BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina
A Arvore De Dinheiro Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por João Batista Drummond, em 04-02-2008 11:41
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 2686    
Favoritos Nenhum


Brejolândia acordava ao canto da passarada. Era primeiro de janeiro de 2001. O velho Arlindo como sempre, abriu a janela que dava para o pomar preparando-se para a ginastica matinal.

Nicinha, que passava um fumegante e cheiroso café de produção caseira, assustou-se com  um grito vindo do quarto, a ponto de deixar o café entornar na pia.

- Meus Deus, é o Arlindo!!!

Gritou, correndo aflita e já pensando no pior, (um ataque cardíaco por exemplo).

Viu o velho parado em frente à janela apontando em direção ao pomar.

- Que é isto gente?

Repetia o velho sem parar. Nicinha olhou para o local em questão e lá estava ela... a arvore mais estranha que já vira em toda a sua vida.

Nicinha não se conteve, levou as mãos ao rosto e pôs a correr e a gritar:

- Ela nasceu, ela nasceu!!!

Dona Maria a mulher do caseiro, veio em seu socorro com um copo de água com açúcar.

Nicinha começou a se acalmar e a tomar respiração. Disse ela:

- Arlindo, estamos ricos, nasceu a árvore de dinheiro.

- Pirou de vez, Nicinha, que negocio é este? (retrucou o velho Arlindo).

- É o seguinte, meu velho, alguns meses atras Dona Carlota me passou uma simpatia que segundo ela, ao ser executada na virada do milênio faz nascer uma arvore que dá dinheiro. Ontem à noite eu fiz a tal simpatia e funcionou, nasceu a árvore de dinheiro.

À medida que a noticia ia sendo assimilada o humor lá no sitio passava da perplexidade e espanto para pura euforia.

Arlindo e Nicinha começavam a fazer planos e mais planos. Dizia Arlindo:

- Vamos reformar a casa, comprar mais gado, comprar uma TV de tela plana 29 polegadas, um Palio zero..

A lista de gastos crescia mais do que puxa-saco na porta da prefeitura sob nova gestão. Os nervos estavam em frangalhos, todos querendo falar ao mesmo tempo.

- Precisamos tomar cuidado com nova arvore, não deixar a noticia se espalhar, contratar seguranças, arrumar uns quatro rottwaillers, colocar cerca elétrica.

E os dois velhinhos começaram a cuidar da estranha árvore, com seu tronco curto e grosso e seus galhos desproporcionais. Aguavam, limpavam, tiravam as ervas daninhas todos os dias.

Alguns tempos depois a árvore começou a dar flores e uns frutos que mais pareciam uns enrolados de salsicha.

- Como esta arvore cresce depressa, daqui a pouco as salsichas vão se abrir e as notas de 10, 50 e 100 reais vão aparecer, ( explicava Nicinha já bastante entendida em arvores de dinheiro).

- Diz Dona Carlota que esta árvore só dá dinheiro ma única vez, depois ela morre, mas desta única vez dá dinheiro prá valer.

Toda manhã o velho Arlindo levantava mais cedo e ia conferir se alguma nota já aparecera. Mal continha de sua ansiedade.

Num daqueles dias foi conferir e deu um berro:

- Nicinha, estamos arruinados.

- O que foi meu velho, o dinheiro morreu.

- Pior Nicinha, muito pior. Esta arvore está dando só promissórias, duplicatas etítulos em nosso nome. Estamos endividados para o resto da vida. Alguma coisa você fez de errado.

- Não fiz nada errado Arlindo; (dizia ela tentando e lembrar).

- Naquela noite eu ia para o pomar fazer a simpatia quando o peru da ceia começou a queimar, aí eu pedi ao Clebão para fazer o ritual para mim.

- Clebão; ( já gritava o velho) , apareça homem.

Clebão tinha sumido, não era achado em lugar nenhum do sitio.

- Aquele caipira duma figa me aprontou alguma.

À tardinha o velho se aproximou sorrateiro do barracão do caseiro que estava em um canto da cozinha, tomando sua sopa.

- Clebão, largue aí esta sopa e me acompanhe agora.

- É prá já seu Arlindo.

Foram até o local da arvore onde Nicinha já estava chorosa.

- Explique aí pro Clebão, Nicinha.

- Diga-me uma coisa Clebão, você seguiu direitinho todas as instruções que lhe dei no caso da simpatia.

- Claro Dona Nicinha, fiz tudo como a senhora mandou.

- Fala a verdade, homem, senão eu solto os cachorros prá cima de você, (disse Arlindo).

- Bom, realmente eu mudei uma coisinha de nada. Naquela noite o Atílio, o Duarte e o Zé da Ema vieram me chamar para tomar umas cachaças e jogar sinuca lá na venda do seu Antonio. Aí como eu não tinha dinheiro, só o dinheiro que a senhora mandou enterrar, os três que são da prefeitura de Serra Bonita falaram que eu podia enterrar no lugar do dinheiro, os contra-cheques deles, que o santo não ia notar nada. Fui acreditar neles e deu no que deu. Agora eles me garantiram que o prefeito que saiu é um homem muito bão e vai honrar todos os seus compromissos...

Clebão parou a frase no meio e saiu em desabalada carreira, tendo ao seu encalço o velho Arlindo armado com o cabo da enxada.

- Eu te mato seu safado, fazendo maracutaia até em cerimonia religiosa.

Nicinha viu os dois sumirem no milharal enquanto pensava em como um sonho lindo se transformara de repente num pesadelo dos mais cabeludos.

 


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >