| Tênis branco |
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A sala no sétimo andar da Avenida Dr Morais Salles em Campinas era simples, mas com decoração de bom gosto.
Nos sofás de espera, pessoas de idade sempre acompanhadas. Estava eu, erroneamente, me sentindo engrandecida por estar ali acompanhando minha mãe com Alzhaimer numa consulta com uma das melhores neurologistas de Campinas, Dra Elizabeth Quagliato. Já estava um tanto incomodada por mais de uma hora de espera, quando vejo parado em uma das portas da sala, pai e filho (um menino com dez anos proximadamente). Um garoto muito bonito, de rosto iluminado, olhos grandes, cabelos preto bem penteado. O pai, situado atrás do filho, segurava-o com as mãos sob as axilas e iniciaram um caminho longo, não para nós, uma coisa tão simples, até o sofá do lado oposto da sala. Passo a passo, o garoto vítima de paralisia cerebral, fazendo movimentos descontrolados, mas conseguindo trocar os passos, chegou ao seu destino. No rosto daquele pai, não vi expressão de sofrimento ou dor, vi alegria pois o filho estava caminhando. Era como ver um pai e um bebê com menos de um ano dar seus primeiros passos. Em seguida, a mãe muito zelosa, retribuiu um sorriso que o menino lhe dera e disse: -Querido, que bom que foi rápido seus exercícios hoje! Está com sede? Abriu uma enorme bolsa e tirou um recipiente com chá e o colocou num copo descartável. Inclinou a cabeça do menino pra trás, com uma tolhinha na mão, segurou o queixo do menino e, delicada e compassadamente, derrubou o chá dentro da sua boca. O menino em seguida expremeu os músculos da face com ar de desaprovação. -Meu amor, está com pouco açúcar? Da próxima vez mamãe coloca um pouco mais. Tanto amor, tanta dedicação... maravilhosos pais, que sabem, fará isso a vida toda e ainda assim, esbajam amor e sabem sorrir. Eu, que tive a sorte de ter meus filhos saudáveis, tive a sorte de ter minha mãe lúcida e me apoiando até os setenta e cinco anos de idade, estava alí me achando boa demais por estar zelando por ela. Com a cabeça baixa, um tanto envergonhada, fixei os olhos no tênis daquele menino. Eram brancos... e continuarão assim, tristemente, muito brancos... Fizeram-me refletir ainda mais... quantas mães não estariam naquele momento dando gritos histéricos porque os filhos sujaram roupas ou tênis ? Quantos pais não estariam incomodados com crianças por estarem fazendo barulho demais? Quantos pais com filhos em situação semelhante, não estariam chorando agora por não ter condições de dar a criança um tratamento adequado? A todos os pais, enfermeiros, auxiliares, médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e tantos outros que dedicam sua vida a cuidar das pessoas que deles necessitam, fica aqui meu maior respeito, minha gratidão e que Deus os abençõe.
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