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O BERÇO DA QUINTA Enviar por e-mail
Literatura - Contos - Policial

Escrito por Brunno
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Sáb, 27 de Junho de 2009 03:39
Disse-me que tinha de sair para uma diligência, mas tinha uma coisa pra mim em sua mesa no escritório. Pediria a sua secretária para me entregar o envelope branco com meu nome.

Tomei um chá na City a caminho de Sutton, sul do centro da cidade, pensando no que teria Ian para me mostrar. Enquanto dirigia meu Ford, vi de longe a mancha negra emergir por entre os prédios e guinar na direção de Saint Albans: o grande Proteus deixava a cidade e rumava pra onde afinal?

Com os transito demorei mais de quarenta minutos para chegar. A jovem secretária geral da delegacia havia me dito de o detetive Ian deixara algo pra mim realmente, mas ele pedira para que aquilo não saísse do distrito.

Devia ser alguma coisa dos arquivos, pensei. Claire, cabelos castanhos, dezenove anos e olhos cor de mel, uma delicia, foi até a mesa de meu amigo voltando com o envelope lacrado. Ela ficou sorrindo a meu lado tentando disfarçar sua preocupação de eu sair correndo com o envelope, o que acarretaria em sua demissão, provavelmente.

Era uma foto. Feita por uma das dezenas de câmeras de segurança de transito espalhadas recentemente por toda Inglaterra. Mostrava com alguma nitidez um Volkswagen Golf preto, ano 99, numa manobra agressiva com duas pessoas dentro. Um breve relatório acompanhava a fotografia e registrava a ocorrência como sendo logo nas primeiras horas da manhã em 6 de Maio de 2001, um domingo.

O carro vinha pela estrada E-40 que corta Londres de sudeste a noroeste passando pela periferia da cidade. Registro da velocidade, mais de cento e oitenta quilômetros por hora. Maio... grandes chuvas em Londres. Estrada E-40... ruim de dirigir por suas curvas caídas para fora. Correndo na chuva numa estrada ruim... La estava Gascoin e uma loira ao lado.

Sendo um fisionomista cretino eu sabia que esqueceria aqueles rostos assim que saísse dali. Pedi a Claire se ela não podia me fornecer uma cópia. Sorrindo com a cabeça para o lado, respondeu que não tinha permissão para isso, só se o detetive Ian deixasse. Eu tinha que saber quem era aquela loura.

__Ora, Claire – disse usando um tom doce como açúcar – uma menina tão linda como você não devia se preocupar com isso. Tem tantas coisas para esse pessoal fazer aqui que não vão notar se você tirar uma cópia para mim. Tem uma máquina de fotocópias bem ali, atrás de você.

Ela virou olhando a máquina. Desviou os olhos por cima de meu ombro, séria. Tomei sua mão com toda delicadeza. Sorri com um lado da boca e olhei fundo em seus olhos, como um cachorro pedindo pra entrar em casa.

__Eu não posso, senhor Quinn – respondeu com toda doçura – Se alguém souber posso me complicar. Gosto de trabalhar aqui.

Continuei segurando a mão dela, mas arrumei uma cara séria. Olhei pra trás pra me certificar de que não vinha ninguém.

__Claire, querida, sabe que trabalho para a Century House certo? – tirei minha carteira do bolso e mostrei-lhe minha identificação – Sabe o que se faz lá, não é mesmo? Somos o Serviço de Inteligência da Inglaterra. Eu preciso realmente dessa foto. Só que se eu pedir pelos caminhos burocráticos vai demorar dias, o que atrapalharia muito minha investigação...

Ela olhava fixamente em mim.

__Você não vai querer atrapalhar o Serviço de Inteligência não é mesmo? Por que não faz o seguinte: vai até aquela máquina, tira uma cópia dessa foto pra mim – passei para ela minha carteira – põe a cópia dobrada dentro da carteira e copia também esta carteira de motorista. O envelope fica aqui na mesa. Se alguém perguntar diz que está copiando minha carteira para registro de multas...

Ela não parecia confiante. Tenho certeza que o Serviço Secreto não vai esquecer sua ajuda. Se algum desses bufões mexer com você, mande ligar o agente Quinn. Claire mordeu os lábios e resolveu me ajudar, afinal, eu havia mostrado minha “identificação”.

Dois minutos depois deixei a delegacia com uma cópia da foto e, no carro, guardei minha carteira do clube do uísque do pub Golden Label, graças aos céus os safados votaram pelo emblema dourado.

Agora tinha uma foto de Gascoin e da misteriosa loura no carro, no dia em que o sujeito dera um baile em muita gente numa estrada a noroeste da cidade. Liguei para Ian pra perguntar mais coisas, mas disse que não podia falar no momento.

Dentro do carro fiquei pensando em como identificar aquela mulher, se mesmo o rico bando de dados da polícia não conseguiu fazê-lo. Cheguei no jornal pouco antes da hora do almoço e comecei uma busca pelos arquivos que mantemos para identificação e crédito de fotos.

Depois de escanear o rosto da beldade loura e passar a tarde debruçado sobre o pronter, Kari veio me oferecer um café forte. Ela olhou a foto e quis saber quem era. Eu disse que não tinha idéia. A fotógrafa ruiva disse que a mulher parecia uma modelo. Uma ex-namorada de Gascoin talvez?

__Difícil. Se fosse um rosto conhecido o programa já teria encontrado. Sequer a Scotland Yard sabe quem ela é. – Kari arregalou os olhos.

__E o que a Yard tem a ver com isso, Quinn?

__Aparentemente essa mulher e nosso amigo Henri Gascoin foram vitimas de uma tentativa de seqüestro no dia em que essa foto foi tirada. Mas quando a polícia chegou pra prender os bandidos, a loura havia desaparecido.

Kari cerrou os olhos para a foto. Perguntou se havia sido tirada com muita ou pouca luz. Eu não sei, respondi. A ruiva disse que aquele tipo de câmera tende a distorcer em vinte por cento objetos escuros quando há pouca luz. Kari mesmo trabalhou como analista fotográfica no departamento de transito anos atrás.

__Vamos passar pelos meus filtros químicos e depois escaneamos novamente. – antes que eu dissesse a ela pra não estragar aquela foto, já havia se trancado em seu quarto vermelho, no andar de baixo da redação para realçar a foto.

Entrei com ela. Habilmente kari foi escolhendo produtos de uma prateleira e despejando os conteúdos dos frascos numa bacia de plástico. Me passou uma máscara cirúrgica dizendo que não respirasse sobre o líquido.

Lentamente a foto foi mudando de cor. Não ficando coloria, afinal, era uma fotocópia de uma original em preto e branco. As extremidades da imagem foram ficando mais realçadas conforme Kari mexia no líquido com uma espátula de plástico.

Deixamos a foto descansando ali por uns cinco minutos. Penduramos a foto para secar e depois Kari a colocou sobre uma negatoscópio, uma mesa com luz branca por baixo.

__Tá vendo. Bem mais nítida agora. Era isso que eu queria ver! – e apontou um lugar específico.

Eu olhei e não vi nada errado. Ela sorria triunfante como se tivesse notado algo quando viu pela primeira vez. Voltamos para minha mesa onde passamos novamente a imagem pelo filtro do programa de manipulação.

__Aqui, Quinn! Olha isso! – Kari estava mais animada do que eu.

__Isso o que? A mão da moça? Ela está segurando a alavanca do freio de mão do carro. É compreensível já que o motorista está correndo.

__Não, seu bobo! Não é o freio de mão do carro... – desviou os olhos pra mim - Quinn ela está segurando uma arma.

Arma? Baixei sobre a foto evidenciada num monitor de mesa, posicionado assim pra desviar a luz. Kari pegou a caneta eletrônica, que demarca delicadamente os contornos e arrumou e isolou a imagem numa outra tela.

__É uma pistola. – murmurei – Por que ela estaria armada? Quantas louras lindas você conhece que trabalham como segurança pessoal, ou como policial?

__Quinn, quantas louras você conhece que trabalham com um ferimento na barriga? – voltei para onde estava, perplexo. O que ela via tanto naquela foto? – Olha pra isso. É uma mancha de sangue com certeza – apontou para um lado do abdome da loura – ela está ferida ou vestiu uma blusa suja de sangue... – conjecturou minha linda ruiva.

__Alguma relação com o seqüestro talvez... – imaginei.

__Mas o Gascoin não parece ferido. Quinn, ou aquilo não foi um seqüestro, ou os papeis estão invertidos. Gascoin era o segurança e ela a vítima. Ela é mais rica que ele?

Mais um enorme motivo para eu saber duas coisas? Quem era aquela mulher e como Gascoin conseguiu toda a grana.

Meu telefone tocou. Era Ian. Por sorte a senhorita Claire achou mesmo que colaborava com o serviço secreto e não disse nada a ninguém. Meu amigo disse que tinha umas informações importantes sobre o caso da loura. Combinamos de nos encontrar num bar no fim do dia e logo ache que seria melhor, ao menos por enquanto, omitir a ele os novos detalhes sobre a foto.

Ao final do expediente segui pela Euston Road, passando por trás da Universidade de Londres e entrei na Eversholt Street, paralela com o Regent’s Park, para aguardar meu amigo no pub.

A Taverna de Kelly é mais um desses lugares londrinos até os cravos das vigas do teto. O dono, neto do fundador, conserva muito dos tempos do avô, o Capitão Jack Kelly, da brigada Marshall. O lugar é decorado com fotografias dos marinheiros e do grande navio onde o velho servira até dar baixa e se instalar como dono de bar no centro da Londres.

Pedi minha guinnes e olhei os lados para ver se alguém iria se irritar com meu cigarro. O dono não se importa em pagar alguma propina aos fiscais desde que seus clientes fiquem à vontade para consumir mais enquanto burlam a lei anti-tabagismo.

O próprio Nathan Kelly acenou do balcão, uns cinco metros a minha esquerda, para que eu ficasse à vontade. Não preciso ter a grana de Gascoin pra ser bem tratado onde gosto, pensei. Dando uma olhada geral pra ver se havia alguma mocinha à disposição notei que o lugar começava a encher de gente saindo do trabalho e num canto um sujeito sentado numa cadeira me chamou atenção.

Enquanto a maioria das pessoas vem aos pubs para tomar uma cerveja, bater papo e ir pra casa, o cara estava sentado com um café fumegante a sua frente, de pernas elegantemente cruzadas, sobrancelhas arqueadas e lendo um livro.

Vestia ainda um casaco de couro que parecia legítimo, um número maior, uma camisa escura e sapatos com solado de borracha. Não fumava e mantinha sua atenção ao livro. “O Manipulador” era o título. Excelente, comentei comigo mesmo.

A sineta da porta tilintou buscando atenção de alguns. Notei Ian descendo as escadas enquanto tirava o cachecol do pescoço. Já devia estar úmido considerando o tempo lá fora. Nos cumprimentamos e ele me acompanhou numa cerveja e uma porção de asas de frango fritas.

__E ai? O que tem de importante sobre a loura? – perguntei excitado.

__Não é exatamente sobre ela. Mas olha só. Também fiquei curioso quando me fez lembrar aquele caso. Hoje estava naquela diligência e comecei a perguntar ao Flanaghan, aquele senhor que está pra se aposentar, se ele havia participado do caso. O sujeito emitiu um ruído de desdém que achei estranho.

Pedi mais uma cerveja. Ian continuou.

__Insisti com ele pra me dizer o que estava acontecendo. Num dado momento o Detetive Flanaghan me mandou ficar fora disso. Era assunto para o pessoal das Forças Especiais. – franziu a testa e arregalou os olhos, como se ilustrasse o exagero.

__Forças especiais... Quer dizer a divisão anti-sequetro da Guarda Metropolitana ou da Nova Scotland Yard. Até aí não tem nada de mais. – comentei.

__Não, não! Aí é que está! Sabe que estou a fim de deixar a divisão de homicídios para entrar para o Departamento de Operações de Resgate, não é mesmo? Tudo, portanto, que se relacione às “forças especiais” – frisou bem as aspas – é do meu maior interesse. Quando fui procurar pelo manifesto dos soldados que participaram daquela operação de resgate, o que eu encontro? Nada!

Fiquei com cara de paisagem. Quer dizer que alguém não tinha feito o manifesto, ou alguém pegou o negócio pronto e levou pra outro lugar.

__Quinn, é simples: não foram as Forças Especiais da Polícia Metropolitana de Londres que agiu nesse caso – ela olhou para o pessoal do bar tentando identificar algum conhecido. Não vendo ninguém, gesticulou para que eu me aproximasse dele por sobre a mesa. Tirou então, de dentro da jaqueta, um envelope branco – é este o manifesto.

Disse que ali estava discriminado o gasto de combustível, projéteis, pessoal, tempo e o valor de tudo. Despesas feitas pela polícia metropolitana, até uma parte da estrada em que a perseguição aconteceu.

__Tem razão – conclui – Se a polícia tem o controle dos projéteis disparados, ou melhor, dos que ficaram das armas dos policiais que participaram da ação, e não foram eles que resgataram Gascoin e a loura, então quem resgatou os dois e porque a polícia não o fez?

__É exatamente isso que está estranho. – disse Ian. Recostou-se na cadeira como se tivesse chagado a uma sinuca de bico.

__Ian você vai me ajudar em outra coisa. Agora que começou isso comigo vai até o fim, nem pense em desistir! Vamos começar procurando: qual a data da ocorrência? 6 de Maio de 2001. Vamos checar o Memoryal Hospital, o Sacred Heart, o Chelsea Royal e o Guy’s Hospital.

__Boa! Vou checar o Middlesex Hospital aqui na Tottenham Court. São os melhores de Londres, se um cara rico precisa de atendimento médico...

__Não se esqueça de verificar sobre a acompanhante loura – sugeri. Era tudo por aquela noite. Tínhamos somente que tomar mais umas cervejas e ir pra casa.



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Sáb, 27 de Junho de 2009

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Última atualização em Sáb, 27 de Junho de 2009 14:12
 
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