Culpa do terreno baldio Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Luiz Moreira, em 08-04-2008 14:34
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O que posso fazer
se a vida me tornou antigo?!,
por sorte,
disponho da lembrança
que carrego comigo,
a criança,
ser que virou sonho,
e o terreno baldio
daquela rua da Zona Norte,
numa certa manhã,
sem alarido nem gritaria,
pulamos o muro,
uma tosca divisa,
e não havia cachorro
nem lá estava o dono
pra nos dar esporro e corrida,
e não havia outro perigo,
improvisadas as balizas,
inauguramos nosso estádio
ouvindo no rádio a gaita do Ary
que, aliás,
tocava bem perto dali,
era logo ali o Marcanã,
e a bola de meia, de borracha ou de couro
rolou e rolou e rolou,
e só parou
quando chegou o progresso,
certa vez,
foi chutada ao céu
por um chute esquisito
que deu o dono da bola,
sem ele não havia racha
e o garoto não queria ser goleiro,
no regresso,
acaso puro,
não foi parar no beleléu,
não tirou fruta do pé,
manga, goiaba, carambola,
não fez furo
em algum bonito vitral,
nem foi parar
no quintal da Dona Mimi solteira,
pois havia a casada,
gente muito fina
e mãe da Gisela,
a menina mais cobiçada,
aquela, a solteira,
megera de carteira assinada,
por alguma razão
que só Freud sabia qual era,
fazia coleção de bola de futebol
e só devolvia a mais fuleira já rasgada,
mesmo assim,
só no dia de Natal,
e sorria...
dessa vez,
não houve grilo.
a bola caiu sobre um moleque
que nela deu um jeito,
o peito foi o breque,
do peito
levou ao chão
com classe e estilo,
no chão,
deu um drible desconcertante
e um passe perfeito,
coisa de craque recém-nascido,
esguio e elegante,
se tivesse ido adiante,
seria um Didi, um Ademir da Guia,
neles igual elegância eu vi,
e havia baldios espalhados por aí,
eram campo, sede e concentração,
havia pelada
até na escuridão,
e vinham craques de todos os lados
e de muitos craques fui fã,
culpa do terreno baldio,
mas,
hoje em dia,
com tanta construção
e cabeça-de-bagre
bancando o bambambã,
mas,
jogando de tamanca e à bangu,
e tanto time na retranca
com tranca, corrente e tudo mais,
só milagre é capaz
de acabar com a nostalgia
que tanta gente sente,
só milagre
é capaz de preencher esse vazio
maior do que o do Maracanã
em dia de Fla-Flu!


Publicado em : Letras de Musicas, MPB
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