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Enviado por: thaissantarosa
thaissantarosa

Fênix.

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Conheci uma garota que balançava os dedos dos pés de unhas pintadas de preto com cuidado no ritmo da música, os fones colados nos ouvidos, nada lá fora, tudo ali dentro. Estava certa de que ela escrevia uma carta, deitada de bruços sobre sua colcha carmim sem conseguir controlar a lembrança daqueles cabelos cor de calda de chocolate se rebelando contra a ventania de novembro, ela não recordava se ele estava de bermuda ou calça jeans, mas a camisa branca, o rosto fino com os olhos profundos e distantes como quem espera o trem das seis há oito horas, e depois oito, e mais oito, por dias e dias sem fim. Tocou-lhe as mãos, abraçou mais uma vez, os ombros largos como ela gostava, a respiração contínuamente calma, tocou o peito, não sentiu o coração e por um momento, um breve momento, pensou que estaria tudo acabado, até que ele a pegasse pela cintura, beijando-lhe as bochechas, nariz e olhos e boca, respiração, e testa, e novamente as maçãs rosadas, e queixo, e pescoço, e mãos.
– A tempestade passou – ela disse, olhando em volta. Não percebera até então o vento levando a chuva embora.

Ele beijou sua testa.
- A tempestade passou – concordou.

Abriu os olhos encarando o teto, depois a cortinha da janela subindo, subindo, subindo cada vez mais alto, depois a moldura branca de madeira da janela e, então, a chuva lá fora. Tocou os dois lados da cama, alisando-os por alguns segundos e chorou. Chorou como nunca antes, despejando sua caixa de recordações pela colcha, resgatando mais falta, mais vazio, mais amor…e era tanto, tanto, tanto que sufocava sua garganta. Levantou rápido ajoelhando-se no piso frio ao lado da cama entre um soluço e outro, entre uma tentativa de encher os pulmões de ar e outra, engatinhando-se até a saída do quarto que dava para uma antiga varanda a céu aberto. A tempestade apertando, sua roupa molhada quase que totalmente assim como os cabelos que ele tanto gostava. No começo dizia que amava o tom ruivo, mas com o tempo deixou de se importar tanto com coisas assim.
Segurou a foto perto do peito e já não sabia o que era lágrima e o que era efeito da tempestade que a encharcava tanto. Pediu, rezou, praguejou contra Deus e a favor dele, e de santos e anjos, se sentindo perdida dentro de si mesma. A maquiagem de festa borrando o rosto de preto. Tirou os sapatos com o resto de força que tinha. Encolhendo-se como um feto. A foto ao seu lado, presa firmemente entre seu polegar e indicador.

– Você…e só.

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