MICROFONE SEM FIO Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Carmelo Vitorino da Costa, em 23-03-2008 18:52
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Tempos atrás, numa manhã, precisamente janeiro de 1980, alguém pegou um ônibus da Caririense rumo à Juazeiro do Norte - CE. Não levou bagagem, pois a visita seria curta e possivelmente nem lá almoçasse. Apenas um pequeno pedaço de papel com algumas anotações: Transistores, solda, um esquema de TV Telefunken, uma lente de aumento, algumas ferramentas e o mais... estava na cabeça. A viagem de ida foi rápida - consertaram o asfalto a partir de Pena Forte - e, o ônibus freou, por volta das 9:00 horas na terra do meu Padim. Não era tempo de romarias e por isso o movimento aparentava fraco, mas sabia o viajante ser essa a melhor época de se comprar sem se expor aos assaltos - eventos muito comuns naquele centro.

Após as compras e visitas a amigos ao longo do trajeto, o turista foi rever os irmãos e os pais. Foi uma festa:
- Como está a Terra da Cebola? - Pergunta a cunhada.
- Tio cadê o Surubim? - Pergunta um sobrinho.
- Bicho, se tu for ficar para almoçar, diga logo que mando a mulher colocar mais água no feijão! - Perguntou respondendo o irmão.
- Dessa vez não! Vou pegar o ônibus das 12:00 voltando!
- Coma pelo menos um pudim! Disse a cunhada.
- Vou aceitar! Disse o visitante, sabendo que aquele "pudim", era um pedaço de rapadura.
Papo vai, papo vem, quando o Roscoff marca 11:10, o romeiro se despede de todos, promete voltar com mais freqüência e pega a rua São Pedro subindo em direção ao Pirajá, ou seja: Estação Rodoviária. Alegre por ter resolvido tudo e feliz por ter revisto seus parentes, não imaginava o que estava programado para lhe acontecer nessa simples viagem.
Com uma cédula de Cz$ 5,00 o evento estaria concluído pois, seria Cz$ 3,50 da passagem e Cz$ 1,50 para o lanche. Para pegar um bom lugar no transporte, aquele passageiro decidiu tirar logo a passagem para depois comer algo e encostou-se no guichê da Pernambucana. Um cara, "de tabaco", olhando por cima do óculos fundo-de-garrafa indagou:
- Diga?
- É o ilustre quem tira as passagens aqui?
- Sou eu sim! Tá querendo ir pra onde?
- Estou querendo ir para Cabrobó!
- Vou logo avisando, que a passagem subiu: Foi pra Cz$ 4,50, mais Cz$ 0,70 da Taxa de embarque!
- Eu só tenho Cz$ 5,00?!
- Não dá meu chapa!
- Então tire até Salgueiro, de lá eu me viro!
- Infelizmente, depois da divisa, a empresa só tira Cabrobó, Petrolina e Juazeiro da Bahia. Mas vou te ajudar: Coloca teus "cinco" na poupança. Daqui a um mês tu viaja!
Essa ultima fala, afetou como uma pedrada, todos os neurônios daquele humilde passageiro, desde os ativos até aqueles que só entram em cena como últimos recursos.
Sentado num banco de cimento o pobre viajante começou a analisar aquela situação e pensou: "Isso não está acontecendo. Sou um cara direito, sapateiro, pedreiro, marceneiro, torneiro mecânico, técnico em eletrônica, gráfico especializado em Corel Draw 5.0 (em inglês) e não posso admitir que um analfabeto desse venha tirar onda comigo... Vou comer algo para melhorar o raciocínio e revidar". Levantou-se, entrou num self-service e pediu um PF. Uma mulher magra enxugando as mãos no avental, bradou:
- PF?! Isso aqui é coisa fina, pago aluguel, água, luz, sem falar na segurança!
Antes que o coitado pudesse dizer alguma coisa, uma mão na extremidade de uma braço mais volumoso que sua perna repousou sobre o seu ombro:
- Chamô sigurança patroa? Comigo é na porrada!
- Pode ir Vim-Vim! Disse a velha!
- Olhe, vou ver se dá tempo fazer uma refeição completa. Volto já! Disse o quase cagado!
Foi então até uma garapeira e tomou três copos de caldo de cana com pão-doce. Após essa fabulosa merenda, a sua visão mudou: começou a ver a aura das pessoas; sua audição passou dos 15 khz normais para 25 ou mais. Enfim, seus sentidos faziam uma varredura no ambiente, desde sussurros até imagens distantes eram detectadas com fidelidade. Ele até esperou aquilo passar, achando ser algum distúrbio enzimático em função da rapidez da ação, ou efeito da "cana" contida no próprio caldo, No entanto, outras áreas do seu cérebro concatenaram alguns planos e isso o fez novamente de pé. Dirigiu-se a um aglomerado de desocupados a contar piadas e perguntou:
- Quem tem fé em milagres? Passam-se alguns segundos e só um deles respondeu:
- Posso ter fé se a dor que sinto aqui, na boca do estambo passá!
- Pois bem, vais ser curado agora. Sigas-me! Disse aquele metamorfoseado ser.
- Como é que o senhor vai me curá?
- Não serei eu e sim a tua fé. Já comeu hoje?
- Ninhor não! Ainda não ganhei nada!
- Então comeces a ter fé!
Outra vez na garapeira, o alienígena manda moer um copo de garapa e em seguida pede sutilmente a moça, um copo de vidro com água e uma colher de fermento em pó que é prontamente trazido. Enquanto o chapeado observava a cana ser esmagada, ele mexia o produto no copo e por fim, chamou a atenção do faminto:
- Antes, bebais isso e concentrais o pensamento. Em menos de um minuto o cara disse:
- Virge, não é que tá passando?!
- Esperes mais um pouco para comeres o pão e tomares o caldo.
Estava na cara, que aquela sofrida pessoa estava com uma leve gastrite, motivada pela fome e, como fermento em pó contém bicabornato de sódio, a acidez estomacal seria minimizada. Quinze minutos depois, aquele triste estava sorrindo e perguntou:
- O senhor veio de onde?
- O meu pai me lançou nesse mundo, mas isso é outra história. Queres me seguir e ganhares algum dinheiro?
- Pra onde o Santo o for, eu vou sem querê nada!
- Divulgues então, a boa-nova: Farei uma prece às cinco horas e isso vai curar e abrir os caminhos para todos. Leves estes dois cruzados para o serviço de som anunciar.
Imediatamente, "Vinte e Oito", chapeado muito conhecido no trecho, andava pregando aos quatro ventos: "Meus amigo, se prepare para ouvir a prece. Tem um santo aqui na rodoviára que vai benzê todo mundo pra amiorá os negóços".
- Quando é que ele cobra? Perguntou alguém, observando o dinheiro nos dedos do chapa.
- Virge Maria! Ele me curô de graça! Respondeu Vinte e Oito.
- É, mas leve mais estes trocados pra ele.
Isso se repete ao longo do percurso até que o apóstolo chega à cabine, mas Enoque o locutor, já está redigindo o anúncio.
- Noque? É pra...

- Não diga nada rapaz! Já estou sabendo de tudo. Leve estes cinco cruzados e esse microfone sem-fio para o santo e cuidado com o dinheiro! Exclamou o medíocre locutor do serviço de som. Outra vez com o santificado, Vinte e Oito faz perguntas:
- Meu santo, como foi que o locutô advinhô?
- Toda rodoviária, agora está sob meu comando!
- E o dinheiro que estão dando pro sinhô? Tô cus bolso apilado!
- Depois a gente vê isso!
- Tem comerciante querendo sabê a sua conta no banco!
- Anotes aí: Banco do Brasil - 0605-x, 7.675-9!
- A coisa tá miorando, o movimento armentou e tá vindo gente do Crato pra oví a prece!
- Vai ficar melhor ainda! Concluiu o santificado.

Em pouco tempo a rua foi interditada, isso chamou a atenção de alguns padres que rapidamente acionaram a polícia. Também vieram, ver de perto, alguns médicos de um hospital próximo.

- Deve ser um charlatão! Comenta sussurrando um médico.
- Se for pai-de-santo a gente expulsa! Diz um dos clérigos.
- Pessoal, ao meu sinal desçam o pau no macumbeiro! Orienta o chefe da patrulha.

Estas pessoas, no entanto, não imaginavam que o "iluminado" estava ouvindo tudo isso enquanto organizava as pessoas para iniciar a esperada prece. Tudo pronto, muita gente diante uma parede inacabada e ao centro, uma pessoa de estatura mediana com um microfone na mão e, quando falou "Deus seja louvado!" até os cachorros pararam de latir. Ônibus que normalmente ficam poluindo, tiveram seus motores desligados e ele continuou: "A partir de hoje essa estação rodoviária não será a mesma se vocês praticarem a caridade. A nossa prece vai curar os males espirituais, os males físicos só os médicos com a orientação divina o podem fazer, pois não sou charlatão como disse um deles aqui presente. Freqüentem mais a igreja e sigam as orientações dos padres, eles representam Deus aqui na terra e expulsam os que querem desvirtuá-los, tenham amor pela polícia, pois ela é a força que nos protege até de possíveis macumbeiros."

O grupo médico ajoelhou, os padres foram saindo de fininho e os policiais começaram a receber cumprimentos do povo. Diante desse comportamento inusitado, o oficial falou para os comandados:
- Pessoal vamos circular, aqui está tudo sob controle! E se afastaram.

Uma pessoa na multidão pergunta se o santo pode curar um fonhem e este é levado para trás da parede. Outro aleijado, com duas muletas, também para lá é levado. Nesse meio tempo, o "sem mais adjetivos" orienta Vinte e Oito para locar um carro de praça e lá colocar os sacos de cruzados até o fim da prece. Opala preto, motorista de confiança e o discípulo esperam. Inicia-se então a esperada prece:
• - "Ave Maria gratia plena Dominus tectum, benedicta est in mulheribus, beneditu ventre tuo Iesus. Santa Maria Mater Dei ora pro nobis peccatoribus, nunca et in hori morte nostrum amen"

Depois de rezar a Ave Maria em latim o santo mandou que abrissem um espaço na multidão para se fazer as curas: do fonhem e do aleijado e se dirigiu para o carro enquanto os olhares da multidão se fixavam naquela parede. Já dentro do carro o "coisado" falou:

- Aleijado! Em nome do Altíssimo, jogues tuas muletas por cima da parede!

Isso foi feito e o povo as quebrou imediatamente. Outra vez o som bradou:

- Em nome do Senhor, falas agora fonhem!

- UN ALÊNJADIN CÂIU!

O carro deu a partida...


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (3)
Postado em Alfhonso, em 14-05-2008 19:52, , Membro Registado
:grin Texto maravilhoso, parabéns.
 
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Postado em Frank Oliveira, em 10-04-2008 14:04, , Membro Registado
AH,AH,AH,AH,AH. Carmelo, boa tarde meu amigo! Você além de bom escritor é um ótimo contador de piadas, rsrsrs, essa foi de balançar o coreto, o maior sarro, rsrs, adorei, meus parabéns, ok? Um abraço forte, Frank Oliveira.
 
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Postado em Raferty, em 24-03-2008 17:40, , Membro Registado
Bravo! Bravo! Leio o mais ilustre dos literatos, o cômico. Texto soberbo, descritivo na hora certa. Paragrafos para facilitar a leitura sem quebrar o ritmo. Enfim, há tempos não lia tão ilustre talento desconhecido. Grande abraço
 
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