| O BERÇO DA QUINTA |
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| Literatura - Contos - Romance |
Escrito por Brunno |
Seg, 22 de Junho de 2009 23:03 |
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SEGUNDO ENCONTRO
Liv – É uma vadia!(aquela morena linda tinha os olhos semi-cerrados e rangia os dentes) Ficou na equipe até um tempo depois de Gascoin e eu começarmos a namorar e ainda assim dizia a todos que ela seria esposa dele e que não havia motivos para ele ficar com uma “artista alienada” como eu. Então o que eu fiz? Mostrei ao meu namorado que a artista alienada também tinha coragem de pilotar um carro a duzentos quilômetros por hora numa pista de cascalho (cruzou os braços me encarando). Quinn – E foi nesse episódio que a senhorita destruiu um modelo série 650i entre Atenas e... Onde foi mesmo? Liv – Krios. É eu acabei com o carro. Não porque eu capotei ou fui para o porão (porão é como os piloto dizem quando destroçam os carros numa capotagem), mas porque eu estava dirigindo um carro de série sem aparatos de corrida. Destruiu um carro de cento e cinqüenta mil euros só pra mostrar pro namorado que não queria a outra por perto. Cretino. Quinn – A senhorita teria dinheiro para custear o prejuízo caso sua atitude não saísse conforme esperado? Liv – (cerrou os olhos, mania, e me encarou) Que pergunta mais indiscreta, moço! Mas não. De forma alguma eu pagaria por aquele carro. Quando nos conhecemos eu trabalhava como gerente de uma galeria de artes em Niágara Falls. Eu tinha um apartamento alugado e um Minicooper azul (rindo) que não funcionava dependendo da umidade do ar! Imagine-se a umidade do ar nas cataratas do Niágara. Quinn – Essa história que quando se conheceram. Se importa em falar sobre isso? Liv – Foi muito estranho. Eu estava cuidando da fazendo de uns amigos no oeste do Canadá por alguns dias. Numa noite saí para procurar o cachorro pelos campos de trigo e me deparei com um acidente de moto. Gascoin vinha a mais de duzentos quilômetros por hora com uma Thyumph preta numa estrada molhada. O cachorro avançou pela pista, ele perdeu o controle da moto e se estatelou contra uma árvore. Ficou com amnésia. Os empregados da fazenda e eu cuidamos dele e até o colocamos pra trabalhar como ajudante geral... Imagine um cara como ele trabalhando numa fazenda, ajudando a catar porcos e construir celeiros (rindo). “O caso é que mesmo amnésico e batizado de Jacques (mais risos), eu fui me acostumando com ele. Depois houve um incidente estranho com um cara japonês e alguns dias depois, lá estava ele na porta da galeria, já recuperado me convidando pra sair.” Kary tirou menos fotos dessa vez. As entrevistas estavam sendo conduzidas ainda no lobby do hotel em Davos. Os próximos encontros com o casal estavam indefinidos. A entrevista com Liv continuou. Quinn – E como é a rotina de trabalho de vocês? Existe algum motivo, se é que gostaria de falar sobre isso, de vocês ainda não terem filhos? Liv – Não tem problema perguntar. É que simplesmente não poderíamos criar uma criança dentro de um avião. Quero dizer, como com a nossa rotina? Gascoin está sempre viajando e eu muitas vezes o acompanho. Ou quando ele tem de fazer as reuniões misteriosas eu fico na Europa ou Ásia cuidando das pesquisas sobre história da arte. Quinn – O que seriam essas reuniões misteriosas? Liv baixou os olhos por um segundo como se notasse que dissera algo indevido. Depois sorriu, olhou os lados e mexeu graciosamente na parte de trás do cabelo. Liv – Na verdade essa pergunta me constrange porque nem eu mesmo sei do que se trata... Me sinto uma boba quando acontece. Vi que era hora de parar. Mesmo porque a assessora de imprensa de Gascoin – é incrível a quantidade de mulheres que trabalham pra ele – disse que tinham de viajar logo cedo e precisavam descansar. Liv nos cumprimentou e foi para o quarto. Depois de terminado aquele primeiro ciclo de entrevistas fiquei pensando em como seria realmente a vida daqueles dois. Jovens, ricos, rotina interessante, bem diferente do costumeiro. Conheci pessoas ricas como eles durante a vida, tenho até alguns amigos mais endinheirados, mas todo mundo leva uma vida normal. Por normal quero dizer que essas pessoas fazer suas rotinas da maneira mais simples possível. Trabalham para sustentar seus gostos ou o que quer que seja. O casal Duncan-Gascoin me passou uma impressão diferente. Eles parecem amar o que fazem a cada dia. Nosso vôo de volta foi bem depois do deles e parece, pelo que fomos informados, que as próximas entrevistas aconteceriam em Londres, para dali duas semanas, já que a publicação podia ser programada de forma eletiva. Ouvindo Rolling Stones cantando Paint it Black durante a viagem, fiquei pensando sobre a tal reunião misteriosa de que Liv Duncan havia falado. Que tipo de pessoa não conta para uma namorada tão linda, tão meiga, tão gostosinha e tão apaixonada aonde vai? Descemos em Heathrow sobre um frio de doze graus. Eu tomava um café esperando o desembaraço das porcarias que Kari havia comprado em Davos quando senti um arrepio nas costas, e não era o frio. Era o que alguns colegas chamam de instinto de jornalista. Como aquele cara ficou rico afinal? E porque diabos eu nunca tinha ouvido falar dele já que gosto de esportes? Ao lado da cafeteria havia uma banca. Comprei todas as revistas de esportes disponíveis e alguns jornais daquela data. Kari perguntou o que ia fazer com tudo aquilo e respondi que queria saber mais sobre a vida do tal Gascoin. Ela riu dizendo que eu estava e interessando pela coluna de fofocas. Até podia ser. Estava mesmo curioso pra saber como o sujeito chega a tal ponto financeiro. __Então ta faltando uma revista, Quinn, a Forbes! Idiota! Claro! O guia dos mais ricos do mundo. Levei essa também. Pra minha decepção não havia uma única linha sequer na porcaria da Forbes e muito pouco sobre a Gas-Competition e as novas aquisições automobilísticas da empresa para a próxima temporada de corridas. Estava numa entressafra de notícias daquelas. Em casa fui direto à fonte cibernética. A primeira coisa que encontrei na pesquisa sobre o casal demorou quase duas horas e muita paciência, dava conta de uma lista de convidados VIPs na festa de lançamento do mais novo veículo espacial não tripulado da ESA, a Agência Espacial Européia. O casal Duncan-Gascoin fora convidado, e nada mais. Sequer uma porcaria de foto. Ai passei a procurar sobre a festa para ver se ao menos ela estava usando algum decote portentoso. É nessas horas que as coisas aparecem, e por algum motivo, Paint in Black começou a tocar novamente em minha cabeça. Num canto de uma foto em que os demais convidados estão sorridente e indiferentes ao que acontece ao fundo, vi com muito esforço o presidente da França num aperto de mão discreto com Henri Gascoin. O presidente olhava para um lado e Gascoin para o chão. Por que o presidente da França daria atenção a um empresário, mesmo sendo alguém muito rico e de certa forma conhecido como Gascoin. Pensei durante um tempo tomando café e fumando, que se tratava de um cumprimento casual. Alguém passa e apresenta os dois, o presidente estende a mão profissionalmente e pronto. Mas nesse caso a atenção de Gascoin seria outra. Quem cumprimenta um presidente não olha o chão. “Reuniões misteriosas” disse a linda morena. As próximas entrevistas com o casal foram marcadas. Meu editor havia dito que não havia prazo específico para o lançamento da matéria, se é que ela seria lançada, dependeria do interesse comum. Enquanto preparava o que ia falar com os dois no dia seguinte, meu telefone toca. Era Ian, meu amigo policial. Sempre é bom ter um amigo na polícia porque quando acontece algum assassinato ou coisa que o valha, as melhores informações vêm dessas fontes. Ian disse que estava a fim de tomar umas cervejas num pub e achei que seria uma boa descontrair um pouco e quem sabe, averiguar se ele conhecia o tal sujeito. Nos sentamos nos conjuntos altos de mesa e banco, rente a um pilar de madeira na Taverna do Ganso Branco, Main Street, West London, precisamente às nove e trinta. Ian e eu pedimos o mesmo, uma guinnes e dois licores. Ainda era um lugar que não seguias às estritas regras anti-tabagismo do Reino e onde se pode fumar dentro de lugar fechado. A névoa azulada tomava conta do teto e espessava o ar ambiente. Ian comentou que estava de namorada nova, uma garçonete de Village, sei lá qual Village. Depois conversamos um pouco sobre minha viagem a Suíça, disse que adoraria ter um trabalho com o meu: sempre viajando e sem coisas estressantes com que lidar. Eu ri brevemente. Tinha razão num ponto. O trabalho policial era realmente intenso. Quando estávamos na terceira cerveja, disse que havia conhecido o tal Henri Gascoin e sua linda esposa. Ian franziu a testa e olhou para a mesa. Conhecia o nome de algum lugar. Expliquei que se tratava de um desses ricaços que gastam dinheiro com carros. Meu amigo lembrou-se de um episódio em que viu o tal Gascoin quase saindo no braço ao término de uma prova de rally porque um dos competidores havia feito alguma coisa que ele não gostara. Comentei que achava estranho, afinal, o sujeito havia me parecido bastante tranqüilo. Mesmo as pessoas tranqüilas, às vezes, saem do sério, mas os desportistas europeus parecem ter uma beatitude quando se trata de extrapolar para a agressão. Ian sorriu ainda olhando o nada. Depois levantou os olhos para mim brandindo um dedo negativamente. __Não é bem assim, não, meu amigo. Agora estou me lembrando: esse Gascoin já teve passagem pela polícia aqui em Londres – e colheu com as pontas dos dedos mais um bocado dos amendoins salgados do pote sobre a mesa. Bati minha caneca na mesa olhando fixamente pra ele. Pedi que explicasse. __Eu sabia que não conhecia esse nome só pelas corridas. O sujeito foi detido há alguns anos aqui na City. Sabe, eu estava em treinamento na época. Deve fazer uns cinco anos ou mais – tomou outro gole de cerveja – ele se envolveu numa perseguição policial na E-40. Não tenho certeza do que aconteceu, mas pelo que estou lembrando deve ter sido uma tentativa de seqüestro. __E ai, o que aconteceu? __Eu lembro de ter estudado os registros porque meu superior me ensinava a fazer um relatório: esse tal Gascoin e uma mulher, não me lembro o nome – pensou um pouco – não é que não me lembro, ela não fora identificada, é isso. Sei que os dois estava num Golf preto, placas inglesas, temos o registro disso, e eram perseguidos por três ou quatro Audis A4. O que realmente marcou foi o fato do o sujeito dar um baile em todo mundo com um carro menos potente, entende? __Até ai não há nada de novo. O cara é piloto profissional. Porque iriam querer seqüestrá-lo, ou à mulher, usando um carro simples, é que me intriga. Ficamos os dois pensando por um tempo naquilo. Não sabíamos a história de como Henri Gascoin havia conseguido sua fortuna e era a próxima coisa que iria investigar. Eu não sabia o motivo, mas achava que tinha alguma coisa estranha naquele cara. Instinto jornalístico ou simples vontade de achar alguma coisa errada para justificar para mim mesmo porque eu não tinha uma mulher linda daquela deitada na minha cama... Pedi a Ian que me passasse o que pudesse sobre o registro de Gascoin. Disse que iria ver o que dava pra ser feito e me telefonaria assim que alguma coisa interessante fosse encontrada. Abusando de nossa amizade, solicitei qualquer informação que ele tivesse. Ian disse que me ajudaria no que pudesse. Na manha seguinte eu tinha preparado alguma coisa para a entrevista, mas não estava animado com o assunto. Mesmo sabendo que naquela manhã iria falar com Gascoin, eu não queria saber como era a vida de um piloto de carros, ou de um cara rico: onde ele almoça, que carros dirige, onde passa as férias. Achava uma besteira sem tamanho. TERCEIRO ENCONTRO Seria mais uma manha comum de chuva em Londres se eu não estivesse naquele lugar: terraço da cobertura duplex do casal em Chealsey. Estava sentado numa confortável cadeira de madeira pesada, escura, com apoio para os braços, estofado de couro cru reforçado, diante de uma mesa quadrada de vidro fosco, num espaço duas vezes maior que meu apartamento, com vista para o Hyde Park, o Marbel Arch mais ao fundo, longe dez andares acima do som da rua. Eu mesmo usava um casado de tweed e calça de veludo cote lê pesada, sentia frio. O tal Gascoin veio pela passagem da sala de TV para fora, falando ao celular e usando calça jeans e uma camisa sem mangas. Por baixo da camisa havia alguma coisa parecida com um colete preto, pesado e reforçado. Gentilmente desligou o telefone para nossa entrevista e desculpou-se por me fazer esperar – sujeito educado. Comecei comentando que ele não sentia frio, só pra quebrar o gelo. Gascoin sorriu e disse que apenas sentia-se muito bem em Londres, adorava o clima. Saquei meu gravador e um bloco de anotações com uma canetinha vagabunda que ficava pendurada. A caneta falhava e Gascoin pediu licença, retornou com uma caneta bonita, prateada, num estojo de madeira, disse que era um presente para mim. Sequer olhei os detalhes da caneta quando a carreguei entre os dedos, pesava muito. Quinn – Muito bem, senhor Gascoin. Dando continuidade hoje gostaria de falar sobre o desenvolvimento de sua empresa e quais os novos planos para a Gas-Competition. A última edição da Sports Illustrated da conta somente que alguns planos estão em andamento para o desenvolvimento do novo carro. Se importa em falar sobre isso? Gascoin – De forma alguma. Esperamos estrear as próximas temporadas de rally, Turismo, GP1 e 2 com um carro extremamente eficiente, afinado, eu diria. Atualmente está em desenvolvimento um protótipo de reaproveitamento de energia que deve dar aos carros BMW-Gas mais cem ou cento e cinqüenta cavalos de potência nas retas. Isso na verdade não é nenhuma novidade ou segredo, todas as outras equipes têm suas maneiras de aproveitamento de energia. Quinn – Sobre isso: como é a relação da Gas-Competition com as demais equipes? Eu soube que num incidente, o senhor quase agrediu um membro de outra equipe por divergências. Isso é verdade? Gascoin – Esta é com certeza uma coisa da qual eu vou me envergonhar pelo resto da vida. Infelizmente eu fui muito baixo naquela ocasião. Era o início da carreira e ainda tinha dificuldade para enfrentar a derrota. O que aconteceu foi que julguei de forma errônea a atitude de um jovem piloto finlandês durante uma prova da Espanha, a etapa de Barcelona ou rodada catalã, como alguns dizem. Eu me desculpei publicamente e pessoalmente com o pessoal da Renault, em especial com Markus, e hoje somos amigos. A relação da equipe com nossos concorrentes é delicada porque estamos sempre em destaque, e quem está nessa posição se expõe demais. Não digo que somos os bonzinhos: quando fazemos aquela festa numa vitória é porque estamos realmente querendo esfregar nas caras de nossos concorrentes que é muito bom ganhar deles! (Eu ri nessa) Quinn – Outra controvérsia segundo alguns veículos da imprensa é quanto aos seus patrocinadores. Você faz comercial de cigarros de bebidas, sendo um desportista! Isso atrapalha em alguma coisa sua imagem? Gascoin – Quinn eu tenho quatro patrocinadores principais, e eles são britânicos, franceses, germânicos e sauditas. Para os franceses a Moet Chandon e a Gauloises não são nada agressivos, assim como para os britânicos com a Jonhy Walker e a Rothmans. Os alemães adoram suas BMW. Já os sauditas, mais especificamente o Ministério de Turismo, causou algum empecilho. Sua cultura proíbe uso de substâncias entorpecentes, mas resolvemos logo. Problema mesmo ouve depois do comercial do Blue Label. Gascoin como ator até que foi bem. Ele encarnou o próprio Jonhy Walker, de fraque, cartola e bengala, numa série de comerciais que correu o mundo, na clássica posição do símbolo da Destilaria Tomore. Quinn – E hoje sua imagem não fica arranhada, sendo um fumante? – apontei para o cinzeiro de cristal sobre a mesa. A peça reluzente tinha um emblema que naquela hora eu não dei atenção. Gascoin – Não. O que eu realmente não faço, até por questões de contrato é usar outro carro que não um BMW. Quinn – O que o deixa numa terrível posição, acredito. Quer dizer que a frota em casa está grande? Liv aprova ou ela gostaria de dirigir outra marca? Gascoin – (rindo) A frota em casa é modesta, Quinn. Como já te disse eu sempre gostei dos carros da marca, antes mesmo de qualquer contrato. O documento prevê que como piloto BMW não posso dirigir qualquer outro carro, mas posso solicitar um BMW de qualquer modelo em qualquer concessionária da empresa no mundo, sem limite de tempo, quilometragem ou outra coisa. Quanto a Liv acho que ela se diverte. Quinn – Quais são seus modelos prediletos? E os de Liv? Gascoin – Eu sempre fui fã das seven series. Mesmo adorando velocidade, o que não é recomendado num carro com aquelas características, acho que a imponência do sedan clássico fascina qualquer pessoa. Liv prefere, e na verdade ela os têm, fora de contrato, os grandes ou rápidos: pra resumir são um X-5 e um M-8. Quinn – achei que devido ao chip limitador de velocidade os sedans da marca atingissem mais de duzentos quilômetros por hora. Não acha que é velocidade suficiente? Gascoin – Meu caro Quinn, se quer velocidade mesmo, devia experimentar a BMW Diabolique! Eu mesmo já passei alguns sustos com aquilo (moto, mais de mil e quinhentos cavalos de potência, considerada uma máquina de moer gente, e proibida, em muitos países). Quinn – Não me convide novamente, por favor. Senhor Gascoin eu gostaria de falar agora sobre um incidente ocorrido aqui em Londres há uns cinco anos. Creio ter sido uma tentativa de seqüestro que o senhor e uma amiga sofreram... Estou certo? Gascoin – Foi exatamente isso. Faz muito tempo, a Polícia Metropolitana de Londres foi excelente, extremamente educados e dedicados, de uma competência ímpar, eu diria. O caso está arquivado e honestamente eu não gostaria de falar sobre isso, Quinn. Causaria constrangimentos... Neste momento ele ergueu um dedo, para que eu não comentasse nada. Olhou fixamente e me pediu silêncio num gesto inconfundível. Eu não entendi. Parecia que alguém não podia nem ouvir sobre aquilo. Foi nessa hora que Liv apareceu sorridente da porta. Confesso que não ouvi nada. Sequer um passo, uma maçaneta de porta, uma campainha qualquer! Aquele cara devia ter ouvido de cachorro porque eu estava mais perto da entrada do terraço e não ouvi nada! Por um segundo ela não ouviu minha pergunta. Deduzi que a tal moça que estava com ele na ocasião devia ser uma ex-namorada ou algo do gênero. Qualquer coisa que ele não gostaria que ela ouvisse. Parei, respeitando meu entrevistado. A lindona veio até nós, sorrindo e com uma caneca de chá fumegante. Estendeu-me a mãozinha branca e escolheu um educado sorriso. Levantei atrasado, depois de “tê-la nas mãos” e respondi com um sorriso amarelo pra disfarçar minha vontade de agarrar aquela mulher. __E então, como está sua matéria? Estou me sentindo uma dessas atrizes importantes dando entrevista para um jornalista – comentou a lindinha, toda educada, sentando-se ao lado do marido. Até parece que Liv Duncan jamais havia dado entrevista. Era sempre a primeira a aparecer ao lado de Gascoin durante as corridas e por vezes havia sido consultada no que é ser “mulher de piloto”, título que eu já percebera, ela não gostava. Quinn – Senhorita Duncan (eles não eram legalmente casados) com certeza nossas leitoras gostariam de saber como é que cuida de suas vidas e sua casa. Sei que a senhorita trabalha com artes, mas é inconcebível que uma casa com essa arrumação e decoração não tenha um toque feminino. Uma pesquisa feita recentemente por um jornal de Londres apontou a senhorita como uma das mulheres mais ativas da atualidade. Como é sua vida em resumo? Liv – Olha Quinn, essas pesquisas levam em conta tantos critérios diferentes que eu mesma não sei o que dizer. Até incluir Carla Bruni, Angela Merkel, a Princesa Sophia e a Imperatriz japonesa eu entendo. São mulheres que usam seu prestígio para fazer alguma coisa em prol de outras pessoas. Não sou dada a filantropia, não penso em ter filhos, como já disse, não gosto de florzinhas, detesto a cor rosa e não sei ser meiga. Minha avaliação foi de que sou uma desportista – torceu o nariz em discordância – sei pilotar helicópteros, falo vários idiomas, posso governar um barco, se Henri deixar, gosto de cavalgar e o maior tesão de todos é o trabalho. Quinn – Foi exatamente neste ponto que a senhorita foi admirada. Aquela reportagem dizia que é uma das pesquisadoras mais requisitadas em História da Arte do momento. Você se vê como uma “Indiana Jones”? Liv – (rindo) Boa essa! Não de modo algum. É que tenho ao meu lado um cara que faz espeleologia, salta de pára-quedas, é muito mais atleta do que eu, sabe usar com destreza uma arma de fogo se necessário (nessa hora pude notar um leve toque de Gascoin nela, como se ela tivesse falado demais). Quer dizer, eu me meto mesmo nos lugares mais incomuns atrás de algum artefato histórico. A maior trava de meus colegas universitários é verba e isso graças a muito trabalho, não é problema. Quinn – Perdoe minha insistência, mas nessa mesma publicação um dos reitores da universidade de Cambridge, Lord Mortmer, preferiu não comentar sua recusa em assumir uma posto permanente na cátedra de História. Por que a negação? Liv – E eu lá tenho tempo pra ficar preparando aula, corrigindo provas, orientando alunos e cuidando de papéis atrás de uma mesa? Só faltou me pedir pra ir trabalhar usando um casado de tweed com reforços de couro nos cotovelos! Nada contra os professores, os meus eram excelentes, mas pra fazer a coisa bem feita é preciso tempo e dedicação. E minha dedicação é no trabalho de campo. Quando eles pedem ajuda, eu dou. Simpática. Essa palavra definiria bem a moça. Gascoin ficou com sua expressão mais comum: sobrancelhas franzidas, olhos atentos e cara amarrada. O cara era um paradoxo. Em alguns momentos era sorridente e parecia até um americano bufão, noutros era como se estivesse longe, vendo alguma coisa que ninguém mais via. Ele voltou à conversa quando lhe perguntei qual seu plano para o futuro. Gascoin – Vou continuar no ramo automobilístico até ser tão respeitado quando meu amigo Nikki Lauda. Que aliás está prestes a vencer a corrida... – olhando para Liv. __Eu ouvi! – ela explodiu em espanto – Não acreditei quando li a matéria, amor! Que máximo pra ele! Enquanto tentava entender de que diabos estavam falando, Gascoin esclareceu que Nikki Lauda, tricampeão de Formula 1, estava sendo treinado em Kennedy Cape, Flórida, para ser lançado ao espaço a bordo do veículo de turismo patrocinado pela Virgin. A corrida, como Gascoin havia dito, era que aparentemente eles competiam pra saber quem havia se deslocado em maior velocidade. __O placar estava 1 a 0 para mim... – disse Gascoin sem terminar a frase. Notei que ele pareceu falar demais. Havia muita gente falando demais dessa vez. Sem conseguir conter o ânimo de sua linda namorada-esposa, foi ela quem trouxe luz aos fatos. __É que Henri atingiu Mach 5 num caça F-22 sobre a França recentemente... – novamente o sujeito olhou para ela como se dissesse “fique quieta”. Quinn – Também é piloto de caças, senhor Gascoin? – agora até ela notou que falava demais. Por um segundo houve um silêncio constrangedor entre nós três. Liv gentilmente disse que tinha coisas pra fazer e se retirou da entrevista deixando Gascoin com a batata quente para me explicar. Tive a certeza de que a coisa ia ficar feia pra ela depois. Gascoin – Eu sou piloto de avião, Senhor Quinn. A diferença é que os pilotos de caça aprendem sobre seu ofício, a aviônica é basicamente a mesma em todas as aeronaves: velocidade, empuxo e aerodinâmica. Qualquer coisa além disso me é absolutamente desconhecido. Quinn – Vamos então considerar o motivo desse vôo. Acredito que somente pra dizer ao amigo piloto que você havia sido mais rápido não justifica o gasto de se levantar um avião de caça do chão. Quem autorizou a decolagem? Pude ouvir os dentes do sujeito rangendo. Apesar de não transparecer em nada, de ficar absolutamente normal, sequer desviar os olhos, ele estava com raiva, depois eu soube. Gascoin – Foi um favor, senhor Quinn. Um pedido para um vôo promocional de propaganda para minha empresa. Como bem sabe nós valorizamos muito a velocidade e meu CEO achou que ter o presidente voando num caça atrairia a atenção de patrocinadores. O governo francês, detentor da autoridade, permitiu a decolagem, mas para esclarecimento final, eu não estava no comando da aeronave, mas, sim, no acento de trás. A mesma era conduzida por um piloto da força aérea, acredito. Quinn – Se importa em me dar o nome do piloto ou da pessoa que autorizou a decolagem? Gascoin – Seria muita indelicadeza de minha parte divulgar o nome de um profissional que estava prestando um favor. E se o senhor quer o nome de um homem do governo francês que com certeza deve ter autorização para isso, eu diria, Nicholas Sarzoky. O cretino baixinho, novamente. Esse cara estava começando a me dar nos nervos. Sequer anotei a resposta e absorvi o sarcasmo. Mas não esqueci. Aquela sessão havia terminado e eu, na verdade, tinha pouco material interessante. No caminho de volta pela cobertura, pude ver, através de uma janela alta, um pedaço de alguma coisa que parecia ser uma tábua, mas parecia metal. Gascoin não fez objeção em comentar sobre aquilo, até me levou ao local para onde eu olhava. __Este é o Endeavour Proteus – disse o homem apontando para a máquina mais linda que eu já havia visto. Um helicóptero negro como as trevas. Trens de pouso repousados sobre o concreto demarcado com milhares de pequenos leds azuis. Uma frente imponente a um metro do chão; a carlinga esguia de superfície limpa, janelas pequenas e enegrecidas. Abaixo e por trás das caixas de pouso duas enormes turbinas que combinavam com suas irmãs maiores na parte de cima, logo atrás do compartimento do motor. O princípio da cauda não podia ser abraçado e ia afilando até as derivas duplas com o rotor de cauda duplo: duas pequenas hélices giravam em direções opostas. Encimando tudo quatro pás de hélices com sobre pesos nas pontas para silenciar o estrondo do monstro estavam unidas na imensa caixa do rotor principal. O que mais chamou atenção foi o acabamento de toda carenagem: muito mais delicado e reforçado do que qualquer carro que eu já tivesse visto. As únicas peças nuas eram as travas das hélices do rotor de cima, pareciam enormes dedos entrelaçados formando uma aranha metálica gigante. Um assobio foi só o que consegui para o momento. Gascoin disse que havia sido um protótipo de uma empresa britânica para um Choper de combate, um primo rico do MacDowell Apache 114 americano. Mas por dificuldades com o projeto a empresa achou melhor reestruturar a fera, dar uma pincelada de verniz e vender para os ricaços como uma limusine dos ares. Outro assobio quando terminou de falar. Achei que seria cretino demais pedir para ver seu interior, e assim que cheguei em casa vi que cretino mesmo, foi não pedir para ver o interior, seria o ponto alto da semana. O sujeito me negou as informações técnicas do bólido, mas não proibiu sua citação na matéria. Também pudera. Eu mesmo já havia notado o grande negro sobrevoando Londres algumas vezes, mas não pensei se tratar de coisa tão fascinante. Tarde daquela noite fiquei pensando no que o casal Gascoin devia estar fazendo. Alguma coisa de gente rica, claro. Quem sabe jantando com alguns figurões no Scot’s. Ou falando com alguém do outro lado do mundo pra ganhar mais dinheiro. De qualquer modo eu não fazia parte daquele mundo, então, tratei de olhar novamente, de forma sombria, para minhas duas vitimas para aquela noite fria. Uma garrafa de Famouse Goouse e um maço de Rothmans. Foi quando puxei o cinzeiro pra perto de mim que tive um estalo. O cinzeiro de cristal sobre a mesa de Gascoin tinha um símbolo. Eu já o havia visto, mas não ligava a origem. O que era mesmo, um escudo? Emblema de família talvez. Mas Gascoin não era nobre. Tinha uma letra. Um V. Era um diamante com um V dentro. De onde era isso mesmo? Claro! Virei o Lap Top e tirei a capa da bateria. Lá estava o símbolo, o mesmo. Produzido em Londres pela V. Corporation. Victor Vox. Por que um sujeito rico como Gascoin teria um cinzeiro promocional? Victor Vox, marido de Amanda D’Alsmik Vox... Sentada ao lado de Liv Duncan em Davos. Amizade entre caras com grana não são de espantar ninguém, pelo contrário. Mas Gascoin era do tipo desportista e Vox era um sacana bilionário temido no mundo todo. Por que as esposas seriam tão amigas a ponto de ir juntas ao Forum Mundial de Comercio sendo que os maridos não ficaram juntos? Corri até a pilha de papéis sobre a mesa de centro da minha humilde sala e procurei aquela foto em que Gascoin aparece cumprimentando Sarkozy. Havia imprimido a foto para mantê-la fácil. Diabos... Era Vox ao lado deles! O dono da V. Corp puxando Gascoin pelo braço esquerdo. Recostei na cadeira e tentei achar uma ligação para os dois. E por que o presidente da França? Por que todo mundo num momento tão íntimo? Por que esses caras estão ligados a alguma coisa maior... O tal instinto de novo. Terminei a garrafa, sentado numa cadeira de espaldar reto, desconfortável, mas sequer senti dormência nas pernas. Estava disposto a achar uma ligação para os dois. Isso podia ser perigoso. Quando na faculdade, um professor a quem respeito muito sempre me dizia: cuidado com os devaneios jornalísticos! As vezes queremos tanto provar alguma coisa que somos guiados por caminhos falsos tentando justificar nossas próprias falhas. Eu tinha de ter provas. Pensei em fazer alguma coisa diferente para o dia seguinte. Liguei para o jornal e disse que tinha de fazer um trabalho de pesquisa de campo para dar veracidade às entrevistas com o casal. Meu editor argumentou que não era necessário, não para a coluna de fofocas, afinal, verdade era justamente o que eles queriam. Eu não estava disposto a confiar no safado, então disse que talvez eu tivesse esbarrado com uma traição da mulher. O sujeito ficou todo animado e me disse pra ir atrás da informação. Liguei ainda de casa pra Ian que já estava no Departamento de Polícia às sete e vinte. Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Qua, 24 de Junho de 2009 10:15 |

