De que fala Artaud em "O Pesa Nervos"(5)?
Não vaticina ele que, após a sua morte, todos entenderão como são os jogos de sua alma? Que será compreendido em seus mananciais de água fervente e de geleiras?
Com o tempo, tem a certeza de que irá se tornar claro que as formas que congela em uma geometria sem espaço estão prontas a serem consumidas em águas ferventes, o que está absolutamente coerente com o convite a aprender a queimar formas, que surgira mais tarde(6).
Artaud transfere a Psicologia da Forma para a filosofia, efetuando um deslizamento de campo semântico. Está em sequência à internalização de formas, do Real internalizamos formas, sabe Artaud, acompanhando a Psicologia da Forma, PGPF psicologia gestáltica na Alemanha, cujo representante francês é Paul Guillaume (1878-1962), com texto publicado em 1937. Embora os autores da psicologia da forma se preocupam com a forma visual, Artaud permite expandir para o produto interno das sensações, tal como a “sensação interior”, percepção interna, em conjunto, de elementos oriundos das sensações externas, da psicologia das sensações de Locke como interpretada por Rousseau. PMMICH As formas não são “figuras geométricas” lançadas ao acaso no texto de Artaud. Relacionam-se, já no "Pesa Nervos" com "mananciais de água fervente e de geleiras", ou seja, as formas que Artaud congela em uma geometria sem espaço estão prontas a serem destruidas, anunciando as "destruições sucessivas", movimento do cheio ao vazio e ao convite a aprendermos a queimar formas, que surgira mais tarde. (AV AT 317)
É a persistência do tema "membrana expansível", quando Artaud fala de um espaço onde não há espaço, um espaço que se dilata, de momento a momento, para conter todo o acontecimento. Algo que se afigura óbvio: fazemos o espaço no qual vivemos, e o internalizamos instante a instante. Cada internalização é um espaço e todo eles cabem no espaço em expansão que também, a profundidade.
A figura “geometria sem espaço” não é originalidade de Artaud. Aparece no "Discurso do Método" de Descartes (1): as "longas cadeias de razões simples e fáceis, das quais usam os geômetras servir-se para atingir as suas mais difíceis demonstrações, deu-me azo a imaginar que todas as coisas que podem ser submetidas ao conhecimento do homens seguem-e do mesmo modo". Usando o ponto de vista de Descartes, Artaud, com “entender a geometria sem espaço”, se refere a ser compreendido na linguagem simbólica, metáforica e alegórica, com que procura expressar seu conhecimento do mundo.
Bergon (1859-1941) "tenta espacializar o que é puro fluxo", ao falar de "estados de consciências", procurando tornar mensuráveis como em um espaço geométrico coisas que são apenas formas, como as que surgem nas núvens em devaneios infantis.
Em Kant (1724-1804) e Brentano (1838-1917) (MW PHP 72) "não se pode perceber o mundo sem construí-lo em termos espaciais". Também Piaget (1896 - 1980) (3) relaciona imagem a geometrização, embora nos fale da intuição geométrica propriamente dita, generalizável para todas a ações interiorizadas a partir da interpretação de Lauro de Oliveira Lima (4): "desenvolver a inteligência é levá-la a organizar o real para compreendê-lo (geometrizacão) e sobre ele atuar". Significando, assim, "a geometria sem espaço de Artaud" se refere ao modo como ele compreende a Realidade, ao modo como faz a representação mental do mundo em que vive.
Deleuze permite interpretar que “geometria sem espaço” é o modo como se organiza pensamento e o usa para a criatividade. Deleuze (1925-1995), retrocedendo a Proclo viu "geometria" como "construção", portanto, criação. Preocupado, porém, com a aparência de esquizofrenia da linguagem de Artaud não conseguiu ler o seu “geometria sem espaço” como "organização". E há organização em Artaud, “o que Artaud pensa sobre o pensamento” nasce em “O Pesa Nervos”, de 1925, percorre toda sua obra, e cresce organicamente. “A vida é queimar perguntas”, curiosidade epistêmica, conflito conceitual, e sua obra é o conjunto de resposta a estes questionamentos.
Há uma etapa anterior à possibilidade de perguntar, questionar: o nível das formas. "Queimar formas" nos reportará a forma/conceito, e teremos Cassirer, em 1924, escrevendo "linguagem e Mito" e colocando a determinação lógica como geométrica, enquanto tece considerações quanto ao espaço conceitual. Este espaço está também, em expansão continua, por um processo de destruição-construção progressiva.
É preciso pesquisar Artaud concebendo o universo e escrevendo seus textos, manifestação primária de seu mundo interno, com uma "geometria sem espaço", como quem tece teoremas e axiomas, ou descreve um sistema de idéias. Sorokin (1889-1968) (Sorokin 571) diz, da Cultura, que "os puros significados, valores e normas são geometricamente inespaciais". Artaud, portanto, quer ser entendido no seu sistema de significados, normas e valores, o que é importante em se tratando de alguém acusado de esquizofrênico. Espinoza (1632-1677), (LF NHF 189) procura registrar a sua "metafísica por meio de teoremas, axiomas e corolários” à maneira de "geometria sem figuras", e “concebe o mundo moral como um sistema de relações geométricas e intenta formulá-las em código de teoremas e corolários", (JI PPB 240) analizando as "ações e os apetites dos homens como se tratasse de linhas, planos e sólidos". (CL CF 37) Artaud vai vincular-se, ainda, ao panteísmo, como Spinoza: é justo crermos que "geometria sem espaço" diga respeito a ações e apetites humanos, o que fará contexto com "homem igual ator" e com "noções e princípios fundamentais". Artaud poderia estar dizendo apenas de suas ações e desejos quando fala "minha geometria sem espaço". Esta interpretação vai se ligar à descentração completa e altruísmo que demonstra em "corpo humano" igual "humanidade", cuja antinomia coloca em "individualidade radical", deslocando o sentido da palavra para não se referir a "egocentrismo radical".
Laloup e Nelis (11) trazem "geometria, este conhecimento racional do espaço", de onde, "geometria sem espaço" poderia corresponder a "conhecimento racional do mundo interno", e isto reporta-nos, novamente, ao sistema de significados, normas e valores próprios de Artaud, e ao método que usa, introspecção. E o que temos: como em Piaget (12), Artaud quer ser entendido por todos em suas imagens-metáforas nos seus discursos sobre a matéria sensível-realidade. Vamos descobrir, então, o mesmo pedido de atenção aos discursos dos dementes precoces: há algo sendo comunicado e não meras "saladas de palavras", diz Artaud.
Artaud é suicidado pela Sociedade, a figura que usou para dizer “declarado louco”, e este é o ponto central de seu conflito conceitual. Com “geometria sem espaço” dá a entender que há um Sistema de Significação, Normas e Valores da Cultura, da Sociedade e que cada indivíduo tem o seu sistema de significação, normas e valores dele derivado, que é a sua “geometria sem espaço”, a sua compreensão e representação mental do mundo e a forma como nele se conduz (normas e valores). Também pede que se converse com os loucos (denominação de sua época dada aos doentes mentais) sem o uso de dicionários: é possível extrair uma abordagem diferente para os discursos ditos obscuros, próprios da Loucura?
01 - Descartes 40
02 - MW PHP 72
03 - AMB DTJP 144
04 – LOL PPP 65
05 - CW 22
06 - AV AT 317
07 - Sorokin 571
08 - LF NHF 189
09 - JI PPB 24
10 - CL CF 37
11 - LN CC 101
12 - AMB DTJP 144
13 - PGPF Paul Guillaume. Psicologia da Forma (1937). Tr. Irineu de Moura. São Paulo: Cia Editora Nacional.1960.
14 - PMMICH Pierre-Maurick Masson. Introduction et Commentaire Historiques de Rédactions Manuscrites de Profession de Foi du Vicaire Savoyard, Jean Jacques Rousseau. Fribourg: Librairie de l'Université; Paris Librairie Hachete. 1914.


Comentários
ABRAÇOS AMIGO.
PauloJose 07-02-2012 06:18 #1
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