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Gilberto

Artaud o Sentido e a Loucura: CAP 07 (15) - Superfície e Profundidade

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Cultura
CAP 07 (15) - Superfície e Profundidade: Membranas que se expandem ao serem tocadas


Para construir o Teatro da Crueldade, teatro das Noções e Princípios Fundamentais, Artaud destrói a Superfície em busca da Profundidade – da alma do mundo e da alma do homem. Sentindo o apetite de Não-ser, procura a Profundidade como a vida humana vista ao lado de sua miserabilidade, do potencial criativo contido em suas profundezas, o Inconsciente, o pensamento, a manifestação do ser como ele é, ao mesmo tempo em que procura o Real, das Coisas Reais.

Em "Artaud, o momo", de 1946, demonstra-nos que o homem pode ser lobotomizado ou "bardotolizado" por eletrochoques, mas não se lhe pode retirar a interface que separa o corpo e o espírito e que assiste a ambos. Artaud viu escoar o Eu às exigências do Não-eu no Bardo Todol dos eletrochoques, e fecha o tema "ser-não-ser": o Ser com que se lida em muita estância teórica, ver o Ser, o que o homem é, independente da Cultura. O Eu capaz de ser esvaziado pelo eletrochoque é ainda é o Eu dado pela cultura, pela sociedade que pode fazer, e ainda o faz, "a fabricação da loucura", esquizo-separados. "Eu não estou morto, apenas separado", diz Artaud. Sabendo que não seria entendido a não ser “daqui a dez anos”, Artaud anuncia a “geometria sem espaço” e a “configuração do espírito” como uma lubrificante membrana. Sabe que “perdeu o espírito, mantendo-o, pois “essa lubrificante membrana continuará flutuando no ar".

"Superfície" e "Profundidade" levam a termos que Artaud usa, "Consciência", "consciente", "pre-consciente" e "Inconsciente". A França e a época de Artaud,  ainda está perdida quanto à conceituação de Inconsciente-Consciente, apesar de Freud, e talvez pela não aceitação imediata de seu corpo teórico. Artaud demonstra a necessidade francesa de síntese entre o que se sabia e o que era novo. De uma posição que apenas reconhecia a "Consciência" igual a "eu", - como nos demonstra Lahr – a psicologia francesa deveria partir para a aceitação de um Inconsciente freudiano, (H OSFP) não sem resistência. Admitindo-se uma psicologia experimental como a ciência dos fenômenos da alma, e estes só perceptíveis à Consciência, Lahr divulgava, em 1900, que falar de fenômenos psicológicos Inconscientes seria falar de "Consciência Inconsciente", deixando clara a dificuldade em se abandonar o conceito velho em favor do novo. A psicologia anterior a Freud se liga à posterior por uma interface a que se denominou "Psicologia da Profundidade". Em 1896, em "La Psychologie des Sentiments", Ribot (R1 231) sustenta a noção fisiológica de uma parte oculta e profunda da Consciência e a idéia de uma dupla natureza do indivíduo. "Os sentimentos já não são uma manifestação superficial, mas mergulham no que há de mais profundo no indivíduo; têm suas raízes nas necessidades e nos instintos". Artaud está seguindo de perto a psicologia francesa e faz "bricolagens" com o Inconsciente freudiano e o Inconsciente francês, o Inconsciente dos antigos filósofos e o Inconsciente antropológico, coletivo.

Não haveria o que temer em se buscar o Inconsciente, em procurar a Profundidade. Freud, que reconheceu no Inconsciente os impulsos e produções psíquicas mais elevadas, (RoMi 75) quase disse com clareza, “isto somos nós”. Não há nada na nossa vida oculta que tenha necessidade de ser supliciado, é o que diz Artaud (AV AT 329 ).


A membrana lubrificante

Deve-se começar pela compreensão do que é a membrana lubrificante. Artaud procura tirar “todas as consequências possíveis da palavra” e assim se descobre que não se refere a uma membrana, mas a “membranas”. A "membrana lubrificante" tem dupla espessura, múltiplos graus/níveis, inúmeras fendas, é muito sensível. É expansível, multiplica-se, desdobra-se, faz reverberações/emissões/reflexões de sentidos. Podemos completar, ainda com palavras de Artaud, concentrando os “múltiplos aspectos das coisas” e registrando informações, "população inquietante de dados".

É preciso comparar, também a membrana lubrificante de Artaud com o mundo da criança como visto por Piaget e Poicará (topologia).(LOL PPP 65) Piaget (1896-1980) começa a publicar, a partir de 1923, sobre o mecanismo do Pensar na Criança e seu desenvolvimento, e, Artaud, não se tendo notícia se tomou conhecimento de Piaget, descreve a membrana lubrificante como Lauro de Oliveira Lima interpreta Piaget: "as crianças vêem a realidade como quadros achatados, flutuantes, em que os pontos de referência são apenas aberturas, fechamentos e vizinhanças como se fosse uma paisagem desenhada num balão de borracha, portanto, dilatável (LOL PPP 65)”. Artaud, no entanto, percorre o caminho inverso ao do desenvolvimento mental humano: a criança busca-constrói a linguagem da cultura, Artaud abandona o que a cultura predetermina para o pensamento e encontra a linguagem da Profundidade. Isto leva à comparação, já existente, do esquizofrênico com a criança, e nos faz refletir: ou não entendemos os esquizofrênicos ou não entendemos as crianças. 0 que temos em Artaud não seria sintoma esquizofrênico. Está em uma certa linha de filosofia, embora dito de maneira metafórica como alguém que enxergou além das palavras que dispõe para descrever a realidade. Piaget e Artaud apenas beberam da mesma fonte. Poesia e não delírio. Artaud pode estar falando oriental, como "a mente é (Ioga) é como um elástico milagroso que pode se estender ao infinito sem se romper"(18), ou simplesmente cumprindo seu projeto poético.

Artaud (Deleuze) se refere à "linguagem de Superfície" ao criticar Lewis Carrol, em 1947, quando traduziu "Jabberwocky", contrapondo-a a uma linguagem de Profundidade, sendo esta, para Deleuze, a "linguagem da esquizofrenia" e, para Artaud, a escrita do Inconsciente, o dele, o de Deleuze, o Inconsciente de todos, e, necessariamente, também o dos esquizofrênicos. Deleuze reconhece Artaud o único a ter sido Profundidade absoluta em literatura. e chama a atenção para o terreno da esquizofrenia: Artaud está separado/esquizo da sociedade, por ela suicidado, por manifestar-se pela linguagem da Profundidade e renegar a linguagem da Superfície. A Superfície é a Consciência e, expressa por palavras, o social que internalizamos, já dito por alguém, alhures. Artaud separa-se do corpo social-Superfície por manifestar sua Profundidade.

Artaud, em "O Pesa Nervos", de 1925, diz é “difícil encontrar de fato o seu lugar e restabelecer a comunicação consigo mesmo”, e delineia as respostas que atravessarão toda a sua obra. O Eu é virtual e é “um ponto fosforecente onde toda a realidade se reencontra, porém, mudada, metamorfoseada - e pelo quê? - um ponto de mágica utilização das coisas”. Viu escoar o Eu às exigências do Não-eu no Bardo Todol da eletrochoqueterapia, mas continuou a assistir-se, em cada sessão de eletrochoques, a ponto de descrever com intensa lucidez este processo de se matar o sujeito mantendo-o vivo, e suas consequências no corpo e no espírito. A membrana a que se refere Artaud é o "Eu", o pensamento-mente como a interface-Superfície-membrana entre o mundo interno e o mundo externo. Pelo Bardo Todol, Artaud demonstra que este Eu não pode ser tomado ao homem.

"Eu assisto a Antonin Artaud" diz "tenho um sentimento ou conhecimento das sensações ou sentidos de mim mesmo ou de coisas externas", que é definição de dicionário. "O que assiste a si próprio" é expansível, também, em Bergson (FLM PC 179): "o instinto consciente de si próprio, capaz de refletir sobre o seu objeto e de indefinidamente o alargar". Julga-se Artaud incapaz de expressar seu pensamento, portanto, assiste-se - introspecção - na nuvem de formas que sobrenada seu Inconsciente. Duvidando de tudo, julga ter dificuldade para ordenar estas formas em efervescência e de escolher caminhos entre elas. Mais tarde, os existencialistas - Sartre - condenarão o homem à liberdade: tem de fazer escolhas. Comentadores acreditaram que Artaud não conseguia se expressar, enquanto ele apenas ensina que o homem não consegue expressar tudo o que quer com as palavras, há sentimentos intraduzíveis em palavras e os dicionários não têm palavras para todas as Coisas Reais, seus movimentos e suas relações.


A Profundidade nas filosofias antigas

Sob a influência do Grupo de Estudos de Allendy que ensina ser "preciso situar o Inconsciente também nas filosofias antigas", (AlAn 23) Artaud sabe que a noção de Inconsciente é antiga e busca a Profundidade no "dançar a anatomia humana para todos os lados", especialmente para trás. Quando se julga ser a noção de Inconsciente muito jovem, recente, esquece-se de que os pré-socráticos já haviam instalado a linguagem das cavernas, os estóicos já haviam abusado da relação Superfície-Profundidade, já haviam reconhecido "sensações internas" junto daquelas sensações oriundas dos órgãos dos sentidos. A Consciência é o ponto de contato do ser com a realidade que o cerca, é o mecanismo receptor dos estímulos, de todas as naturezas, dados a outra Superfície, a corpórea, com seus órgãos de sentido, seus sensores de várias espécies. O Ser se põe em contato com a realidade e a assiste: tem uma Consciência, percebe a realidade em si(TS P 24) e guarda na memória tudo a que assiste.

Em 1896, em "La Psichologie des Sentiments", Ribot (R1 231) sustenta a noção fisiológica de uma parte oculta e profunda da Consciência e a idéia de uma dupla natureza do indivíduo. "Os sentimentos já não são uma manifestação superficial, mas mergulham no que há de mais profundo no indivíduo; têm suas raízes nas necessidades e nos instintos..." Artaud está seguindo de perto a Psicologia francesa com a noção de duplo, e faz "bricolagens" com o Inconsciente freudiano e o Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente é também a "membrana que se expande ao ser tocada" e se desdobra, dá voltas e se multiplica, em lugar de uma Superfície imóvel e cristalizada (CW 22). Uma membrana com uma população inquietante de dados, com a atenção concentrando-se nos múltiplos aspectos e registrando informações que, rotineiramente, são recusadas pela Consciência, exigindo um novo processo de manipulação (a cultura sintética, como Artaud vai nos mostrar).

Da matriz fervente do Inconsciente às idéias claras da Superfície. Para Artaud, "não se separam os sentidos da inteligência” (O Teatro da Crueldade). No contato com as coisas da realidade, os órgãos do sentidos registram informações em "certas escoriações da sensibilidade orgânica profunda do corpo humano (AV AT 326)", das quais assistimos formas-aparências. O Inconsciente é o armazenador da experiência sensível, e não esconde saber que a representação do mundo se faz no Inconsciente como "fantasmas", "monstros", transformações simbólicas, "sombras" e "falsas sombras". Já o diz em 1925, em "O Pesa Nervos", e define o Inconsciente como o "ponto onde toda a realidade se reencontra, porém mudada, metamorfoseada ... um ponto de mágica utilização das coisas". Não há, portanto, um passado registrado no Inconsciente, mas um “presente-tornando-se-passado que atualiza um passado e prepara um futuro.

A Consciência é “membrana” e é Superfície. Freud se refere à Consciência como uma membrana, pelo menos na tradução de 1935 por Almir Andrade (AlAn 346). "A Consciência é uma membrana de defesa que se forma na Superfície do aparelho psíquico, resultando do contato deste com o mundo exterior, e que tem por fim proteger os instintos, adaptá-los ao mundo e ao mesmo tempo adaptar o mundo às suas exigências". Em Artaud, a Consciência vai surgir como "membrana lubrificante" que se distende e se multiplica sempre que tocada, dando a noção da interrelação “por todos os lados” que um estímulo pode produzir trazendo o material Inconsciente para a esfera do consciente. Em um momento em que o Eu ainda se confundia com a Consciência, o que Freud procura desconfundir, a mente para Artaud é um pouco mais complicada do que na Psicanálise: o Eu não é a Consciência; é uma instância que assiste a si próprio, a seu Inconsciente e a seu Consciente, Superfície e Profundidade; a seu Id, seu Ego e seu Superego.

Para que o pensamento se dê, é preciso suspender o julgamento. Em “carta a meu amigo”, de 1931, esclarece-nos que todo pensamento surge e se aclara na Consciência. Nota-se que Artaud se refere à expressão verbal do pensamento como se fosse “o pensamento”, crença da época, que persiste por muito tempo, deixa implícito, contudo, que o pensamento se forma, e depois e se aclara com o processo de nomeação: na matriz fervente do Inconsciente artaudiano, massas amorfas se aglomeram em massas amorfas das quais sobressaem formas inominadas que afloram à Superfície onde às quais se justapõem palavras e idéias/pontos de vista/conceitos sobre a realidade, em processo determinado por um "dominante". “O pensamento aparece e se aclara no campo da consciência”, ao mesmo tempo em que a linguagem clara impede o pensamento. Diz Durkheim (ED SPF 53), "o pensamento conceitual está animado de fixidez, logo de precisão e clareza". Para Artaud, os conceitos formam sistemas que fixam as aparências ao mesmo tempo em que reproduzem, refabricam as aparências. Em última análise, o nome fixa a aparência. A cultura cristaliza os sistemas de idéias, e, assim, as aparências que podem ser captadas das coisas reais. Os sistemas de idéias delimitam os objetos que o homem possa vir a criar das coisas reais. Deste modo, o ponto de vista a priori cria um objeto a partir da coisa real. Se Schopenhauer anteviu que as nossas conclusões-conceitos são falhos, Artaud sabe que a percepção da Realidade "real" ocorrerá sempre que abandonarmos nossos conceitos culturais ou de nossos contatos prévios com a coisa real. As aparências são mutáveis, apesar de tudo, e isto deveria impedir as idéias claras. O homem absorve aparências múltiplas de uma dada coisa real, mesmo que a cultura o force a ver apenas aquilo que lhe é inerente.

Em Jabberwocky, Artaud afirma que Lewis Carroll é superficial, digestivo, não fala com a alma, Profundidade, e leva à compreensão de que este dominante pertence a um nível profundo, como os sentimentos, mas, se Artaud pede um teatro para promover a des-ilusão do real, onde se nega à palavra o valor de transmitir conhecimento, no nível superfícial o dominante se refere a "pontos de vista a priori" (ideologias, doutrinas). Não é mais possível usar o mecanismo arcaico de perceber formas e as cristalizar, congelar. É necessário brandir uma língua ferina contra a lógica usual, e queimar formas, fazer e refazer sínteses. Recebemos da cultura as estruturas da língua que condicionam o nosso pensar, formam o nosso modo de perceber e pensa-se ser isto o pensamento. Explica-se então a crítica de Artaud a Carroll: fez ele um jogo de palavras, cria "doublets" com as as palavras da Superfície, apostas às formas-aparências. Artaud relaciona "o que está sob palavras", as formas inominadas, e mais ainda, articula o material amorfo do qual surge a forma inominada. Assim, uma palavra pode se referir a outras, receber o sentido que pertenceria a outra, pois fundidas na sua Profundidade, é deslizamento de sentido. Isto não é sintoma de patologia mental, pois se trata de um mecanismo muito usado e abusado no século 19, seja Haeckel, seja Hegel.

Artaud (AA T 42) procura expressar o pensamento não claro que sobe da matriz fervente do Inconsciente para a Consciência, onde não há palavras suficientes (O Pesa Nervos). Artaud quer o contato mudo com a realidade, suspensão de julgamento/da razão, levando-nos a crer que a Superfície/Consciência sem os apriorismos culturais é capaz de se inter-relacionar com as coisas do real e delas retirar novos objetos, a partir dos pontos de vista do indivíduo. O indivíduo tem uma somatória de contatos com o real não necessariamente coincidentes com os da cultura, nem necessariamente pertinentes a ela e cada homem tomado isoladamente é um gameta de uma nova cultura.


Superfície e aparências

A Superfície do Real é, no entanto, feita de aparências mutáveis, fonte de confusão para os homens comuns. Para anular esta confusão, historicamente, promoveu-se um movimento de fixar as aparências em seus aspectos denotativos, levando-nos a esquecer que eles apenas reportam às coisas, são "vendidas" a partir da linguagem. Artaud quer as aparências que sejam dissolvidas para se achar o espírito das coisas. (CW 58) É preciso descer à Profundidade do mundo real e não se contentar em alisar a sua Superfície; é preciso procurar, nas coisas reais, os seus múltiplos aspectos e perceber que os internalizamos apesar das aparências com as quais se nos dão a ler.

Durkheim (ED SPF 9) segue a tônica do Mundo das Idéias e toma a Superfície como as Coisas Reais, enquanto Artaud retorna ao antigo saber que a Realidade se nos dá a ler mediante aparências, as quais escondem, sob si, as Coisas Reais. A Superfície que recobre a Realidade é uma membrana lubrificante que se expande a cada vez que é estimulada, variando o estímulo, na procura dos múltiplos sentidos da cada coisa, é internalizada como a membrana expansível na mente humana, o Inconsciente.

Artaud toma o oculto não como Ocultismo e vê como critério de verdade apenas o mundo existente. Sabe que é preciso aprender a decifrar o Real sem verdades pre-estabelecidas e ver todos os possíveis, des-ocultando o que se mascara nas aparências. O cético Pirrão (2) nos dirá que temos contato com apenas nosso subjetivo, que é mutável, e nunca com a Realidade em si. Artaud quer a realidade concreta. Está em contexto com Empédocles e Anaxágoras, que tomam os fenômenos como “uma "visão que se nos abre sobre as realidades ocultas (3)". Artaud sabe que há apenas uma Realidade, a das Coisas Reais, sob as aparências captadas por nossos sentidos, falseadores, meros fabricantes de substitutos mentais da coisa. Percebida a Realidade, ao ser expressa verbalmente, transforma -se em novos substitutos que escondem a mais ainda a Realidade. Artaud ultrapassa Anaxágoras para quem a sensação deve fazer-nos conjecturar mediante o raciocínio a realidade oculta" e concordaria com Schopenhauer(TM 12) para quem o material de nosso pensamento, e as conclusões a que nos permite chegar, impedem-nos de apreender a realidade. Se Schopenhauer anteviu que as nossas conclusões-conceitos são falhos, Artaud sabe que a percepção da Realidade "real" ocorrerá sempre que abandonarmos nossos conceitos culturais ou de nossos contatos prévios com a coisa real.

A força da doutrina de Freud (R2 550) reside exatamente na renúncia às aparências. Em Sartre(ACD S 92), as coisas devem ser lidas sob as aparências, produtos subjetivos, e, os estados mentais remetem a objetos que existem ou que se crê existirem. Vamos enxergar em Artaud os múltiplos aspectos presos à realidade e, também, às palavras, às aparências que são por elas descritas. Julga, em "O Teatro e os Deuses", que "a juventude quer que se ligue o segredo das coisas às suas múltiplas aplicações (AV AT 314)", jogo de interrelacionamentos que nos expõe o jogo de múltiplos aspectos.

Se abandonada a convicção de que Consciência é algo que se adquire como regras sobre o mundo externo a serem internalizadas, a veremos apenas como o processo de focalizar e direcionar a atenção em um mundo enorme, a Profundidade, tanto para dentro – introspecção – quanto para fora do indivíduo, a Profundidade além das aparências. Artaud procura a Profundidade como um preceito surrealista: “a vida humana vista ao lado de sua miserabilidade, do potencial criativo contido em suas profundezas; a Superfície necessita relacionar-se com o material registrado em "certas escoriações da sensibilidade orgânica profunda do corpo humano”, necessário para as bricolagens, associações criativas. (AV AT 326)

É nos estóicos que os surrealistas vão buscar o como intrometer-se nas Profundidades do ser, e encontrar o sujeito individualizado, subjetivo. Artaud dá um par antinômico Racionalismo-Empirismo. Posiciona-se contra o Racionalismo, que é o exagero da Razão, chama a atenção para que o mundo subjetivo é duplo da realidade, apenas a sua representação, e nunca ela em si. Vai criticar Descartes, e usá-lo, ao mesmo tempo em que usa Bacon com seus métodos de abordar a realidade, o empirismo, aprimorando-o com uma "membrana lubrificante que se expande quando estimulada", que também pode ser vista como "aumentar a sensibilidade", e com uma duvida da razão a ponto de solicitar-nos um "queimar formas". E não vem a ser apenas Artaud que se insurge contra o modo de pensar que herdamos e insistimos em transmitir, também os "psicólogos da forma"(19) "exigem uma alteração nos modos de perceber e conceber". Não é mais possível perceber as formas e as cristalizar, congelar. É necessário brandir uma língua ferina contra a lógica usual, e queimar formas, fazer e refazer sínteses. Herdamos as estruturas da língua que condicionam o nosso pensar, formam o nosso modo de perceber. A metafísica de Artaud estará presente na Psicologia da Forma quando esta procura a experiência imediata, a visualização do todo, negando a reflexão e a abstração de nomear os elementos particulares, a compreensão de que o todo não é a soma das partes, portanto, servindo também como crítica ao logicismo pois a lógica se refere aos elementos os quais no contexto do todo não se prestam mais a raciocínios tão lógicos.

Artaud transforma os tópicos "Consciência", "preconsciente" e "Inconsciente" da Psicologia-Psicanálise francesa em "membranas" e enxerga no seu caráter dinâmico, a membrana:

  • - de aparências que preenche e recobre o mundo das coisas reais;
  • - como o Eu da Psicologia antiga, que pode assistir a si próprio e a seu Inconsciente;
  • - de formas que preenche o vazio sob o pensamento;
  • - como "visão do mundo", cosmovisão, duplo subjetivo da realidade;
  • - como o Inconsciente, depositário das leituras do real e de suas aparências, e, finalmente,
  • - como o substrato físico-químico sob o Inconsciente, onde são jogados os impulsos eletrofisiológicos,

todas as membranas compreendendo planos-níveis dilatáveis desde que nossos mananciais de geleira-conservação estejam em luta com nossos mananciais de água fervente-progressão.

Preparamo-nos para entender como Artaud quer "destruir a ordem", pela manipulação das formas que das aparências apreendemos, reorganizando-as em novas cosmovisoes, pedindo que manifeste o dinamicismo do Inconsciente, desobrigando-o do determinismo arcaico a partir de hipotéticos e míticos assassinatos de pais primitivos.

Comentários

VEJA NO BLOG: Artaud O Sentido e a Loucura, Cap 07: Resposta a comentário de Sergio Profeta Cardoso, Via FACEBOOK

Gilberto 01-02-2012 14:25 #1

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