É impossível não percebê-la. O calçado e a roupa branca, com sobre tudo de brim azul, significam que a mesma recém saíra do serviço, ou está indo para o serviço, ou então está levando à filha que aparenta ter cinco, seis anos à creche, para só então deslocar-se ao seu local de serviço.
Imagino eu que seja enfermeira, ou coisa do gênero.
Suas vestes não fazem bem ao meu gosto.
Responsabilizo a falta de tempo por aquele descuido, uma vez que tenta encobrir o uniforme de trabalho com o sobre tudo azul.
Contudo o seu rosto brilha, assim como seus cabelos loiros.
Sei que cumprimentará o cobrador, e assim que pagar a passagem, sentar-se-á, e de contínuo conversará com a filha.
Em parte estava certo: errei no tocante ao sentar-se.
A menina sentou-se perto de um jovem, ao lado da janela, enquanto a mãe permaneceu em pé, conversando sem parar com a mesma.
Não satisfeita brincou que ela estava sentada do lado de um torcedor do time adversário: a camisa o denunciava.
O rapaz desembarca do ônibus. Logo em seguida ela faz o mesmo, sem notar minha presença.
Uma segunda vez acontece como no início; porém agora ela me vê.
Um pouco antes de desembarcar olha para meu rosto.
Eu desvio o olhar intencionalmente, para não assustá-la.
Com o canto dos olhos observo-a admirada, olhando fixamente para o meu rosto iluminado.
Minha vontade é declarar:
-Ei, somos espíritos, por isso você consegue ver o brilho em meu rosto, assim como vejo o brilho no seu!
No entanto a seu ver isso seria uma assombrosa loucura. Por isso mesmo tendo explicação para aquele momento, preferi manter-me calado.
Quando espírito de palavra que está na boca de uma mulher, encontra outro espírito de palavra que está na boca de um homem pode ocorrer uma atração imediata. Contudo ambos, sempre tem controle sobre essa atração.
Nós poderíamos ficar nus na mesma cama uma noite toda, sem ter relações sexuais, visto que isso para nós é inerente ao desejo carnal.
Ainda foi possível observá-la durante poucos segundos, subindo a rua em sentido contrário ao trajeto do ônibus, conduzindo a filha pelo braço.
Disse para comigo mesmo:
-Se ela for casada, no mínimo o seu marido deve ser um sujeito apagado!
Após refletir um pouco pensei na possibilidade de seu esposo também ser um espírito de palavra, e isso seria uma coisa tremenda.
Espíritos de palavra raramente se encontram em estado descompromissado.
Na maioria das vezes o encontro acontece quando já estão casados com pessoas apagadas e já têm filhos.
A capacidade de manter o autocontrole e o temor a Deus, é que os faz manter-se fiel a uma pessoa que é diferente em essência, e preterir sem dificuldade outro espírito de palavra, mesmo tendo uma forte atração pelo mesmo, tendo-o, apenas como um membro da família.
