medo, a larva e o bastardo Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Isabel Maria Figueiredo, em 06-04-2008 18:22
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Ando com medo de escrever, como se todas as minhas palavras fossem sombras do que deveriam ser. Os sentimentos são tão confusos que não dói quando esta larva gigantesca devora meu fígado. Eu a vejo engordar com meus dejetos, minhas impurezas, o álcool destilado nas minhas veias. E continuo com medo. Há um clã de demônios amputados habitando o porão da minha garganta, não consigo escrever, não sei aonde estão os bons sentimentos, as fraternas palavras dóceis, nunca as tive na língua, só estes bastardos sifilíticos que juntos, nem configuram um bom e velho diabo.
(As paredes carregam bestas que ainda se masturbam.)
Olho meus dedos, estas parvoíces de meia lua, estes não colaboram pra me trazer frieza, tenho cá estes anéis de nibelungo, a imortalidade e o desprezo, não prezo mais tanto o mundo, como deveria. E me escondo. Como um desprezível inseto, uma aranha sem veneno, um escorpião castrado, me esgueiro, sorrateira como um vírus comum, e me calo, permito que a balbúrdia tome conta do ambiente. Este ambiente que não descrevi, este estar largada, nada cabe nestas minhas palavras sem cautela.
Observo o mundo quieta e espero minha vez de receber o pagamento, a dívida de sangue que nunca se esgota. O tempo, este inferno humano, não carrega minha chama com a devida pressa, chego ao extremo do meu sonho e me reservo o direito de ficar à espera. Do sopro último, do ano que não termina, do meu cortejo e lágrimas floridas. Este tumor que carrega a larva do meu fígado, reserva para seu apetite íntimo, inúmeros giros tenros e cinzentos, que me farão falta no inferno do sono.Desde então ,a luz me atormenta muito. E não durmo. Nunca.

Publicado em : Literatura, Prosa Poética
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