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| O paraiso no meu quintal (trecho do livro) |
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Os homens de verde.
Os quatro caminhões verdes, grandes e ameaçadores traquejavam na endurecida e esburacada rua do pequeno povoado cordilherano, fazendo que o barulho atraísse os curiosos habitantes para as portas e janelas das casas humildes de aquele lugar Os caminhões cheios de soldados armados com fuzis e metralhadoras pesadas frearam violentamente frente à casa arvorada e singela pintada de cor mostarda. Eles desceram em tropel obedecendo aos gritos de comando. Os dois mais corpulentos, apertando os dentes e com cara de guerra chegaram até a porta e a chutaram com violência derrubando a mulher que assegurava na porta semi esgueirada. Caiu para trás num grito de dor que ecôo pelas ruas e na dor lancinante agarrava o ventre com as mãos como querendo proteger a sua gravidez. Os soldados numa tempestuosa e agitada atitude violenta, depois de entrar na casa começaram a procurar, nas gavetas, chutando portas, quebrando janelas e derrubando todo o que estava no caminho. Duas crianças abraçadas tremiam de medo. Com o pavor desenhado nos seus rostos. Os soldados as separaram com brutalidade e entre gritos e choros aterrorizados foram arremessadas para fora da casa como se fossem dois bonecos de pano. A menina no se mexia. O menino chorava colocando as mãos nos rins. Entretanto a gritaria continuava em todo o bairro porque também outras casas tinham sido tomadas de assalto. Soldados pelas ruas procurando alguém. Dentro da vivenda a cena era de terror. A mulher começou a sangrar e aos pouco o rosto foi ficando lívido. Quando a palidez se acentuou, um dos chefes mandou uma das curiosas de fora a ajudar a pobre mulher. Tentaram reanimá-la. Todo em vão. O sangue formou um tapete vermelho no chão, a mulher deixou cair à cabeça e pareceu expirar. Nesse momento Ramon voltava do seu trabalho caminhando. A mais o menos uns duzentos metros viu uma movimentação diferente na rua da sua casa, para ser, mas apropriado exatamente na sua casa. Algo de grave estava acontecendo. Começou a apresar o passo, enquanto uma angustia desesperada invadia todo o ser. Que estava acontecendo? Na medida em que ia chegando mais perto seu coração batia com apreensão descompassada e uma angustia nunca antes experimentada apertava-lhe o peito e agitava a sua respiração. -Meu Deus- Pensou. E mesmo na minha casa! Entretanto a menina já tinha voltado em si e estava chorando junto do seu irmãozinho. Um deles levantou os olhos e viu o pai a distancia. Correram chorando e chamando-lhe se agarraram da calça do pai sem poder falar nada. Ramón tentava perguntar que e o que estava acontecendo. Um dos soldados os viu e a uma voz de comando, vários outros saíram correndo até onde ele estava e arrancando os dois meninos do se lado, começaram a dar chutes e bater nele com os fuzis e com os punhos derrubando-o e arrastando-o até perto dos caminhões dando golpes e mais golpes até que um deles colocou umas algemas com as mãos para trás. O jogaram dentro do caminhão como se fosse um saco de lixo. A boca sangrava. Os olhos fechados, inchados. O nariz com sensação de dormência e a dor imensa e insuportável pelo corpo todo foram fazendo que ele perdesse os sentidos. Acordou com o traquejar do caminhão detonando seus ouvidos e por um pequeno espaço do olho dolorido que conseguiu abrir, enxergou a ponta de uma bota poeirenta e a culatra de um fuzil apoiada no piso do caminhão. Cristina Naquela posição, deitado no piso do veiculo, o corpo doía a cada movimento. O salgado na boca, a sede e aos poucos a lembrança voltando a realidade. Que havia sucedido? Tinha conseguido ver de relance o corpo de Cristina. Pareceu que estava morta. Nesses instantes não teve tempo de analisar, mais agora compreendia que as pessoas que estavam ao redor dela, na expressão de espanto, mostravam claramente, que Cristina estava morta! Quanta sede! O gosto salgado do sangue. As gracinhas dos soldados, de vez em quando um ponta pé, um xingamento. Pensou numa laranja fresquinha e suculenta. Pensou em Cristina. Quem era Cristina? Loirinha, Bonita, olhos verdes, dezenove anos, simples humildes. Pensou no momento em que fora a buscá-la na casa dos seus pais, lá ao pé da cordilheira Dos Andes, perto do vulcão do Tromen onde eles criavam cabras. Ele a trouxera nas ancas do cavalo. Atravessara córregos, pulara buracos e lentamente ao passo do cavalo foi pela neve, até a noite estrelada achá-los ainda cavalgando! Cristina vinha para cuidar das crianças. Voltou a sentir o gosto do sangue na boca e as imagens da sua mente o levaram até aquele momento em que Cristina estava chupando uma laranja. As crianças tinham saído com a mãe. A casa estava sozinha. Quando Ramón entrou, viu ela com a laranja na mão chupando ávida e gostosamente. Ele olhou com tanto desejo, que Cristina lhe oferecera esticando a mão e dizendo. Quer chupar? . . .Uma inocente malicia na candura da pergunta. Um vulcão sem controle. Chegou perto dela a tomou nos seus braços e juntou os lábios tentando diminuir a febre num beijo prolongado com gosto de laranja fresca. Cristina respondeu ao beijo, abrindo a boca e se entregando totalmente a caricia. Sem noção do tempo. Sem noção de nada. Somente os movimentos mecânicos que foram conduzindo-os até a cama do quarto do casal entre beijos e a respiração agitada e entrecortada e as mãos nervosas até arrancar a roupa e ficar totalmente nus seguindo os instintos num intenso momento de luxuria e amor. E agora ele estava ali. No duro piso do caminhão. O rosto sangrando e as mãos algemadas nas costas. Cristina a linda Cristina tal vez esteja morta com o filho gerado, também morto no seu ventre!
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