Sempre seremos a metade do copo. Não consigo me lembrar. Sou péssima contadora de histórias. Todos os meus personagens são bêbados ou suicidas. Todas as mulheres que me compartilham exumam meu cadáver todo dia a fim de reafirmar minha morte. E saber-me desprezível. Expõem-me as fraquezas e finitudes entre suas risadas inquietas. Saí ontem à noite, a caçar feras, estuprar donzelas, assassinar idéias, queimar a vida que não me paga o óbolo. Rape me...rape me my friend! Que é preciso. Preciso da anestesia porque viver dói. Merda de texto descontinuado! Merda de templo nublado! Merda escrita! Estive bebendo outra vez. Para esquecer o que é ser humano.
1997. Viagem para Cuba. Levava em caixinhas de jóias, 21 gramas de cocaína. Entrei no país de Fidel como uma louca,pesando 50 quilos; um microônibus esperava para me levar pra Varadero.( Tenho uma foto minha no mar de lá, quando perdi meu óculos .)
Viagem assombrada, lembro de ter passado oito horas de agonia abstinente, maldita lei contra os fumantes. Suava tanto que sentia o couro ( Couro? Talvez duvide, mas o avião parecia uma aeronave russa em que se espremeram e pregaram, passageiros e assentos, no aço-amianto daquela fornalha. ) grudar na minha pele. Olhava em desespero para a filha da puta da aeromoça que mantinha o sorriso pintado-pregado no rosto e que só me dava desculpas. Farrapos. ( Quisera ter arrancado sua saia plissada e esgarçado o olho daquele cu; naquelas horas, ou em grande parte delas, só pensava em esganar a rameira, estuprar seus vazios, cuspir nas suas omissões. )
Aterrissamos feito uma bomba, tinha engulhos e calor. Faltava-me passar na alfândega, mostrar o passaporte e verificar a mala. As jóias, trazia-as na sacola de mão, carregadas. Nada mais ostensivo de culpa que o suor que me escorria. Poderia ser presa e fuzilada. Talvez confiasse demais na minha aparência inocente.Ou só me importava o momento de poder fumar um cigarro e tomar uma vodka gelada. Sei que nem fui revistada, trazia comigo dinheiro e alegorias.
Uma lufada de ar quente, cheio de maresia, encrespou os pelos do braço e o calor sufocante do Caribe me arrancou um suspiro moribundo. Encontrei logo o motorista mal humorado e uma moça bonita. Arrastei meu espanhol de esquina e me informei se havia gelo disponível. Abri a bolsa, peguei minha garrafa de bolso, dei uma longa talagada da bebida, e enfiei dois cubos de gelo na boca.Acendi um cigarro e aspirei a fumaça gelada. Até Varadero, algumas horas de estradas estranhas e casebres me faziam dos olhos, caleidoscópios. Talvez fosse alívio, talvez incerteza, dormitei no banco macio e cheguei no hotel ligeiramente amassada. Depois tudo é enevoado, como se tivesse a memória empoeirada. A praia cheia de armadilhas, correntes aquecidas que deixam corpos amolecidos,suco natural, absoluta inexistência de população nativa ( excessão feita aos funcionários do local) , tantos fragmentos permeados pela sensação de urgência que me tomou desde que pus os pés naquela ilha, ilha que me represou tanto tempo. Estranho que ninguém possa falar nada. Que tudo seja secreto, que o pensamento pode ser ouvido e que as sandálias de tiras sejam brasileiras.
E foi numa manhã brilhante que decidi me submeter a massagem oferecida aos hóspedes sem recolhimento extra.O primeiro impasse real. Deitei-me na cama só de biquini. Entra então, um moleque moreno , musculoso, ardente latino, contratado para manipular alemãs branquelas e ricas. Eu, pobre brasileira esquálida, estava com dor muscular; talvez overdose de mentiras, talvez cansada dos velhos lambedores escorrendo suas mãos nojentas entre minhas coxas; queria apenas uma velha negra com mãos de carinho a me arrulhar com doçura e inocência. E entra este menino ágil, de pernas bem feitas, e me pede que desamarre a parte de cima. Faço de cara virada, me aborrece o escárnio de ter pudores alienígenas. ( Ah! Se pudesse dispensá-lo sem temer!) As mãos fortes me obrigaram a ficar quieta e a cada músculo apertado, me enfiavam agulhas nos abcessos, o pus escorria dos cancros, e sangue coado, escuro. O rapaz continuava com a tortura nas minhas costas e na curva do braço que me escondia o peito, alheio à dor ou às imposturas. Comecei a tremer quando ele me pressionou os glúteos, sentia-me estuprada, exposta. ( Sempre soube que a doença era só minha.) A sanidade escorregando entre os dedos daquele cubano. E dor. Só me sobrava a dor nos ossos, a falta da cocaína, o despropósito de tudo. Levantei-me súbito, fiz cara de espanto, saí correndo pedindo ao moço que me perdoasse as fossas, as dores e inconstâncias. Sentei no bar da piscina e pedi um mojito duplamente alcoólico, precisava de alívio. Precisava voltar. Não havia fonte disponível. Despedi-me dos velhos babões e de seus membros flácidos, deixei-os bolinar minhas mamas e bundas, e peguei um ônibus para Havana. A procurar a vida, o ácido e a perfídia. Saí pelo Malecon com uma garrafa de rum. Sem calcinhas.
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