| A CARROÇA NA FRENTE DOS BURROS |
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| Crônicas - Crônicas |
Escrito por Net_7_Mares |
Dom, 07 de Fevereiro de 2010 15:32 |
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Da série “Nelson Rodrigues Renascido” ... na literatura infantil, é escritora premiadíssima e, se quando escreve para adultos, mete-se na fantasia daquele monstro mitológico, que tem cabeça de mulher, asas de águia e garras e rabo de leão, a desafiar a inteligência dos leitores com enigmas, é porque, certamente, há de ter tido reconhecimento também na literatura adulta. Inicio a crônica de hoje em cima deste novo texto esfíngico da Helena Armond: já aqui e agora há paz ... no lá fora deveria haver floração de acácias ao vento filtrando um mantra... mais adiante há instantes variáveis de tumultos des-encontros... e insultos aos que comem pedra e se deliciam sem argumentos...envio um vale aos mantras redefinidos de cada grito há muito deixei as aquarelas pesquiso fractais da humanidade e...sem ruidos desço o vidro da janela Lido o texto, a pergunta é inevitável: disso aí, o leitor entendeu o quê? Na esmagadora maioria — suponho — nada. Já alertei a autora sob o risco de acabar escrevendo para ninguém, mas ela não deu a menor bola ao meu alerta. Quando vai ao teclado, veste-se de Esfinge, e que se danem os leitores. Nesse seu estilo confuso, deixa claro apenas um aspecto: que essa história de escritor preocupar-se em ser entendido já era. O grande barato, agora, é o texto enigmático, que mexe com os neurônios dos que tentam entendê-lo. Se a pontuação existe para proporcionar melhor entendimento sobre o texto, uma banana à pontuação. Se existe, enfim, algum compromisso entre escritor e leitor, o compromisso é do leitor, vez que cabe a este procurar entender o que o escritor quer dizer. Por aí, são bem recebidos até os manjados termos de duplo sentido ("des-encontros"), bem como palavras de sentido vago ("vale"), que ela larga no meio do texto, tal como acontece neste mais recente, como já veremos. Comparando com o que acontecia na literatura clássica, concluímos que há, hoje, uma inversão de valores, e Helena, então, no seu misterioso texto, nos dá um tácito recado, e que convém aqui repetir: o leitor é que deve tratar de entender o escritor, sem necessidade alguma de este buscar meios de ser entendido. O que vale então é a carroça na frente dos burros. Bom... A julgar pelo Nobel de Literatura concedido ao José Saramago, aquele que inventou uma nova pontuação, Helena tem lá suas razões nos seus insondáveis textos. Além disso, pelo menos na literatura infantil, é escritora premiadíssima e, se quando escreve para adultos, mete-se na fantasia daquele monstro mitológico, que tem cabeça de mulher, asas de águia e garras e rabo de leão, a desafiar a inteligência dos leitores com enigmas, é porque, certamente, há de ter tido reconhecimento também na literatura adulta, e, tanto isso é verdade, que um dos seus livro — “Pedra D’ara” — foi premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Diante dessa premiação, a conclusão, pelo menos para mim, é apavorante: não entendo patavina dessa nova poesia, e, para evitar o rótulo de apedeuta literário ou de, em melhor hipótese, múmia do classicismo, devo mergulhar no texto da Helena, a ver se consigo decifrá-lo, e é o que tentarei fazer agora, começando logo com o que ela nos diz nas suas três primeiras linhas: já aqui e agora há paz ... no lá fora deveria haver floração de acácias ao vento filtrando um mantra... Simples: mantra é cântico religioso; logo, a autora há de estar dentro de um templo, e, como fala em mantra, deve ser um templo budista (os budistas dão importância fundamental à paz). O "deveria haver" suscita uma idéia de carência em relação à paz que reina dentro do tempo; mas imaginar que campos floridos, com pessoas entoando mantras, é garantia de paz, há de ser um provável delírio, advindo provavelmente de algum excesso na meditação da autora. Os monges vietnamitas percorriam os campos floridos, entoando mantras, e nada disso os livrou das bombas incendiárias dos americanos. Vamos ao próximo segmento: mais adiante há instantes variáveis de tumultos des-encontros... e insultos Certos adjetivos não combinam bem com certos substantivos. O adjetivo "variável", por sinal, é um daqueles. Querem ver? Vejamos então o tal “variável” neste exemplo trazido pela Diabinha Loira, aquela que, substituindo a muda cabra vadia do Nelson, me acompanha nas crônicas. Eis a pérola que a irônica Diabinha me traz: João é um homem variável. Ora! o substantivo "homem" jamais se entenderá bem com esse "variável", porque um homem é homem, ou não é. Ainda que o João esboçasse eventuais faniquitos de se comportar como mulher, no exato momento em que ele "soltasse a franga", não seria, ali, um homem. Um bicha enrustido talvez. Todavia, considerando que, para ser homem, não basta apenas um apêndice entre as pernas, homem mesmo, o João não seria quando entrasse a desmunhecar. Com um pouco de boa-vontade, e considerando que licença poética cabe em qualquer estrofe, poderíamos admitir um "homem variável" numa ofensa: um sujeito espeta o dedo na cara de um outro e diz: "Você é um homem variável!". Vez que em toda ação há sempre uma reação, pode acontecer de o ofendido, mesmo com um dedo sobre o nariz, não entendendo a ofensa, tomá-la como elogio e responder com beijos e abraços. Já o substantivo "ser" dá-se muito bem com o "variável". Observem: "João é um ser de sexo variável". Aí, não há como não entender a ofensa. É de uma clareza cristalina. É o caso do substantivo "instante". Não há como o "instante" da Helena se entender bem com o adjetivo "variável", e, para entender melhor essa incompatibilidade, basta imaginar a cena do "Variável" buscando posição ao lado do "Instante". A pergunta do "Instante", aí, seria inevitável: "Ô, Variável! Vai me transformar em quê? Não posso ser outra coisa, senão e unicamente um instante, cara! Veja lá o que é que vai me arrumar, heim!" Ora! Como não há alternativa para o "instante" deixar de ser instante para ser coisa diferente determinada pelo adjetivo "variável", o conflito entre o "instante" e o "variável" será, mal comparando, tal e qual o conflito que há entre Lula e o seu cargo de presidente. Diríamos então que a expressão "instantes variáveis" é, na verdade, uma construção equivocada, impossível de passar em branco aos olhos até de um revisor bêbedo. No entanto, como já dito, a pérola do texto esfingético reside justamente na aberração lingüística, na construção absurda. Colocando de lado a Gramática sebenta, devemos entender dessa forma: o que autora quis dizer é que os tumultos, os desencontros e os insultos é que são variáveis. A variação, aí, aconteceria na subentendida intensidade de cada um deles. De resto, o trecho apenas dá uma dimensão maior aos efeitos da ausência da paz. Ora! Aos olhos de qualquer estudante mediano de Letras, o que temos aí nada mais é que um ululante erro de construção, que, no entanto, a partir de agora, devemos ver como coisa de sensacional beleza, se não quisermos passar recibo de rematados estúpidos. Vamos em frente: aos que comem pedra e se deliciam sem argumentos...envio um vale aos mantras redefinidos de cada grito Aqui, para alcançar algum entendimento, só mesmo com muito — mas muito mesmo — espírito poético. Vejamos: Os "que comem pedra" devem ser aqueles que estão fora do templo. O "comer pedra" há de ser então uma expressão metafórica aplicada aos que vivem metidos em brigas, deliciados com tal situação. Como vivem mergulhados em tumultos, desencontros e pancadaria, a música de fundo deste quadro é construída de gritos. A autora, por sua vez, na sua alucinação meditativa, vê, em cada grito, um mantra; um mantra diferente, redefinido, como diz. E o que faz ela? Envia um vale aos tais gritos-mantras. Como não explica que diabo de vale é este (Vale-transporte? Vale-refeição? sei lá...), devemos buscar então uma alternativa mais coerente para explicar o tal vale. Aí, com algum esforço, lembro-me daquele "valeu" que os praticantes de jogos on line berram ao final de uma partida bem sucedida, e entendemos o seguinte: a autora, não tendo como modificar esse quadro pedregoso que acontece fora do templo, simplesmente o aceita como coisa natural; mais que isso: aplaude num entusiástico "valeu!!!", como quem diz: "É isso aí, gente! Matem-se, esfolem-se, danem-se!!! Valeu!!!". Retorne ao texto da autora e veja se não é isso o que ela quer dizer. Vamos ao próximo e último segmento: há muito deixei as aquarelas pesquiso fractais da humanidade e...sem ruidos desço o vidro da janela A autora, aqui, faz um contraponto entre atividade artística que exercia (Pintura) e a atividade atual (pesquisadora de condutas comuns da humanidade), onde, embora envolvida na pesquisa, não se deixa envolver pelo quadro de desordem extra-templo: fecha a janela, ou seja, mantém-se afastada, protegida pela janela, sem nem mesmo fazer alarde dessa postura defensiva (ela fecha a janela, sem produzir ruídos). Trocando tudo por miúdos, temos o seguinte quadro: a autora foge da fuzarca humana, internando-se num templo budista, assim como que faz um retiro religioso. Nessa condição, vendo tudo de longe, consegue entender o porquê da balbúrdia, e entende tanto, que chega mesmo a aplaudir. No entendimento, se realiza, na medida em que, entendendo, não sofre. Ora! É elementar. Moral da história: para não sofrer com um problema, basta pesquisá-lo e entender o porquê dele. A autora aplaude a miséria humana, e eu a aplaudo na sua verve revolucionária, pedido "bis", como na ópera. Bravo, Helena!! Entendi "tudim". Crie um banner deste artigo em outros sites Para criar um banner deste artigo em outro site, copie e cole o texto abaixo em sua página. Visualizar : |
| Última atualização em Seg, 08 de Fevereiro de 2010 09:58 |

