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Mercenário - O Ínício - Parte I Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 10-12-2007 17:31
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PRÓLOGO
Os arquivos da agência de notícia Reuters deram conta em quinze de novembro de 1974 de que cinco homens foram encontrados mortos num apartamento em Helsinque. Aparentemente todos haviam sido envenenados mesmo que os exames de necropsia não tenham revelado nada. As autoridades suecas não tinham explicações plausíveis para o ocorrido e um inquérito de homicídio foi aberto.
As identidades dos homens eram de trabalhadores sucos com seguridade social e histórico de trabalho em locais comuns. Dois deles eram funcionários públicos em uma repartição da federação onde trabalhavam como assistentes administrativos, outro era enfermeiro do hospital geral com cinco anos no mesmo setor, outro era membro da guarda metropolitana e um deles era fotógrafo de um jornal local.
A manchete, de pouca visibilidade nacional, não chega a chamar atenção pelo destaque. Conta somente com um depoimento simples do comissário de polícia local, senhor Landgrin, e o que eles sabem é que mesmo trabalhando nesses locais os homens tinham pouco contato com vizinhos ou amigos.
O senhor Landgrin ainda disse que não havia sinais de luta ou arrombamento no apartamento pequeno e pouco mobiliado e que os cinco homens estavam sentados na mesma mesa quando encontrados pela faxineira e todos aparentemente estavam tomando cerveja.
Os arquivos da agência ainda mostram as fotos dos mortos, todos de camisa cinza e calças pretas, como se fosse uniforme de trabalho e calçavam botas pesadas. Ao fundo da sala pode-se vem um tipo rústico de criado-mudo com garrafas de vodca pela metade e de vinho. Não há sinais de sangue no chão de madeira empenada e ao que parece, todos morreram ao mesmo tempo e praticamente na mesma posição.
Não havia impressões digitais na casa que não fossem dos cadáveres e ao final de dois meses de investigações as conclusões foram de suicídio coletivo.
Em um canto da cidade, num terraço de um café escuro sob a névoa da noite e os vapores emergentes da calefação sob a rua, um homem estava recostado tranquilamente na cadeira tomando um capuccino, fumando um cigarro de pernas cruzadas e lendo um jornal.
Entre baforadas azuladas do cigarro sem filtro ele folheava o jornal e parou na coluna policial. O homem vestia terno completo, gravata, capa e chapéu. As abas da capa estavam levantadas o que escondia parcialmente seu rosto. Havia somente mais um casal risonho em outra mesa e um garçom sonolento. Se alguém notasse o homem veria que ele era negro, muito alto e muito forte, de olhos pequenos e profundos, a mão era do tamanho de um prato raso e a xícara parecia um dedal quando ele a pegava.
O homem terminou seu café e saiu pela penumbra da noite calmamente. Parou diante de um telefone público e digitou diversos números.
__Aqui é Hassan, está terminado. Estou retornando.
Mesmo que alguém ouvisse essa frase seria difícil de entender, havia sido dita em árabe egípcio.
Em 1990 os corpos de um casal foram encontrados dentro de um carro abandonado numa rua em Praga, República Tcheca. Havia duas marcas de bala no vidro dianteiro, que não foi estilhaçado pelos tiros.
A perícia policial indica que a arma usada era de altíssimo poder de fogo, porém, de baixo calibre, as testemunhas ouvidas disseram que não ouviram tiro algum, e que somente viram o momento das mortes.
Uma jovem bastante abalada pela cena presenciada disse que olhava o casal porque haviam parado o carro naquele local e que ficaram praticamente imóveis durante quase uma hora. Ela trabalhava numa livraria em frente e ficou olhando de tempos em tempos para ver o que eles fariam, por curiosidade.
Disse à polícia que viu o vidro soltar um pó cristalino e a cabeça da mulher ser jogada para trás. Sem ter tempo para se mover o homem foi o próximo baleado. Tudo em menos de um segundo.
Dois atiradores. Foi o que a polícia desconfiou. Provavelmente eles estavam posicionados no prédio em frente, distante pouco mais de cinqüenta metros na mesma rua com quatro andares, típico da arquitetura local.
As identidades dos dois foram levantadas e pelo que constava dos registros do governo ambos eram cidadãos tchecos, trabalhavam numa galeria de lojas onde tinham um pequeno comércio e quando perguntados, os vizinhos do endereço registrado na companhia de energia disseram que aquele sempre foi um casal tranqüilo, jamais brigavam e conversavam pouco com os moradores.
A síndica do prédio disse ainda que eram discretos demais e que somente recebiam visitas esporádicas, não tinham filhos e jamais chegavam em casa depois das dez horas da noite.
Quem cometeu o crime ficou na cidade durante oito meses até que os jornais disseram que o inquérito policial havia sido encerrado. Ninguém havia reclamado os corpos que seriam doados para estudos da faculdade de medicina de Praga.
Novamente fora enviada uma mensagem em árabe, mas por um homem diferente daquele da década de oitenta.
Se alguém aprofundasse mais as investigações veria que os homens mortos em Helsinque em 74 faziam parte de uma seleta lista de agentes da KGB e que o casal morto em Praga não era um casal, não dormiam na mesma cama e não eram tchecos, mas sim ingleses e pertenciam ao MI-6 britânico.
 
Barcelona 1992. Era uma manhã de agosto, pouco antes do dia 9, final das competições olímpicas daquele ano. A equipe da Comunidade dos Estados Independentes, CEI, formada por quinze nações após a queda da União Soviética, terminava sua apresentação em ginástica olímpica e era assistida de perto por seus concorrentes norte-americanos.
Uma das mais jovens competidoras, uma loirinha linda metida num maiô vermelho, deixou a competição e dirigiu-se rapidamente para os vestiários reservados e exclusivos dos atletas.
Ninguém presenciou o que aconteceu dentro daquele vestiário. Se alguém tivesse visto, teria a visão proscrita de um homem de meia idade, trajando o uniforme da equipe americana, aos beijos com a jovem competidora russa.
Naquela noite um corpo foi encontrado num hotel barato reservado aos chefes de delegações. A eficiente polícia espanhola determinou que o homem foi vítima de um golpe forte no rosto e que morreu ainda desmaiado enquanto era asfixiado. Silencioso e fatal.
A jovem competidora retornou ao seu país com os demais.


Quando os primeiros acordes de Don't you forget about me estouraram no rádio velho sobre o criado mudo mais velho ainda a última coisa em que ele pensava era em sair da cama. Primeiro porque o motivo era idiota, trabalho, e segundo porque estava frio demais.
Não que ele odiasse trabalhar, ele odiava o trabalho, como muita gente. O frio era outro grande problema. Era inverno em São Paulo e isso significava algumas coisas: frio, chuva, alagamentos, e no caso dele, atrasos, ônibus terríveis, trens desastrosos, gritos, xingos, caos urbano mesclado à violência daquele bairro e os chacais de plantão, como para muita gente.
Era cinco horas da manhã e ele somente entraria para trabalhar as sete e trinta, mas pra chegar ao trabalho era complicado. Levantou e tomou um banho gelado. Não por opção, mas porque não havia água quente naquele moquifo que ele chamava de ximbica, mas que poderia receber a denominação de pardieiro. A única coisa de valor que havia ali dentro eram umas economias que ele fazia há algum tempo.
Ele até que tomaria a porcaria do banho gelado por opção porque o inverno em si não era problema, era benção. Costumava dizer aos caras no trampo que melhor que sair de casa pra enfrentar suor e sangue era enfrentar sangue seco.
O apartamento era simplesmente algo ímpar na história da existência. Os andares inferiores guardavam a nada da Rua Tremelheiros, bairro da Liberdade, a parte ruim. O prédio havia sido erguido em 1971 e esquecido em 72, se alguém quisesse contar o que por ali passou precisaria da ajuda da polícia.
Encrenqueiros, traficantes, prostitutas, cafetões, pivetes de rua, marmanjos de rua, homens de rua, assaltantes e assassinos do atacado e do varejo dividiam o endereço numerado de 47.
Quando não era um saco de merda atirado num andar de baixo era uma chuva de seringas ensangüentadas, normalmente devido ao barulho. É que as criaturas que habitavam o local divergiam quando aos horários de trabalho. O pessoal da rua pedia dinheiro enquanto havia sol e queria dormir à noite, quando as casas das prostitutas e dos traficantes estavam bombando.
A única coisa boa nisso tudo era que o apartamento do homem no chuveiro era o mais alto, quinto andar. Ouvindo os gritos e brigas diários ele se vestiu e foi saindo. Encontrou pelo caminho alguns amigos da bandidagem ainda sobre efeito de drogas e chegou à rua.
Era figura conhecida do local. Mudou-se há mais de cinco anos e sempre estava discutindo com o proprietário os atrasos do aluguel, resolvia tudo de maneira peculiar, dormia eventualmente com o proprietário, que era uma velha de uns setenta e tantos anos, nojenta segundo consta, resquício das drogas e embalos dos anos setenta.
Quando pensava nisso dava graças de estar trabalhando e não ter de passar o ferro na velha prostituta aposentada.
Subira finalmente na bumba! Que desgraçadamente já trazia lá no fundo um grupo de pagodeiros entoando a mesma porcaria todos os dias, o clássico "Baguio na Bumba", e pior que um deles devia se chamar Rogério, porque era sempre o mesmo filho da puta que destruía um cavaco descascado.
Entre uma moça molestada e uma ameaça de "levar o do lanche" (assalto em que se leva o que a vítima tiver nos bolsos) Henri Gascoin conseguia dormir até chegar ao trabalho. Alguns dos batedores de carteira do ônibus já o conheciam e sabiam que apesar de aparentemente pacato, era melhor não mexer com o cara.
Gascoin estava com vinte e seis anos. Deixara a pequena cidade em que nascera ainda adolescente depois de fugir de um orfanato. Fugiu pra não ser punido pelas coisas que fazia, estava de saco cheio de levar tapas na cara e fazer trabalhos de limpeza nauseantes, escapar das brincadeiras dos colegas e dos estupros dos mais velhos no banheiro coletivo.
A educação que recebera foi muito boa, era inteligente e pensava rápido. Os padres-professores costumavam dizer que se não fosse o filho do Demônio em pessoa, seria um advogado bem sucedido dada a capacidade de aprender e de convencer pessoas.
A disciplina também foi uma coisa importante que ele admitiu dentro daquela escola. Odiava fazer certas coisas, mas fazia, se estivesse convencido de que seria melhor.
O emprego era uma porcaria. Era auxiliar de um auxiliar de um cara que ele não sabia o que fazia. Então basicamente o que ele tinha pra fazer era ficar sentado numa sala minúscula arrumando caixas de ferramentas e escutando xingos dos outros. Ele era o cantinho anti-estresse naquele segmento de uma repartição cinza socada num prédio quente do centro velho de São Paulo.
Quando alguém tinha um problema em casa, quando a mulher estava dormindo de calça jeans, jaqueta e capacete, quando o filho avisava que era homossexual e iria morar com o namorado, quando a luz queimava e quando chovia no feriado, era sempre no imbecil do Gasco que todo mundo pensava.
Naquele dia especial de sua vida, ele estava com dor de cabeça. Sentia o peito apertar por uma gripe incipiente e as costas também doíam.
__Hei, filho da puta... - esse era o chefe da repartição -... Só não arrebento a sua cara agora porque torci o pé ontem e na queda, machuquei a mão. Então você é o otário que vai ficar escrevendo o que eu vou dizer pra enviar pra central. Levanta esse rabo daí e vai pra minha sala.
Passou um delicioso dia nesses moldes e os demais eram bastante parecidos. Num deles em especial o chefe ainda pediu uma grana emprestada. Disse que ia comer a mocinha da cafeteria do outro lado da rua e que tava sem grana pra um hotel do centro.
__Tu deve ter ai uns dez paus. Tu me emprestas agora que eu te pago no fim do mês.
Gascoin levantou os olhos e fechou a mão direita. Não era forte fisicamente, mas tinha uma patada certeira e era ágil como um tigre.
__Que que foi, seu sem mãe? Se tu não emprestar te ponho na rua e vais fazer o quê? Reclamar pra quem?
Tinha de pensar no aluguel e nos sacrifícios que teria de fazer pra dormir sob um teto. Emprestou a grana da volta pra casa, doze reais.
Teria de voltar a pé, muitas horas de caminhada acompanhadas de chuva e vento. O centro estava alagado, havia polícia, ambulância e bombeiros fechando ruas e socorrendo pessoas, teve de fazer um grande desvio pela Avenida Ricardo Jaffet para chegar até em casa.
Às nove da noite aquela avenida não é um lugar ideal para se andar a pé. Já quase no final dela, onde se pode entrar à esquerda e pegar a Rua Dom Pedro abrindo caminho até a Liberdade, um rapaz mais velho carregando uma mochila nas costas vinha em direção contrária.
Gascoin sacou rápido que seria assaltado, mas como tava sem grana, no máximo o cara ia ser agressivo e ir embora.
Dito e feito, o rapaz perguntou as horas e depois apresentou a arma. Uma pistola que ele não sabia de que tipo e nem precisava.
__Tou sem grana, velho. Sou do trampo, meu irmão. To ralado que nem você.
__Vou te revistar, cara. Dá um real ai, então!
__Leva a camiseta se quiser... - só que quando disse isso, Gascoin enfiou a mão por baixo da camisa. O rapaz deve ter achado que era uma arma e apenas puxou o gatilho.
Gatilho não se puxa, se aperta. Arma não se segura de lado como nos filmes, nem com o braço arqueado. O resultado foi que a arma que estava apontada para as pernas de Gascoin cuspiu uma bala que atingiu sua cabeça, tremeu na mão do atirador e caiu no chão.
O rapaz apanhou a arma e saiu caminhando na direção contrária.
Os homens do posto de combustíveis da esquina viram a cena e como sempre, fizeram o que estavam acostumados, ligaram para o resgate que levou o corpo ao hospital mais próximo, Hospital Municipal do Ipiranga.
O Ipiranga é um complexo de três prédios dispostos como uma estrela de três pontas, cada prédio tem onze andares divididos em bloco cirúrgico, de especialidades e ambulatório. O térreo do bloco um é a porta de entrada do pronto socorro e o movimento naquela hora da noite era demais.
A doutora Michele, médica recém formada de plantão, deveria como manda a norma estar acompanhada de um médico preceptor, um orientador, mas estava sozinha. Era estudiosa e competente, mas tinha seis perfurações de bala, quatro facas, duas crianças espancadas, um anzol enfiado num pé, uma obstrução gástrica, duas paradas cardíacas, uma apendicite supurando, um telefone tocado, cinco enfermeiros falando ao mesmo tempo, quatro famílias de pacientes exigindo notícias, quatro ameaças de boletim de ocorrência e mais, claro, uma urgência de tiro na cabeça.
__Esse ta mais morto que vivo, deixa ele pra depois! - gritou aos enfermeiros a poucos segundos de ter um colapso nervoso.
Não teve seu colapso e quando passou o plantão as sete da manha para seu colega sonolento que pouco estava se importando com o que acontecia lá dentro disse apenas: e isto é alguma coisa com uma bala na cabeça.
De sobrancelhas arqueadas e boca entra aberta, com uma das mãos e em menos de cinco segundos o médico disse somente que estava respirando e não tinha sangramento...
__Vai pra tomografia e chama um neurologista.
Horas depois o diagnóstico do neurologista foi: ferimento por arma de fogo sem alojamento de corpo estranho, lesões cerebrais imprevisíveis e espera esse cara acordar e manda ele pra casa.
Gascoin foi deixado numa enfermaria. Estava sem documentos e ninguém foi reclamar o que restava do corpo, portanto, deixado numa enfermaria como indigente. Respirava sozinho e tinha motilidade normal, tirando isso era praticamente um vegetal.
Numa manhã qualquer despertou de seu sono profundo quando uma médica falava alguma coisa com um paciente ao lado.
Ele balbuciou besteiras, a moça terminou o que estava fazendo e veio até o leito dele.
Enfiou-lhe uma caneta de luz nos olhos e anotou algo numa papeleta.
__E ai, cara? Finalmente acordou. Achamos que você ia ficar o resto da vida nessa cama.
O dor pela luminosidade nos olhos era enorme. A boca tinha gosto de merda, o rosto coçava pela barba espessa, a cama cheirava a suor e o calor naquela sala era insuportável.
__O que... O que eu to fazendo aqui? - o primeiro reflexo foi tentar levar as mãos aos olhos, mas estava pesada e dormente.
__Está num hospital, em São Paulo. Você teve um ferimento de bala na cabeça. Está sentindo dores?
Muitas era uma boa resposta. Foi instruído a ficar deitado, o que era o mais óbvio e que chamasse se tivesse algum problema.
Depois de algumas horas de volta ao mundo resolveu que iria se levantar. O fez com muita dificuldade e foi até o banheiro. Normalmente os banheiros de hospital não têm espelhos, mas aquele tinha e quase voltou ao estado vegetal quando se olhou.
Os cabelos estavam compridos, a barba parecia como a de um náufrago e os olhos estavam brancos como os de um cachorro siberiano. Teve de se escorar para não cair e não tinha mais coragem de olhar novamente, não sem tentar melhorar aquela coisa.
Perguntou a uma enfermeira se havia como fazer a barba e recebeu um kit de tricotomia com aparelho descartável, gaze e espuma de sabão.
Melhorou, mas o tempo todo em que esteve fazendo a barba olhava aqueles olhos brancos e sentia medo. Outra coisa que o incomodava e dava extremo desconforto era o calor.
Tomou um banho gelado e sentiu que as forças voltavam. A respiração ficava mais fácil e os músculos trabalhavam melhor. Viu que seus braços estavam finos assim como suas pernas, estava muito magro e parecia um realmente um náufrago.
De barba feita, vestindo camisola verde e com um bom café na barriga, foi levado novamente ao exame de tomografia, testes físicos e depois de algumas horas recebeu alta e suas coisas: as roupas do dia do tiro e nada mais.
¬__Minha carteira...
__Deve ter sido levada moço - disse uma das enfermeiras - disseram que foi um assalto.
__E os médicos acham que eu tenho que tomar algum remédio?
__Não deixaram nada na sua prescrição.
__E quanto a esse calor todo e esses olhos brancos? Ninguém me diz nada do que aconteceu.
__Olha moço, se quiser pode tentar falar com a doutora que te atendeu no dia em que chegou, ela está de plantão lá no pronto socorro.
No térreo
__Ah, você é o cara da bala! E ai, como está se sentindo?
__Mal... - estava ofegante -... Queria saber por que estou sentindo esse calor todo e porque meus olhos estão brancos?
A moça estava realmente ocupada e sem tempo de ficar tentando adivinhar aquelas respostas, porque não às tinha, claro.
__E então doutor? - foi orientado a falar com o doutor Vita, chefe da neurocirurgia, que no momento estava em sua sala assinando fichas.
__Bem, eu gosto de estudar esse tipo de caso. Você foi talvez o mais curioso que eu já vi - o médico tinha um jeito de cientista maluco, de olhos pequenos e ferinos, tinha seus setenta anos, falava rápido e gesticulava demais - Olhando suas duas tomografias posso notar algumas mudanças interessantes em seu cérebro. Enquanto estava desacordado fiz mais exames e posso garantir que este tipo de lesão evoluiu até aqui - apontou com uma caneta uma área escura dentro da cabeça - vê? Parou pouco depois dessa data...
__Eu não estou entendendo...
__Parece que ninguém falou pra você, não é? Ficou desacordado por três meses senhor Gascoin. Nesse tempo seu cérebro parece ter-se adaptado a uma nova condição da parte destruída pela bala. Quase como se estivesse usando um caminho alternativo para se manter funcionando. Essas alterações que você está sofrendo são conseqüência disso.
__Três meses...
__Digo que seu caso é interessante por dois motivos: primeiro porque pode ser que apareçam novas alterações e segundo e mais importante, eu jamais vi isso acontecer com essa velocidade.
__Velocidade? Foram três meses dormindo aqui!
__Meu jovem, é quase como se seu cérebro tivesse evoluído nesse tempo. E isso costuma ocorrer em milhões de anos. Aparentemente as primeiras alterações são essas que está relatando, esse calor excessivo e a despigmentação das íris.
__E o que mais o senhor acha que pode acontecer?
__Imprevisível. Mas no geral, você está bem. Vá pra casa e descanse, se tiver algum problema volte aqui.
Gascoin deixou o hospital pela manhã e foi caminhando pela rua com dificuldade para enxergar. Assim que chegou em casa sentia os olhos queimarem, mas não tanto quanto o corpo. Foi direto para o banheiro onde tomou outro banho gelado.
Estava sentado na cama enrolado numa toalha e respingando água quando bateram à porta. Era a senhoria, puta da vida. Estava sem receber o aluguel há três meses, não tinha a chave e havia outros vagabundos pra alugar aquela porcaria.
__Sai daqui agora, velha. Depois eu falo com você.
A mulher fez cara de desprezo e foi dizer mais alguma coisa.
Num movimento sem precedentes em sua medíocre história Gascoin levantou-se e como se fosse a coisa fácil do mundo desferiu um golpe com o dorso da mão esquerda na ponta do queixo da velha que a fez cair como um saco vazio.
De estar sentado a estar em pé olhando o corpo caindo foram frações de segundos. Já havia dado um passo para trás voltando a uma posição de defesa quando a cabeça terminou de bater no chão.
"Mereceu, vadia"
Foi até a cozinha, abriu a geladeira que tinha um cheiro que morte horrível e desistiu. Bebeu água da torneira e vestiu-se. Levantou a velha desacordada do chão e a deixou desfalecida no corredor, estava viva, mas não acordaria por um bom tempo.
Precisava pensar, relaxar e começar a entender o que estava acontecendo. Voltou ao apartamento e tirou uma parte das economias escondidas que por sorte, ainda estavam no local e desceu novamente para a rua, não sem antes pegar os óculos escuros velhos que tinha jogado numa gaveta.
Os amigos chapados o cumprimentaram da maneira usual, como se jamais tivesse saído de casa.
Gascoin parou num boteco perto e pediu a coisa mais gelada que o homem tivesse, foi água gelada e com gosto de fezes, ele tomou porque estava realmente gelada.
Pondo a cabeça em ordem não precisava ser um gênio pra saber que emprego ele não tinha mais, mas até que isso não era tão mal, oportunidade pra procurar um novo. Grana não seria problema por uns três meses, tinha aquela economia e isso ajudaria até achar outra coisa. Não conseguia pensar com todo aquele calor desgraçado. No caminho de volta pra casa parou numa loja modesta e comprou um ventilador barato. Voltou ao bar e comprou umas cervejas.
De volta ao apartamento não achou mais a velha. Sabia que ela não iria chamar a polícia porque seria bem pior pra todo mundo, então, de madrugada, ficou sentado na sala numa cadeira semi-destruída onde almoçava sobre uma mesa idem, tomando as cervejas depois de limpar a geladeira o melhor que pôde e se pôs a pensar no que iria fazer dali pra frente.
Passou a noite toda pensando e logo de manhã viu pela janela que um de seus amigos do prédio, um ladrãozinho vagabundo, mas em informado, estava chegando do "trabalho".
__Hei, Marcos... Preciso falar contigo.
__Gasco! Quando tempo eu não te vejo por aqui cara! Achei que tinha se mudado.
__Tive uns problemas pra resolver. Escuta, cara, to precisando de emprego. Ce sabe onde posso arranjar alguma coisa?
__Ih, maninho... Ta foda a coisa aí fora!
__Tu sempre sabe de alguma coisa, parceiro. Vivia me dizendo que tinha gente precisando de homem pra resolve as coisas.
__Eu sei, maninho. Mas ce não é o tipo do cara que vai trampar nas mesmas coisas que eu...
__Marcão, numa boa, to de saco cheio dessa babaquice de levar a vida como empregado raso. To precisando fazer alguma coisa maior cara!
Marcos pensou um pouco.
__Beleza, mano. Se liga na parada... Tem um chegado da favela do Aimoré que trampava para uns trutas ai da zona Norte. O cara tem um cunhado na polícia e esse cara é dos feras, tipo tira bonzinho que quer ser general da banda. O negócio é que o tal polícia sacou que na corporação ele não vai longe começando como soldado e disse para o cara que tem um pessoal ai precisando de gente ferrada pra trampar de segurança.
__Segurança...
__Nem precisa ter escolaridade. Acho que é só saber enfiar a porrada e dar uns tecos com as quadradas. Pelo menos tu vai trampar de terno e gravata, que nem os granfinos!
__Me da o endereço dessa merda ai...
__Se liga, mano! Tu nunca se meteu nessas coisas...
__Parece que pra dar porrada eu ando levando jeito...
Gascoin pegou o endereço e seguiu na manha seguinte. A informação era de que os recrutadores iriam avaliar os candidatos e escolher dois. O endereço era um prédio todo bacana na Paulista, segundo Marcos.
Tinha outra coisa, diziam para levar dinheiro, mas não diziam quanto, então, ele pegou aquelas economias e foi morrendo de medo de ser assaltado ou perder tudo. Não era muita grana, mas era tudo que tinha.
Assim que chegou, Gascoin viu logo que teria vários concorrentes. Havia gente com farda da polícia militar, uns três caras com roupas camufladas, mais dois à paisana e ele, seis caras no total.
Foram todos colocados numa sala com cadeiras, uma mesa na frente e uma lousa. O prédio em si era grande e muitíssimo bem decorado, chão de mármore e colunas trabalhadas no saguão. Aparentemente era uma empresa bem sucedida ou um prédio de escritórios de grandes companhias.
Gascoin sentou numa cadeira do fundo e foi ouvindo as conversas paralelas dos caras. Falavam em técnicas de treinamento, tempo de trabalho na polícia e experiência como seguranças de políticos e empresários.
Imediatamente começou a achar que não daria em nada.
Depois de umas duas de horas de espera, depois de alguns caras terem desistido e ido embora e depois de um cochilo, um cara de mais de quarenta anos entra na sala e começa a falar.
"Vocês todos vão passar pela mesma prova, estão aqui porque são os melhores ou porque estão interessados em mudar de ramo..."o de sempre.
Até que um dos caras olhou pra ele e perguntou qual era sua experiência naquele tipo de coisa.
__Porra nenhuma...
Numa outra sala no mesmo prédio, pessoas olhavam o que acontecia na sala reunida através de uma câmera escondida.
Foi entregue uma ficha de inscrição simples com nome, endereço, nome dos pais, esposas e filhos, parentes próximos, escolaridade e depois foi ministrada uma prova de conhecimentos gerais.
__Saca só esse cara... - disse um dos membros da sala que acompanhava a reunião.
__Vamos ver como se sai na prova.
Os dois conversavam em francês.
Depois de oito horas sentado na mesma cadeira, a maioria daqueles homens havia desistido, restavam quatro, um de cara fechada que ficava brincando com uma caneta, dois grandes e fortes como soldados e Gascoin.
O resultado da prova de conhecimentos gerais foi interessante, Gascoin foi o melhor qualificado por falar três línguas: seu português original, inglês e francês pouco fluentes, estudar em colégio de padres teve suas vantagens afinal.
A parte que pedia para que falassem de suas experiências profissionais foi o mais complicado. Gascoin tinha pouco mais que o sub do sub do cara que ele não sabia o que fazia...
__Ainda há um trunfo nesse cara... - disse uma das vozes da sala de vigilância.
__Com essa experiência?
__A pedra bruta pode ser desgastada...
__Detesto quando você vem com essas de samurai.
__O que acha que vem agora? - perguntou um dos caras a Gascoin.
Não houve tempo para resposta. Em menos de trinta segundos homens vestidos de preto, encapuzados e empunhando armas automáticas entraram na sala no momento em que a luz se apagou.
Os quatro homens restantes foram tomas de assalto e sob as miras das armas e palavras de ordem foram levados para os fundos do prédio e colocados no que parecia uma caixa de aço grande.
As portas do contêiner se fecharam não antes de uma bomba de gás paralisante ser atirada dentro. Pouco adiantaria a tentativa de prender a respiração.
Acordaram horas depois, desorientados por uma sirene como um alarme de incêndio e com uma voz num alto-falante que dizia para saírem imediatamente.
Gascoin notou que havia dois homens de seu lado esquerdo e um do lado direito, era uma sala escura com luz estroboscópica incessante somente uma porta à frente e à direita.
Ele empurrou os dois homens que caíram o que lhe deu chance para chegar antes à porta. Hesitou no momento certo. O cara que estava do lado esquerdo passou antes dele e recebeu uma bala de borracha no peito. Ele pôde então identificar de onde vinha o tiro e saiu usando o homem cambaleante como escudo humano.
Esse tomou mais seis tiros de borracha à queima roupa e caiu quase morto. Gascoin passou pelo atirador quando sua arma ficou sem balas sendo seguido de perto pelos outros dois caras que gritavam em desespero.
Não pensou em reagir, afinal, a ordem dada era para sair dali não para limpar a casa. Um dos dois homens, o que não gritava, disse que havia luz vindo da escada, Gascoin olhou rapidamente em volta e não viu janelas.
Colou na parede e fez como no colégio quando os maiores não seguravam a libido, joga outro pra eles comerem...
O atirador das balas de borracha veio atrás deles, Gascoin aproveitou a escuridão e mandou um chute no estômago do cara que parece não ter sentido, mas enquanto se recuperava foi jogado pela escada abaixo. Gascoin não pensou duas vezes e se atirou atrás, se houvesse mais um ataque, não saberiam em quem atirar.
O atirador caído levantou-se rapidamente e apontou a arma para ele, os outros dois homens vinham descendo cuidadosamente. Gascoin desarmou o homem que não reagiu e saiu em direção à luz.
Passou por outra porta e recebeu um golpe certeiro no nariz. O segundo tomou a mesma coisa. O terceiro idem e esse caiu e não levantou mais.
Gascoin sentiu imediatamente o sangue descendo pelo peito e foi rastejando até uma porta que parecia a saída. O segundo homem levantou e passou por ele. Do lado de fora havia uma moça.
Essa moça era loira, de olhos azuis pequenos e gelados, rosto quadrado, boca fina, tinha os cabelos presos num rabo de cavalo, vestia calça jeans preta e jaqueta preta e olhava pra eles com cara extremamente séria.
Os dois com cara de tontos parados diante da porta sob um sol escaldante. No meio da confusão toda Gascoin começou a sentir o calor todo e estava quase desmaiando.
A moça caminhou até eles com calma, sacou uma pistola e deixou no chão.
__O primeiro que ficar vivo, vence.
Os dois restantes se olharam assustados, não imaginavam que chegaria àquele ponto, principalmente por ma vaga de segurança.
Gascoin estava cansado e o calor o abatia ainda mais. Respirava com dificuldade e quando fez qualquer menção de tocar naquela arma o outro aplicou-lhe um chute no estômago que saiu sem força e pegou a pistola.
Apontou pra Gascoin e olhou a loura com cara de assassina.
__Isso é sério? - perguntou. Ela não respondeu, claro que era sério.
Gascoin não teve dúvidas: reuniu suas últimas forças pra tentar tirar a arma daquele cara. Foi pra cima dele, mas o cara foi mais rápido, puxou o gatilho quando Gascoin estava em curso em sua direção. Os dois rolaram na terra ouvindo o estalido da câmara de disparo vazia.
Assim que entenderam que não era pra ninguém morrer levantaram e puseram-se novamente em prontidão pra próxima tarefa.
A loura soltou a fumaça do cigarro e jogou o resto no chão.
__Que tipo de idiota é você?- perguntou pra Gascoin - Por que se atirar contra um cara armado disposto a te meter uma bala na cabeça?
__Se eu não tenho muita escolha e nada mais pra perder... Por que não tentar?
Depois de pensar um pouco na resposta ela chamou o homem que estava dentro da casa. Ele vinha trazendo o outro concorrente apoiado em seu ombro, estava desfalecido ou morto.
Deixaram os dois cuidando do homem caído e isolaram-se para conferenciar quanto ao resultado.
__Ele puxou o gatilho? - quis saber, Lince.
__Exatamente. E com aquela habilidade que nós dois sabemos bem como é. Se houvesse balas naquela arma ele dificilmente teria acertado o alvo, mas ainda assim, teve coragem.
__Atirar muitas vezes não requer coragem, apenas desespero.
__Lá vem o ninja...
__E o outro?
__Interessante. Foi pra cima do cara e disse que não tinha nada a perder. Esse não liga pra vida.
__Você confiaria em quem no campo?
__Não sei. O primeiro cara tem algum treinamento, isso é bem claro. Mas o segundo mostrou o tipo de atitude que resolveria uma encrenca, ainda que da pior maneira possível.
__Um pouco inconseqüente, mas disposto a atingir o objetivo. Acha que pode ser treinado? Não é velho demais?
__Depende. O que queremos do novo recruta afinal?
Lince considerou o que estavam procurando. Um homem treinado para ataque a missões de reconhecimento, que estivesse disposto a morrer nas mãos das linhas inimigas se necessário para proteger seu objetivo. Um homem que definitivamente não tivesse nada a perder.
__E o melhor: sem família para reclamar um corpo.
A bela loura aproximou-se de Gascoin e desferiu um golpe certeiro na ponta do queixo que o desacordou imediatamente. O outro cara ficou olhando e esperando que fosse o próximo a apanhar, mas não. Ao invés disso ela agradeceu e disse ele era o mais bem preparado de todos e que aquele caído era o mais fraco candidato que ela já havia visto. E que infelizmente, mesmo ele sendo bastante confiante em suas habilidades como soldado que era, ainda não eram o que estavam procurando. Lamentou que eles tivessem passado por aquilo sem atingir seu objetivo, disse que seu dinheiro seria devolvido assim que voltassem à cidade e que se necessário, eles entrariam em contato.
O homem concordou que se arrependera de tentar conseguir aquele emprego, jamais imaginou que pediriam para que ele ferisse alguém sem nenhum motivo. Foi quando Chase, a bela loura, notou que havia uma grande chance de estar fazendo a coisa certa.
Depois de umas duas horas de sono forçado Gascoin acordou sobre o capô e um carro no meio de uma plantação de cana, dessas comuns no interior de São Paulo. Tinha gosto de morte na boca, como se tivesse acordado de ressaca, era um pouco de sangue.
Olhou ao redor de onde estava e viu Lince e Chase conversando. Foi até eles pra saber o que tinha acontecido.
__Está mesmo a fim de trabalhar, rapaz? - o homem tinha um sotaque estranho quando falava, assim como a loura.
__Claro, mas porque ela me bateu?
__Pra você não fazer pergunta. Entendeu? - ela respondeu de forma ríspida.
__O negócio é o seguinte: se estiver mesmo disposto a entrar nessa tem de entender que não somos os mocinhos. Isso não é coisa dentro da lei. Pode sair agora e ir embora, se entrar não tem mais volta.
Aquilo era uma ameaça. Como responder se quer entrar para uma coisa que não se conhece, e o pouco que se sabe já não é convencional?
__Vocês são um tipo de grupo de extermínio?
Eles se olharam.
__Entendi, não é pra fazer pergunta...
__O negócio é que você foi qualificado. Tem o tipo de comportamento que estamos procurando, não tem família e parece disposto a mudar de ramo. - disse a loura.
__Como sabem que eu não sou desse ramo?
O homem tirou uma pasta fina, de cor parda, de dentro do carro e começou a ler.
"Henri Gascoin, nascido em outubro de 77 no interior de São Paulo, Brasil. Filho de Maurice e July Gascoin, imigrantes franceses vindos para o Brasil em 72. Seus pais foram assassinados em casa quando você tinha seis meses de idade. Pelo que consta você só está vivo porque os assassinos tinham armas silenciadas o que não acordou o bebe no outro quarto. Seus pais eram militantes da OAS um grupo de dissidentes anti-governistas que fracassou em derrubar Charles de Gaulle, aparentemente eles tinham cargos pequenos dentro da organização e não eram muito competentes. Foi mandado para um colégio de padres onde recebeu educação de primeira qualidade, mas era um garoto problema. Com tendências de violência desmedida ainda na infância, histórico de uma deformidade por agressão a um colega de quarto no orfanato, somando três anos de detenção e punições nos doze anos que passou lá. Fugiu o colégio aos dezesseis e jamais procurou saber de seus pais"
"Cometeu pequenos furtos enquanto garoto morando nas ruas da capital e seu primeiro emprego foi como empacotador num supermercado. Tem um apartamento alugado no bairro da liberdade, jamais foi matriculado em escola regular do estado, não tem plano de saúde ou conta em banco. Também não há registros de cartões de crédito ou dívidas pendentes. Sem passagem pela polícia depois dos dezoito, suas carta de motorista está vencida há cinco meses, seu celular é pré pago e não registrado pela operadora, deve ser roubado."
"Constam seis multas nessa carteira que lhe permite dirigir carros e motos. Jamais teve um carro registrado em seu nome, seu último salário regular era de seiscentos e trinta reais não registrados pelo empregador e você nunca declarou imposto de renda. E seu último teste de Q.I. indicou 124 pontos, impressionante."
Gascoin tava de boca aberta.
__Meus pais eram franceses?
__Sim. Na verdade você pode nos ser bastante útil exatamente por isso.
__Espera um minuto... Se meus pais têm registros de nascimento na França, então eu posso requerer cidadania européia!
__Ao menos um pouco inteligente ele é. - comentou Chase.
__Hei, moça loura, ce já ta me enchendo o saco! Ouviu o que o cara disse sobre o Q.I.? Como é que vocês sabem dessas coisas todas?
__Senhor Gascoin. Nós fazemos parte de um grupo para-militar que está recrutando um novo membro. Esse termo para-militar não é a única coisa implícita nisso, mas é só o que vai saber por enquanto. Está disposto a aceitar nossa oferta?
__Eu não sei quanto vocês estão ofertando. De quanto é o salário e quem é que eu tenho que matar?
Eles não responderam e não riram da piada.
__Se aceitar daremos início imediatamente ao que chamaremos de "sua preparação". Se não aceitar basta nos dizer.
__Vocês vão me matar, não vão? Por isso me trouxeram para esse lugar sem ninguém.
__Ninguém vai matá-lo, senhor Gascoin. Não pode provar nada do que dissemos e na verdade, não temos medo do senhor. Caso não aceite nossa oferta sua única dificuldade será voltar pra casa sozinho.
Ele arqueou as sobrancelhas, estava pensando.
__Quanto tempo eu tenho para...
__Não tem tempo, senhor. Responda agora.
__Beleza, eu topo.
__Pode confirmar isso de maneira mais clara. - pediu Lince.
__Sim, eu concordo, eu aceito, eu to dentro! Manda ver! Quanto é que eu vou ganhar?
Lince tirou um pequeno rádio do bolso.
__Já temos um nome, apaguem o resto.
Chase apagou seu cigarro e veio até ele. Pegou-o pelo braço e foi levando para dentro da plantação de cana. Uns dez metros de onde eles estavam, uma estada de terra qualquer, havia uma clareira e nela, um helicóptero estava pousado com o motor desligado.
Os três embarcaram e Gascoin foi instruído a não fazer perguntas. Ao menos dessa vez ele estava acordado. O aparelho decolou e em minutos estava novamente sobrevoando São Paulo.
Todos tinham rádios pequenos e modernos nos ouvidos, menos ele. Notou que passavam a cidade e viu a estrada de acesso ao litoral passando abaixo. A vista era interessante para um cara que sonhava em voar como os bacanas do Morumbi. A serra do mar foi ficando mais distante e em menos de seis minutos estava vendo o mar.
Era um helicóptero moderno e confortável, estava sentado numa cadeira de couro de cor creme, o acabamento era de primeira e o piloto parecia ter pressa.
__Aquilo lá embaixo é a cidade de Cubatão, não é? - perguntou e não obteve resposta. - Eu sei que é porque uma vez os caras lá de onde eu trabalhava me convidaram pra passar o dia com eles em Monga! Manja, Monga? - perguntava aos gritos pra Chase- Só que eu não tinha grana pra rachar a gasolina do fietão do Peido... Peido é meu amigo lá do trabalho... Fiz uma baldeação aqui em Cubatão...
Chase continuava séria, olhava para o outro lado e não estava gostando das investidas da mão dele no braço dela pra chamar atenção, mais uma daquela e ele perderia alguns dedos.
De repente o helicóptero baixou o nariz e acelerou. Gascoin ainda ouviu alguma coisa no rádio que foi ignorada por todos. Parecia uma ordem. O mais novo integrante passou a mão num rádio solto no banco ao lado e posicionou no ouvido.
"...identificação de homologação. Piloto: qual o prefixo de sua aeronave? Repito: transmita sua identificação de homologação, destino da aeronave e prefixo. Você está entrando em espaço aéreo restrito de segurança do heliporto da Petrobrás. Você não tem permissão para entrar nesse espaço aéreo!"
__Hei, moça! Se não podemos entrar o que eles vão fazer? Derrubar o helicóptero? - e abriu o abobalhado sorriso.
__Se conseguirem enxergar essa aeronave merecem derrubá-la. - retrucou a loura, voltando a olhar novamente para o outro lado.
Era rápido demais para um helicóptero normal. Em pouco mais de cinco minutos depois de atingir o nível do mar estava mais de cinco milhas náuticas distante da costa, Gascoin pôde ver dois aviões de caça evoluindo pelos céus procurando alguma coisa, desistiram depois de não achar nada.
Gascoin não sabia para onde estava indo, mas era gostoso voar, afinal. Sempre via helicópteros cruzarem a cidade e se perguntava qual seria a sensação de estar num daqueles. Naquela mesma manhã havia acordado no velho apartamento detonado, retirado as economias do esconderijo e se metido numa briga por sobrevivência. Era oito horas da noite quando Chase deu-lhe um tapa no braço para que pôde divisar as luzes de uma embarcação enorme.
Com extrema habilidade o piloto fez o pouso sem precisar que o navio parasse seu curso. Assim que desceu, Gascoin notou que havia muitos homens a bordo. Estavam calados, concentrados em seus trabalhos e desanimados.
Os demais foram levando o novo membro para dentro da ponte, de onde se governa o navio. O comandante os recebeu no passadiço. Era alto, de pele escura e olhos puxados e muito pretos. A roupa não denunciava sua posição de mando, eram farrapos velhos e suficientes para abrigar do frio do mar.
Conversou alguma coisa numa língua que Gascoin não identificou e deu ordens a seus homens. Chase o chamou num canto e disse para seguir aqueles homens e que em pouco tempo ela iria falar com ele.
Gascoin foi levado a um apartamento dentro do navio, era somente uma cama e uma escotilha, a cama não tinha seque forração, era nada além de um colchão tosco de espuma fina.
O homem atrás dele fechou a porta enquanto dizia alguma coisa que ele também não entendeu. Ficou sentado pensando se aquilo era o melhor. Dez minutos depois Chase veio até ele.
__Fica numa boa, cara. Nada disso aqui é ruim. Não vão te machucar ou mesmo falar muito com você. Se precisar de alguma coisa estarei na cabine do lado esquerdo, a da direita é do outro homem que estava comigo. Durma.
Ele deitou na cama e notou que num canto escuro do quarto havia uma escotilha, foi até lá e notou que estava abaixo do nível da água. Devia estar bem abaixo porque não via muita coisa além de um azul escuro quase negro. Pensou no apartamento em Sampa. Não era tão diferente, afinal.
Na manhã seguinte alguém levou um café para ele, mas ninguém o deixava sair do quarto. Durante três dias ficou trancado naquele quarto. O único momento em que podia sair era para ir ao banheiro, nada de banho, e ainda havia um homem armado de costas para ele no final do corredor de acesso.
No quarto dia os testes recomeçaram. Primeiro foi acordado com um banho de água gelada e sob pancadas de um porrete de madeira. Um dos golpes lhe cortou o supercílio esquerdo e quebrou o nariz. Ficou dias sentindo dor e respirando pela boca.
Pra passar as horas no que para ele já era uma prisão, obviamente sem relação com a loura e o homem, mantinha a sanidade fazendo exercícios e dialogando sozinho com as paredes.
A comida era nojenta e enviada por uma portinhola na parede de aço. Depois de sete dias apanhando como um cachorro, notou que quanto mais exercícios fazia antes de dormir, menos dor sentia quando o batiam. Gascoin tentava manter-se acordado, mas não tinha como, percebeu que foi diminuindo as horas de sono periodicamente.
Perdeu a noção de quanto tempo se passara e os monólogos aplaudidos pelas baratas e ratos ficava mais elaborado, com discussões até.
Em uma daquelas noites de espancamento sem motivo, teve a convicção de não dormir e arrebentar quem entrasse por aquela porta. Viu a água ficar azul clara, o que indicava que era dia e ninguém entrou pra bater nele. "Eles sabem quando eu durmo" pensou. "Não deve ser o falatório porque fiquei calado o tempo todo..." Pensava enquanto fazia abdominais e flexões de braço. Depois de algum tempo notou que estava bem mais magro e com os braços mais duros, ainda que do mesmo tamanho de antes.
Não sabia quem mandava a comida, mas mesmo assim, passou a agradecer quando era escorregada para dentro da cela. Sempre o mesmo cardápio horrível de aveia com água e um copo com água.
__Podiam mandar um pãozinho! Ou quem sabe, um foi grás? Não? Hei seja lá quem for, manda um recado para aquela loura vagabunda...
E praguejava o quanto podia. Imaginava que estaria sendo levado a uma prisão, ou qualquer coisa do gênero. Depois de um bom tempo, parecendo um náufrago, de barba grande assim como os cabelos, escaras superficiais pelas agressões, mas com o corpo bem melhor, resolveu que se era hora pra ficar preso seria melhor morrer.
Alimentou-se como todos os dias, fez suas necessidades no banheiro sempre sob a mira de uma arma, exercitou-se como sempre e tentou de todas as maneiras encontrar alguma coisa que pudesse usar como arma, mas não achou nada.
"Foda-se. Vai ser na dentada mesmo!"
Novamente a água do lado de fora ficava escura, tirou as roupas para fingir que estava com frio e pôs sobre as pernas como um cobertor. Esperava agüentar o calor até a hora de agir. Ficou somente com a calça.
Em algum momento da noite ouviu a porta se abrir. Ouviu ainda pessoas falando baixo. Entraram. Eram os mesmo de sempre, os mesmos cheiros e timbres de voz, e um deles ainda fazia a mesma piada em inglês - única coisa que ele entendia um pouco - sobre suas calças velhas.
Fizeram exatamente a mesma meia lua de antes com os porretes nas mãos.
A camisa sobre as pernas era para esconder a posição de ataque. Terminada a piada sobe as calças os outros três começaram a rir. O primeiro foi golpeado na virilha com o calcanhar e o segundo, no mesmo local, mas esse teve as bolas espremidas com as mãos.
A primeira porretada foi na têmpora do lado esquerdo. Ele atordoou, mas não largou as bolas do segundo homem e o desarmou. Não era um exímio lutador e aqueles caras eram piores que ele numa briga de rua. Derrubou os outros dois. Sabia que sempre havia um homem com uma arma no corredor e ficou esperando, atrás da porta que ele entrasse, enquanto os demais gemiam no chão.
Demorou e Gascoin resolveu olhar rapidamente. Não havia ninguém. Um dos homens caídos tentou segurá-lo pela barra da calça. Vendo a possibilidade de sair dali, ainda que por pouco tempo, o prisioneiro não teve dúvidas... "Esse eu levo comigo!". E desferiu as pancadas com a maior violência que podia. Todas no rosto e cabeça do homem. Em pouco tempo estava parecendo uma massa uniforme, arredondada e avermelhada, sem olhos e com pedaços de dentes emergindo pelo tecido inchado.
Não conseguia soltar a arma enquanto olhava ofegante o homem espancado, que lutava para respirar e quando fazia isso, um enfisema borbulhava pelas pálpebras. Foi até o corredor iluminado de amarelo pela tinta das paredes e viu a escada que descera, atrás da loura, há tanto tempo atrás.
Subiu com cuidado e não viu ninguém. Também não havia ninguém do deck superior. Tudo estava deserto, absolutamente vazio. Continuou subindo e ao passar por uma janela viu um pouco do céu lá fora.
Não teve tempo de admirar a vista. Seguiu curso para cima o quanto pôde. Depois de se perder um pouco viu mais uma escada que dava a uma porta oval e acima disso, o céu escuro da noite.
Ficou olhando durante um tempo esperando que alguém aparecesse, mas nada. Quando passou pela porta viu, então, boa parte da tripulação trabalhando normalmente no convés de proa.
Era um navio enorme e ninguém se deu ao trabalho de notá-lo. De repente ouviu palmas do lado esquerdo. Calmas, entrecortadas e únicas.
__Vinte e nove dias! Demorou vinte e nove dias para reagir definitivamente.
Os olhos não estavam tão bons, mas viu que era Chase. Ela fumava calmamente e olhava o oceano, vestia uma blusa branca de alça nos ombros, calça cinza, botas e um sobretudo branco também. Expirou a fumaça e veio até ele com toda calma do mundo, sorrindo inclusive.
__Aquilo é uma merda, não é mesmo! - parou diante dele. Tinha os seios não tão grandes, mas eram empinados e ficavam mais expostos naquela blusa. Ele ainda não a tinha visto sorrir.
__Que merda toda é essa?
__Foi um teste. O definitivo, eu prometo. Agora...
Chase era um soldado treinado. Apesar de ter a força de uma mulher nos braços, tinha a atitude de um estivador bêbado, num dia quente e que acabou de levar um chute no saco. Mas nem assim, foi capaz de defender a porrada rápida como um relâmpago que veio contra a ponta de seu queixo.
Gascoin sabia que teria pra onde fugir, afinal, era um navio em alto mar. Mas a vontade que ele estava de bater nela era tanta que não podia perder a chance.
A belíssima loura levantou com calma e ficou diante dele, ainda desorientada pela violência do golpe e com a mão no queixo.
__Tudo bem! Ta tudo bem!- disse Chase aos demais homens que vinham ajudá-la. Ninguém se dirigiu a Gascoin - To sacando que tu ficou na pilha, cara! Mas relaxa. Se não quiser ficar tu ta ferrado de qualquer jeito. Esse negócio de porão é uma merda, mas não foi idéia minha, eu também detestei aquilo.
__Qual é? Quer dizer que você também passou por aquilo?
__Sim. Pense no porão como um comitê de boas vindas. - ela agora estava refeita e puxando-o pela mão. Foram até a sala de jantar do capitão onde mais pessoas estavam sentadas à mesa - Aí pessoal! Olha quem saiu das catacumbas!
Os demais riram e levantaram os copos. Estavam todos felizes num tipo de confraternização com muita comida e bebida. Um deles levantou e abraçou Gascoin, agora sem o porrete ensangüentado.
__Tem um cara lá embaixo... Eu acho que o matei... - falou mais pra dentro do que para fora.
Todos gritaram uma coisa que ele não entendeu e começaram a rir.
__Não esquenta, já cuidamos do corpo. Se quiser tomar um banho e fazer a barba. Hoje é nosso convidado. - disse o homem.
__Vem. Te levo até minha cabine. - Chase foi puxando-o novamente.
__Mas o que ta acontecendo, afinal? E aquele homem em que eu bati?
__Relaxa, Gascoin. Isso tudo foi um teste e você passou. Demorou um pouco, mas passou. Agora é tudo bem diferente. Aqui tem roupas limpas, tome um banho à vontade, faça essa barba horrível e junte-se á mesa!
Foi o melhor banho de sua vida. A pele do rosto estava até delicada de tanto tempo com a barba rala. Vestiu as roupas simples que Chase havia deixado na cama, uma calça jeans, uma camisa branca, cueca, um par de meias e sapatos de lona.
Voltou à mesa e foi recebido com sorrisos e abraços por todos. Comeu com eles um jantar ótimo, arroz marroquino, tabule, pato assado, carneiro assado, salada verde e cerveja muito gelada.
__Eu ainda não acredito. Vocês entenderam que eu machuquei aquele cara de verdade? - falando com os mais próximos, os poucos que se arriscavam, como ele, a falar inglês.
__Você não o machucou, Gascoin. Você o matou. Quando fomos retirar os caras de lá ele estava vertendo sangue pelos ouvidos como um bicho atropelado. Seus braços não dão conta das porradas que deu nele, cara! - disse o homem que sempre estava com Chase.
__E você? Que é você afinal?
__Eu sou Lince. - estendeu a mão para cumprimentá-lo - Bear Lince.
__ E esse pessoal todo?
O comandante, então, pediu para falar.
__ Garoto, você está a bordo do Evolucenza. Um navio cargueiro autônomo sob meus humildes auspícios. É de forma efusiva que o cumprimento como os homens do mar, ao lado meus comensais e sobre os domínios de Poseidon. Vós que foste convidado à minha mesa deve esbaldar-se do bom e do mais valoroso tesouro da vida humana: à gula!
E todos os demais brindaram com seu capitão levantando as canecas de cerveja e cantando alguma coisa juntos.
Gascoin olhou para Chase, que sorria ao lado dele.
__Não entendi uma coisa, o nome do navio... Qual é exatamente a bandeira dele?
E os homens riram mais ainda.
__ Não ouviu dizer que é autônomo? Este não o tipo de navio que se governa sob uma bandeira, Gasco...
Agora era vez de ele sorrir e achar graça.
__ Isso é um navio pirata?
__ O homem que você matou era um pirata moderno, claro que hoje eles não usam espadas nem têm pernas de madeira, ao contrário, este navio tem embaralhadores de sinal de satélite, decodificadores de posição e armamento pesado. A maioria desses homens é como você e eu, sem família e com muito pouco escrúpulo. Quando estou no Evolucenza durmo com uma faca na calcinha... Devia fazer o mesmo...
Disso ele não gostou.
Não daria a menor importância para um homem ao mar, morto e sob o cuidadoso tratamento dos tubarões cabeça chata que habitam as águas equatorianas naquela época do ano.
Naquela noite depois de muita cerveja Gascoin dormiu numa bela cama, em um quarto com ar condicionado e foi acordado às seis da manhã por Chase. Um café os esperava e depois um cigarro junto à amurada vendo o sol irromper o oriente.
Gascoin ficou fumando com eles, mas longe da proteção para a queda até a água.
__Já falei que os testes acabaram. Ninguém vai te jogar daqui.
__ Não me leve a mal, mas vai levar um tempo até que eu volte a confiar em você novamente.
Os dias seguintes foram tranqüilos. Gascoin agora tinha uma academia um tanto medieval para se exercitar com pesos que em outras horas eram na verdade as argolas de apara do Evolucenza. Mas era melhor do que nada. Comia bem e bebia muito. Rum, claro, cerveja, vodka. Foi conhecendo as pessoas, fazendo amizades, sabendo de suas histórias e façanhas. O que movia aqueles homens a viver daquela maneira.
Chase era a mais introspectiva da turma. Quando tinha um tempo sozinha ficava olhando o nada e balançando o corpo sentada no chão quase em posição fetal. Lince disse que ela sempre foi daquele jeito. Aos poucos ele iria conhecê-la melhor e que quando isso acontecesse, não teria o menor problema em ir com ela a campo.
Foi perguntando sobre a coisa do porão que ele conheceu um pouco mais sobre seus novos companheiros.
__ Vocês todos passaram por aquilo?
__ Quase todos. Chase, você e eu somente. Os demais não fazem parte do grupo. Esse navio é do capitão, ele é literalmente o dono. É amigo de uma pessoa que nós conhecemos e por isso usamos de vem em quando. É a melhor maneira de gente como nós viajar.
__Então eu vou trabalhar com você e ela?
__Exato. Logo vai começar seu treinamento. O básico você está aprendendo rápido. É óbvio que não somos os mocinhos.
__E o que somos então?
__ Vai demorar um pouco pra entender isso. Mas, basicamente, somos um grupo para-militar. Fazemos coisas quando nos pagam. Ficaria impressionado o número de pessoas no mundo que utiliza nossos serviços diariamente.
__ Somos mercenários?
__ É uma boa palavra.
__ Bom eu sei que tem gente aqui de todo canto do mundo. Até estou aprendendo francês com os caras! Tem gente da Bélgica, Noruega, Suécia, França, Rússia, República Tcheca... De onde você é, Lince?
__Sou inglês. Servi numa divisão de elite das forças especiais de Sua Majestade. Minha especialidade é tiro de longo alcance.
__Saquei, por isso o codinome Lince.
__Não, esse é meu sobrenome de batismo. Meu codinome, quando o tinha, era Mors. Capitão Mors de pára-quedismo e infantaria avançada. O capitão Vurgen, aqui do navio, também é ex-militar. Foi membro da força aérea sueca. Era piloto de combate, atrás da cabine de um Saab-Viggen até o início da guerra fria.
__Me diz uma coisa. Como é que um cara como você, com uma carreira promissora nas forças armadas e um homem como ele, comandante de caça, acaba se tornando um desses para-militares?
__O Vurgen foi usado como bode expiatório para justificar uma ação de espionagem russa há quase vinte anos. Ficou revoltado e fugiu da base em que foi preso. Quando chegou em casa sua esposa e sua filha haviam sido violentadas e mortas... Eu nunca tive família e estou nessa pela grana.
__ Quanto tempo demorou pra sair do porão?
Lince sorriu, tomou mais um gole da Long Neck e foi saindo enquanto acendia um cigarro.
__Saí no segundo dia. Executei quatro homens do Vurgen. Ele ficou uma fera comigo.
__E ela estava te esperando no convés...
__Não, fui eu quem esperou por ela. Quem me aguardava era o nosso contratante e pagador. Um dia vai conhecê-lo.
Lince já estava longe quando ele perguntou novamente.
__ E ela? Em quanto tempo saiu?
__ Quatro horas. Abateu doze homens no corredor antes de eu dizer a ela pra parar, matou cinco deles. - sorriu e desceu para a ponte. Estavam se aproximando do primeiro porto.
Olhou novamente para o convés de boréste onde Chase atirava o olhar a esmo pelo arrasto do navio. Ela brincava com uma faca de campanha entre os dentes brancos e perfeitamente alinhados.
Desembarcariam em breve. Conforme o tempo foi passando dentro do navio ele se acostumava mais a beber muito, dormir pouco e aprender outras línguas. Haviam tantos homens de diferentes nacionalidades ali que era fácil aprender, ainda que por alto, uma seis línguas.
Já que haviam dito que ele tinha pais franceses, resolveu dar mais atenção a essa.
__Comment êtes-vous?
__Vous êtes tous lês droits?
__Je veux un verre d'eau.
__M'offrir un café, merci.
Também tomou lições de um pouco de árabe e japonês. Com Lince e Chase falava inicialmente em português. Ambos tinham uma pronuncia carregada e ruim. Haviam aprendido há pouco tempo e somente para conseguir se comunicar com o novo recruta, que tinha de ser latino.
Na mistura castelhana e portuguesa eles até se davam bem. Aprender uma língua rapidamente era como uma necessidade naquele mundo. Fazia parte do treinamento.
Depois de quinze dias de viagem viram o primeiro sinal de terra. O pesado Evolucenza mirou a proa para estibordo e foi mais devagar. Essas diminuições de velocidade eram constantes e Gascoin entender por que.
__ São guardas costeiras dos países africanos. Temos de despistar as guardas, então, o capitão os detecta pelos radares e nós fazemos um movimento irregular até sair das águas deles e entrar em outra nação. Normalmente conseguimos passar por uma onde não tenha tanta vigilância e ai chegamos aos portos. - explicou Chase.
__Isso, claro, porque todos aqui são mercenários?
__ Não, otário, porque esse navio está carregado com carros roubados, armas, drogas e medicamentos falsificados.
__ Os carros são para gente ruim, as armas também, as drogas são para crianças provavelmente... E os remédios?
__Que é que ce acha? Eu mesma peguei uma boa quantidade de analgésicos. A maioria vai para as sedes regionais da ONU na África. Gente pobre precisando de remédio contra AIDS e outras coisas.
__Remédios falsos?
__ Que acha que somos, Gascoin? Ninguém aqui ta ligando para uma criança morrendo de fome no meio de um continente, ou para doentes gritando de dor num hospital, eles que se virem.
Gascoin deu uma boa olhada pra ela.
__ Você é linda, mas às vezes é amarga e eu me pergunto: como uma moça tão bonita foi se meter nessas coisas?
__Saca só: nós não ligamos pra nada que não seja o alvo. Vai aprendendo. Não existe obstáculo vivo que proteja um contrato quando se tem uma ordem a cumprir. E qualquer dia eu te conto a história...
Outra coisa que ele aprendeu logo era que eles não eram pessoas sem comando. De tempos em tempos, uma mensagem via rádio chegava para o navio. Provinha de algum lugar da África e dizia mais ou menos como estava a situação em diversos países. Condições políticas, de confronto, de comércio, qualquer informação que pudesse abrir o caminho dos "funcionários".
Depois daqueles dias, ela já não tinha mais paciência pra falar com ele em português e o obrigou a se virar pra aprender inglês. Gascoin tinha uma vaga noção, mas odiava, mesmo ela tendo dito que raramente iriam trabalhar em terras norte-americanas.
"Porque norte-americanos são estúpidos. Atiram por qualquer motivo porque foram ensinados assim. São especialistas em prestar atenção nas vidas das outras pessoas e isso é terrível pro nosso tipo de trabalho. Têm uma mania cretina de fazer amigos em minutos e odiá-los em segundos. E por último, são cães perdigueiros quando querem farejar alguma coisa."
Gascoin continuava na mesma. Falava quantas línguas podia durante o dia e à noite, pensava no velho apartamento. Lince disse pra ele não se preocupar porque eles dariam um jeito. Henri Gascoin deixaria de existir no Brasil. Seus nomes, documentos, identidades, carteira de motorista e de trabalho. Tudo seria cancelado, tinham pessoas especializadas em fazer isso e o governo brasileiro não era exemplo de fiscalização. E como ele faria pra comprar coisas e começar novamente?
Terá outra identidade, claro. Disseram que poderia mudar de nome, escolher nacionalidade, qualquer coisa. Seguro social ele jamais teria, o resto estava em ordem: carteira de identidade, de motorista, passaporte, título de eleitor do país que escolher. Nada seria falso. Todos os documentos seriam verdadeiros, as novas informações é que eram falsas.
Se alguém um dia investigasse chegariam à conclusão de se tratar de homônimos.
Enquanto se aproximavam do primeiro porto as coisas em terras européias já estavam em andamento. Gascoin foi pelo que seria o lado mais simples para seus contratantes e optou por cidadania francesa. Os registros dos nomes de seus pais facilitariam tudo, ainda mais neste momento, tempos depois dos atentados contra Charles de Gaulle. E uma carteira de cidadão europeu era o mesmo que entrada em qualquer país do mundo livre sem problemas de visto.
__ Cansei de perguntar e vocês não respondem: pra onde nós estamos indo?
__É acho que agora ce pode saber. Se não gostar eu te atiro no mar mesmo. Estamos indo para Casablanca, no Marrocos. Mas é apenas uma escala. De lá temos de chegar de algum jeito em Alexandria.
Fez umas contas rápidas.
__ São mais de sete mil quilômetros!
Chase engoliu a cerveja e olhou pra ele cara de "e daí?".
__Nada. Achei que iríamos trabalhar no lugar em que chegássemos.
Tinha realmente muito que aprender.
O Evolucenza atracou num porto afastado para reabastecimento, ao largo do Atlântico, há quase mil metros da praia de Casablanca. Um bote motorizado levaria tripulantes até a costa para coleta de suprimentos e material de maquinaria. O trio desembarcou ás nove horas da manhã.
Gascoin olhou o atracadouro e o pequeno porto ao redor, inspirou e sorriu. Parecia estar numa viagem de turismo. Até o calor infernal parecia ameno. Lince pagou ao imediato de Vurgen e puxou os dois para a praça com a pequena feira movimentada de pessoas.
__ Muito bem, senhor Gascoin. Aqui começa O Grupo. A partir de agora está tentando fazer parte de uma equipe de treinamento especializada em ações de campo, incursões furtivas, espionagem e contra-espionagem, execução e ocultação. Vigilância, investigação e técnicas militares.
Falava isso enquanto passeava tranquilamente pelo mar de pessoas no comercio desorganizado e caótico da praça central de Casablanca. Em meio a homens com cestos na cabeça gritando alguma coisa, mulheres puxando a manga da camisa para oferecer tapetes, meninos tentando angariar trocados para levar recados e guiar turistas, Lince explicou superficialmente o que fariam.
Gascoin foi ao lado dele tendo Chase atrás. Ele não sabia, mas ela estava segurando uma arma na parte de trás da cintura. Pararam numa casa de câmbio para trocas os dólares americanos de Lince a um preço exorbitante, mas se não fizessem aquilo naquele momento teriam de rezar bastante para pagar uma xícara de café no interior da África.
__Não vamos passar nem uma noite aqui. Vamos tomar um café e procurar uma saída.
__ Podíamos dar uma volta, ver o que está acontecendo na cidade. Ali tem um bar bom.
__ Gascoin, deixa de ser idiota. Temos de manter comida dentro da barriga e chegar logo a Alexandria. Não estamos aqui pra fazer turismo. - Chase foi empurrando-o para dentro do bar.
Sentaram-se numa mesa de canto. Havia pessoas em todas as outras mesas e pareciam indiferentes à presença deles. A maioria era de homens. Vestidos de qualquer forma, bebendo qualquer coisa, comendo em alguns casos, e fumando muito. Conversavam baixo e calmamente.
Enquanto esperavam o garçom um homem chegou diante da mesa e parou ao lado de Chase. Era um gigante branco. Tinha mais de dois metros, os braços pareciam troncos e os olhos eram azuis. O cabelo preto cortado rente e várias pequenas cicatrizes pelo rosto.
__ Você é a Chase. - disse o grandão - Nós trabalhamos juntos em Ambarchik.
Ela olhou o cara de cima até embaixo e levantou. Apertou a mão dele e ficou olhando bem pra cara do sujeito.
__ Me lembro de você. Derrubou uma porta de aço enferrujada aos chutes dentro da base em Ambar. O que faz na África?
__ Procuro emprego. Estou sem trabalho há semanas. Não agüento mais tanta calmaria! - disse sorrindo.
__ Acabei de chegar. Estou indo pra Alexandria com meu pessoal, mas se souber de alguma coisa, aviso você. Seu nome é Klink, não é?
__ Markkum Klink, isso mesmo. Você continua bonita menina. - o sujeito gigante se afastou depois de dar um abraço caloroso em Chase, que respondeu da mesma maneira para espanto de Gascoin.
__ Trabalharam juntos. Quer dizer que sofreram coisas juntos, podem ter se ajudado no campo de combate. Estavam sob o comando do mesmo homem, que se for esperto será adorado por seus soldados, e nesse caso, se tratarão como irmãos sempre que se encontrarem.
__ Isso parece coisa de filme.
Não tanto quanto o garçom. De fraque branco e uma feição que parecia ter saído de 1932. Trouxe cervejas e comida. Um guisado de cara estranha que torceu o nariz de Gascoin antes de revirar suas entranhas.
__ Come essa merda! - Chase olhou-o profundamente - Coma qualquer coisa que te derem e que não tenha veneno, está entendendo?
Gascoin comeu.
Ela destruía o prato de comida e Lince comia vagarosamente.
__ Vamos alugar um carro e estabelecer uma rota. Temos de cruzar quatro países e de carro vai demorar demais. Então faremos o seguinte: vamos por terra até Ghardala na Argélia. Conheço um cara que pode nos levar de avião até Bengazi, litoral da Líbia e de lá para Alexandria de trem.
__ Em quanto tempo vamos fazer isso?
__ Uns cinco dias provavelmente. - dizia Chase expondo parte da comida ainda não mastigada, tão linda e tão simples - Teremos de passar por umas barreiras de guerrilheiros na Líbia. O Comandante mandou a mensagem, você viu. - apontou a faca para Lince.
__ Essa era outra coisa que eu queria saber: quem é o Comandante?
__ Aqui, sou eu. - disse Lince - Vai chegar o momento de conhecê-lo. Ainda é cedo para que tenha informações de nome e posição do contratante. Chase tem razão. Temos de estar preparados para as barreiras para-militares.
__ Temos duas armas, munição suficiente para dois dias e uma granada concussiva.
__ Quer dizer que você está ai com uma granada? - perguntou Gascoin, descrente.
Eles se desarmaram. Duas pistolas Imbel 7.65, uma faca de campanha, seis pentes de bala, e uma granada verde, pequena com o símbolo do exército de Israel. Deixaram sobre a mesa e continuaram comendo. Chase agradeceu, aquilo a estava apertando.
Pagaram em moeda corrente e foram tratar de alugar o carro. Havia uma agência na mesma rua do bar que alugaria por um preço bem alto. Sob condições de arrancar as pernas deles se não devolvessem o carro em dois dias, como dizia o contrato, conseguiram alugar um bom. Optaram por um Land Cruiser ano 87, preto. Ao menos teriam o luxo de ar condicionado.
Antes de deixar Casablanca compraram no mercado três galões de cinqüenta litros, água suja, e água potável, deixaram tudo na parte de trás do carro junto com carne seca, palha, dois cobertores, papel higiênico, os remédios que Chase pegou no navio, uma bússola, um mapa, um binóculo e cigarros.
Gascoin foi atrás. Chase na frente e Lince ao volante. Ela atirou no colo dele um mapa da África, antigo, dos tempos do Apartheid e disse para que ele estudasse o caminho. A função dele era cuidar da retaguarda. Se qualquer coisa se aproximasse ele avisaria.
__ Não é melhor eu ter uma arma?
Os dois se olharam... Dar uma arma a um cara sem treinamento, que sem dúvida, vai ficar fuçando pela curiosidade, no banco de trás de um carro sacolejando nas estradas africanas? Claro que não!
__ Ao menos o bar é bonito por fora... - disse Gascoin olhando a fachada de um tal Rick's American Bar, na saída da cidade.
Pararam diversas vezes no meio do caminho. Dormiam em turnos, Chase era a que menos dormia. Ficava do lado de fora do carro, no meio do deserto argelino, andando de um lado a outro como um cachorro.
Em uma das noites, cansado do calor dentro do carro, Gascoin saiu para conversar com ela. Lince dormia profundamente e Chase explicou que era, como quase tudo até agora, parte do treinamento. Dormir sempre que possível e de forma a descansar o máximo necessário.
Assim como ele a bela loura não sentia tanto o frio do deserto à noite. Lince mesmo sendo inglês estaria debaixo de quilos de casacos.
__ Saca só esse silêncio, Gasco. - era um breu iluminado somente pela Lua, milhões de quilômetros quadrados de areia e dunas ladeando a estrada - Sabe o quanto isso é preciosos?
__ Não vejo o silêncio da mesma forma que você, mas admiro, de qualquer maneira. Fala ai vai. Como foi que começou nisso?
__ Cê ta estudando o mapa como mandei?
Ele chutou um pouco de terra e pediu um cigarro. Respondeu que sim.
__ Então descreve a nossa rota.
__ Estamos trinta quilômetros a nordeste de Béchar. A Próxima cidade é Ghardala que fica cento e quarenta quilômetros ao sul de Djefta, que por sua vez fica quase a mesma distância ao sul de Argel. Mais para leste temos uma pequena cidade chamada Touggourt. Provavelmente vamos cruzar por cima de Ghemadiz na tríplice fronteira entre Argélia, Líbia e Tunísia.
__ Por que acha que vamos cruzar por cima da cidade de Ghemadiz? - interrompeu Chase.
__ Porque vocês disseram que há uma área de confronto mais ao norte, em Garian, na Líbia. Imaginei que o tráfego aéreo nessa região estaria mais intenso devido aos vôos da ONU e de outras nações enviando ajuda. Acho que fica mais fácil esconder um vôo nessas condições.
__ Bem pensado. Mas na verdade é porque vamos seguir o paralelo 30. Única área nessa época que é considerada neutra. Se sobrevoarmos a Tunísia os Migs-39 vão nos fazer em pedaços em menos de cinqüenta segundos.
__ E subir o meridiano 20 até Bengazi não tem perigo? - ele havia estudado - E de Bengazi até Alexandria vamos passar por Tobruk.
Chase recuou um pouco até uma área atrás do jeep, chamou Gascoin.
__ Ta vendo esse buraco? Não pisa perto dele... - afastou Gascoin de modo que ele pudesse ver o que ela ia fazer. Ficou olhando o chão fixamente e de repente, sacou a faca e cravou com força na areia fazendo verter sangue dela. Imediatamente uma cobra cinza do deserto serpenteou pela faca e Chase, então, torceu a arma e puxou rapidamente. A cobra tentou armar um bote e Chase afastou-se. Ficou olhando a cobra morrer lentamente.
__ Porque fez isso?
__ Assim não temos de usar nosso suprimento de comida.
Fez uma fogueira improvisada na areia cavando um buraco e jogando dentro uma boa quantidade de pedrinhas e um pouco da palha. Tirou a pólvora de uma de suas balas e acendeu uma fogueira com o isqueiro.
Tirou a pele da cobra com a faca, cortou a cabeça, extraiu as vísceras e enterrou os restos para que não atraísse abutres. Assou a cobra e pouco antes do alvorecer mandou acordar Lince. Foi o café mais esquisito de Gascoin, mas ele adorou.
O caminho até Ghardala foi tranqüilo, sem paragens em bloqueios. Lince alternou o volante com Chase e Gascoin, que foi ao longo do último trecho acelerando fundo e fazendo as curvas da estrada em alta velocidade.
Os dois tentaram fazê-lo ir mais devagar, mas parecia uma criança dominando o carro da areia solta. E dominava muito bem, muito melhor do que os experientes mercenários. Gascoin jamais teve carro, raramente dirigia os dos amigos quando esses tinham carro, então desenvolveu uma verdadeira paixão por dirigir.
Durante todo o caminho ele foi sendo instruído em como agir se achassem um bloqueio, em jamais sacar uma arma diante de africanos revoltosos com metralhadores nas mãos, ainda que fossem Kalashnikov AK47 de quinze anos atrás!
Depois tiveram de contar quem foi Andrei Kalashnikov e o porque do 47, pouco antes de Chase perceber que Gascoin não sabia distinguir uma arma de mão de uma arma de assalto.
A cidade de Ghardala fica no centro-norte da Líbia. Atualmente é tranqüila, todavia, até 1989 foi refúgio do SMZ, o grupo de terroristas precursor de vários outros grupos árabes. De formação política diferente, o grupo praticamente era como os policiais das velhas histórias de Carmem Sandiego: homens abobalhados, armados até os dentes, alucinados pela fixação de conseguir artefato nuclear, qualquer cientista do mundo era requisitado e muito bem pago se prometesse fazer uma ogiva. Até que um deles realmente se apoderou de uma ogiva russa. Foi quando o prazo de validade da paciência dos russos com o grupo expirou a o SMZ foi dizimado pela ainda relutante KGB.
Gascoin notou durante o caminho até o pequeno aeroporto, as marcas das antigas batalhas campais nas ruas da cidade. É hoje uma cidade de pouco mais de cinqüenta mil habitantes, com uma economia agrícola praticamente.
Está há quase quatrocentos quilômetros da costa e conserva o clima seco e quente do deserto do Saara africano. Guarda centenas de pequenas vilas de apartamentos onde antigos mercenários argelinos e ex-legionários franceses descansam com armas sob os travesseiros.
Assim que chegaram ao aeroporto tiveram de esperar por algumas horas dentro do carro. Não havia sequer um lugar para dormir dentro do apinhado hangar, que além de movimentado era pequeno.
Os comentários dos demais pilotos, mecânicos, ajudantes e carregadores, quanto à beleza da acompanhante deles eram inevitáveis. Mas ela fazia que não ouvia e deixava uma cara fechada de poucos amigos, como se fosse um homem sendo cortejado por outro.
Na manha seguinte Lince acordou os dois. Havia deixado o posto por cinco minutos para comprar mantimentos num bar perto do aeroporto e isso deixou Chase mais irritada.
Ouviram o hesitante motor do avião do amigo de Lince se aproximar da cabeceira da pista.
__Hei, Chase. Será que esse ai também vai te achar gostosa? - perguntou Gascoin sorrindo.
A resposta dela foi um soco na ponta do queixo dele. Caiu recostado ao lado do carro e antes de entender o que havia acontecido, levou uma joelhada do peito e ficou sem ar. Ela puxou o braço direito e o torceu, derrubando o cara mais pesado e alto.
__ Essa nem eu entendi. - disse Lince olhando o outro gemendo no chão.
__ Bom dia, Gasco. Se não consegue acordar esperto pra se defender não serve para o trabalho. - e saiu caminhando em direção ao banheiro masculino, único no local. Os demais pilotos que assistiram ao espancamento matinal levantaram de um salto das cadeiras e abriram caminho para a moça, quietos como alunos que levaram um xingo da professora.
Darius Manah olhou Lince quando descia do avião e ficou contente por um lado e triste por outro. Sabia que ele representava dinheiro, mas estava cansado demais pra aceitar o transporte.
__Sem problema, Darius, se precisar nós pilotamos. Temos de chegar a Bengazi, na Líbia, o quanto antes.
__ Tudo bem, vou preparar o avião. Tenho de reabastecer, lubrificar o motor e tomar uma água. Vou pedir para um dos mecânicos fazer uma checagem e nós saímos. Enquanto isso carregue o que quer, mas não esqueça, somente o necessário.
Darius era um homem prático e sem grandes perspectivas. Grana bastava quando era suficiente para aquele mês. Mal olhou nos rostos de Chase e Gascoin que ainda se recuperava da surra.
Lince deixou-os junto do avião e foi até o carro pegar pouca coisa. Depois, estacionou o jeep numa rua do aeroporto e o deixou com as portas abertas e a chave no contato, não duraria vinte minutos.
O avião era um Cesna 730 de dez anos de uso diário. Era o Volkswagen da aviação: abasteça e decole. Pouca manutenção necessária além de óleo e água. Era barulhento, pequeno, apertado, mas confortável em sua humildade.
Lince foi ao lado do amigo e os dois atrás.
__Hei, Chase, se eu acordar e te der um soco no estômago, também vai fazer parte do seu programa de treinamento? - Gascoin estava bravo.
Ela afirmou que sim a cabeça.
__Depois segura a onda... - ameaçou. Ele desistiu da vingança.
O pouso em Bengazi foi calmo apesar de ter ocorrido no meio de uma pista esburacada e com carros chamuscados dos lados. Darius disse que teria de decolar imediatamente e que abasteceria em outro lugar. Por imediatamente ele quis dizer mal tocar as rodas no solo.
Lince virou para a parte de trás da aeronave e fez um gesto que Chase entendeu rápido. Ela sacou a arma, destravou e puxou o percussor em cima. Apontou para o assoalho aeronave e ficou olhando pela janela.
__ Ai, Gasco! Pega tudo, rápido. Temos que sair correndo. Pode ter gente aguardando pra nos prender!
Ele foi juntando tudo de qualquer jeito e também se pôs a procurar pessoas nos arredores da pista.
O Cesna iria pousar, taxiar até o final da pista, virar cento e oitenta graus, acelerar novamente e subir. Sem parada. Chase para ele pular do avião quando ela mandasse, e que caísse em pé, do contrário poderia não ter tempo para se levantar.
No meio da manobra de virada eles desceram, Gascoin primeiro com o que pode pegar nas mãos. Lince e Chase um de costas para o outro apontando suas armas para todas as direções.
O líder de campo havia deixado o dinheiro da viagem com o piloto antes da descida, portanto, a única coisa que tinham de fazer era saber para onde ir. Lince havia visto o mar da janela esquerda do avião. Fizeram uma curva de quarenta e cinco graus à direita e desceram, então, o oceano devia estar a sudoeste de onde eles estavam.
__ São onze e trinta da manhã - ela olhou o sol - temos de estabelecer um curso para o mar e rápido.
__ Estou vendo pessoas do outro lado. - disse Gascoin num inglês ruim de entender.
__Quantos?
__Umas doze pessoas. Estão abastecendo um carro e olhando o céu.
__Procuram pelo avião. Deve haver gente aqui. Temos que sair dessa pista Lince, isto é campo aberto.
__ Tudo bem, tem uma casinha ali do lado... - Gascoin deixou os dois antes que dissessem qualquer coisa.
Uma rajada de metralhadora levantou uma fileira de pó ao lado dele. Abaixou um pouco pelo susto e correu para a fachada da casa. Lince e Chase não haviam disparado nenhum tiro e correram para o limite sudeste das matas de cercavam a pista simples.
Quando chegaram à mata viram sua saída. Mas agora o grupo estava separado.
Chase olhou Gascoin que estava recostado na parede da casa, do lado de fora, tentando saber de onde havia vindo os tiros. Segurava nas mãos as coisas que tirara do avião e não sabia para onde correr.
Tinha de cruzar a pista de cinco metros de largura e correr vinte metros até onde seus líderes estavam. Não seria fácil.
__Já era, ele será fuzilado assim que sair dali. Não acredito que andamos até aqui pra acabar agora!- Reclamava Chase.
Gascoin soltou as coisas no chão e virou-se para a parede. Havia uma janela fechada, mas de parapeito largo. Ele subiu e notou que os tiros continuavam indo na mesma direção, portanto, os atiradores não o viam.
Chegou ao telhado com facilidade e viu dois homens abaixo dele com metralhadoras. Eles pararam de atirar por um segundo para ver o que haviam atingido. Gascoin saltou do telhado direto sobre os dois.
A arma do homem da esquerda caiu levando-o também para o chão. O da direita desequilibrou-se e Gascoin teve tempo de desarmá-lo puxando o fuzil de sua mão. O primeiro golpe foi uma coronhada no nariz, que imediatamente começou a sangrar e fazer os olhos lacrimejar.
Virou-se girando a arma e atingiu a boca do segundo homem com o cano abrindo um rasgo do lado do rosto. Chutou o que estava atrás, apontou-lhe a arma atirou. Sentiu trancos tão fortes que por pouco não a deixa cair.
O sangue precipitou-se como um pó no ar, vindo do tronco do infeliz. O segundo procurava chamar os demais que estava rindo do outro lado da mata nos arredores da pista. Enquanto ele levantava o cano da arma, Gascoin deu-lhe um uper com o cotovelo sob o queixo e pegou sua metralhadora antes mesmo de o indivíduo cair no chão.
Ainda aguardando o desfecho da coisa toda, os dois viram quando Gascoin saiu de trás da casa portando as duas armas e correndo para onde eles estavam. Parou no local onde subiu, pegou as coisas que estavam no avião veio trazendo tudo meio desajeitado.
Os demais membros do grupo dos atiradores haviam acabado de pousar uma aeronave clandestina no aeroporto, carregada de drogas, e estavam abastecendo os carros para sair dali.
Um deles foi designado para ver porque seus companheiros estavam atirando e encontrou-os caídos, um deles morto com uma rajada no peito. Avisou os demais que logo que chegaram à pista, não acharam ninguém.
Os três estavam agora escondidos dentro da mata, mas sabiam que o menor movimento iria chamar atenção do grupo armado, eram dez homens, e não doze como havia imaginado Gascoin.
__ E ai, Lince? - perguntou Chase.
Enquanto ela falava, ele já aparafusava um silenciador no cano de sua Imbel. Três tiros e rolou para esquerda, mais dois tiros e recuou um passo, dois tiros, rolou para frente, três tiros, dez homens mortos.
__Vamos sair logo daqui.
Gascoin ainda estava de boca aberta.
Não perguntou o que fariam com aqueles corpos todos porque a resposta provavelmente iria assustá-lo mais.
Eles deixaram os limites do aeroporto e chegaram com facilidade a uma estrada de terra deserta. Sentiram imediatamente o cheiro do mar que estava logo além de uma colina de uns dez metros, do outro lado da estada diante deles.
Depois de passada a adrenalina, Gascoin passou a sentir-se mal. Chase explicou que era a primeira vez que ele matava alguém e que era bom ir-se acostumando, do contrário, podiam parar imediatamente.
Existiam coisas que Gascoin não entendia, mas que brevemente ficariam claras para ele. O pouco que compreendia sobre o que era aquele grupo bastava pra fazê-los acompanhar e observar.
A visão do mar era sempre maravilhosa. Chase particularmente adorava o mar. Foi a primeira vez que Gascoin a tinha visto sorrir de verdade, sem ter feito maldade a alguém. Dali embarcariam numa traineira de cabotagem alugada num dos escritórios do porto fétido e mal cuidado dos pescadores.
Havia uma que partiria na manhã seguinte, antes do amanhecer, para Alexandria, levando pescado e ovas em conserva para serem processadas nas indústrias de alimento egípcias. Novamente um navio, novamente uma tripulação, porém, esta era bem menor e desconhecida.
Lince havia dito a Gascoin que não mexesse nas coisas de ninguém, se alguém ali achasse que eles eram inimigos, virariam comida de peixe em segundos, mas o mais preocupante, segundo Gascoin mesmo disse, era sua carga mais preciosa e a que mais atraía atenção dos homens de bordo, Chase.
Eram o capitão, dois marinheiros, um maquinista e um taifeiro, mais o cozinheiro, um italiano gordo de uns cinqüenta anos que de pronto, acendeu um sorriso molhado assim que a Loura embarcou.
Contando a pequena curva que teriam de fazer para vencer o acidente litorâneo da Líbia, eram seiscentos e cinqüenta quilômetros até Alexandria. No segundo dia de viagem, Chase já era vista como presente de Deus àqueles famintos homens do mar.
Gascoin não desgrudava dela um segundo sequer. Lince mantinha os olhos nas coisas deles, já que boa parte da pouca bagagem que traziam era composta de armas, munição e equipamentos para receber instruções do comando geral.
Seriam cinco dias de viagem naquele barquinho medíocre. Na noite do terceiro dia Gascoin fumava um dos cigarros oferecidos por um dos homens e ajudava na limpeza do convés, entre uma bruma espessa e gélida.
Os demais homens sabiam que àquela hora, a temperatura no mar mediterrâneo podia chegar a seis graus devido à sucção das correntes de ar quente para cima através dos desertos, incapazes de armazenar calor em seu solo pobre.
Eles não conseguiam acreditar que aquele jovem de sotaque confuso estivesse realmente trabalhando somente com uma calça de brim e botas, sem camisa e ainda conseguia suar, contrariando os demais que estavam bem agasalhados e sentindo frio. E ainda havia aqueles olhos brancos...
Nessa noite o cozinheiro resolveu que era hora de satisfazer suas necessidades sexuais e melhor, não precisaria recorrer ao maquinista. Deixou parte de suas ferramentas de trabalho sobre a mesa de preparo e foi até o alojamento que havia sido designado para a passageira, pelo próprio capitão, sob ordens de somente ela e quem ela convidasse, podiam entrar ali.
O comandante daquela pequena embarcação era um senhor de setenta anos, beberrão, mas que adorava sua vida, seu trabalho e sua família. Adorava em especial sua neta mais velha, filha de seu filho falecido num acidente. Era uma bela jovem loira de olhos claros, vagamente parecida com Chase, mas foi o suficiente para ser protegida pelo capitão.
Ainda assim o cozinheiro achava que teria o apoio de seus companheiros tripulantes e que todos poderiam fazer uma festa com a beldade. Entrou no quarto de Chase portando um dos únicos instrumentos de trabalho que não havia deixado na exígua cozinha do barco, uma faca velha e cega.
Ela estava recostada na cama olhando pela escotilha quando virou-se para o homem corpulento na porta, sorrindo e medindo-lhe as curvas perfeitas. "Nem pende nisso, gorducho" disse Chase, mas não adiantou, mesmo assim o homem pesado investiu contra ela.
Chase podia ser linda, podia ter sido usada em diversas ações exatamente por ser deslumbrante fisicamente, mas era, sem dúvida, a mais letal dos três.
O primeiro chute foi ainda sentada na cama e atingiu em cheio o queixo do gordo, que talvez por isso mesmo não tenha sentido muita coisa. Ele apenas cambaleou e sorriu.
Do convés, Gascoin, Lince e os demais homens da tripulação viram o gordo atravessar a pequena porta e cair quase morto diante deles. A porta era realmente pequena e normalmente ele passava por ela com dificuldade para descer até seu local de trabalho, naquela hora passou como se fosse uma criança.
Achando se tratar de um assalto a bordo ou um motim contra seu capitão, os homens da tripulação seguraram Gascoin por trás e o atiraram no mar, mas mesmo dentro da água pôde se segurar numa corda que ficava pendurada à amurada.
Lince abateu um dos homens, mas outro sacou uma arma velha, calibre 22 e apontou para eles, o gordo começava a acordar, o desgraçado era forte para levar pancada.
O homem armado mandou que eles parassem e que se rendessem, não queria saber o motivo da briga, mas iria chamar a guarda costeira e mandar prendê-los, ou os mataria li mesmo.
O capitão disse para baixar a arma. Na escuridão da noite não queria gente atirando em seu barco. Gascoin então levantou-se da água e pôs-se em posição de luta sobre o convés. Os outros homens olhavam para ele com espanto ainda maior. Até seus pares olharam assustados.
O mar àquela hora devia estar congelante. Uma quantidade considerável de fumaça saía de seu corpo. A distração dele foi suficiente para que Lince baixasse sobre os calcanhares e desse um golpe que Gascoin usaria muito no futuro: com um pé apoiado na amurada ele projetou o corpo para frente e deu no ar, uma cambalhota com a cabeça há poucos centímetros do chão. Quando atinge o oponente com os pés nos joelhos, a velocidade e peso são tão grandes que as duas patelas se desfazem, trazendo ao chão um inimigo sem sustentação e em síncope pela dor.
Desarmado o mais perigoso, Lince pegou a arma e calmamente perguntou ao capitão se havia mais armas a bordo. Este disse-lhe que não deveria haver nem mesmo aquela que ele portava. Lince, então, compreendendo que o capitão era um homem sensato, entregou-lhe o revolver enferrujado, carregado e travado.
O capitão entendeu a reação da moça. Condenou à um par de algemas seu cozinheiro e pediu socorro médico urgente para a guarda costeira egípcia para um de seus marujos que havia caído do teto da ponte e se ferido nos joelhos.
Essa decisão foi sábia, aquele homem tinha seus meios para manter um barco organizado e harmônico.
Logo que chegaram a Alexandria, Chase olhava Gascoin como se visse uma coisa estranha e pegajosa.
__Que foi? - perguntou ele enquanto caminhavam pelas ruas estreitas repletas de bazares, no distrito do porto de pesca do lado oriental dos 900 alqueires do porto geral da cidade.
__ Você é a coisa mais esquisita que eu já vi. Não sente frio?
__ Na verdade sinto, mas não como você.
Se soubesse de onde ela vinha, então teria certeza de que o frio que ela estava acostumada a sentir, para ele seria uma praia num verão tropical.
Então aquela era Alexandria. Pensava Gascoin olhando o movimento do porto. Fundada em 334 a.C., a cidade era um marco mundial, uma jóia da história humana. Havia sido reconhecida com o berço do conhecimento do homem por sua biblioteca imponente com título que fariam pesquisadores ajoelhar e agradecer por serem humanos, conta ainda com praias turísticas, aeroporto internacional importante, e o mais fascinante de tudo segundo o que achou Gascoin, a arquitetura.
Em parte quando se anda pelas ruas da cidade moderna pode-se ainda ver traços da antiga decoração bizantina, da ocupação árabe, dos tempos da invasão de Napoleão em 1798, e próximo ao Saad Zaghlul Square, nota-se o que ficou da libertação inglesa.
Eles logo tomaram um táxi. Gascoin queria saber para que cidade iriam agora. Estava cansado, com fome, com sono, chato como uma criança nas mesmas condições. Havia outro problema. Assim que foi retirado do Brasil, setenta e cinco dias atrás, somente as roupas que usava foram trazidas, as outras, apenas mais duas mudas estavam sendo lavadas constantemente e estavam praticamente inúteis.
Chase explicou que agora não viajariam mais, que parasse de reclamar e que em breve ele teria um pouco mais e conforto do que havia tendo nos últimos dias. O carro foi passando da parte portuária da cidade, mais antiga, para a parte moderna.
Nessa parte havia uma grande avenida com movimento moderado de carros, motos, pessoas fotografando a paisagem, passeando com cães e tomando sorvete nas calçadas, namorados apontando o mar, senhoras e senhores idosos relaxando à sombra das palmeiras da Alex Corniche.
"É uma cidade turística", pensou Gascoin imaginando algo absolutamente diferente, como se vê nos filmes. O carro era confortável, mas não identificou a marca. Corria tranquilamente pela avenida e conforme afastavam-se da área da praia, a paisagem foi ficando diferente no que dizia respeito às casas.
Subiram por uma ladeira cheia de curvas e entraram no bairro Kian Amenefes, o mais rico da cidade. As mansões eram enormes, com jardins espetaculares e em várias podia-se ver dezenas de empregados trabalhando.
A que chegaram era de cor ocre, onde havia uma entrada para carros curta que terminava sob um pórtico bem em frente à grande porta de entrada. A mansa ficava do lado direito da rua extremamente limpa e decorada.
Era uma casa moderna, ainda que conservasse estilos de arquitetura com detalhes conservadores como pé-direito muito alto, como era costume nos tempos antigos para diminuir o calor.
Gascoin calculou que o fundo da casa devia dar para a cidade abaixo, mas não previu uma vista como aquela. O carro que os levava foi recebido por um funcionário que não sorria, apenas olhou dentro do carro e reconhecendo parte dos ocupantes, mandou que estacionasse nos fundos.
A mansão tinha sua face sul voltada para uma encosta que se precipitava acima das águas do Mediterrâneo. Logo que a porta foi aberta Gascoin sentiu-se novamente mal bem calor.
__Relaxa, a temperatura lá dentro é controlada.
As poucas coisas que levavam: duas bolsas pretas de couro e lona, que abrigavam armas, pentes extras, material de higiene dos três, remédios e algumas trocas de roupas misturadas, foram levadas para dentro pelo mesmo funcionário que abriu o portão.
Assim que entrou, Gascoin deu um assobio pela decoração. Jamais imaginaria que sua vida daria aquela virada, de um apartamento vagabundo socado num bairro desgraçado de uma cidade violenta e estressante, para uma mansão em Alexandria.
__É aqui que vamos trabalhar?
__Não, idiota. Vamos embora em poucos dias. Depois de recebermos novas instruções do contratante. - disse Chase tirando a capa pesada, a blusa, as botas e atirando-se num vasto sofá somente de calça de combate com diversos bolsos laterais e sutiã.
Gascoin ficou parado olhando para obviamente o que tinha de mais novo e interessante na decoração da casa, até que Lince lhe deu um cutucão nas costas para voltar ao mundo real.
__Deixa de ser panaca, Gasco. - disse o líder de campo em voz baixa, rindo.
__A senhorita simplesmente tira a roupa quando tem vontade? - perguntou Gascoin.
A resposta dela, de olhos fechados e cabeça atirada pra trás, foi com o dedo médio da mão esquerda.
Estariam na casa o tempo necessário para que a preparação de Gascoin começasse, e seria no dia seguinte, sem que ele soubesse.

Cinco horas da manhã. Temperatura média em Alexandria era de 32 graus. Gascoin dormia de cuecas numa cama de casal macia e confortável. Haviam jantado muito bem uma comida solicitada por Lince ao cozinheiro da casa que contava somente com empregados, sem patrão no local.
Apesar da cama muito boa ele se sentia desconfortável pelo calor e dormia mal. Acordou com um estrondo metálico dentro do quarto e um balde de água quente no rosto, quente demais.
Sentou na cama em segundos. Chase estava em pé ao lado dele vestindo roupa de ginástica de tecido especial, fresca e confortável. Deixou ao lado da cama uma calça de combate preta, um capote pesado de brim e uma máscara de lã preta. Coturnos militares e meias de lã completavam o uniforme.
__ Se veste, idiota. Vamos correr. - e saiu do quarto.
Ela devia estar brincando...
Uma hora depois a temperatura havia subido para 38 graus e Gascoin não conseguia mais erguer as pernas. Era a terceira vez que ela subia a ladeira que dava acesso a casa e Gascoin tinha de segui-la.
No meio do caminho ele caiu de joelhos e deixou a cabeça fazer o terceiro apoio. Chase voltou e olhou o corpo estendido.
__Qual é cara? Ta achando que vai trabalhar nisso e continuar com essa barriga horrível? Levanta daí agora e põe essa bunda pra correr ou te arrebento à toa seu cretino, fracote, garotinha mimada que não devia ter saído da caminha no Brasil naquela manhã...
A motivação o fez ficar novamente em pé. Deu mais dois passos com que gritando atrás e caiu novamente. Vomitou o jantar dentro da máscara de lã.
Chase tirou a máscara e o resultado no rosto de Gascoin era pavoroso. Suor e vômito em meio aos olhos brancos e cabelos pretos escorridos sobre a face. Ele parecia delirar.
__Gascoin não me importa se você vai morrer. Só que ou você morre agora, no treinamento, ou morre em campo com uma bala na cabeça. Escolha o que é mais digno.
Ficou deitado um bom tempo e ela subiu novamente até a mansão. Ele chegou depois de uma hora, extremamente irritado.
__Sua treinadora está na sala de musculação, senhor Gascoin. - disse Arkam, um dos empregados da casa.
Gascoin limpou-se rapidamente no banheiro e voltou para onde o senhor Arkam estava. Ele cuidava de uma das plantas do jardim interno.
__Eu não vou lá, Arkam! De jeito nenhum! Essa maluca tentou me matar!
__Devia ouvir o que diz a senhorita Chase. - disse o calmo homem podando as folhas. Arkam era o empregado menos visto dentro da mansão, mas o único que falava com Gascoin.
__ O que ela vai fazer agora? Mandar levantar uma tonelada de peso?
Na sala de musculação Gascoin teve de fazer cinqüenta flexões com Chase sentada em suas costas, das cinqüenta ele fez vinte e no momento de socar o saco de pancadas, que se recusou por extenuação muscular, Chase lhe torceu o braço atrás do corpo de manteve assim.
__Só vou soltar quando disser que a dor passou, Gasco! E pára de gritar!
Naquela hora o senhor Arkam estava limpando as paredes de vidro da sala. Lince entrou e o cumprimentou. O pacato senhor Arkam apenas fez um gesto com a cabeça, discreto.

Segundo dia de treinamento. Acordou com dores lancinantes em todo corpo. Chase novamente o pôs para correr sob o sol, só que desta vez era ela quem usava a roupa pesada e ele a leve. Sentiu-se melhor nas primeiras cinco subidas da ladeira, mas não agüentou a sexta e ficou novamente caído, enquanto ela subia como um gato.
Chegou a casa enquanto ela tomava um suco de laranja na cozinha.
__Vergonhoso. - ela disse e foi até a piscina - Você vai para os pesos. Faça três series de elevação lateral com os braços com anilhas de dez quilos e seus braços tiverem um estiramento muscular eu quero que você se dane.
Ele terminou sua série e foi até onde ela estava. De biquíni sem a parte de cima tomando sol.
__ Tem oito carros naquela garagem. Estacione-os no sol e comece a lavar. Peça as coisas ao Arkam.
O paciente Arkam apenas o ajudou a manobrar os cinco Hamvees e as três limusines Pontiac até o pátio de entrada. Demorou quatro horas.
Essa rotina de exercícios durou duas semanas.

Cinco da manhã. Acordar e correr. Ele estava de pé aguardando a entrada dela no quarto. Passou o tempo e nada. Ele saiu e os dois estavam lendo o jornal durante o café.
__ Qual é? Não vai ter tortura hoje?
__ Não é pra ser tortura, sua besta. Estou fazendo isso porque vai precisar. Pode fumar e beber o quanto quiser, mas tem de estar fisicamente preparado pra assumir os riscos necessários nessa profissão. Honestamente Gascoin, esquece. Se quiser pegar o próximo avião para o Brasil, está liberado.
Chase saiu da mesa e deixou Lince olhando pra ele.
__Isto, senhor Gascoin, significa que seu treinador o está abandonando. Por motivos óbvios, imagino que tenha notado. Se quiser ficar no Egito, o centro da cidade está repleto de bons hotéis que certamente o acomodarão muito bem.
Henri Gascoin ficou apenas olhando.
__ Seus documentos acabaram de chegar de Europa. Passaporte francês, carteira de motorista da União Européia, certidão de nascimento falsa constando que o cavalheiro nasceu em Louversines, arredores de Paris, datada de seu aniversário verdadeiro. Histórico escolar de uma escola pública na França que fechou há anos e claro, seu pagamento por seis meses de recrutamento, aproximadamente.
Gascoin olhou o maço de notas dentro um envelope.
__Quanto é que tem aqui?
__ Setenta e cinco mil euros. Indubitavelmente achará um hotel a altura de suas necessidades. - Lince simplesmente continuou olhando o jornal.
O novato jogou o maço de notas sobre a mesa, pegou seus documentos falsos novíssimos e voltou ao quarto. Depois de guardas tudo no criado-mudo ao lado de sua cama foi até onde Chase estava.
Em um ponto isolado da casa, próximo aos limites da colina ela atirava com sua arma, silenciada para não despertar os vizinhos, num alvo de papel cinqüenta metros distante.
Gascoin chegou usando a farda de combate com que ela o fazia correr.
__ Não vai desistir? Tem certeza? Ta mesmo afim de pegar firme no treinamento?
__ Sim senhora!
__Se eu ouvir mais uma reclamação sua está fora do Grupo imediatamente entendeu?
__Sim senhora!
__ Vai fazer exatamente o que eu mandar, na hora em que eu mandar e vai adorar isso! Estamos entendidos, senhor Gascoin?
__Sim senhora!
__ Esqueça a rua, angule a esteira de corrida depois de colocá-la sob o sol e corra o mais rápido que puder pelo tempo que agüentar.
__Posso pedir somente uma coisa, senhora?
__Que é que ce quer agora?
__ Se importa que eu ouça música enquanto faço isso? Vi um aparelho de mp3 sobre a mesa da sala e acho que me faria bem, senhora!
__Faça o que quiser...
Ouvindo um bom e velho rock'n'roll e depois de passar pelo cagaço de perder o emprego mais interessante que ele já havia tido, Gascoin passou a treinar pesado e psicologicamente ficou mais resistente ao calor, mas seu corpo ainda não tolerava temperaturas normais naquela região.
Enquanto ele se recuperava do desmaio na esteira, Lince se aproximou de Chase.
__Ele não vai desistir. Se quisesse fazê-lo teria pego aquela grana e ido embora. Só acho que você devia pegar leve quanto a essa coisa de calor. Não esqueça o que você mesma passou pra ter esse corpo, Chase.

Terceiro mês em Alexandria. Enquanto Chase e Lince saíam para tomar umas cervejas nos bares da área dos hotéis, Gascoin dormia cedo e treinava duro o dia todo. Estava ficando resistente fisicamente com uma velocidade alarmante. Chase não o obrigava a passar calor, mas tinha de carregar uma mochila com as anilhas de dez quilos enquanto corria.
Não mais reclamava ou choramingava. Com Arkam estava fazendo uma amizade mais sincera do que a que tinha com os dois. A viagem até ali tinha sido uma diversão para Gascoin, agora era treino, e que diabos, se o pagavam para fazer exercícios, que fosse assim!
Ao décimo quinto dia daquele terceiro mês, Lince começou a ensiná-lo artes marciais de combate desarmado.
__Vamos começar com Muaitai.
Nos dias seguintes sempre depois da corrida e da musculação ele tinha aulas de combate corporal.
__Hoje vamos de Kung-fu. Isto é um catí... - e começou as séries de movimentos combinados que se encaixados numa luta dão grande resultado.
Gascoin tinha facilidade de aprender. Seu corpo estava se moldando rapidamente. Não tinha mais as costas arqueadas e seu metro e oitenta estava mais visível. Pesava noventa e dois quilos com percentual de gordura de um atleta, ainda era o menos resistente dos três, mas estava gostando do resultado.
Depois de um tempo estava lutando com Lince quase em pé de igualdade. Chase disse que a noite ele deveria escolher alguma coisa para estudar.
__O que a senhora mandar. - disse bem sério.
__ Estude o que quiser, Gasco... Alguma coisa que seja importante para o campo de batalha: tecnologia, química, armas, qualquer coisa.
__Senhora, gostaria de material para estudar medicina, senhora.
Ela soltou o livro e tirou os óculos de leitura, finos, mas necessários, e olhou pra ele com jeito de quem não entendia o que ele dizia.
Lince mandou um empregado até uma livraria do centro onde foram comprados exemplares de livros de anatomia, fisiologia, bioquímica, biologia, histologia, patologia e técnicas cirúrgicas básicas.
Gascoin mantinha sua rotina de treinamento físico, agora enriquecido com combates marciais, conhecimento em técnicas de invasão furtiva que Chase lhe mostrava numa casamata construída nos fundos da área da mansão exatamente com esse fim, conhecimento em armas, tecnologia militar, computação e à noite, ele ficava dentro de seu quarto lendo os livros de medicina e desenhando o que imaginava que estava certo.
Com o tempo um médico local foi designado para ajudá-lo nesses estudos e as coisas foram ficando mais claras.
Numa das madrugadas quentes da cidade, o novato saiu da cama e foi tomar uma cerveja na varanda com vista para o Mediterrâneo. Chase estava sem sono e foi acompanhá-lo.
__ A senhora tem re