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Enviado por: Guilherme_Sakuma
Guilherme_Sakuma

Detetive Jesus e o caso do marido que queria ser corno

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Jesus estava com os pés em cima da mesa esperando alguma coisa acontecer. Fumava um cigarro Derby e examinava as unhas que precisava cortar. Fazia um calor dos infernos e o ventilador ligado no máximo parecia que ia despencar do teto a qualquer momento.

Ouviu passos no corredor e não deu muita bola.

Em seguida um homem de estatura mediana entrou sem bater e foi logo se sentando – suava muito e transpirava nicotina pelos poros. Ele encarou Jesus por alguns instantes, então deu um tapão em cima da mesa e soltou:

– Aquela piranha está me traindo!

– Entendi.

Jesus silenciosamente abriu a primeira gaveta da mesa, sacando de dentro dela um revólver calibre 22. caindo aos pedaços.

– Mas... mas o que é isso??

– Dá licença.

Jesus grudou o cano do revolver na barriga dele, enquanto o revistava.

– Sinto muito. Todo cuidado é pouco hoje em dia.

            – Acho melhor eu ir indo...

– Senta aí. Você disse que a sua mulher está te traindo.

– Tá me chamando de corno??

– Meu amigo, eu cobro por hora. Se vamos ficar de gracinha, é melhor já largar uma de vinte aí em cima da mesa. Caso contrário, pode parar com essa ceninha. O que eu mais pego por aqui é marido traído – e a maioria merece.

O homem cerrou os dentes e a mandíbula. Apagou o cigarro no chão e abriu o botão do colarinho da camisa de gosto bastante duvidoso.

– Meu nome é Irineu.

– Certo. O meu acho que você já sabe. Quem te indicou?

– Ninguém. Li um anúncio seu numa revista pornográfica de quatro anos atrás que estava dando sopa no barbeiro onde eu às vezes faço a barba.

– Um que usa tapa olho e tem um gancho no lugar da mão esquerda? – o detetive perguntou bastante sério.

– Como?

– Por favor, prossiga senhor Irineu.

– Acho que ela está saindo com alguém da academia.

– Sei.

– Ela mudou completamente depois que começou a frequentar aquele lugar! Faz as coisas de casa de qualquer jeito e não quer mais saber de cozinhar e de...

– Já entendi.

– E você tem que ver as roupas que ela usa para ir praquele lugar!

– Que nem aquelas mulheres usam nos programas de ginástica de finalzinho de tarde?

– Piores!

– Entendo. Escute, trouxe alguma foto dela?

– Sim.

Irineu tirou uma foto de dentro da carteira e entregou ao detetive.

– Há quanto tempo são casados? – Jesus perguntou, analisando a foto.

– Quinze anos.

Jesus olhou para o homem sentado em sua frente e novamente para a foto – ela de biquíni fazendo pose em frente ao mar, flor tatuada no tornozelo esquerdo. Ficou achando que aquela mulher tinha era demorado tempo demais para procurar coisa melhor. Mas aí também pensou que nunca dava para saber o que se passava na cabeça das mulheres. Jogou a foto em cima da mesa, levantou-se e sacou um formulário de dentro de um armário de ferro um pouco enferrujado.

– O senhor faça o favor de preencher essa ficha pra mim. Depois lhe farei algumas perguntas e anotarei umas coisas na minha caderneta. Cobro vinte reais por hora mais o dinheiro da gasolina.

– Como posso saber se posso confiar em você?

Jesus sentou levantou-se e sentou no canto da mesa, de frente para o homem. Olhou dentro de seus olhos e falou:

– Você é dono de uma agência de carros, e os negócios já estiveram muito melhores. Ouve música sinfônica e chorinho. Gosta de ir à praia, mas nunca entra na água. A última vez que colocou uma gravata foi quando a sua mãe morreu. Ama massas e odeia legumes. Tem medo de igreja. Não pode ter filhos.

– Como você...

– Alguns chamam de leitura fria. Eu chamo de mais de vinte e cinco anos fazendo isso. Preencha o formulário.

*

 

Estacionou em frente à academia, do outro lado da rua. Alguma depressiva do Chet Baker saia das caixas de som chiadas de seu velho Monza vinho. Regulou a câmera fotográfica, colocou os óculos de grau e, pelas grandes vitrines que rodeavam praticamente todo o lugar, procurou por Cristiane. Havia loiras na casa dos quarenta e cinco, a maioria inteirona, mas nenhuma delas era a que ele estava procurando. Esperou mais um pouco e então desceu do carro. Livrou-se do chapéu e do sobretudo, enrolou a gravata e guardou dentro do bolso, arregaçou as mangas e atravessou a rua.

– Pois não? – disse a recepcionista.

– Vim dar uma olhada. Estou pensando em começar na semana que vem.

– Claro, fique a vontade.

Circulou pelos aparelhos de exercício; nada por lá. Subiu as escadas que davam no refeitório; nada por lá também. Debruçou-se numa mureta e olhou lá embaixo na piscina. Havia uma mulher de toca e óculos de natação nadando de uma borda a outra, executando mergulhos e braçadas com perfeição. Pela tatuagem de flor no tornozelo esquerdo, Jesus soube que era Cristiane. Tirou o celular do bolso. Fingindo digitar uma mensagem de texto, aumentou ao máximo o zoom da câmera.

“Se eu tiver sorte, o Ricardão pinta na área daqui a pouco”, pensou.

Sentiu um toque em seu ombro.

– Olá. Sou instrutor aqui da academia – disse o homem de cabelos castanhos e barba cuidadosamente malfeita, na faixa dos vinte e sete, trinta anos. – Meu nome é Fabrício.

– José.

Os dois deram a mão e se cumprimentam.

– A menina da recepção me disse que o senhor está pensando em começar a treinar aqui semana que vem...

– É. Estou dando uma olhada em volta.

– Se precisar de alguma coisa estarei na área da piscina.

– Obrigado.

Algo dizia a Jesus que esse era o seu cara. Ele fazia o tipo que as mulheres gostavam: parecia não ter muita coisa na cabeça e não ser nada confiável. Jesus não gostou dele logo de cara.

O viu agachar-se na beirada da piscina, e Cristiane nadando em sua direção. Ela tirou os óculos de natação e os dois ficaram conversando baixinho. Ela sorria como uma adolescente, ele sorria como um adorável canalha. Jesus conseguiu algumas fotos interessantes. Tudo indicava que tinha o seu cara.

Cristiane sai da piscina e tirou a touca, revelando lindos cabelos loiros de quem passava pelo menos dez horas por semana em algum salão de beleza desses que se pagam só vinte reais para atravessar a porta. A carne dela era firme, bronzeada e sapecada de sardas aqui e ali. Qualquer cara seria capaz de se apaixonar por ela, menos um canalha daquele tipo. Jesus sabia que o que ele queria era dinheiro.

Conversaram mais um pouco e cada um foi para um lado. O detetive conseguiu fotografar o momento exato em que ele deu para ela o sinal universal de “me liga mais tarde”.

*

 

– O senhor Irineu, por favor.

– Da parte de quem?

– Lavanderia Jesus.

– Só um minuto.

– ...

– ...

– ...

– E aí, conseguiu alguma coisa? – perguntou Irineu, batendo a porta de seu escritório.

– Algumas fotos. Acho que tenho o seu cara.

– Quem?

– Instrutor da academia.

– Desgraçado!

Do outro lado da linha Jesus pôde ouvir Irineu tacando coisas na parede e no chão. Esperou ele terminar para continuar.

– E como eu estava dizendo, ainda não tenho certeza se é ele o seu cara. Só estou telefonando para te manter a par da investigação... Mas devo adiantar que ele leva todo o tipo para o perfil.

– Que perfil?

– Perfil de Ricardão. E a sua mulher leva todo o jeito de... Deixa pra lá.

Irineu ficou em silêncio por alguns instantes, apenas respirando sua pesada respiração de fumante de longa data no bocal do telefone. Jesus achou que sabia o que vinha a seguir.

– Será que você não pode dar um susto nele? – Irineu disse.

– Não entendi.

– Eu te pago um extra, se for essa questão.

– Desculpe senhor Irineu, mas eu sou um detetive particular, e não o seu irmão mais velho. Acho que o senhor está confundindo as coisas.

– Ao invés de vinte por hora, que tal quarenta!

– Melhor eu desligar. Assim que tiver mais notícias entro em contato.

Colocou o fone no gancho e acendeu um Derby, um pouco tentado com a oferta.

*

 

           Era sábado e o dia do pagamento fora no dia anterior. Irineu trabalhava na concessionária de carros sem sequer ter tempo de coçar os chifres. Cristiane dissera a ele que sairia de tarde para fazer uma visita à mãe no asilo. É claro que Jesus sabia exatamente o que aquilo significava, então assim que recebeu o telefonema de Irineu avisando, pegou o Monza vinho e dirigiu até sua residência. Parou do outro lado da rua, debaixo de uma árvore, e ficou ganhando o movimento.

Duas horas haviam se passado sem que absolutamente nada relevante acontecesse; nada do Ricardão da academia, e nada de Cristiane sair com o carro. Talvez ela realmente não fosse fazer nada de mais; talvez tivesse desistido de visitar a mãe no asilo, e agora estivesse em frente à televisão comendo uma caixa de bombons ou tomando uma taça de vinho seco.

O detetive pegou uma garrafinha de água no banco do passageiro e jogou um pouco no rosto. Tirou de dentro do porta-luvas um sanduíche enrolado em papel alumínio. O salame estava com um cheiro um pouco azedo.

Acabara de terminar o lanche, quando teve um pressentimento. Se abaixou e olhou pelo vidro retrovisor: Ricardão do outro lado da rua. Ricardão tocando a campainha. Cristiane abrindo. Sem beijinho, para manter as aparências, apenas um cumprimento de mão. Poderia passar por advogado da família. Hora de agir, detetive Jesus.

Ele sacou a câmera e o sobretudo e fechou o carro. Circulou pelas imediações da casa e encontrou a janela de um dos banheiros – que Irineu combinara com ele de deixar aberta. Foi difícil entrar por ali, e Jesus sentiu o peso da idade como nunca. Ao cair – na verdade não era para ter caído – fez um tremendo barulhão. Algo parecido com o som de um pesado saco de grãos sendo jogado por uma cara em cima de um caminhão.

– Nossa, o que foi isso? – pôde ouvir Fabrício, o instrutor da academia, dizendo lá da sala.

– Nada, querido. Deve ser o barulho das reformas no casarão aqui do lado. Parece que nunca terminam, não aguento mais.

“Que sorte!”, Jesus pensou, e enxugou a testa e o bigode molhados de suor. Abriu uma frestinha na porta, mas não conseguiu ver nada do que estava acontecendo.

Ouviu quando os dois subiram as escadas. Eles riam como um casal de adolescentes com a casa só para eles.

– Agora eu pego vocês.

Apesar de fora de forma e meio velho, Jesus ainda sabia como caminhar sem fazer som algum. Na época em que era casado com Madalena – que fora embora com outro –, vivia pregando sustos nela. Era só ela estar na cozinha e ele chegar, que era aquele escândalo:

“Jesus! Criatura! Faz algum barulho quando você estiver chegando!”

“Oche, Madá, você tá muito desatenta, mulher! Não pode ser assim não. E se fosse um bandido?”

Subiu as escadas e seguiu o som das risadas e dos gemidos. Preparou a câmera para bater várias fotos na sequência; ia pegar Cristiane com a boca na botija – ou Fabrício, ou os dois ao mesmo tempo...

A porta do quarto estava fechada, mas provavelmente não estava trancada. Bem devagarzinho o detetive girou a maçaneta, mas de onde estava só conseguiu ver os pés descalços e as costas de Cristiane. Ela estava agachada e parecia mexer com ambas as mãos em algo que estava à sua frente...

Para conseguir as fotos Jesus teria que chutar a porta, bater o fleche e sair correndo. Não era a maneira mais profissional de se conseguir as coisas, mas ele não era do tipo que se importava demais com profissionalismo. Jesus era do tipo que fazia o serviço.

“Chutar a porta, bater o fleche e sair correndo. Chegando na metade da escada eu posso pular, ela não é muito alta. Já fiz isso antes, vai dar certo”, planejou, e chutou a porta, na sequência disparando os múltiplos fleches da câmera.

*

Irineu entrou no escritório suando frio, bateu a porta atrás de si e veio como um trovão pra cima de Jesus.

– Que tipo de brincadeira é essa?! Tá pensando que eu sou palhaço? – soltou, arreganhando a boca e mostrando os dentes de cavalo manchados de nicotina.

– Palhaço? – o detetive Jesus disse calmamente, repousando em cima do jornal a lupa que usava para abrir um buraco na folha de classificados de automóveis. – Claro que não. Eu até gosto de palhaços.

– Ha-ha que grande piadista você é! – Irineu gritou, e tacou o porta-lápis da mesa contra a parede.

– Bem, isso também vai entrar no seu pagamento – o detetive disse sem emoção nenhuma. – Aqui estão as fotos que eu tirei ontem. – Jogou em cima do balcão o envelope pardo.

Irineu pegou o negócio como se lá dentro houvesse pó de antraz ou algo do tipo, o tempo todo olhando nos olhos de Jesus, como se fosse apanhar ou algo do tipo.

– Não é possível!

– Meu amigo, você pensa que eu brinco em serviço? Se eu falei que os dois estavam apenas brincando de bonecas, é porque eles estavam brincando de bonecas, oras. Não tem nada de mal com isso; é até saudável. Conheço várias pessoas adultas que voltam para casa para brincar de bonecas ou carrinhos. Você preferia que ela realmente estivesse te traindo?

– Não... Não é possível...

– Sei como deve ser difícil para o senhor acreditar, senhor Irineu, mas, entenda, esse tipo de coisa vive acontecendo. Se você visse cada caso que eu já peguei...

– Não pode ser. Você não tinha me dito que o cara levava todo o jeito para Ricardão?

– Às vezes eu erro. É difícil, mas acontece. Jesus também erra. Quero dizer, o detetive Jesus também erra.

– Não entendo como... – Irineu tinha uma expressão patética estampada na cara.

– Já ouviu falar de mulheres que levam cinco homens para o seu quarto só para jogarem dominó e falarem mal da vida dos outros e comerem chá com bolo? Pois eu já.

– Você inventou isso! Você fez montagens! Isso aqui não vale nada para mim! – Irineu rasgou as fotos e as atirou em cima da mesa de Jesus.

– Bem, o meu serviço eu fiz, e o senhor pode acreditar no que quiser. Agora, por favor, o meu pagamento... Com mais esse porta lápis que o senhor fez o favor de tacar na parede, o total fica trezentos e cinquenta e sete reais e setenta e cinco centavos. Mas eu faço por trezentos e cinquenta. – Deu um sorrisinho e estendeu o recibo para o cliente.

Irineu tirou um bolo de notas de cinquenta de dentro do paletó. Sacou oito e largou em cima do balcão.

– Pode ficar com o troco! – falou, fritando o detetive com os olhos.

– Oh, é muita gentileza sua, senhor Irineu. Fico satisfeito que tenha gostado dos meus serviços.

Irineu tacou o cigarro no piso de madeira mofada do escritório e amassou com uma pisada. Deu as costas para o detetive e saiu. Logo depois voltou, parou na porta, entortou para baixo os cantos da boca e soltou:

– BRINCANDO DE BONECAS UMA OVA!

Jesus deu de ombros, colocou o dinheiro dentro do bolso e o que restara das fotos dentro de um envelope, que anexou à ficha de Irineu. Puxou a primeira gaveta do armário de ferro e tirou de dentro um fichário com algumas divisórias vazias. Pegou uma delas. Dentro do pequeno retângulo branco que servia para identificar o que estava guardado ali dentro, ele pensou em escrever “Irineu, dono da loja de carros”. Então pensou melhor, tirou o papelzinho de dentro do pequeno retângulo plástico e escreveu “O caso do marido que queria ser corno”. Jogou a divisória de volta dentro do fichário e fechou a gaveta. Afrouxou a gravata, colocou os pés em cima da mesa e acendeu um Derby.

– Mais um caso resolvido – falou baixinho, soltando um satisfeito halo de fumaça azul que logo se desfez ao vento produzido pelo ventilador que parecia que ia despencar sobre a sua cabeça a qualquer instante.

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