Não que minha vida se resuma a um monólogo sobre o descontentamento desses meus anos, mas é que facilito as coisas pra mim escrevendo sempre que acho necessário expurgar algum mal que ninguém consegue arrancar do meu peito. É bem verdade que muitos poderiam se alegrar com algumas frases bonitinhas como aquelas impressas em cartões de presente, ou guardanapos de bar, entretanto não escrevo para ninguém senão para mim. Stendal escreveu para poucos, Machado reduziu inda mais esse número, portanto, não me atrevo a escrever para ninguém a não ser para mim, não me atrevo a escrever o que felicita outrem posto que não quero ser o único responsável pela felicidade de ninguém, já é um grande fardo alcançar e manter a minha felicidade.
Embora o consenso popular para o descontentamento seja uma situação de perda, de uma onda de má sorte, eu provo o contrário disso redigindo essas palavras. Meu descontentamento não se faz presente porque tudo está mal, faz-se presente porque tudo está bem e não tenho com quem dividir essas minhas conquistas.
O problema mor é queixar-se sobre a falta desse alguém para que eu possa compartilhar minha felicidade e em uníssono todos me dizerem que possuo minha família e amigos, portanto minha reclamação é desnecessária e egoísta. É um problema, e um problema grande, essa falta de entendimento que outrem possui. Não percebem que os verdadeiros egoístas são eles mesmos, já que tratam o meu sentimento individual com um pensamento padrão e coletivo, sem distinção e/ou exclusividade. Ninguém é igual a ninguém, cada um merece atenção específica. Ninguém é uma ilha, mas meu arquipelago está desabitado.
Bem, a minha família é insubstituível, e é intrínseca a mim, portanto torna-se óbvio que essa minha falta não pode ser sanada pela família que tenho, uma vez que a família é parte de mim, pra ser bem sincero, a minha família sou eu, e eu sou a minha família, e não no sentido solitário de não possuir família, mas sim que a minha família está em unidade comigo.
O que preciso é daquele seu sorriso quadrado, da sua voz rouca, do seu queixo fino, das suas maçãs arredondadas, da sua pele alva, e sua cintura magricela. O que preciso é do seu olhar no meu olhar, da sua mão na minha mão, das suas surpresas, do seu rosto surpreso. Preciso mais de nós e menos de mim. Preciso perder essa impressão que causo de alguém mais velho e maduro do que a minha idade geralmente possui. Preciso transparecer a imagem de alguém que encontra o equilíbrio numa garota que encontra seu equilíbrio em mim.

