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THERE’S SOMETHING WARM ABOUT THE RAIN Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Diversos

Escrito por Fernando Barreto
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Qua, 20 de Maio de 2009 14:40
Eu estava em frangalhos numa tarde de um fim de semana e um amigo, Cléber, veio me visitar, e assim que entrou, já foi dizendo que subiu pelo elevador com uma garota que parecia a baterista das Shaggs. Eu o conheço há muito tempo, e achei engraçado pelo modo como ele contou, mas ele é um cara que brinca muito com esse tipo de coisa. Além de ser um pouco confuso. Já houve uma ocasião em que ele veio até minha casa e disse que estava ali na região onde moro porque tinha ido ao Centro, perto da minha casa, para ‘comprar tempo’. Naquele dia ele usava uma camiseta cm que havia as palavras ‘All the Best Cowboys Have Chinese Eyes’. Acho que é o nome de uma música ou disco do Pete Townshend. Cleber é um ótimo escritor. Ele e a Mariana Verlaine são os melhores. Ambos escrevem bem e não se apresentam como escritores. Cleber tem palavras furiosas e Mariana tem dinamismo. O tédio deles é de verdade. Fazem o que deve se esperar de um escritor, que é escrever bem, apenas. Os outros dessa geração são muito ruins. E quanto mais jornalísticos tentam ser, pior fica o texto. Essas pessoas não vão se dar conta disso nunca. Vão sempre transportar para textos todo o mecanismo burocrático de suas vidas e vão pôr tudo a perder sempre. Vários tentam produzir o que se conhece por literatura marginal, e a falta de talento e de inteligência impede de forma brutal. Essa classe média tem dessas coisas. Gente querendo escrever sobre o que nunca viveu, e sem saber escrever.
Muito bem... No meio da semana seguinte àquela em que encontrei Cleber, numa quarta ou quinta feira, eu abri a porta do elevador e me deparei com a garota da qual ele havia me falado. Ela de fato se parecia com a baterista dos Shaggs e eu fiquei vários minutos na porta do elevador olhando para ela e rindo descontroladamente. Depois deixei o elevador ir embora porque tinha até esquecido o que eu ia fazer na rua. Acho que jamais vou conseguir ser político o bastante no que diz respeito a cultivar uma convivência boa com quem mora perto, mesmo que essa pessoa seja alguém com potencial para ser um bom vizinho ou um amigo.
A garota que parecia a baterista das Shaggs era um pouco estranha, mas certamente bem menos estranha do que alguém que faz o que eu fiz na primeira vez em que a vi. Ela parecia aquelas velhas bonecas de pano, com um cabelo que não é nem moderno nem careta, simplesmente é a única garota que eu me lembro que usa aquele corte com aquela franja volumosa e o resto dele incrivelmente farto,castanho e armado. Usava uma camiseta que era de alguma personagem similar a Hello Kitty, mas que agora não me lembro o nome. Sim, agora havia no mesmo prédio que eu uma representante da comunidade indie. Não consegui ver qual era o livro que ela tinha na mão, mas o que passou a me incomodar depois é que eu comecei a desconfiar que ela era a vizinha que ouvia Mummies. Alguém novo no prédio e que morava num andar acima ao meu ouvia Mummies e Dinossaur JR. Ou seja, de fato havia ali um grande potencial para uma boa convivência. Sem contar que ela não era feia. Talvez excêntrica, talvez fosse uma garota até mesmo estrangeira. Ou uma garota brasileira que tivesse morado fora do país. O fato é que não havia nela nada de realmente ridículo que justificasse a cena tosca que eu a proporcionei. Foi tudo culpa do comentário de Cléber, pois eu achei que tivesse sido uma alucinação dele, ou algo que ele tivesse inventado. Sendo assim, acho que a surpresa e a associação imediata de minha parte ao lembrar naquele momento de um comentário feito dias antes sobre uma personagem tão mítica do Rock fez com que eu começasse a achar engraçada a cena.
Quando eu descobri que de fato ela era a vizinha que ouvia Mummies, por intermédio de uma outra garota que era uma moradora mais antiga do prédio, resolvi que deveria consertar o estrago. E antes que pudesse fazer isso, sabia que havia um monte de outros estragos pra consertar, e sabia também que antes de encontrá-la novamente faria outras idiotices gratuitas que me deixariam ainda mais em débito com pessoas que poderiam se tornar importantes para mim, seja quem fosse, seja pelo motivo que fosse. E com os dias que se passaram fui esquecendo da garota que se parecia com a baterista das Shaggs porque nossos horários não coincidiam. E o medo do prejuízo causado pelo ato descontrolado das risadas diante dela na porta do elevador voltou com muita força no dia em que uma semideusa ruiva com olhos azuis que sabiam tudo e sabiam mais do que tudo passou por mim numa tarde em que eu estava saindo pelo portão do prédio enquanto ela entrava. E seus olhos azuis que sabiam de tudo e sabiam mais do que tudo sabiam também que eu a partir de então precisaria dela para que todo o resto valesse a pena. Senti que ela era daquele tipo de mulher que parece olhar e andar e falar e viver quase como sendo autosuficiente. Ela me fez pensar se eu também não deveria tentar viver assim. E sabia que eu não queria isso, mas mesmo assim reservei alguns minutos alimentando devaneios perturbados que giravam em torno dessa questão. Mas antes disso voltei para dentro do prédio e perguntei ao porteiro quem era a semideusa. Os porteiros não sabem de tudo, mas sabem de coisas que às vezes eu também preciso saber. E ele sabia que a semideusa era a meia irmã da garota que parecia com a baterista das Shaggs. E sabia também que enquanto a garota que parecia a baterista das Shaggs morava ali no meu prédio com o pai, a semideusa morava em outro lugar com a mãe, e visitava a meia irmã de vez em quando.
Ela era uma semideusa, e não uma deusa, porque sua beleza e charme (principalmente o charme) a colocavam numa condição de incompatibilidade com o cargo de secretária que estava vago na minha vida. Eu precisava mesmo era de uma secretária para que minha vida corresse de um modo mais eficaz e produtivo, sendo essa secretária também uma encarregada de me estimular a produzir algo nos momentos mornos de ócio. A semideusa parecia sobrar em todos os quesitos quando eu a imaginei executando esses tipos de tarefa. Essa incompatibilidade dela em relação ao cargo desocupado me fez pensar mais sobre o conceito de ‘Monogamia Relativa’. Não me lembro quem me falou sobre esse conceito, mas o fato é que foi ao ver a semideusa pela primeira vez que a lógica em relação a isso se acendeu em minha mente. Eu havia lembrado da Monogamia Relativa por que num primeiro instante imaginei que seria bom ocupar o cargo de secretária com uma garota bem jovem e estúpida, mas de bom caráter e com potencial para se tornar uma pessoa melhor. E então criaria um novo cargo para que a semideusa pudesse ocupar. Ela gerenciaria também a parte mais atribulada da minha vida, de modo a tornar tudo mais simples e menos desagradável. Seria como uma acessora. Mas aí a tal secretária não duraria por muito tempo. A semideusa acumularia as funções e então já não haveria mais necessidade de se pensar muito na Monogamia Relativa. No momento em que olhei pela primeira vez aqueles olhos azuis que sabiam tudo e sabiam mais do que tudo, pensei ter visto uma garota capaz de suprir todas as minhas necessidades.
E ela era a meia irmã da garota que parecia a baterista das Shaggs...Seria a semideusa capaz de me ajudar a me desculpar de alguma forma com sua meia irmã? Ou seria capaz a garota que parecia a baterista das Shaggs destruir totalmente minha imagem diante da semideusa? Quando encontraria novamente uma delas? O que poderia fazer quando isso acontecesse? Certamente isso aconteceria cedo ou tarde, mas seria naquelas circunstâncias de sempre, no elevador, e saindo muito atrasado, ou voltando pra casa em mau estado e cansado. É loucura demais jogar todas as fichas de uma vez só em alguém que mora no mesmo prédio, ou que no caso da semideusa, tem parentes ali.
A última coisa em que eu penso quando uma garota como a semideusa cruza o meu caminho é que uma série de outras como ela já o fizeram, deixando cada uma delas um saldo diferente. Mas o ontem já passou e já não importa mais. Ninguém mais o tem de verdade, nem para o bem e nem para o mal. As semideusas do passado sempre caíram rápido do pedestal, e eu adorava e odiava isso. Passei a desejar alguma que conseguisse se manter no pedestal sem que se tornasse estúpida, até porque a estupidez foi sempre a razão pela qual todas as outras caíram. Eu nunca consegui e nunca quis entender que essas semideusas não existem de verdade. É tudo invenção minha, e despejo sobre essas garotas comuns essa condição de divindade que eu crio para agradar a mim mesmo.
E depois o imediatismo citadino impôs condições que fizeram com que eu esquecesse a semideusa e a garota que parece a baterista das Shaggs, pois fiquei vários dias sem vê-las. Nesse tempo preenchi meu tempo com o vinho bom e barato que descobri por aí, com devaneios sobre o fato de eu ser o lobo da estepe e com momentos de tédio terríveis o bastante para fazer você chorar. E eis que no começo de uma noite no meio de uma semana sem vida sou chamado pelo interfone para uma reunião de condomínio temática. Quem me chama ao salão do prédio é a síndica, que era então Dona Maria Eugênia, mãe de um cara que fora meu amigo de infância, Rui, e que mudou-se dali alguns anos antes, quando se casou. Não há como descrever o horror pelo qual passei com a surpresa daquele chamado tão inoportuno e assustador. Eu sabia que só poderia haver algo de errado naquilo. Esse tipo de coisa deveria acontecer como um sonho rápido só para que eu pudesse aprender mais uma vez que tudo pode ficar mais difícil na vida em questão de segundos, e então o sonho acaba e eu volto ao que estava fazendo, com sensação de alegria e alívio. Mas eis que desci ao salão onde rolavam as tais reuniões do condomínio, sabendo que nunca antes uma reunião dessas havia sido cancelada por número insuficiente de moradores presentes. Acontecia sempre o contrário. Certos moradores eram ávidos e freqüentes participantes dessas reuniões. Assim, desci pelo elevador como quem vai ao médico sabendo que um diagnóstico ruim está a espera.
Eu tinha demorado alguns minutos para descer porque no momento em que fui chamado pelo interfone, estava fazendo café. Eu o bebi como quem bebe café naqueles pequenos intervalos daqueles dias difíceis no trabalho, tendo que escolher entre saborear cada gota dele lentamente e adiando o que é inevitável, e beber fria sua segunda metade, ou levantar-se logo para saber o que está lhe esperando. Era um daqueles momentos em que de repente a motivação para fazer coisas que ficaram para trás surge do além, aquelas coisas que estão sendo empurradas há bastante tempo, e que reaparecem como prioridade diante de uma surpresa inconveniente como essa intimação para uma conversa sobre algo provavelmente relacionado a comportamento inadequado num condomínio. Eu não temia por isso, meu comportamento estava longe de ser inadequado. Achava que se o problema fosse música alta, por exemplo, as queixas viriam diretamente dos outros vizinhos antes que uma reunião com a síndica fosse marcada. Ou então Dona Maria Eugênia, que me conhece desde que eu era um bebê, falaria comigo diretamente sem que fosse preciso abrir o salão das reuniões no térreo. Abrir aquele salão, num caso desses, era uma formalidade até certo ponto assustadora.
Além de Dona Maria Eugênia, havia cinco pessoas no salão, que faziam com que aquilo parecesse uma daquelas salas de diretoria de escola onde alguns alunos ficam para serem repreendidos. A diferença é que todas essas cinco pessoas já tinham chegado na casa dos trinta anos, ou estavam bastante próximas disso. Havia ali três caras e duas garotas. Dois dos caras presentes eu não conhecia, eram vizinhos novos, moradores de uma república de estudantes.Caipiras bêbados e idiotas. De um modo geral, havia muitos vizinhos que eu não conhecia, porque passei muitos anos sem cultivar nenhum tipo de relação com a vizinhança do prédio. Eu detestava o elevador e o evitava nos horários de maior movimento. Sempre tentava entrar e sair o mais rápido possível. O outro cara que estava ali era um vizinho das antigas, Ronaldo, morava no primeiro andar, ouvia som alto de madrugada e estudava violão clássico. Ficava ouvindo Jazz e Fusion até tarde da noite e ficava tentando reproduzir o som dos discos no violão e na guitarra. Gostava de Joe Pass e Mahavishnu Orquesthra, dos quais eu lhe emprestava os discos. Ele tentava sempre viver rápido e intensamente. Ele parecia o Pete de Freitas, baterista do Echo and the Bunnymen, e gostava de motos. Adorava uma lisergia um pouco mais pesada também. Certa vez voltou do México com alguns Mescalitos. Por causa da presença dele ali, pude supor assim que cheguei qual seria o tema da conversa que teríamos com dona Maria Eugênia. O tema seria o transtorno que causamos para os vizinhos por causa do barulho excessivo em horários inadequados. Eu tinha o quarto onde eu ouvia máusica alta virado pra uma vizinhança razoavelmente pacífica. Mas o fato é que ouvia som alto. De qualquer forma não havia agravantes nesse fato. No caso de Ronaldo, havia também o fato de que ele tinha um relacionamento conturbado que durou anos, e ele batia na garota quando bebia muito. Nessas ocasiões eram criados verdadeiros pandemônios pelo casal. Havia ali também uma garota que eu não conhecia, e fui saber depois que ela realmente fazia barulho, pois morava sozinha e juntava seus amigos rigorosamente todas as noites para beber e fazer balbúrdia. E a outra garota ali presente era aquela que parecia a baterista das Shaggs.
Dona Maria Eugênia disse assim que cheguei que comigo ali, estavam presentes todas as pessoas com as quais ela gostaria de falar. Pediu que eu sentasse em torno da mesa e olhei a cara de cada um ali. Ronaldo fazia cara de quem queria rir, o que fez com que eu ficasse com vontade de rir também, mas certamente por uma outra razão. Fiquei com vontade de rir de novo da garota que parecia a baterista das Shaggs. Na verdade não era exatamente dela que eu queria rir. Era da situação, que naquele momento, eu ainda não tinha entendido exatamente. Eu apenas estava fazendo suposições comigo mesmo, e sabia que estava ali uma ótima chance de conhecer a garota que parecia a baterista das Shaggs, e consertar a má impressão que ela certamente teve de mim naquela ocasião em que a vi pela primeira vez. E claro, através dela saber o máximo possível sobre sua meia irmã, cujos olhos azuis sabiam tudo e sabiam mais do que tudo.
A conversa ali começou de verdade quando Dona Maria Eugênia se dirigiu a Ronaldo e comentou diretamente com ele, mas na verdade com todos, que haviam leis que protegiam do barulho os moradores de áreas residenciais. Ela comentou que começou a conversa se dirigindo a ele pelo fato dele ser reincidente. As pessoas reclamavam diretamente com ele, e o faziam com regularidade. Ele morava no primeiro andar e toda vez que algum morador entrava ou saía do prédio de madrugada, lá estava ele tocando guitarra e ouvindo Jazz alto. Portanto, ele tinha uma complicação relativa à posição de seu apartamento no prédio, pois era alvo da reclamação não apenas das pessoas que moravam acima ou ao lado dele, mas também era visado por qualquer um que entrasse ou saísse do prédio enquanto ele estivesse fazendo barulho excessivo. E realmente ele fazia bastante barulho. Como está relatado pouco acima, seu barulho era por vezes extramusical. Aí vinha à tona a falta de classe da maioria das pessoas também. Numa situação dessas, o fato de um cara ter bom gosto musical e ter no período noturno uma inspiração muito maior para estudar ou divertir-se de nada vale.Isso não contava em nada a seu favor. As pessoas se incomodam.
A garota que parecia a baterista das Shaggs se chamava Naomi. Soube naquela noite, quando Dona Maria Eugênia a chamou pelo nome. Depois fui saber outras coisas. Ela era psicóloga, gostava de vodka com chá de morando, tinha um papagaio autista e um gato Buda. Ela passava a impressão der daquele tipo de garota autosuficiente. Talvez não o fosse, mas aparentava ser. Aquela reunião com a síndica fez com que Naomi se tornasse minha amiga. Ficou bem claro que naquela sala foram convocadas as pessoas mais reclusas e antisociais do prédio.
Depois da reunião com Dona Maria Eugênia houve uma reunião na casa de Naomi, da qual participaram ela, Ronaldo e eu. A idéia partiu dela mesma e combinamos que nos dias seguintes faríamos o mesmo novamente na minha casa e na de Ronaldo. Um belo quadro do Cramps, um belo quadro do Nick Drake, um belo quadro dos irmãos Reid. E essa garota ainda era meia irmã da menina cujos olhos azuis sabiam tudo e sabiam mais do que tudo. Ela tinha ótimos livros. Tinha lido muito mais que eu e era mais jovem. O clichê aqui se faz necessário: Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.
Uma coisa que me chamou a atenção já naquela noite foi o fato de que Naomi, conversando com Ronaldo e comigo, analisava com um olhar duro e exigente a nós enquanto falávamos e eu imagino que isso se deve ao fato dela ser psicóloga, embora eu já conhecesse esse tipo de olhar duro e analítico de outras pessoas que não eram psicólogas. Ela tinha esse olhar duro e analítico mas não era um olhar arrogante. Era um olhar de quem sabia bastante coisa mas que não sabia tudo. Era um olhar que intimidava um pouco o analisado, mas isso foi algo com o qual nos acostumamos depois.
Ela contou que havia sido a garota mais estranha da sala de aula durante muitos anos. Eu já imaginava isso. Falamos sobre como os que se destacam mais na época da escola se tornam verdadeiros idiotas teleguiados depois da fase escolar. Eu até hoje encontro alguns caras que por diferentes razões se destacavam na época da escola em relação aos outros. Ela, assim como eu, simplesmente achava tudo um saco, mas sabia que não havia nada a ser feito. A estranheza da fase escolar vira depois um tipo de desprezo pela sociedade que por vezes nos faz sentirmos cruéis. E olhamos pra trás e vemos aquela infância parcialmente afogada em meio a esse desprezo que já tínhamos e não entendíamos e que menos ainda sabíamos explicar. Apenas sabíamos que era patético sair na mão com outro cara no jogo de futebol da aula de educação física ou ridicularizar a menina de óculos, e mesmo assim fazíamos. A desesperança e o tédio das eternas manhãs frias e nevoentas...Aquelas das quais pensávamos que nunca nos livraríamos e que a maioria daquelas pessoas realmente nunca se livraram.
Eu adoraria que Naomi falasse de sua meia irmã sem que eu precisasse perguntar. Fui pensando em algo para fazer com que ela chegasse a esse assunto por si mesma. Seu gato Buda tinha seu ponto ideal junto à mesa sobre a qual havia um cinzeiro onde deixávamos muitas cinzas. Ali o gato Buda parecia indestrutível e ali estava tudo bem pra ele. Ele pouco se dava ao trabalho de nos analisar. Chá de morango com vodka é muito bom. Naomi ouvia música alta com uma janela aberta que ficava de frente para vizinhos que não gostavam de barulho. Ela realmente pouco se importava. Eu tentava fazer com que os vizinhos não soubessem que eu existia. São dois modos de ação diferentes que mostram o mesmo nível de desprezo pela vizinhança. Não havia naquele apartamento nenhuma daquelas fotos de família em porta-retratos onde eu pudesse ficar olhando para a semideusa ruiva com olhos azuis que sabiam de tudo e sabiam mais do que tudo e aí sim poder perguntar a Naomi quem era aquela garota, fingindo que ainda não sabia. Mas eu acabei perguntando se ela tinha irmãos e onde seus pais moravam e etc...E então ela me contou que seu pai era um andarilho que teve três casamentos oficiais e que fez uns filhos bastardos pela América do Sul, e sendo assim, ela tem irmãos que não conhece e que provavelmente nem mesmo seu pai conhece. Contou que dos irmãos com os quais ela tem contato, há um que é do casamento de seu pai andarilho com sua mãe e uma irmã por parte do pai, filha do casamento seguinte. Então foi buscar umas fotos. Ah ,que delícia!!! Ali estava a semideusa dos ruiva dos olhos azuis que sabiam de tudo e sabiam mais do que tudo... Eu disse a ela que já tinha visto aquela garota no prédio. E eu tinha tomado bastante vodka com chá de morango, tinha fumado baseado tinha ouvido a coletânea da 4AD e estava fixo olhando aquela foto... E Naomi estava me analisando com seu olhar duro e analítico de psicóloga, e embora ela não soubesse de tudo e soubesse bem menos que tudo, sabia no que eu estava pensando e disse que me avisaria quando a semideusa dos olhos azuis que sabiam de tudo e sabiam mais do que tudo a viesse visitar.



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Última atualização em Qui, 21 de Maio de 2009 10:53
 
Comentários (3)
  • Rafael_Ugulino  - Boa narrativa
    avatar
    Gostei muito, principalmente da Naomi.
  • esther_cyrraia  - nossa!
    avatar
    nunca vi ninguém escrever assim, que narrativa! longo e sem perder os sentidos com detalhes! parabéns
  • Cilas_Medi
    avatar
    Fernando, espero que a conquiste. Parabéns. Abraços.
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