|
"Nosso traço psicológico principal não é o pensamento. Somos um povo de sentimento e intuição, mais sentimento, ainda do que intuição. Falta-nos, porém uma boa dose de pensamento." Artur da Távola.
Venho do tempo em que essas comemorações mexiam com a cabeça das pessoas, por força de condicionamentos próprios do comportamento provinciano, numa cidade, embora ainda não assaltada pela cultura dos shoppings, já sofria o assédio dos apelos comerciais.
Refiro-me a um passado, não muito distante, em minha terra natal - Salvador. Nos bondes, nos ônibus, nas escolas, nos jardins, nas portas das casas, a conversa, já no final de abril, girava em torno, especialmente, de duas datas tradicionais: o dia das mães e o da Abolição da Escravatura.
Durante os anos do curso primário e do ginásio, principalmente, uma das lições mais repetidas era em torno da histórica Lei Áurea da Princesa Isabel. O que os livros didáticos apresentavam sobre isso era algo inconteste. Tinha que ser decorada, de trás pra frente, de frente pra trás.
Quem se atrevesse a contestar o alcance/significado da Lei da Abolição da Escravatura corria o risco de ser tachado de não-patriota e, após o golpe militar de 64, de "subversivo", "comunista".
A inocência dos anos juvenis era aproveitada para as lições de um civismo de cima pra baixo que, não raras vezes, ofuscava realidades trágicas, como é a do povo afro-descendente e a do indígena.
O curioso é que havia a sensação de uma meta plenamente alcançada, como ainda há, guardadas as distâncias, um bem-estar geral, posto que colocaram, no plano da invisibilidade, aquelas realidades.
O grilhão, antes de ferro, seria transformado em amarras sociais.
Transcorria o mês de maio, com as noções inerentes a cada data, e os rótulos estavam bem afixados nos muros e nas paredes da sociedade de então.
O mês das noivas, das mães, de Maria, tudo conforme as celebrações de um capitalismo interessado em manter o 'status quo', privilegiando o poder do branco dominador.
Sem chicote, nem algemas - reais - mas, de posse de imagens, de discursos que mexem com as emoções coletivas, maio era, e é, objeto de desejo para as moças casadoiras que sonhavam, e sonham entrar na igreja com seu belo vestido de noiva e ser entregue pelo feliz pai ao homem de sua vida, "até que a morte os separe".
Também, maio, um objeto bem bolado para as circunstâncias atuais. Se antigamente, o rádio falava forte nos ouvidos do povo, conclamando homenagens para o dia das mães, provocando sentimentos que se extravasavam em gestos consumistas, hoje, a mídia televisiva e on line, além daquele, reforçam os apelos de ontem com nova roupagem.
Os tempos são outros, sim. A galera/tribo, não segue, literalmente, as injunções do civismo decadente, sobretudo, face à condição da nação, relativamente a honestidade, respeito, justiça, entre outros valores - uma CALAMIDADE. (Sem dúvida, há os que sentem falta daquele civismo, comentam: 'bons tempos aqueles'.).
Pois bem, de posse de Ipod, Celular, MP9, Palm Top, a geração presente participa do cerimonial de maio, percorrendo lojas, shoppings, finalizando-o com almoço em família ou em algum restaurante, para quem pode, ou se sacrifica. A grande massa fica a ver navios, ou melhor, perde-se no mar da publicidade marqueteira.
Aonde a reflexão de maio me leva? À revolta contra essas comemorações...?? Huum!! Não é bem por aí.
Uma infinidade de questões pode ser levantada, quanto às datas de maio, pondo na mesa, igualmente, as datas comemorativas de todos os meses do ano.
Escolhi falar sobre o quinto mês do ano, no seu final, por ser mais recente e sentir-me motivado pelas lembranças que me ocorrem no momento.
Uma delas, referente ao Tributo a Bob Marley, que vem proporcionando vários eventos em homenagem ao músico jamaicano, falecido em 1981, inclusive em terras baianas.
Outra, ao estabelecimento da data de 25-05, como o dia de luta contra o racismo.
Mas, não fica somente por aí, o que já seria um tanto quanto suficiente para explorar melhor o potencial de maio em torno das humanidades. Em Salvador, foi instituído o Dia do Reggae (11-05), data da morte de Marley .
Portanto, há de se rever questões socioétnicas numa terra em que a presença afro-brasileira é notória e que vem envolvida pelos mistérios da Mãe África e da civilização indígena (também na onda dos desprotegidos).
Em Feira de Santana, associações, a Uefs, a Câmara Municipal, grupos vários, têm firmado posições valorizadoras em torno da cultura afro-descendente e isso é animador.
Cabe aqui uma reflexão. As comemorações do mês de maio devem transmudar-se em celebrações que se destinem não apenas às noivas de branco, às Marias, às lacrimosas ações para uma parcela das mamães (afinal, todo dia é dia de Mãe, certo??!!) e que vão além do 'oficialismo' da data da Abolição da Escravatura (maio é, sobremaneira, reconhecido como o mês da Abolição).
Urge dar visibilidade a um compartilhamento interétnico envolvendo Joões, Marias, Josés, Augustos, Lauras, Beneditas, Danielas, Suzanes e tantos quantos são "gente de cara e dente", ou sem esses, por que são banguelos.
E vivas para as mães, as noivas, as Marias e para todos os que prezam e defendem a liberdade.
Crie um banner deste artigo em outros sites
Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página.Visualizar : |