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Carta a Antônio , confissões extemporâneas Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Isabel Maria Figueiredo, em 06-04-2008 18:09
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Antes de tudo eu devo dizer:

Não pula Antônio que ainda há sonho que nos redima, não joga fora esta única vida, cheia de passado e gente obesa, não liga para este homem que quer roubar sua genitália interna! Eu sei meu amigo, este tempo que nos resta ainda custa a passar um pouco, mas não designa o concreto, leito do seu cérebro esparramado, não pula hoje que talvez amanhã, você mude de idéia. Já escreveu Nietzsche que a idéia do suicídio só consola mas não resolve, só permite que tenhamos uma certa autonomia sobre esta roda que nos esmaga as fontes; permite que o sono ampare o desespero de nossa impotência. É verdade que somos todos assim miseráveis e que a beatitude não nos foi reservada, mas Antônio, de que nos valeria a compaixão do outro, além de uma ferida que não sara na carapaça da mediocridade humana? Você não me ouve meu amigo? Porque continua então, a se estatelar no cimento debaixo da sacado do seu apartamento?
( Você sofria de cisão de alma; um homem de ratos, a vida consumida. Conheci-o por apenas alguns anos, uma vez a cada dois meses, trocávamos palavras curtas, distanciadas, como se nos víssemos numa arena representando figuras sem forma. Eu e você, sempre incompatíveis com a vida.)
Porque você teve que pular Antônio? O que houve das conversas frouxas, dos desenhos e poemas? Ainda guardo um ou dois de seus quadros, e inúmeros dizeres em letra miúda. E que vou fazer com isto agora Antônio? Jogar na terra que cobre sua cova? Tenho contas a prestar; porque você não seguiu o que mandei? Porque não se deixou cobrir por grades outras, aquelas que permitem que o controle interno se parta? Porque você mentiu pra todos ?
(Na última vez que nos encontramos, senti-me desamparada para suportar o seu desespero e sua causa, usei do artifício da nicotina, pedi que saísse um pouco , tomasse uma limonada doce e fria e fumasse um cigarro depois do comprimido. E não sabia mais o que fazer, seu pai humano-anjo-demônio, este homem que se esparrama e chama seu sexo, anômalo; ele me deu a resposta, assumiu a cria. Eu não briguei.)
Sabe meu amigo que já não sei se haveriam outras alternativas, nem outras esferas, ou pessoas. O mundo aí é melhor, Antônio? Ou eu converso com as lembranças póstumas do desperdício da sua vida ? Não há então, renascimento. Você morreu. Definitivamente.

(Ele realmente pulou e eu, como Hamlet, com muito menos nobreza , admito, fiquei engasgada , segurando o crânio nas mãos enfermas, dizendo disparates e pretendendo a loucura-esquecimento que não me carrega. )


Publicado em : Relacionamento, Cartas Diversas
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