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Enviado por: Cyro
Cyro

A POESIA INDRÍSICA

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É provável que o indriso seja desconhecido de muitos apreciadores da poesia. Eu mesmo o descobri há poucos meses, ao receber de uma amiga três indrisos para comentários.  Isso me levou a pesquisar as suas raízes na teoria literária, encontrado referência a uma forma poética nova, derivada do soneto, cuja característica mais notável é a condensação estrófica. Confesso a minha empolgação com a novidade, não resistindo à idéia de compor alguns poemas nesse formato.

O poema indrísico é uma criação recente. Foi idealizado em Madri, em 2001, pelo poeta e professor de literatura espanhola Isidro Iturat, a partir de modificações na estrutura do soneto  Esse procedimento criativo parece repetir, depois de muitos séculos, a experiência de Giacomo da Lentini, poeta italiano tido como o criador do soneto. Em meado do século XIII ele alterou as velhas estrofes da canção provençal para dar origem a esse gênero de composição poética até hoje admirado e que tem passado por variações sem afetar a sua essência.

Isidro Iturat imaginou que o soneto comportaria uma re-elaboração mais radical do que as variações até então experimentadas. O seu esforço resultou numa modalidade poética com identidade própria, eis que a condensação das estrofes adquire musicalidade e ritmo peculiares. Os versos são livres quanto à métrica, sendo admitido qualquer tipo de rima, ou mesmo ausência de rimas. A forma original é a um só tempo fixa e dinâmica. Fixa no eixo vertical, onde não devem variar as estrofes, e dinâmica no eixo horizontal, onde pode variar o tamanho dos versos. Assim nasceu o indriso, um poema  de oito versos distribuídos em dois tercetos e dois monósticos (3-3-1-1). Comparado ao soneto que tem 14 versos (4-4-3-3), os dois  quatetos tornaram-se dois tercetos e os dois tercetos viraram dois monósticos.

O Indriso ganhou o mundo, tendo conquistado adeptos em muitos paises de diferentes idiomas. Hoje se encontram indrisos em espanhol,  inglês, alemão, italiano e português, entre outros.  Já são aventadas, também, possibilidades de variações na ordenação das estrofes, como as sugeridas recentemente pela  escritora uruguaia Teresa Marzialetti, registradas  por Iturat na última atualização do seu website aqui citado. Eu, pessoalmente, prefiro a concepção original do 3-3-1-1, como aparece no indriso pioneiro  de Isidro Iturat transcrito a seguir:

LUNA MINGUANTE

El centauro se asoma por la ventana
y la mujer dormida está hablando en sueños.
Llora y ríe, porque un centauro la rapta.

Cabalga en su sueño la mujer dormida,
cabalga en su sueño y es cabalgada.
En la selva, nadie la oye cuando chilla.

Llora y ríe como nunca en su vigilia.

El centauro la mira... por la ventana.


A essa altura o leitor deve estar curioso em saber o porquê desse nome incomum, soando estranho para muitos. O idealizador do indriso relata que demorou muito até encontrar a denominação que lhe parecesse adequada. Conta que certo dia uma criança espanhola de apenas três anos o chamou pronunciando erroneamente o seu nome: Indriso ao invés de Isidro. Ele gostou do trocadilho e terminou por batizar assim a sua descoberta.

Aos que tiveram a paciência de estender a sua leitura até aqui, deixo também a minha primeira experiência indrísica. É um recorte da tragédia urbana instigada pelo consumismo desenfreado da sociedade excludente em que vivemos.

INDRISO TRISTE

Era um menino bonito,
cabelos encaracolados
e olhar fascinado por outdoor.

Queria roupa de grife,
tênis novo incrementado,
ter tudo do bom e melhor.

O assalto não deu certo.

No chão, morrendo, se via no outdoor...


____________________

Nota do Autor: tenho tentado várias vezes, sem sucesso, uma alteração no formato do Indriso Triste aqui escrito que não tem aparecido na sequencia apropriada dos versos em 2 tercetos, 2 monósticos, talvez por
algum problema do programa de digitação. Essa será minha última tentativa.

___________________

*Texto originalmente publicado com o título: Indriso, um novo formato de poesia, na Revista Reflexos de Universos n° 77/ 2008 p. 7-10.

Comentários

Ótimo esclarecimento.

tania_martins 11-03-2010 22:39 #6

Fico feliz por você ter gostado do texto e agradeço seu comentário. Um abraço

Cyro 01-11-2009 15:24 #5

Olá Claudia, muito obrigado por comentar e esclarecer. Parabéns por sua iniciativa pioneira nesse gênero, em português. Tenho a impressão de ter lido o seu Borboletando na página de Isidro. Um grande abraço.

Cyro 01-11-2009 15:21 #4

Olá Orlando, agradeço a gentileza da leitura e do seu comentário ao meu texto.
Grande abraço

Cyro 01-11-2009 15:09 #3

Por vezes deparámo-nos com poemas e não sabemos em que genero de poesia os encaixar,este eslarecimento é uma mais valia para quem lê e para quem escreve.

Um abraço

master22 25-10-2009 08:26 #2

Foi uma boa oportunidade, esta que nos deste, para conhecimento desta nova forma.
Abraço.

Orlando Rocha 20-10-2009 18:44 #1

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