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O pai do Mr. Bean Enviar por e-mail
Crônicas - Crônicas

Escrito por Pitz
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Qui, 23 de Abril de 2009 10:14
Quem conhece o personagem Mr. Bean, do ator comediante inglês Rowan Atkinson, já deve ter se perguntado alguma vez, como e por que, dentro de um contexto real, aquele homem se comporta de forma tão estúpida ou inconsequente. Essa pergunta não vem à toa, o humor de Mr. Bean, apesar de todas as caretas medonhas, concentra-se no medo social que ele tem; a luta incessante em ser apenas mais um na multidão. Ele faz questão de ir à missa, mesmo sabendo que vai dormir ou passar todo o sermão comendo balas de goma. Reparei também, que ele faz questão de participar dos eventos da paróquia, e de ser visto como homem de bem; uma criança adulta que tenta de todas as formas seguir um fluxo pré-imposto, fazer o que todos fazem; ser igual, deixando de lado seus proprios desejos e anseios. Pobre Bean... Homem na casa dos quarenta, solteiro, segurança numa galeria de artes em Londres, morador solitário numa quitinete de frente a barulhenta e pontual linha de trem... Isso, na visão dos ingleses, reflete um homem fracassado, feio e solitário, que na vida não demonstrou outra aptidão senão sentar e olhar quadros durante doze horas diárias. Onde estariam os pais de Mr. Bean, ou mais precisamente, o pai, que não evitou tal catástrofe social?! O problema não pode ter começado na vida adulta, por isso aprofundei-me no besteirol, e fui buscar a identidade Bean, o menino que ainda pulsa dentro dele a todo o momento, querendo se divertir das maneiras mais loucas e infantis.

Encontrei um menino magricelo, de sombrancelhas gigantescas, narigudo, esgueirando-se em cada cantinho menos luminoso de sua escola, temendo os outros garotos fisicamente vantajosos... Bean sofreu com a crueldade das outras crianças (que em geral refletem os pais), e teve que lutar pela adaptação desde sempre, o tempo que perdeu tentando mostrar ser merecedor de crédito, retirou do menino a chance de ser ele mesmo, com seus defeitos e virtudes, talentos que nunca serão descobertos, amores e experiências que, realmente, são necessários em um desenvolvimento humano normal...

Usarei uma palavra inglesa, para buscar a essência deste famoso personagem: Bullying, termo inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo (bully / "valentão") ou grupos, com o objetivo de intimidar ou agredir outro indivíduo incapaz de se defender. O bullying é praticado com muita frequência nas escolas. Assim vejo o pequeno Bean... Tendo que entregar seus sanduíches de peixe e garrafinhas de suco de maçã, fazendo uma daquelas caretas terríveis ao receber um pontapé nas costelas, sendo diariamente apelidado de coisas nojentas, e se perguntando sozinho, como sempre, porque as pessoas eram tão cruéis com ele. Daí se pode tirar a idéia do pavor social, de um adulto que dedica todo tempo a se camuflar de adulto, como a criança amedrontada temendo novas surras e humilhações. A generalização de que todos os humanos são possíveis ameaças, faz com que Bean tente agradar a todos haja o que houver. Ou pelo menos passar despercebido, fato muito difícil de acontecer.

Grande cultura a Capitalista! Só os fortes sobrevivem! E os fracos, são fracos desde sempre, por imposição dos fortes. Agora, vemos um terço deles, ‘os fracos’, enlouquecendo e tornando-se atiradores em busca de seus algozes, para somente assim, expurgarem seus próprios fantasmas existenciais. Assassinos cruéis a serem fuzilados por atiradores do FBI, que decerto, agrediram muitas crianças diferentes nos tempos de escola; ou não. Não podemos fazer disto uma regra, mas se o fizermos, devemos à regra maior do capitalismo, onde os jovens são estimulados a competirem entre si desde sempre, para se adaptarem a um mercado de trabalho impiedoso, devorador e voraz. Como disse antes, só mesmo os fortes sobrevivem. E o significado de forte pode ser muito vasto.

Encontramos então o sobrevivente Bean... Um meio termo que apesar de neutro e cheio de dúvidas, permanece de pé diante do Universo. Onde estaria o Pai do Mr Bean? Será que ele acompanhava a vida escolar do filho, se procupava com sua evolução cultural e emocional? Será que ele próprio tinha tempo, amor e cultura a transmitir? Ou vagava submerso em seu próprio eu, enquanto seu esperma de duas pernas caminhava constrangido pela casa? Teria sido em casa que as cobranças e medos naufragaram o menino? Se presentes em sua vida, não restam dúvidas da grande parcela de culpa dos pais, na imensa catástrofe social Bean. Assim, como outros pais ausentes, por diferentes bons motivos, que criaram Mr Beans e atiradores neuróticos sem saber. Diversas espécies catastróficas, variando entre benigno e maligno, dentro da sociedade torta que construímos.



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O pai do Mr. Bean
Qui, 23 de Abril de 2009

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Última atualização em Sex, 24 de Abril de 2009 07:58
 
Comentários (4)
  • flordosul28  - Boa leitura
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    Fiz boa leitura da sua crônica, muito original. Eu gosto muito do Mr. Bean, e a partir de agora, vou assisti-lo com outros olhos, só espero não perder minhas boas risadas depois da leitura da sua crônica.
  • marciaminako
    avatar
    Realmente, nunca pensei nele dessa forma, eu também vou lembrar do seu texto toda vez que assistí-lo. Um abraço
  • ajosan
    avatar
    Ótima crônica, meu amigo, muito boa mesmo. Fiz uma ótima leitura. Parabéns!
  • master22
    avatar
    Belo texto,e a associação entre o comportamento de Mr Bean e os efeitos do bullying está original. Parabéns
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