| Culpa do terreno baldio |
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O que posso fazer se a vida me tornou antigo?!, por sorte, disponho da lembrança que carrego comigo, a criança, ser que virou sonho, e o terreno baldio daquela rua da Zona Norte, numa certa manhã, sem alarido nem gritaria, pulamos o muro, uma tosca divisa, e não havia cachorro nem lá estava o dono pra nos dar esporro e corrida, e não havia outro perigo, improvisadas as balizas, inauguramos nosso estádio ouvindo no rádio a gaita do Ary que, aliás, tocava bem perto dali, era logo ali o Marcanã, e a bola de meia, de borracha ou de couro rolou e rolou e rolou, e só parou quando chegou o progresso, certa vez, foi chutada ao céu por um chute esquisito que deu o dono da bola, sem ele não havia racha e o garoto não queria ser goleiro, no regresso, acaso puro, não foi parar no beleléu, não tirou fruta do pé, manga, goiaba, carambola, não fez furo em algum bonito vitral, nem foi parar no quintal da Dona Mimi solteira, pois havia a casada, gente muito fina e mãe da Gisela, a menina mais cobiçada, aquela, a solteira, megera de carteira assinada, por alguma razão que só Freud sabia qual era, fazia coleção de bola de futebol e só devolvia a mais fuleira já rasgada, mesmo assim, só no dia de Natal, e sorria... dessa vez, não houve grilo. a bola caiu sobre um moleque que nela deu um jeito, o peito foi o breque, do peito levou ao chão com classe e estilo, no chão, deu um drible desconcertante e um passe perfeito, coisa de craque recém-nascido, esguio e elegante, se tivesse ido adiante, seria um Didi, um Ademir da Guia, neles igual elegância eu vi, e havia baldios espalhados por aí, eram campo, sede e concentração, havia pelada até na escuridão, e vinham craques de todos os lados e de muitos craques fui fã, culpa do terreno baldio, mas, hoje em dia, com tanta construção e cabeça-de-bagre bancando o bambambã, mas, jogando de tamanca e à bangu, e tanto time na retranca com tranca, corrente e tudo mais, só milagre é capaz de acabar com a nostalgia que tanta gente sente, só milagre é capaz de preencher esse vazio maior do que o do Maracanã em dia de Fla-Flu!
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