Esta é a triste história de Horácio. Mas bem poderia ser a minha. Ou a sua, caro leitor, que agora, cheio de curiosidade, eu espero, passa a ler as próximas linhas.
Horácio odiava telefone. Pensava-se ser este o motivo. Talvez fosse. Talvez. Mas enfim, não se sabe. O fato é que Horácio passou o Natal e ninguém, literalmente ninguém dos que lhe eram próximos se lembraram de lhe desejar Feliz Natal. Ninguém. Nem mesmo ao telefone. Ninguém disparou contra ele um torpedo. Embora, suspeita-se que motivos e pretendentes não faltassem.
Ninguém bateu no seu portão, naquela manhã com ares natalinos, calorenta e inspiradora, nem mesmo as crianças esperançosas em ganhar uma moedinha.
Não ganhariam. Mas acontece que nos causa, o finado leitor há de convir uma deprimente perplexidade constatar o baixíssimo índice de popularidade do Horácio até mesmo entre seus familiares.
Papai e mamãe do nosso estimado coleguinha devem ter passado juntinhos, a mais significativa noite do ano, matando a saudade que já era tanta, coisa de 20 anos, em algum lugar do céu ocupado por uma estrela.
Os irmãos, os dele, bem, nada a declarar, meritíssimo.
Os sobrinhos, que um dia lhe chamaram de tio, estavam evidentemente entretidos com seus filhos, seus amores e seus spiritus sanctis, então porque demônios se lembrariam do tio?
A “ex”, como sempre, lembrou-se, alguns dias antes, por motivos outros e óbvios.
A filha, a dele, do Horácio, bem entendido, anda muito preocupada consigo mesmo, seus questionamentos e interesses dos 15 primeiros diabólicos anos recém completados. Estava bem vestida, bonita, satisfeita, esqueceu-se de passar no caixa eletrônico, digo, papai Horácio, naquele 25, próximo passado. Agora dei de ser chato.
Amigos de outras épocas, hum...!
Amigos que Horácio imaginava amigos...? Quer saber? Acho que já sabem.
A distante classe dos colegas, aqueles e aquelas, senhoras e senhores educados e gentis, porque cordialmente e permanentemente distantes, com as quais se vive uma vez por semana, uma vez por mês, ou duas, alguma situação pertinente ao trabalho, a rua onde se mora, a padaria, o cabeleireiro que se freqüenta; aquele pessoal do nosso habitual bom dia, boa tarde, boa noite, e quando morre alguém do meio a gente diz: Morreu é? Coitado! – De Horácio se lembrarão, na próxima vez que cruzarem com ele em algum desses lugares. Pra lhes dizer solenemente e com aquele jeito de: “desculpe, estou com pressa”, o seu singelo: bom dia, boa tarde, boa noite, é claro. E já é muito.
A lembrança, o carinho que o pobre Horácio recebera nesse último 25, veio do amigo da maturidade que não tem lhe faltado desde que surgiu em seu caminho. Não à toa, o nome do sujeito começa com a letra primeira da Vida. Valter.
Conclui-se, portanto, sem nenhum melindre ou remorso que o desprezado Horácio ou qualquer um de nós, quando não se interessa em saber da vida dos outros ou não sabe expressar o que sente por eles acaba esquecido naturalmente.
Porque as tecnologias modernas ao mesmo tempo em que encurta as distâncias entre as pessoas, coloca a todas elas, independente do grau de parentesco, da consangüinidade que as envolve no mesmo nível de importância umas das outras, feito o pirilampo que orbita a lâmpada do poste da rua mal iluminada.
Quem é importante na vida de quem? Como ser importante na vida de alguém antes de entender e aceitar que afeição é via de mão dupla?
Aquele que se coloca acima dos outros, que se coloca à margem dos outros, independentemente de quem seja os outros, torna-se insignificante, acaba esquecido, passa a inexistir para os outros.
Complicado? Descomplico.
Porque talvez a maneira de melhor sobreviver neste mundo, sem remorso ou arrependimento, seja dizer todos os dias e a cada instante: Oi, eu estou aqui!
Celulares, computadores, redes sociais, estabeleceram novos padrões de comportamento e relacionamento humano, onde a afetividade precisa se materializar, ter forma, cheiro e cor. Deixou de ser restrita aos insondáveis mistérios do coração.
Como lidar com isso? Desculpe finado leitor, se eu soubesse, não estaria agora escrevendo estas linhas. E, provavelmente, Horácio também não saiba.
Porém, arrisco um palpite. Não basta mais estar presente na vida de alguém, é preciso mostrar-se presente. Não basta mais dizer eu te amo, é preciso demonstrar isso a quem nos importa, antes que outro o faça, mesmo que esse outro não tenha importância alguma para quem é importante para nós.
Talvez haja o próximo Natal no calendário de Horácio. Talvez. E se ele terá percebido estas coisas? Provavelmente, não.
Acho que o enjeitado Horácio já deve ir pensando em arrumar um canto maior para acomodar o seu esqueleto cada vez mais visível, e adquirir um cachorro, um gato, quem sabe, um passarinho. Alguém que não precisa de palavras para demonstrar que gosta dele e se considera importante em sua vida, bastando para isso estar junto. Seria bom, Horácio há de convir, mas não o ideal. Algo que, até o momento, Horácio, imagino, só tenha, encontrado nos livros, nos filmes e novelas. Aquela história de amor com olhares, café na cama... E poesia; depois do sexo. Ou pensaram o quê?! Não parece, mas Horácio também é filho de Deus.
Pois é, o amor, neste mundo, já foi menos complicado.


Comentários
parabéns abraços.
PauloJose 25-02-2012 19:33 #14
PauloJose 11-02-2012 14:40 #13
PauloJose 04-02-2012 22:43 #12
Tamires 03-02-2012 22:51 #11
abraço anarquista
ANARQUISTAPORDEUS 02-02-2012 15:14 #10
Arnoldo 24-01-2012 06:07 #9
Sempre sensível as suas crônicas,gosto muito.Abração JC
Gilce 16-01-2012 13:46 #8
wicos 15-01-2012 14:32 #7
rosimeri antunes ferrari 10-01-2012 15:02 #6
azara 10-01-2012 10:37 #5
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