| Lágrimas de Prata - Recrutamento |
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Havia uma visão no mínimo singela sobre o lugar. O silêncio era, como dizem, sepulcral, mas em nada se assemelhava a um sepulcro, ou ao menos não como os conhecidos.
A delicadeza dos detalhes e o cuidado das mãos que cercavam o jardim era tão importante quanto a habilidade com plantas. A motivação do senhor que ensinava um jovem era a poesia. Dizia ele a seu discípulo que jamais haveria duas flores idênticas, e que jamais nenhuma seria perfeita, senão nos jardins de Buda. Aquele era um jardim de Umês. Belas flores brancas tão delicadas quando as asas da borboleta, tinham centro bege e cresciam num ambiente de extremo silêncio, como no interior de cavernas e frio, como naquela época na província japonesa de Niigata. Hirato Nizuy e seu avô Tsukamoto cuidavam do jardim com muito carinho. A casa em que estavam era deles, pequena e modesta, como a maioria das casas japonesas daquele local. A família de Hirato era numerosa. Alguns membros moravam perto, outros longe, mas sempre havia uma reunião familiar para comemorar aniversários e casamentos. Naquela tarde fria eles cuidavam do jardim para celebrar o nascimento do primeiro bisneto de Tsukamoto. O menino ainda sem nome era calmo e sereno, quase não chorava, mantinha os olhos fechados e tinha os ralos cabelos espetados. O próprio Hirato, irmão do recém-nascido, dizia que ficar perto daquela criança dava sono, isso porque o aprendiz de jardineiro tinha somente doze anos. O filho mais velho de Tsukamoto, Saito, pai do menino estava com vinte e oito anos e era um importante membro da família. Depois que seu pai lhe deixou a pequena cutelaria no centro da aldeia, ele passou a ser o senhor da família, e levava isso com extremo respeito e honra. Tsukamoto tinha agora seus dias para aproveitar cuidando do jardim e dos netos. Quando Hirato veio ao encontro do avô com duas Umês nas mãos gritando que eram quase idênticas, estancou na entrada da casa muito limpa e decorada ricamente com madeira. O avô estava muito sério diante de dois homens vestindo uniformes verdes-oliva com cintas brancas de napa e armas nos coldres ao lado da cintura. __Kodomo ie, hai! - disse firmemente, mandando o garoto deixá-lo a sós. __Umare Umê, sofu!Shiro Akaruy! - levantando as flores nas mãos, insistindo para que o avô as visse. __Ani Hirato! Titi Hito! - gritou novamente o avô. O menino correu para chamar o pai. Os soldados ficaram à entrada da casa, sob as lanternas de seda vermelhas com enfeites de dragões pendentes. O avô sempre sério jamais permitiria que aqueles homens entrassem na casa usando os coturnos militares. Hirato correu até a cutelaria e encontrou o pai concentrado, trabalhando no silêncio dos fundos da casa, afiando uma katana de lâmina cinza. Disse rapidamente o que acontecia em casa e Saito Nizuy deixou a casa aos cuidados de um empregado a voltou com o filho. Assim que entraram na rua da casa mais dois jipes do exército estacionaram em frente às casas vizinhas dos Nizuy, começava o recrutamento japonês. No Palácio Imperial Japonês o Imperador Hirohito, há dez anos no poder, recebia uma comissão ocidental. Como era costume, os visitantes foram instruídos para não olhar diretamente para o trono do Imperador, mostrando assim, respeito. Depois de uma conversa rápida entre a comissão e um assessor do jovem Imperador, os ocidentais foram cordialmente dispensados deixando nas mãos do Imperador um documento. O Imperador vinha recebendo essas visitas há pouco mais de cinco anos. A elaboração do documento traria tranqüilidade a seu povo, segundo dizia seu Ministro da Guerra de Campo, Masaro Mifune. Não era exatamente o que Hirorito queria porque não acreditava nos pensamentos do homem que lhe propôs o acordo, mas conter a ameaça comunista advinda do gigante russo sobre sua cabeça, era muito bom. Em 25 de Novembro de 1936, o Imperador Hirohito e Adolf Hitler assinavam o Pacto Anti-Komintern visando minar a expansão comunista em seus países. Isso deixaria espaço livre aos alemães para ganhar territórios a Leste e o Japão diminuiria a influência comunista na China. Na casa de Hirato as festividades haviam sido canceladas. Tsukamoto andava pelos cantos, inconformado. Hirato chorava sem saber exatamente o por quê. Obedecendo às ordens de seu amado Imperador, Saito vestia seu quimono mais nobre, passava uma espada katana pela cinta e caminhava em direção à porta. Shirori, sua esposa, veio correndo pela porta enquanto o marido já estava perto do jipe do exército, e chorava descontroladamente. Aquele era um homem honrado que aprendera a amar o Japão e seu Supremo Governante, tinha, portanto, de obedecer a sua vontade. Já dentro do jipe Saito gritou à mulher que não viesse para fora, que cuidasse do pequeno Hirato. Shirori foi contida por um soldado e ainda pôde ver brilho nos olhos marejados do marido quando o jipe começou a se afastar. __Aishiteru hime! - gritou Saito dizendo "Eu te amo, minha princesa" __Eien ai! - respondeu Shirori " Para sempre, amor" Somente daquela rua de Niigata outros dois jipes deixaram esposas e crianças chorando às portas de suas casas.
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