| A Sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafón |
|
|
|
Quando tinha lido cerca de 10% de A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón, que muitos poderiam classificar como suspense, já tinha fortes palpites sobre o desfecho da trama. Com 30% do livro lido, os palpites eram quase certezas e antes de chegar à metade já se tinham transformado em certeza absoluta. Além disso, a trama está coalhada com elementos do mais folhetinesco dos dramalhões.
Quer dizer, então, que A Sombra do Vento é uma porcaria? Não. Muito pelo contrário, é um dos livros mais legais que li nos últimos tempos e não é difícil entender por que ficou 60 semanas na lista dos livros mais vendidos na Espanha. Paradoxal? Então vamos explicar, começando pela previsibilidade. Convenhamos, 160 anos depois de Edgar Allan Poe, 100 anos depois de Agatha Cristie, 60 anos depois de Alfred Hitchcock e 10 anos depois de M. Night Shyamalan, é muito difícil conseguir ser surpreendente. Há tempos, os bons autores têm preferido escrever boas tramas, ainda que previsíveis, a contruir situações inverossímeis, e às vezes absurdas, para forçar um final surpresa. Assim, Zafón preferiu desenvolver uma trama previsível, mas muito bem alinhavada: uma viagem a um destino conhecido por uma estrada muito agradável. Agora, o dramalhão. Zafón usa esse elemento para construir os trechos mais deliciosos do livro. Isso graças a personagens chaves na trama, como Dom Gustavo Barceló e, principalmente, Fermín Romero de Torres. A reação desses personagens diante da tragédia, em vez do esperado “no puedo más vivir”, é sempre de deboche sarcástico, manifestado em tiradas geniais (há momentos em que lamentamos não ter um caderninho à mão para anotá-las). Os diálogos são o ponto forte da obra. Espanholíssimos, temperados com aqueles ditos populares que eles tanto gostam e recheados de metáforas e metonímias gastronômicas. Como é gostoso ler bons diálogos de um autor latino, cheios daquela malícia escrachada, na qual se misturam com naturalidade referências religiosas e sexuais (coisa que é tão comum para os espanhois quanto para os brasileiros e italianos, e que os anglo-saxões não fazem nem sob tortura). E há Barcelona. Talvez a personagem mais forte do livro. Mas é uma Barcelona muito diferente daquela cidade clara e bonita, pós-olimpíada, que conhecemos. É uma Barcelona cinzenta, opressiva, franquista, pré-conciliar, noir. E por falar em noir, todos os elementos da cartilha noir estão lá: crimes, traições, femmes fatales, tiras corruptos, diálogos hard boiled, protagonistas surrados quase até a morte e muito cigarro. Certamente vale a pena conferir.
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|