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Enviado por: Millaneza
Millaneza

Sofia está morta

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A carruagem embalava a viagem com seu chacoalho sonolento, quase hipnótico. As rodas sulcavam com dificuldade a terra encharcada, enquanto embrenhávamos cada vez mais na densa névoa da manhã fria de novembro. O trote dos cavalos batucava compassadamente o chão lamacento, como se a qualquer instante, o mesmo fosse ceder abaixo do coche.

Empurrei a janela na esperança de que um pouco de ar puro pudesse me fazer bem, mas o vento cortante frustrou-me, e invadiu meus pulmões feito gelo pipocando numa frigideira quente. Lá fora, a floresta que flanqueava a trilha estreita envolvia-nos como fantasmas à espreita. Agarrei-me ao sobretudo de lã grossa que vestia, quase como se fosse outro corpo do qual pudesse roubar um bocado a mais de calor.

Calor.

Um calafrio maldito me fez contorcer as entranhas ao pensar em Sofia; abraçando-a, sentindo seu corpo ainda vivo movendo-se contra o meu. A memória talhou um corte em meus pensamentos. O ardor escorria em fiapos de suor pelas suas costas e pescoço; o sangue bombeava furiosamente nosso prazer, fazendo as veias vibrarem como acordes de uma melodia retumbante contra os tímpanos; gemidos e movimentos ecoando ondulantes pelo quarto, tal como se uma pintura espetaculosa de Boucher decidisse reclamar vida. Tão doce, tão bela, minha Sofia Deville — suspirei, engolindo a melancolia acre do pranto. Recusava a permitir que as lágrimas rolassem, consumando assim, a tragédia. A essa altura, a única forma de calor que lhe fosse cabível obter, só poderia vir das vestes funestas, e da respiração daqueles que a rodeavam e a tocavam em seu leito de morte.

Estiquei a mão enluvada em couro resistente para a portinhola da frente, e num clique a tranca cedeu.

— Estamos perto? — Perguntei ao condutor, um senhor velho, calvo no topo da cabeça. Senti pena do pobre homem sendo castigado há quase duas horas pelo clima severo, apesar de que suas roupas pesadas parecessem dar conta do recado. Enquanto minha boca se movia, o ar que escapava formava pequenas nuvens de vapor.

Ele arriou as rédeas dos cavalos, e girou metade do pescoço.

— É provável que a estrada fique mais firme. Mas não posso exigir muito dos cavalos com esse frio, senhor. Por isso eu peço desculpas. — Respondeu, com seu sotaque sulista entoando porções generosas de piedade e modéstia. Irritado — devido à ansiedade e o estado de choque recente no qual me encontrava —, voltei a trancar a portinhola, e tentei encontrar algum conforto na cadência sacolejante da carruagem.


–x–

 

Como era de se esperar, assim que botei meu par de botas úmidas para dentro do casarão, o senhor e senhora Deville quedavam-se inconsoláveis num canto do salão apinhado de parentes e amigos. Pesado, meu coração despencou ao ver o sofrimento abraçar o contorno franzino dos meus ex-futuros genro e sogra. Espremiam-se num sofá no centro da sala, um servindo de apoio ao outro. Era possível distinguir exclamações de pêsames em cada canto do lugar. A grande maioria, agora direcionadas à minha presença. Respirei o odor fúnebre que os olhares jogaram sobre mim ao tomarem consciência da minha figura pálida e estática na soleira da porta.

Dei alguns passos, inseguros, ressoando a sola do calçado desconfortavelmente a cada avanço pelo salão. No mesmo segundo, uma sinfonia sussurrante de cochichos espalhou-se nas entrelinhas da pequena multidão. Francine, a caçula da família, correu arrastando seu vestido rodado para me receber. Colocou as mãos delicadas em meus ombros, e compartilhamos da mesma agonia numa troca demorada de olhares. Ela esforçava para equilibrar entre seu tormento, e alguma tentativa débil de transmitir consolação. Queria dizer-lhe que não havia necessidade de tais formalidades; mas, felizmente, o pedido morreu em meus lábios antes que vazasse como um insulto diante de tanta fragilidade.

— Stéphane, como isso foi acontecer? Sofia se foi, minha querida e única irmãzinha se foi. — Repetia aos soluços, o lencinho bordado abaixo do nariz avermelhado. — Como isso pode sequer ser verdade? Me diga, não consigo entender. Stéphane... Eu sinto tanto, tanto. — Abracei-a. Afaguei suas costas deixando que derramasse seu choro sobre mim. Mantive os olhos num ponto fixo para não ter que ser obrigado a encarar o caixão no fundo da sala, embora tivesse total conhecimento de sua existência desde o instante da minha chegada.

— Acho que devo ir prestar minhas condolências à tua mãe e teu pai.

— Mamãe não fala desde cedo. — Francine disse, agora com a postura ereta, mas ainda trêmula. Tive o ingênuo receio de que fosse partir ao meio ao menor descuido. — Coitadinha, ficou em choque, recusa água e comida. Estamos preocupados. O papai não para de repetir que Sofia está muito doente, que vai voltar. Ele não quer aceitar.

— Suponho que pai algum aceitaria. — Respondi clemente, convidando-a com um gesto de cabeça para ir até eles.

Alguns parentes dos Deville vieram ao meu encontro de modo a prestar seus sentimentos, e, inevitavelmente mencionando o casamento. Destilavam lamúrias afetadas o suficiente para que eu recolhesse a mente para dentro uma dimensão alternativa, onde pudesse desligar a consciência por alguns segundos, deixando apenas meu corpo funcional a tragar aquelas palavras com indiferença. O lamento era unânime. Sabia desde o início que a proibição do assunto seria um ato impraticável no velório, embora a certeza não me desse preparo psicológico para enfrentar a realidade. Sofia estava morta. Fria e imóvel em seu ataúde revestido em flores e veludo, do qual recusei aproximar. Um ato consolador de covardia. Evidente que minha teimosia não duraria até o fim do dia; no entanto, não estava nem por um minuto considerando que aquele dia fosse ter um fim.

Quando me sentei ao lado da Sra. Charlotte, mãe de minha finada futura noiva, suas mãos enrugadas apertaram meus dedos com uma força extraordinária. Disse-lhe algumas palavras confortantes, tentando conter o tom embargado na voz. Não ouvi resposta, senão o arquejar penoso de sua respiração. Era uma senhora de setenta e três anos, consumida por males respiratórios; a seiva que antes regava debilmente os sulcos rugosos de sua expressão, agora pareciam um terreno árido e rachado devido à estiagem prolongada. Envelhecera dez anos em menos de vinte e quatro horas. Quis tocar em seu rosto para enxugar as lágrimas, mas fui impedido pela imagem absurda de ter seu rosto se esfarelando como escultura arenosa sobre minhas mãos. Tratei de expulsar o devaneio sugestivo da mente.

Em seguida ofereci minhas condolências ao pai. Lorde Marchand moveu-se impaciente. Ergueu um dos punhos na minha direção, tal como se estivesse prestes a reger um coral de boas vindas. Tentei evitar o contato visual, mas ele apressou em conseguir minha atenção, se embrenhado em gestos desconexos e irritantes. Informou-me de que não havia necessidade de luto, pois o médico viera de manhã, e Sofia logo ficaria boa.

— O Doutor assegurou. Estão dizendo que ela se foi para sempre, mas não dê atenção a essa gente, são um bando de malucos, aonde já se viu, minha Sofia morta? — Sorriu tragicamente sacudindo a cabeça, o brilho da loucura impregnado em cada fresta da sua face. — O Doutor deu-lhe os remédios, eu mesmo vi, estava lá! Logo minha menina irá acordar. Logo, bem logo. — Persistiu aos murmúrios, e continuou a delirar. Marchand tornou a esconjurar a sanidade mental de seus "convidados", chamando-os de loucos varridos e depois disso, desejou-me felicidades no casamento.

A voz e o olhar de profunda psicose do Sr. Deville, fez meu estômago contrair em redemoinhos. Não estava disposto a lidar com aquilo. Era demais para mim. Na minha vida — embora curta, cumulava prematuros vinte e quatro anos —, havia visto pessoas que abandonaram o completo estado de sanidade, porém, o que eu via nas pupilas do Sr. Deville, estava além de qualquer esclarecimento racional. Senti náuseas, o que chamou a atenção das pessoas ao redor. Espiavam curiosos, embora nenhum confiante o bastante para se aproximar. Sob a ameaça de toda àquela espreita, não demorei a pedir licença, e fui até a sacada respirar um pouco de ar livre. Francine fez menção de me acompanhar, e apesar de toda sua desamparada insistência, neguei decididamente. Queria um momento de isolação. Precisava.

O cheiro de capim molhado acariciou minhas narinas, e fiquei grato por isso. A chuva que começara a cair, escorria calma. Suas gotas velozes embaçavam a paisagem do jardim como se o artista salpicasse o pincel de tinta branca contra o panorama selvagem. Consegui alguns segundos de paz, antes de me dirigir à sina inadiável de ver e tocar Sofia pela última vez. Morta.

“Foi suicídio” — Ouvi dizerem de repente. As vozes escapuliam através da parede de semicírculo que fazia canto com a sacada. — “Sabe o que acontece com suicídas, não é? A alma nunca descansa. Fica no limbo, padecendo até que o espírito não aguente mais e desapareça de uma vez por todas. Deus não recolhe essas almas, não há perdão.”

Debrucei-me na mureta, e uma dormência inumana consumiu-me das pernas para cima — senti como se meus rins formigassem reagindo a alguma substância ácida e corrosiva. Repuxei os quadris, fazendo um pouco de força para conter minha bexiga e não me expor a um ridículo ainda maior. Era raiva o que crescia em mim. O que as línguas vis se atreveriam a escarrar caso o noivo-viúvo molhasse suas calças de medo em pleno velório? Tentar pensar numa resposta me deixou confuso a ponto de não saber dizer se era meu cérebro que inchava dentro do crânio, ou o crânio que diminuíra drasticamente de tamanho.

“Na minha paróquia, existe uma Madre que sempre diz que moças de pouca fé, deixam as portas abertas para o Diabo.” — Continuou uma outra senhora. Não precisei ver o seu rosto para ter a certeza de que havia um sorriso atroz rasgado sobre ele. — “O Diabo entra no sonho, possui o corpo dessas jovens, e arranca a honra. Ele tapa a boca com feitiços, assim ninguém vai conseguir ouvir a pobrezinha gritar enquanto é violada. A pior parte é quando elas acordam, pois se lembram de tudo. A prova é a mancha de sangue no lençol e as escoriações pelo corpo. Então, cheias de culpa por terem sido negligentes com os ensinamentos do Senhor, elas se matam.”

Levei a mão direita até a testa, onde suor frio minava. Conseguia ouvir minha respiração acompanhar meus batimentos; acelerada, áspera, me levando à tontura, raspando a consciência como lixa no assoalho podre. Os pulmões pareciam recusar a filtrar o ar carregado do odor da chuva e sálvia molhada. Filtrava apenas as partículas embebidas com o cheiro da morte. Acuado naquele canto de isolação voluntária, experimentei uma fragilidade da qual jamais pude esquecer.

“E o noivo, coitado. Ouvi dizer que o dote de Sofia foi presente de Adrien, o tio banqueiro. Fizeram esse favor só para que Sofia não passasse vergonha. Os Deville estavam colocando todas as esperanças de reerguer o nome da família com esse casamento. A mãe do Defevre, aquela judia predadora, recebeu uma herança incalculável com a morte do marido. Lorde Marchand só estava esperando a consumação da união para se oferecer de assessor à Dona Defevre. Agora com essa fatalidade, é bem provável que tentem empurrar a mais nova para cima do moço.”

“Eu duvido muito. — Contestou uma outra de vozinha esganiçada. — Ouvi dizer que essa mulher é a amargura em pessoa. Administra a fortuna e os negócios do falecido com mãos de ferro. Stéphane sempre foi um vadio, a mãe só aceitou o casamento com os Deville porque queria ver o filho único tomar jeito na vida. Agora, provavelmente o rapaz vai voltar para suas cortesãs e acabar sendo outra presa infeliz da sífilis e outras calamidades.”

Olhares pesando em minhas costas, vozes tecendo meu futuro, cheios de pena, teorizando o quão desgraçado seria o amanhã do jovem Stéphane Defevre, noivo, viúvo antes mesmo de consolidar os votos do sagrado casamento. Antecipavam o amanhã mundano, o fedor de álcool barato saturando minhas roupas puídas; falência, fortunas gastas em prostíbulos fétidos, exalando ao odor cáustico da peste... E então o fim miserável viria a galope para ceifar-me do destino malogrado que a vida reservava. A foice afiada na forma de lua crescente aliviaria para sempre a minha dor, num golpe único e misericordioso. E todos os sonhos inalcançáveis ao lado de Sofia, iriam enfim, descansar em paz.

O sino cristalino soou. O corpo litúrgico acabava de chegar.

Voltei para o salão e inclinei-me de modo que consegui visão parcial do jardim. Pude ver a carruagem fúnebre cintilando suas laterais vítreas e a madeira habilmente polida do lado de fora. Era puxada por um par de percherons robustos e cinzentos; laureada de lírios, camélias, e imensas penas negras, era dentro dela que o caixão Sofia adormeceria no balanço inerte dos mortos, até que chegasse à igreja. A primeira viagem antes de sua última: o cemitério.

Padre e Diácono cruzaram o salão. Caminharam solenemente, seus rostos graves, imersos na mais tétrica religiosidade. Cada um trazia consigo o peso de uma gorda Cruz Peitoral talhada em ouro e outras preciosidades; o símbolo dourado seguia oscilando sua imponência na ponta de suas correntes. Ao passo que deslizavam pelo ambiente, as casulas e dalmáticas suntuosas raspavam sorrateiramente o chão; usavam estolas tão compridas que surpreendiam a todos de que conseguissem andar com tamanha graça sem que tropeçassem em suas barras franjadas.

Portanto, cientes da presença da corja divina, a pequena legião devota de abutres pôs-se a reunir-se em volta do caixão. Fiquei observando a movimentação da minha zona de segurança, enquanto meu corpo rejeitava qualquer espécie de ordem mental. Mova-se. Mova-se. Mova-se. — Covardezinho de merda. — Murmurei entredentes. Mexa a porcaria da suas pernas! Afinal, são feitas de quê? Gesso? Pedra? Cimento? Encare os fatos, aceite os fatos, veja os fatos, sinta o seu cheiro; veja sua cor: o sangue coagulado debaixo do cobertor de branco macilento dando formato ao rigor mortis. Oh Deus...!

— Stéphane. — Francine tocou meu ombro, seus dedos frágeis pesaram como as mãos frondosas de um gigante. Meu coração havia parado naquele segundo. — É a última oração antes que Sofia deixe a nossa casa. Entendo que esteja sendo difícil para você, mas precisamos ser fortes. Venha, reúna-se conosco, minha irmã ficaria feliz em saber que velou pelo seu corpo até o último instante.

O último instante...

Francine me conduziu pelo braço. Embora meus pés tocassem o assoalho de madeira na sala dos Deville, minha consciência voou para Outubro, há duas semanas atrás. 22 de Outubro. Meus pés mastigavam a grama madura de frente ao Teatro Central. Mexi no bolso, verifiquei as horas e tornei a guardar o relógio que fora de meu avô no bolso esquerdo do paletó. Ergui os olhos para cima, no norte, o vento trazia nuvens carregadas de chuva; no sul, o céu se abria em crateras que revelavam o último clarão do sol antes que a escuridão da tempestade o cobrisse por completo.

A ventania veio de repente. Espremi os olhos e segurei o chapéu firmemente na cabeça. Papéis que cobriam as ruas agora dançavam suspensos acima das calçadas. “O último instante”, dizia um dos cartazes do espetáculo que passara voando na minha direção. Assim que a correnteza de ar assentou, chequei os ingressos no bolso e girei o corpo para trás. A seguir, diante do que vi, meu sorriso foi o mais espontâneo.

— Estou admirado que o senhor teu pai tenha lhe dado permissão para que me acompanhasse essa noite. — Eu disse, arrebatado pela imagem de Sofia que veio até mim. Estava acompanhada de Francine e uma das damas de companhia da Senhora Deville, que certamente viera para manter os olhos vigilantes sobre mim.

Tomei a mão de minha noiva e beijei-a respeitosamente sem tirar minha atenção dos seus olhos turquesa.

Estava fascinante. Vestia um longo volumoso cor de ameixa, todo ornado em linhas e fitas pretas; as mangas justíssimas tornavam-se largas e despencavam em camadas de renda cobrindo seus punhos; O conjunto atraia os olhos para os ombros afilados, e o tronco esguio. Ela se aproximou, deixando as outras duas alguns passos atrás. Fixou em mim um par de olhos verdes e astutos. Como se por acidente, deixou escorregar discretamente o xale lilás até os cotovelos, para que eu visse o espartilho laçado marcando-lhe rigorosamente as curvas delicadas e femininas. A cintura fina, os quadris altos, e os seios ligeiramente sublinhados pelo decote. Não tinha medo de ousar, e movia-se com a elegância de um cisne dos jardins reais. Também trazia consigo um sombreiro impermeável e bordado, para proteger seus largos e bem moldados cachos vermelhos da impetuosidade do vento.

— Papai tem sido tão gentil. — Disse, recolhendo as mãos perfumadas e cobrindo-se com o xale novamente. — Tem feito qualquer coisa que sirva de alimento para estimular o interesse de sua primogênita pelo casamento. Tem medo de que eu volte a falar ultrajes a respeito de estudar medicina em Rennes. — Completou, a dose de sarcasmo vertendo dos lábios vermelhos e espalhando-se pelo rosto anguloso. — Afinal de contas, uma universidade repleta de homens, parece o lugar perfeito para que uma dama vitoriana perca toda sua honra e graciosidade.

— Parece que a grandeza de Lorde Marchand é maior do que eu pude imaginar. — Respondi irônico, pois Francine e sua dama apressaram-se para mais perto, correndo o risco de ouvir nossa conversa. Ofereci meu braço esquerdo para que entrássemos de vez no teatro.

Mais tarde, naquela mesma noite, enquanto misturávamos em meio à multidão que evacuava do espetáculo, Sofia puxou-me para uma espécie de vestíbulo onde ficava a administração. Ansiosa, fechou a porta atrás de si irrefletidamente, e encarou-me. A dúvida juntou-se a nós como terceira companhia. Antes que eu tivesse a chance de abrir a boca para mencionar qualquer coisa que fosse, Sofia correu para mim, apertando seus lábios contra os meus. Pude sentir a urgência em suas unhas enterradas em minha nuca, enquanto que com a outra mão, despenteava meus os cabelos. Abracei-a. Embora quisesse retribuir toda sua intensidade, havia uma evidência de incerteza entre nós, que não podia ser simplesmente ignorada. Ela soltou-se de mim inesperadamente, e pôs-se a chorar.

— Stéphane, eu sinto muito.

Ouvi o burburinho abafado de pessoas detrás da porta, pensei em Francine e na dama. Deveriam estar nos procurando feito duas loucas, além de, obviamente estarem conspirando hipóteses absurdas ao nosso respeito. Não que o que não deveria acontecer entre eu e Sofia permanecesse inviolado; no entanto, tínhamos prudência e planejávamos essas coisas com cuidado.

Estiquei os braços para alcançá-la, mas Deville esquivou-se tão escorregadia como uma escultura de gelo fresco.

— Não consigo entender. O que está acontecendo?

— Essa semana recebi uma carta de Claudette.

Apertei as sobrancelhas, cismado com a menção daquele nome que trazia pouca confiança.

— Claudette, sua prima de Rennes, aquela que pensa que é varão porque se deita com outras mulheres?

— Stéphane, por favor, não é isso que interessa. — Sofia repreendeu-me com seriedade. Devo confessar que sua convicção me era excitante, apesar de nem sempre favorecer meus interesses. Arrisquei chegar um pouco mais perto, e desta vez não fui repelido. Sofia segurou minhas mãos antes de continuar. — Havia um segundo envelope dentro de sua carta. Era da universidade.

— Precisa ser mais clara, ainda não consigo entender.

— Lembra-se de quando viajei com mamãe até Rennes para levar o convite de casamento para os meus tios? — Assenti com a cabeça; apertei seus dedos e algo dentro de mim esperou pelo pior. Ela prosseguiu. — Pois então. Um mês antes, havia pedido para que Claudette matriculasse meu nome para as chamadas do curso de medicina. E durante a viagem, consegui escapar de mamãe e minha irmã por um dia todo, e fiz os exames.

Senti-me profundamente insultado. Crispei os lábios, sem conseguir esconder meu descontentamento com sua negligência. Queria desafiá-la, deixar claro minha posição de futuro marido, de protetor. Tinha a obrigação de fazê-la entender que não deveria tomar suas próprias decisões tão ingenuamente, como se não considerasse nem por um segundo o quanto elas iriam me afetar. Mas em seus olhos, estavam a prova nítida de que não parecia se comover nem um pouco com isso. Era independente e sua cabeça repleta de idealismos liberais, o que era no mínimo deselegante para uma dama de seus padrões.

— Sofia, pensei que havíamos discutido isso. — Disse-lhe, tentando o meu máximo para aparentar complacência e gentileza. — Após o casamento mudaríamos, eu pagaria seus estudos, mesmo que para isso precisasse enfrentar a ira de seu pai. E agora me conta que conspirou contra mim? Tramou contra os nossos planos?

— Passei nos exames. Fui aprovada. — Ela disse decidida, a sombra de um sorriso ameaçando surgir, mas temeroso demais para se consumar. Parecia não ter ouvido ou se importado com uma palavra sequer do que eu havia lhe dito. Tocou-me no rosto com uma das mãos, acarinhou-me enquanto lágrimas brilharam em seus olhos, mas sem que derramassem. — Stéphane, sinto muito, mas não haverá mais casamento.

Paralisei-me feito uma pilastra de concreto, os pés fincados no solo, incapaz de mover ou raciocinar. Não havia pensado nas últimas palavras ditas por Sofia; apenas senti o cordão que me prendia à ela ser rompido, e meu corpo caindo, desaparecendo na escuridão. Por uns instantes, pensei conseguir ouvir o eco dos meus próprios gritos nas entranhas da consciência. Envergonhado, meu corpo pareceu diminuir, pequeno como meu orgulho ferido. Queria ter a capacidade de me expressar, de fazer a boca balbuciar qualquer frase dispensável que fosse; porém, fiquei a olhar Sofia sem nada poder dizer.

Ela se levantou, o sombreiro fechado nas mãos. Ouvi o farfalhar suave de seu vestido, inalei o rastro deixado pelo seu perfume. Talvez fosse a última vez a qual pudesse me deleitar com os vestígios de sua presença. Mas antes de ter o tempo necessário para registrá-los na memória, Sofia desapareceu além da porta do vestíbulo.

Cinco dias depois, recebi uma carta incrustada com o brasão da família Deville num selo de cera azul. Era de seu pai, pedindo profundas desculpas pelo comportamento leviano de sua filha. Assegurou-me de que havia queimado os papéis da universidade, e o acerto do casamento permanecia de pé. Firme como nunca.


–x–

 

O sermão cessou o ritmo abruptamente. O vazio repentino de vozes entoando a melodia fúnebre trouxe meus pés de volta à realidade. O Diácono liberou o turíbulo fumegante, e deu início ao rito de andar em volta do caixão enquanto sacudia o incensário em círculos. Durante três voltas enunciou uma reza antiga em latim. Em segundos todo o salão da residência sobrecarregou-se do perfume de cidreira e erva-doce. A fumaça aromática rodeava nossos corpos como uma névoa fina, envolvendo-nos com seu calor.

As pessoas mantinham a cabeça baixa, olhos fechados e mãos juntas, prestando últimas condolências — algumas talvez sinceras, mas a maioria, sem dúvida, apenas cumprindo obrigações para não faltar a Deus com seus pontos de assíduos fiéis. Quando a movimentação cessou, começaram a esvaziar a sala em pequenas fileiras. Em pouco tempo a soleira da varanda apinhou-se de gente do lado de fora. Logo restaram apenas os superiores cristãos, o restante da família e eu.

Ouvi o padre murmurar algo a respeito do atraso dos empregados que viriam para carregar o caixão até a carruagem. Independente disso, ambos apanharam seus apetrechos e deixaram o lugar — regressariam para a igreja, onde daqui a pouco a missa de corpo presente seria realizada. Ao pé de Sofia, via Francine tentando pacientemente convencer os pais a se retirarem. Sem sucesso. Aproximei com a reserva precária de coragem que me restava.

— Mamãe, precisa ir. — A caçula pedia, tocando de leve nos ombros de Charlotte. — Stéphane provavelmente deseja um momento a sós com Sofia para se despedir. Não podemos negar isso a ele. Venham, vamos lhe dar um pouco de privacidade.

Lorde Marchand conservava o olhar de loucura, porém, agora com o fantasma da aceitação endurecendo os músculos de sua face. Ao menos ajudava a afastar aquele seu sorriso delirante, fruto de um remorso imensurável. Ao seu lado, lutando contra a vontade de abandonar a filha, a senhora Deville não poupou a garganta do choro estridente e escandaloso. Agarrava-se às mãos desprovidas de vida e suas lágrimas formavam rios salgados entre os dedos congelados de Sofia. Francine que também lutava contra sua vontade, depositou um último beijo sobre a fronte da irmã mais velha, e seguiu em resistência com os pais para a varanda.

Permaneci sem dar um passo até ouvir o clique da porta dupla ser fechado atrás de mim. Era como se o ruído metálico decretasse a presença nua das trevas. Embora a sacada oferecesse luz juntamente ao som tranquilizante da chuva, tais detalhes eram simplesmente irrelevantes. Estar sozinho e trancado dentro daquela sala com o cadáver de Sofia, encheu meus pensamentos de ideias sombrias e condenáveis. Alisei as lapelas do fraque, e dei três passos a frente. Meus sapatos ecoaram tristes pelas paredes do casarão. Eram como uma percussão tocada solitária nos corredores de alguma gruta escondida nas florestas.

De repente estava ali, diante dela. Embora não fosse sua imagem natural que meus olhos capturavam, mas sim a de algum ser fantástico que escapara das páginas de uma fábula. Evitei seu rosto por um momento, e percorri seu corpo devagar, como se a mente desenhasse cuidadosamente aquele retrato na memória. Estava forrada por um cobertor de flores e rosas que ia até cintura. Dentre elas haviam em especial cravos amarelos, brancos, e principalmente os de um vermelho profundo, que harmonizavam em perfeição com seus cabelos. Deram-se também ao trabalho de enriquecer o arranjo com raminhos de cipreste ladeando as bordas. Tomei uma enorme quantidade de ar, e a difusão de aromas me deixou meio tonto.

Agora me atrasei em suas mãos. Ergui as sobrancelhas e pisquei ligeiramente, mas isso não impediu uma ou duas lágrimas de rolarem. Seus dedos magros, de um branco tão profundo e opaco, que os faziam parecer uma delicada obra de arte moldada em cera. Um terço fino de prata pendia de suas mãos encaixadas.

Retirei as luvas, e num ímpeto de bravura estiquei o braço para tocá-la. Era tão fria e rígida que fez meu coração enregelar, trazendo-me ferroadas agudas ao redor do peito. Minha respiração falhou, e precisei tapar a boca para abafar o choro. Apertei seus dedos, fazendo o terço prateado esconder-se entre as dobras do tecido verde. Era incomum vestir os mortos de outra cor senão o branco, mas, Sofia trajava um belíssimo vestido verde claro.

Deslizei as mãos pelos seus antebraços nus, logo depois senti as pérolas das mangas bordadas roubando a textura de mármore de sua pele. Continuei até atingir seus ombros. Enormes cachos escorriam por ali, coroando-lhe o sono eterno como uma tocha flamejante. Percorri a curva dos seus seios, desviei para onde o decote os salientava por baixo da tela de renda fina que os cobria até o pescoço.

Pensei no quão infeliz Sofia seria em nosso casamento. Da última vez que a encontrei, seu orgulho havia sido golpeado, e tudo que lhe restava eram pestanas baixas, rendidas em submissão. Já não existia qualquer indício da destemida Sofia pela qual me apaixonei. Não se preocupou em erguer seus olhos para os meus, ou melhor, fazia o possível para evitá-los. Compreendia sua infelicidade, no entanto, meu sentimento era maior, estava acima de qualquer compreensão; e por isso, conclui inconsideradamente que meu amor bastava para salvar a nós dois.

E só Deus sabe como falhei.

— Farei de ti a mulher mais feliz deste reino. — Eu disse, para que todos ouvissem ao redor da mesa. Foi a última vez em que jantei na sua companhia. — Terá os mesmos luxos e cuidados de uma rainha. E teremos filhos tão belos como príncipes, e por isso, serão criados como se os fossem de fato.

Mesmo por trás de toda a austeridade que vestia em seu semblante, pude notar o sutil ranger de dentes por trás de seus lábios. Sofia era horrorizada com a ideia de gravidez e crianças. Mesmo assim, queria mostrar o quanto meu amor lhe era puro, e que nele não havia espaço para rancores. O amor verdadeiro sempre induz ao perdão, e jamais à vingança. Sendo assim, julguei que talvez meus sinceros desejos fossem capazes de lhe amolecer o coração. Afinal, qual gesto de amor pode ser maior, senão um homem que oferece seus sonhos aos pés de sua escolhida? Mas Sofia parecia não privilegiar-se do mesmo ponto de vista que eu. Pelo contrário, muitas vezes fazia questão de demonizar minha nobreza. Usava meu corpo para arrancar prazer, e depois rechaçava minhas boas intenções como um banquete putrefato e peçonhento. De frente a mim, ela jazia endurecida como uma rocha em sua mudez e resolução.

— Estou tão feliz por minha irmã. — Francine salvou a mesa do silêncio sepulcral. — Quase chego a invejá-la.

— Perdoe a falta de palavras da minha filha, Defevre. Seu contentamento é tão indizível que certamente lhe fugiram todas. Prezo a sabedoria das mulheres em saber a hora de escolher o silêncio como prova de sua obediência e devoção. — Lorde Marchand falou por todos. — Isso se chama boa educação. Artefato cada vez mais raro nos dias de hoje.

Não mostrei se concordava ou discordava. Apenas esperei que a beleza imóvel de Sofia se mostrasse viva de alguma maneira. E agora, com seu rosto pálido e mortiço entre minhas mãos, ironicamente conseguia ver melhores traços de vida do que naquela mesa de jantar. Quis beijar seus lábios, mas a poção que tomara os deixara venenosos como os de uma naja. Até mesmo em seu leito de morte conseguira arranjar uma maneira de manter-nos separados, pensei.

O clique na porta dupla se desfez. Imediatamente enxuguei o rosto com a barra das mangás do paletó. Três homens musculosos, dentre eles um escravo, pediram licença para que fechassem o caixão. Retirei meu anel de noivado do anelar direito, e empurrei-o para dentro de suas mãos fechadas. Beijei sua fronte e alisei a maciez dos seus cabelos uma última vez. Finalmente pude dar as costas e partir. A saudade crescia infinita no peito a cada passo. Independente disso, uma parte de mim encontrou sossego por Sofia. Havia por fim, alcançado sua tão cobiçada liberdade.

Comentários

Que bom visitar esse espaço e se encantar.
Parabéns!

calunga 16-02-2012 07:26 #5

Parabéns!

tania_martins 14-02-2012 14:29 #4

Muito bom seu conto, conduziu sem perder o ritmo, parabéns.

Arnoldo 14-02-2012 05:51 #3

GOSTEI,MUITO BOM PARABÉNS!

PauloJose 12-02-2012 07:41 #2

Parabéns! Bom texto!

robenilsond 07-02-2012 18:20 #1

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