam no contexto de uma rede de ações criminosas que envolvem o roubo, os jogos de azar, a exploração sexual, a extorsão, o comércio ilegal de armas, etc.. O tráfico e o consumo de drogas contribuem fortemente para a participação de jovens no ciclo perverso de homicídios quer como agressores quer como vitimas da violência.

Hoje em dia, um grande número desses jovens vem expressando a sua indignação e revolta frente a esta situação, tentando, através de diferentes meios, criar a sua representação. Tem-se apontado que um desses meios são os grupos musicais, principalmente os constituídos por jovens pobres, articulados em comunidades. Toma-se como exemplo, a cultura hip rop[4], que passa uma multiplicidade de significados junto aos jovens, tendo o rap como uma mensagem que transita entre o desabafo do público ouvinte, que discute histórias de vida muito próxima as suas, podendo ser visto tanto como um "grito de alerta", mas também como identificação com seus personagens, o que por vezes torna-se perigoso tamanha a sua influência.

A sociedade contemporânea tem o entendimento do adolescente como um indivíduo cercado de conflitos e perigos, e a adolescência como uma etapa em condição de transitoriedade, mas que, pela sua intensidade, passa a ser estereotipada como uma fase conturbada e desajustada, deixando de ser tratada com o seu devido valor. A partir disso, é importante que se mostrem também os motivos pelos quais o adolescente traz no seu comportamento esses aspectos.

Em especial no Brasil, a juventude ainda não é encarada como sujeito de direitos, não sendo foco de políticas públicas que garantam o acesso a bens materiais e culturais, além de espaços e tempos onde possam vivenciar plenamente esta fase tão importante da vida. O hap de Charles Brown Junior traduz e denuncia o dilema vivido pelos jovens no Brasil:

Vejo na tv o que eles falam sobre o jovem não é sério(...)
O jovem no Brasil nunca é levado a sério (...)
Sempre quis falar, nunca tive chance
Tudo que eu queria estava fora do meu alcance (...)
(Charles Brow Junior- "Não é sério)"


Como o trecho da música nos traz, o jovem não é levado a sério, exprimindo a tendência muito comum nas escolas e programas educativos de não considerá-lo como interlocutor válido, capaz de emitir os seus questionamentos e expressar o seu entendimento, o que acaba por desestimular a sua necessidade de entender-se e participar.

Essa imagem da juventude vista como problema ganha visibilidade quando associada ao crescimento alarmante dos índices de violência, ao consumo e tráfico de drogas, a expansão da AIDS e da gravidez precoce, entre outros, não que estes aspectos da realidade não sejam importantes e estejam demandando ações urgentes a serem resolvidos, mas a questão é se, ao conceber o jovem de uma maneira reducionista, vendo-o apenas sob a ótica do problema, as ações em prol da juventude passam a ser focadas na busca de superação do suposto "problema" e, nesse sentido, voltam-se somente para os setores juvenis considerados pela sociedade, pela escola e pela mídia como "em situação de risco".

A escola, por sua vez, não consegue atingir o que o adolescente busca em relação ao seu universo, pois normalmente se limita a discutir a reprodução humana, informando sobre anatomia e fisiologia do corpo humano, e não trabalhando as ansiedades e curiosidades do adolescente, enfocando apenas o corpo biológico sem incluir as dimensões culturais, afetivas e sociais contidas nesse mesmo corpo e, nestas condições, rotulam o adolescente como alienado, sem ao menos conceder a ele a oportunidade de se manifestar como sujeito de direito.

Segundo o ECA, no seu Art. 71, "A criança e o adolescente têm direito a informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento", mas, na prática, é um tanto utópico acreditar que as políticas sociais atendam de forma integral o acompanhamento à criança e ao adolescente, pois, ao fazermos uma análise, percebemos que há mais direitos registrados oficialmente no papel do que realmente seguidos conscientemente pela sociedade e órgãos competentes.

A partir disso, é importante frisar a carência de suportes apropriados às demandas dos adolescentes na sua especificidade. É necessário o surgimento de espaços e práticas que impliquem o acompanhamento da sua trajetória, tornando-a alvo de reflexões e discussões, possibilitando a estes sujeitos que pensem sobre a adolescência e a sexualidade a partir de uma dimensão histórica, cultural, política e econômica, pois

No processo de autonomia de crianças e adolescentes é preciso desenvolver mediações de uma relação de respeito a elas, de estímulo a sua capacidade de reflexão e reação diante da correlação de forças que lhes é desfavorável e que descamba, não raro, na violência.
(FALEIROS, 2003.p.63)

Portanto, no próximo capítulo deste trabalho de conclusão, serão discutidas propostas de atuação junto ao público adolescente, visando a um maior fortalecimento da autonomia referente às questões que envolvem seu universo, contribuindo na construção de um sistema de valores, de atitudes e condutas no âmbito da sexualidade, imbricando a importância do Serviço Social junto a este contexto.

3 CONTEXTO E A PRÁTICA DE ESTÁGIO

Neste capítulo apresentarei a prática profissional, para isso torna-se necessário que eu apresente o Vida Centro Humanístico de Porto Alegre como espaço institucional, discorrendo sobre o seu plano de atuação e identificando o desempenho do Serviço Social junto ao contexto da instituição. Logo após, apresentarei o projeto de intervenção qualificada junto aos adolescentes do Programa da Rede Básica - SASE[5], procurando evidenciar as fragilidades deste público diante das suas questões, objetivando o fortalecimento da autonomia através de grupo. O interesse pelo temas sexualidade e adolescência surgiu como resultado concreto da minha experiência como estagiária na instituição. A falta de um atendimento efetivo do Serviço Social foi percebido através da ausência de projetos que proporcionem aos jovens um maior acolhimento as suas demandas e estas são perfeitamente visualizadas através das mais variadas formas de expressões da questão social. A partir disso, passa a ser clara a necessidade da ação de um profissional assistente social atuando junto a este público, articulando práticas que contribuam para que se fortaleçam em seus processos de vida e no meio em que vivem.

3.1 VIDA CENTRO HUMANÍSTICO COMO ESPAÇO INSTITUCIONAL
Nome: Vida Centro Humanístico
Endereço: Av: Baltazar de Oliveira Garcia, 2132 - Bairro Rubem Berta - Zona Norte de Porto Alegre.
Caráter: Administração Pública Indireta - Fundação Gaúcha e Ação Social, vinculada à secretária do Trabalho, cidadania e Assistência Social.

Missão da Instituição: Propiciar espaços de cidadania com ações de saúde, trabalho, lazer, assistência social, educação, esporte e cultura voltadas à população vulnerabilizada de Porto Alegre e Grande Porto Alegre, atendendo crianças, adolescentes, jovens, idosos e famílias.
Objeto da Instituição: O objeto da instituição se forma através da vulnerabilidade social da comunidade.

Finalidade: Propiciar espaços de cidadania com ações de saúde, trabalho, lazer, assistência social, educação, esporte e cultura voltadas à população vulnerabilizada de Porto Alegre e Grande Porto Alegre, atendendo crianças, adolescentes, jovens, idosos e famílias.

Objetivo geral:

• Realizar uma política de promoção social, através de atividades multidisciplinares e inter-secretariais que oportunizem ao usuário maior participação social, com acesso à saúde, educação, lazer, informação e exercício da expressão.
Específicos:

• Desenvolver um processo sociopolítico de educação que contribua efetivamente para o exercício da cidadania;
• criar condições favoráveis à organização de núcleos culturais comunitários, onde a população possa desenvolver atividades que expressem suas potencialidades enquanto produtores de cultura;
• oportunizar atividades desportivas, buscando a humanização da prática esportiva e o caráter lúdico, educativo e socializador dos jogos;
• desenvolver ações educativas e terapêuticas de saúde, capazes de criar condições psicofísicas favorecedoras do bem-estar.

3.2 O SERVIÇO SOCIAL NA INSTITUIÇÃO
As desigualdades sociais, oriundas da relação conflituosa do capital e do trabalho, deixam grande parte da população vulnerável e desamparada, resultando nas múltiplas expressões da Questão Social, visualizadas no dia-a-dia do trabalho do assistente social. Conforme Iamamoto e Carvalho:

A questão social não é senão a expressão do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão (2005, p. 77).

Em resposta a esse conflito é que surgem as mais variadas expressões, que se mostram através do desamparo, do trabalho precário, da fome, da ignorância e das más condições de moradia e saúde. O capitalismo prolifera a pobreza e esta tende a proporcionar a marginalização de pessoas que não conseguem se inserir no mercado de trabalho:

A globalização, excludente e desigual, estabelece maior exposição das atividades econômicas nacionais à competição externa, ao mesmo tempo em que estimula a incorporação de novos paradigmas tecnológicos e de gestão, poupadores de mão -de- obra, objetivando a elevação dos padrões de produtividade e rentabilidade do capital, em nome do "novo evangelho da concorrência". (IAMAMOTO, 2006. p.115)

Parafraseando a autora, podemos analisar que a relação capital x trabalho traz em seu contexto a exclusão da mão-de-obra, pois os avanços tecnológicos estão contribuindo para a criação de novos meios de produção que dispensam grande parte do trabalho do homem, gerando ao capital um maior lucro e tornando o mercado mais competitivo, o que faz diminuir as oportunidades para aqueles que não detêm as habilidades exigidas pelo mercado, impondo-lhes uma condição de vulnerabilidade e exclusão social. O Plano Estadual de Assistência Social, 2000 define o conceito de vulnerabilidade social como

[...] as situações decorrentes da pobreza, do abandono, de maus-tratos físicos e psicológicos, da fragilidade no papel de adultos responsáveis, da deficiência física, mental, visual e auditiva e da dependência química. (2000, p.22)

Para receber essa população em vulnerabilidade, o Vida Centro Humanístico criou o setor de Serviço Social na instituição, atribuindo a ele as seguintes atividades: Escutar, orientar e encaminhar o usuário, de acordo com a sua necessidade, para os programas e/ou serviços do Centro Vida e para entidades assistenciais quando necessário. Os usuários buscam o Serviço Social do Centro Vida, e este atua diante da sua demanda, basicamente com o instrumento de acolhida[6], que considero um aspecto muito importante na relação entre profissional e usuário, entendendo que é o vínculo criado no momento da chegada do indivíduo à instituição que vai posteriormente estabelecer uma relação de confiança entre as duas partes: usuário/assistente social, possibilitando a abertura, a conversação e a escuta sensível que, com certeza, tornam o processo mais agradável e menos sofrido e facilitam a compreensão da expressão que chega.

Junto a essas atividades, o setor apresentava, na sua proposta inicial, o objetivo de criar projetos que trouxessem melhorias na área social e que diminuíssem a situação de vulnerabilidade da população carente da zona norte de Porto Alegre, partindo do princípio de que "a noção de seguridade social supõe que cidadãos tenham acesso a um conjunto de certezas e seguranças que cubram, reduzam ou previnam os riscos e as vulnerabilidades sociais". (SPOSATI, P.24)

A autora, quando se refere à seguridade, remete-nos à compreensão de que esta é um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade destinado a assegurar os direitos relativos à Saúde, à Previdência Social e à Assistência Social. Estas três esferas compõem o conjunto de seguranças que diminuem o risco da condição de vulnerabilidade social. O reflexo da falta dessas seguranças faz parte do dia a dia de uma grande parte da população, visto por meio de uma crescente evolução na busca por programas como alternativa de sobrevivência.

Em virtude dessas condições de precariedade, a sobrevivência do grupo familiar passa a depender significativamente do envolvimento de todos os membros da família no mundo trabalho, incluindo desde crianças e adolescentes, nos casos mais extremos, que passam a desenvolver atividades que representam alguma possibilidade de contribuição para o orçamento familiar, tentando, dessa forma, suprir uma rede de proteção social fragilizada. Partindo do que foi exposto, pode-se dizer que as crianças e adolescentes encontram-se em situação de risco diante do desestímulo e impotência dos adultos com que convivem.

Os usuários que procuram atendimento no Serviço Social da instituição, na maioria das vezes, encontram-se em total desespero, desempregados e desesperançados, com fome e sem habitação, correndo um constante risco pessoal e social. O resultado dessa conjuntura faz com que, a cada dia, crianças e adolescentes se envolvam em situações de desamparo familiar e, conseqüentemente, social, pois não têm um suporte para seguir um rumo adequado em suas vidas já que seus responsáveis estão fragilizados.
Para situar melhor o leitor, abordarei no próximo tópico a situação em que se encontravam as crianças e adolescentes do campo de estágio, sendo necessário destacar que o Serviço Social não atua junto a este programa.

3.3 O Serviço Social na prática com adolescentes

O programa da Rede Básica - SASE tem como objetivo garantir, em consonância com o ECA e a LOAS[7], o acompanhamento em regime de atendimento sócio-educativo em meio aberto às crianças e adolescentes dos 07 a 13 anos em situação de vulnerabilidade social, usando de um atendimento no turno inverso à escola, ocupando o tempo ocioso da criança e do adolescente, quando estes não se encontram na escola, com base na proposta de proteção que o Estatuto da criança e do Adolescente garante. O ECA foi criado visando à integridade da criança e do adolescente e os direitos que lhes atribui como cidadãos e traz na lei 8069/1990 Art.3º: "A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade".

Desde a inserção no campo de estágio, percebi que o profissional do Serviço Social é constantemente exigido a atuar através de rupturas com modelos tradicionais de intervenção. Com base no paradigma da Correlação de Forças, proposto por Faleiros (2002), busquei, na prática, uma ruptura com as visões clínica e tecnocrática da intervenção profissional, visando ao fortalecimento dos usuários.

Nesta busca e a partir a demanda que me foi apresentada, identifiquei não existir atendimento do serviço Social junto a este setor. Os usuários do programa são crianças e adolescentes carentes que convivem com a violência, negligência, falta de afeto no seu cotidiano e, em decorrência destes fatores, por muitas vezes, acabam causando riscos a si mesmos e aos outros, através do crime, drogas, gravidez não desejada e contágio de doenças sexualmente transmissíveis, reproduzindo as situações familiares por não conhecerem outra realidade. No contexto social no qual estão inseridos, somadas as fragilidades naturais da adolescência, esses jovens expressam de forma significativa a necessidade de um acolhimento que proporcione a eles o enfrentamento das questões que permeiam o seu universo com maior autonomia.

Faleiros (2002) formulou uma proposta teórico metodológica sensível às transformações ocorridas na última década, propondo o empowerment[8] (fortalecimento). São três diferentes direções estratégicas no processo de fortalecimento dos sujeitos: empoderamento da identidade, empoderamento da autonomia e empoderamento da cidadania.

A partir da perspectiva de fortalecimento, surgiu a proposta do projeto "Universo Adolescente", tendo como foco de intervenção propiciar um espaço para troca e discussões dos adolescentes, referente a questões do seu universo, tendo como fio condutor a sexualidade, pois, como foi referido anteriormente, ela é um instrumento relacional importante, que se expressa concretamente nas relações que o sujeito estabelece, desde a mais tenra idade, consigo mesmo e com os outros. Junto a isso, pretendi vincular a possibilidade de desenvolver e fomentar um sentimento de independência e responsabilidade às informações que o adolescente precisa ter sobre as suas próprias questões, levando em conta a sua realidade e os sentimentos próprios desta etapa, fortalecendo, a partir de então, a sua autonomia através de "uma relação de respeito a elas, de estímulo à sua capacidade de reflexão e reação diante da correlação de forças que lhes é desfavorável" (FALEIROS, 2002, p.63)

O fortalecimento da autonomia prevê que o assistente social, ao desenvolver a prática com seus usuários, deva respeitar suas opiniões, não impondo a sua forma de ver o mundo, devendo possibilitar a eles o controle de suas vidas. De acordo com Faleiros, "o desenvolvimento da autonomia é um processo de negação da tutela e da subalternidade pela mediação da afirmação da própria palavra e da construção das decisões sobre seu próprio destino" (2002, p. 62).
Nesta proposta de fortalecimento, considerei apropriado trabalhar esses adolescentes através de um grupo, ponderando que o jovem tem facilidade de se adaptar neste processo, pois, normalmente, isso faz parte do seu cotidiano. Além disso, nessas práticas, os indivíduos passam a ter uma relação de entendimento um com os outros através de uma conexão de semelhanças e, dessa forma, "ajuda-se o usuário a sair da compreensão individualista de seu problema," (FALEIROS, 2002, p.52) diminuindo os seus anseios.

É importante ser frisado que, durante este procedimento, não tive a intenção de trabalhar sob as técnicas de um processo grupal, mas sim de apresentar a trajetória de fragilização/ fortalecimento dos sujeitos implicados: os adolescentes.

O adolescente demonstra, por meio de gestos e falas, uma grande necessidade de exteriorizar energia através de várias formas de participação, destacando, através dos seus comportamentos, a urgência de serem ouvidos e de obter respostas aos seus questionamentos, pois o jovem de hoje já não consegue manter-se ausente às suas indagações, ele quer entender o que ocorre no seu organismo, as mudanças no seu corpo, a importância emocional dos primeiros namoros e outras descobertas relacionadas ao seu universo. As seguintes falas[9], retiradas do diário de campo, mostram-nos bem esta realidade:

Eu ainda não fiquei menstruada! Será que eu tenho algum problema? (Mariane, 13 anos, Diário de Campo)
Porque a Ariane tem peito e eu não tenho quase nada? (Renata, 12 anos, Diário de campo)

Como podemos observar, o jovem tem a necessidade de se compreender. A partir disso, torna-se importante que ele possa identificar no outro as mesmas dúvidas e entender que isso não ocorre somente com ele. O adolescente tem direito de ser informado sobre o que ocorre no seu organismo e no seu físico, sem ter que presumir os motivos pelos quais vem se desenvolvendo diferentemente do outro.
Lidar com a informação com o intuito de fortalecer os sujeitos é uma habilidade mais do que necessária no assistente social, pois, nesta profissão, atua-se junto a usuários desfavorecidos de seus direitos básicos e, muitas vezes, de qualquer condição de acesso à informação, tornando-os frágeis diante das adversidades. Portanto, torna-se imprescindível construir junto a este público possíveis alternativas de melhoria. Segundo Iamamoto:

"Um dos maiores desafios que o Assistente Social vive no presente é desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivando direitos, a partir de demandas emergentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo". (2005: 20)

A autora nos traz que esse movimento requer extrapolar as rotinas organizacionais, criar um olhar crítico para além das paredes institucionais, numa busca pela apreensão do dinamismo da realidade para detectar tendências e possibilidades nela presentes, passíveis de serem impulsionadas pelo profissional.

A maioria dos usuários do programa vive praticamente em situação de miséria, sendo que, naturalmente, isso os põe em desvantagem comparados aos adolescentes de classe média e alta, que têm maiores condições culturais e materiais e, por muitas vezes, esta condição desestimula o jovem de ir à busca dos seus projetos, como nos trazem as seguintes falas retiradas dos encontros:

"Eu penso em ser modelo, mas tem muito racismo, como sou preta e pobre eu não vou conseguir." (SIC) (Pamela, 13 anos, Diário de campo)
"Eu pretendo trabalhar numa mesa com computador. Quero que me chamem de Dona, mas não sei se vai dar." (SIC) (Renata, 12 anos, Diário de Campo)

Através das falas, nota-se claramente o sentimento de inferioridade que estes adolescentes carregam, pois, hoje em dia, em função de a sociedade expor aos jovens - principalmente através da mídia - o modelo de jovem bonito, com roupa de marca, tênis transado etc., faz com que os adolescentes das camadas mais pobres sintam-se à margem da sociedade. Em função desse fator, muitos desses jovens passam a adquirir uma baixa auto-estima por sentirem-se diferentes e excluídos. Faleiros nos traz que

[...] o desenvolvimento da auto-estima, do apreço por si mesmo, implica o questionamento dos papéis sociais que são atribuídos aos dominados e o questionamento da ideologia da desigualdade, na naturalização das diferenças sociais (2002, p.28).

Assim, o processo de fortalecimento dos sujeitos depende de ação ou intervenção profissional com profunda capacidade teórica e analítica para entender as particularidades das situações reais, para propor alternativas a esses sujeitos nessa trama de correlação de forças sociais, combinando as estratégias de vida dos indivíduos e grupos dentro do contexto social e dinâmico para utilizar essas forças, em rede, a favor dos sujeitos e de sua autonomia (FALEIROS, 2002, p. 67).

Parafraseando o autor, é necessário que o profissional tenha habilidade para lidar com a realidade que se apresenta, formulando estratégias para trabalhar os sujeitos dentro das suas particularidades. Em se tratando dos jovens, essas habilidades necessitam ser pensadas de forma a atingir a este público, permitindo, então, que possa refletir sobre os aspectos positivos e negativos que a sociedade de hoje apresenta. Neste contexto, em um dos encontros, propiciei aos jovens trazer à discussão os aspectos perigosos que a sociedade de hoje apresenta e, a partir disso, questões relacionadas às drogas emergiram.

As drogas e a forma como elas vêm penetrando no universo dos adolescentes é um dos assuntos de maior repercussão nos dias de hoje, indiferentemente de classe social. Mas, de antemão, é importante ressaltar que os jovens de comunidades carentes, na sua maioria, convivem diariamente com essa problemática, pois faz parte de forma muita ativa no contexto social no qual estão inseridos, como se pode notar pelas falas:
"Profe, eu já vi tanto essa coisa de droga, que já não me faz mal ver mais nada. Conheço um monte de cara perto da minha casa que já morreu" (SIC) ( Grace, 13 anos, Diário de Campo)
"Eu conheço dois traficantes, tem sempre uma rapaziada trabalhando para eles!" (SIC) ( Alessandro, 13 ano, Diário de Campos)

Através do que foi mostrado, destaca-se como um aspecto muito importante para o desenvolvimento de uma atividade de prevenção com jovens incluir reflexões que os façam entender não somente os males causados pelas drogas, mas também todo o poder que se esconde por trás deste assunto, ou seja, a questão do tráfico. Quando se trabalham propostas junto a adolescentes, os temas afetividade e sexo tornam-se imprescindíveis como abordagens. No cenário da sociedade contemporânea, o adolescente se vê empurrado a instituir o modo típico de relacionamento desse tempo: relações rápidas, voltadas para a satisfação de necessidades e desejos imediatos, sem compromissos que ultrapassem o momento da relação. Não é à toa que o "ficar" desponta como a mais nova forma de relacionamento amoroso entre os adolescentes, como apontam as falas:

"Não tem como não ficar! Hoje todo mundo fica." (SIC) (Diário de Campo, Ariane, 13 anos)
"Namorar é sério! Ficar é ficar!" (SIC) (Jéssica, 13 anos)

Durante essa reunião, os jovens demonstraram muita facilidade em mostrar seus sentimentos. Notei a falta de afetividade que eles atribuem às relações, pois destacam que o "ficar" pode ser desvinculado de qualquer sentimento mais profundo e que este não sugere continuidade. Também observei que grupos discriminam e condenam os jovens que optam por relacionamentos mais duradouros e com base na afetividade, fazendo com que estes se sintam em dúvida diante da sua escolha:

"Sabe, eu tenho uma namorada. Ela tem 14 anos e eu treze, nós já transamos, e eu gosto muito dela, só que os meus colegas da outra escola vivem dizendo para eu ficar com outras, que tem um monte de gurias a fim de mim, só que eu não quero trair ela, pois eu gosto muito dela. Eu tenho que fazer isso?" (SIC) (Leonardo, 13 anos, Diário de Campo)

Através desta fala, observei a pressão que a sociedade exerce sobre o adolescente, pois ele tem que se condicionar aos padrões que hoje se estabelecem, por meio do comportamento exigido pelo grupo ao qual pertence, causando, assim, uma confusão na sua forma de pensar. Isso ocorre também quando nos referimos à família, que, por sua vez, mantém as suas normas, por vezes muito rígidas, evitando, assim, que o jovem possa expor sobre as suas relações afetivas. No caso das meninas, isso ficou mais evidente:

Na minha idade eu não posso namorar a minha mãe diz que eu vou fazer besteira, então eu fico, assim ela não fica sabendo (sic)
Meu pai já diz assim: ‘Você sabe o que os homens pensam né. Você sabe o que o menino quer fazer, né'.(sic)

O adolescente normalmente tem dificuldade de interagir com a família em se tratando das suas questões e, quando isso se torna possível, geralmente as informações que recebem não suprem as suas dúvidas e curiosidades, pois as conversas limitam-se aos cuidados para não engravidar ou à idade para a vida sexual ser iniciada. A partir disso, os jovens procuram outras fontes de acesso, por muitas vezes limitadas e inadequadas, provenientes de amigos, mídia, ou de pessoas pouco preparadas para essa função, para os quais assuntos como relações afetivas, responsabilidade e escolhas passam a ser temas pouco abordados.

Neste sentido é que se entende a necessidade de se tratar os temas relacionados à sexualidade na adolescência, não só com o sentido de evitar gravidez ou doenças sexualmente transmissíveis, mas também com o intuito de construir um suporte ao adolescente antes que ele ingresse na sua vida sexual, pois, conseqüentemente, estará mais bem preparado.

Essa construção acontece no descobrimento da realidade de cada sujeito, quando o assistente social busca a aproximação do usuário, sem ser apenas executor de serviços. Iamamoto relata que "as possibilidades estão dadas na realidade, [...]. Cabe aos profissionais apropriarem-se destas possibilidades e, como sujeitos, desenvolvê-las transformando-as em projetos e frentes de trabalho" (2006, p. 21).
Para acontecer essa construção, é fundamental ressaltar o trabalho de escuta sensível, conforme destaca Benjamin (2002), devemos ter a capacidade de ouvir com atenção, paciência e respeito à problemática de cada um dos usuários que chegam até nós, valorizando suas potencialidades na situação em que se encontram. A escuta também pode ser definida como espaço concedido, para poder construir uma interação adequada, sendo possível compreender, através de cada adolescente, a forma como enxergam o seu mundo e as situações que vivenciam de forma real em suas comunidades e no próprio lar, permitindo, a partir disso, fazer uma reflexão sobre como cada situação influencia na conduta do jovem.

Os encontros finalizaram com um grande sentimento de cumplicidade. A troca entre os integrantes do grupo evidenciou que, por mais que existissem diferenças nas suas histórias, todos os jovens necessitavam de espaços para trazer à tona as suas fragilidades sem terem medo de se expor. E, da minha parte, foi extremamente gratificante constatar que consegui manter o foco principal, fortalecendo a autonomia destes adolescentes a partir de seus comentários e atitudes no decorrer do processo de trabalho, tais como "Eu quero saber como eu faço para ir ao ginecologista, pois eu quero entender algumas coisas!

"O compromisso ético-político da profissão está expresso na normatização do Código de Ética e também em todo o processo de aprendizagem acadêmica; porém não se trata apenas de conhecer a legislação, mas também implica "valores e finalidades, e isto significa escolha, compromisso e responsabilidade para com a construção de uma nova ordem societária [...]" (Sant'Ana, 2000, p. 73).

É com base no Projeto ético-político que o profissional do Serviço Social deve exercer a sua prática, colocando-se diante de desafios, enfrentando a realidade apresentada através de propostas que contribuam para criar uma sociedade mais justa, onde os indivíduos passem a ser protagonistas da sua própria história e sujeitos de direito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em especial no Brasil, a juventude ainda não é encarada como sujeito de direitos, não sendo foco de políticas públicas que garantam o acesso a bens materiais e culturais, além de espaços e tempos onde possam vivenciar plenamente esta fase tão importante da vida. Hoje, é muito comum nas escolas e programas educativos exprimirem a tendência de não considerar o jovem como interlocutor válido, capaz de emitir os seus questionamentos e expressar o seu entendimento, o que acaba por desestimular a sua necessidade de entender-se e participar, sendo visto no seu meio social como um "problema" difícil de ser resolvido.
Esta imagem da juventude como problema, ganha visibilidade quando associada ao crescimento alarmante dos índices de violência, ao consumo e tráfico de drogas, à expansão da AIDS e da gravidez precoce, entre outros, não que estes aspectos da realidade não sejam importantes e estejam demandando ações urgentes para serem resolvidos, mas a questão é que, ao conceber o jovem de uma maneira reducionista, vendo-o apenas sob a ótica do problema, as ações em prol da juventude passam a ser focadas na busca de superação do suposto "problema" e, nesse sentido, voltam-se somente para os setores juvenis considerados pela sociedade, pela escola e pela mídia como "em situação de risco"
Segundo o ECA, no seu Art. 71, "A criança e o adolescente têm direito à informação, cultura, lazer, esportes, diversões, espetáculos e produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento", mas, na prática, é um tanto utópico acreditar que as políticas sociais atendam de forma integral o acompanhamento à criança e ao adolescente, pois, ao fazermos uma análise, percebemos que há mais direitos registrados oficialmente no papel do que realmente seguidos conscientemente pela sociedade e órgãos competentes.
Dadas as transformações das condições sócio-históricas e culturais, necessitamos hoje lançar um novo olhar sob a adolescência, ou seja, compreendermo-la como uma etapa que se vem representando na busca de seu pertencimento, por meio de manifestações que expressam o desejo de serem ouvidos e atendidos quanto às dúvidas que permeiam o seu universo e a sua sexualidade. A partir disso, é importante frisar a carência de suportes apropriados às demandas dos adolescentes na sua especificidade. É necessário o surgimento de espaços e práticas que impliquem o acompanhamento da sua trajetória, tornando-a alvo de reflexões e discussões, pois

No processo de autonomia de crianças e adolescentes é preciso desenvolver mediações de uma relação de respeito a elas, de estímulo a sua capacidade de reflexão e reação diante da correlação de forças que lhes é desfavorável e que descamba, não raro, na violência.
(FALEIROS, 2002.p.63)

Nesta perspectiva, destaquei neste trabalho de conclusão o fortalecimento da autonomia destes adolescentes e procurei intervir colocando em prática todos os ensinos adquiridos no período da graduação, buscando relatar a experiência de uma proposta teórico-metodológica que tem por intuito o fortalecimento dos adolescentes em estado de vulnerabilidade social. No transcorrer do estudo, objetivei situar o leitor frente ao atual contexto social excludente que se apresenta, e as dificuldades que os jovens vivenciam em seu cotidiano.

No momento em que reuni os adolescentes para expor suas idéias, a maneira como cada um enxergou sua atual condição, abri um leque de possibilidades que se estendeu de tal forma, que problemas de qualquer espécie vieram à tona naturalmente, ficando configurado o auxílio mútuo e o reconhecimento relevante dessa união, na qualidade de vida do indivíduo e, principalmente, na valorização do meio em que estão inseridos.

No meu processo de vinculação com os usuários, procurei evidenciar a sua importância no contexto social, a capacidade que apresentam em fazer valer sua condição de sujeitos de direitos. A intervenção do assistente social torna-se, então, fundamental para que tais demandas sejam amenizadas e para que estas crianças e adolescentes promovam sentimentos de ser e existir, podendo escolher por si só um futuro melhor, no qual possam fazer valer seus direitos como sujeitos.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARIÈS P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1981.
BARSA, Enciclopédia. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil. Publicações Ltda, 1994.
BEE, Helen. O Ciclo Vital. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
CARR-Gregg, MICHEL. Criando adolescentes. Tradução Márcia Claudia Alves. São Paulo: Fundamento Educacional, 2003.
COSTA, Moacir. Sexualidade na Adolescência: Dilemas e crescimento. São Paulo: L&PM, 1986.
DEL NERO, Sonia. Fundamentos Psicanalíticos. São Paulo: Vetor Editora Psico-pedagógica Ltda, 2002.
ERIKSON, Erik H. Infância e adolescência. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
___; CARVALHO, Raul. Relações sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
Estatuto da criança e do Adolescente -, 2005.
FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias do Serviço Social. São Paulo: Editora Cortez, 2003.
FERRARINI, Adriane Vieira, Cadernos Universitários Nº. 72. Processo de Trabalho do Serviço Social II. Porto Alegre: Ed. ULBRA, 2003
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A vontade de saber. tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J.A Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
GAUDERER, C. A vida sem receitas. 2. ed. Rio deJaneiro: Objetiva, 1994.
GUIMARÂES, T. Educação sexual na escola: Mito e Realidade. Campinas (SP): Companhia de Letras; 1995.
IAMAMOTO, Marilda. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
___; CARVALHO, Raul. Relações sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2005.
NUNES, César Aparecido. Desvendando a Sexualidade. São Paulo: Papirus, 1987.
OSORIO, Luiz Carlos. Adolescente Hoje. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1989.
OUTEIRAL, José Ottoni. Adolescer: Estudos Sobre Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1994.
Plano Estadual de Assistência Social, 2000
Projeto Vida Centro Humanístico - FGTAS - Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social
RECUERO, Luciane Bandeira. Relatório de Prática Profissional II Canoas: ULBRA, 2006.
SOUZA, Ronald Pagnoncelli de. Nossos Adolescentes. 3ª. ed. Porto Alegre: Ed.da Universidade/UFRGS, 1996.
SPOSATI, Aldaíza. Assistência Social: Desafios para uma Política Pública de Seguridade Social. Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da PUC/SP
SUPLICY M. Conversando sobre sexo. 17ª ed. Petrópolis (RJ): Edição da Autora; 1991.
VITIELLO, N. Adolescência hoje. São Paulo: Roca, 1988.
SITES
BALLONE, G. J. Gravidez na Adolescência. 2003. Disponível em: Acesso em: 12 abril 2007.
BENVEGNU, Marcela. Mães Precoces. 21 ago. 2005. Disponível em: Acesso em: 02 set. 2007.
MEDEIROS, Marcelo. Hip hop nas Ruas e nos Projetos. Disponível em: <www.multirio.rj.gov.br > Acesso em: 07 maio. 2007.
Comunicação e Acolhimento Disponível www.entreredes.org.br/impressaoconteudo.php?wcodigo=13201. Acesso em: 15 maio 2007.

________________________________________
[1] "A puberdade corresponde às modificações físicas especialmente denominadas caracteres sexuais secundários
(surgimento de pêlos, mudança de voz, crescimento das glândulas mamárias, etc.) e, quando muito, pela menção a certas incômodas mudanças de temperamento" ( OSÓRIO, 1989.p,10)

[2] Jovem judia vítima do nazismo. "Diário de uma jovem" de sua autoria, de publicação póstuma (1947), foi traduzido em mais de 30 línguas. (Barsa, 1994.p, 228)

[3] Síndrome de Deficiência Imunológica Adquirida.
[4] A origem do hip hop está na década de 60, época em que o movimento de luta pelos direitos civis nos EUA se fortaleceu e valorizou a cultura negra. Nessa época começam a surgir os mestres de cerimônia (MCs), que cantam as músicas; os disc-jockeys, cuja função é colocar os discos na vitrola e, às vezes, "misturar" as músicas; os grafiteiros e os dançarinos de break. A dança, aliás, surgiu como protesto contra a guerra do Vietnã, pois imitava os movimentos dos feridos em combate. As coreografias são "quebradas", daí o nome. O termo "hip hop", também vem dos movimentos: hip quer dizer quadril e hop, salto
Acesso em: Disponível em: www.multirio.rj.gov.br maio. 2007.

[5] Serviço de Atendimento Sócio- Educativo.
[6] "Acolhida é uma atitude de relação humana. Não são técnicas, são sobretudo atitudes das pessoas que acolhem. Uma atitude constante de abertura ao outro". Disponível em: http://www.entreredes.org.br/impressaoconteudo.php?wcodigo=13201. Acesso em: 15 maio 2007.
[7] Lei Orgânica da Assistência Social

[8] Quando um determinado sujeito procura ou se vê diante do Serviço Social, ele está numa trajetória de fragilização, de perda de patrimônio ou referências, sem atendimento de suas necessidades básicas, e é por isso que, em nosso paradigma de correlação de forças, propus o fortalecimento do dominado (empowerment) e sua defesa (advocacy) como objetivos estratégicos de intervenção em Serviço social em contradição com a perspectiva de reforço do poder dominante ou da mera reprodução (FALEIROS,2002, p. 78).

[9] Em todas as falas citadas neste trabalho, os nomes serão meramente ilustrativos, ou seja, fictícios.

Comments

Aprofundou-se, a explicitar.

Abreu 27-12-2009 12:50 #2

Vejo que é da área da Psicologia Educacional.
Trata-se de um trabalho de grande qualidade.
Sou professor e estou solicitando ou implorando que me apresente.

neybomfim 08-04-2009 14:59 #1

Entrar