| Escrito por Marcel Cervantes, em 15-04-2008 16:28 |
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Foi só abrir seus olhos para que a imensidão em chamas viesse recebê-lo. O vago e morno calor infundia-lhe aos poucos um sutil alento. E a estonteante beleza brilhava-lhe nos olhos. Lentamente foi sentindo seu corpo. O inebriante perfume das canelas, das mirras e das cássias animava-lhe o espírito, incutindo-lhe a profunda sensação de que já vivera tudo aquilo. Arriscou olhar para baixo. Estava só, completamente só. Apenas uma vastidão em terras ardia alaranjada, banhada pela luz rubra do nascente dia. Que mundo esplêndido descortinava-lhe diante de si! A palmeira era alta, mas não lhe provocava medo. O verde das folhas fascinava-o. E o dourado das mirras cintilava como fiozinhos de ouro. Uma fulgurante alegria brotava de seu âmago. Abriu suas vermelhas e arroxeadas asas, largamente, de ponta a ponta. E cantou suas primeiras notas em melodia.
O cristalino som de sua voz corria veloz, transbordante, exuberante. Todo o mundo ao redor era sua platéia, sua amada e inspiradora platéia. O ar adentrava-lhe com força pelas narinas. E uma felicidade de encantamento tomava-lhe por inteiro. Suas penas eriçavam-se. Desejou bater suas asas, saltar no espaço vazio, adentrar o infinito. Estava pleno - como o mundo. Radiante - como o sol. O longínquo contorno das montanhas parecia-lhe traçado para seu próprio deleite. O tom róseo das nuvens, para seu próprio aconchego. O fulgor do céu, para seu próprio fascínio. Tudo era tão belo que não teve fôlego para mais cantar. O instante era eterno e completo, repleto de luz e mistério - arrebatador. Tamanho era seu êxtase que se perdeu por inteiro vencido pelo maravilhoso. E tamanho o seu entusiasmo que por pouco não caiu para trás, esquecido de onde estava.
Firmou, então, suas pequenas mas já afiadas garras no ninho que o abarcava. Foi quando sobreveio o grande susto. Um temor visceral que fez estremecer cada fibrazinha do seu jovem coração. Um pressentimento inadmissível. Uma possibilidade terrível. Não tinha certeza ainda. Não podia acreditar ou conceber um horror de tal magnitude. Negava com todo seu pequenino espírito. Mas, pungentemente, sentia como se cada miligrama de toda a outrora plenitude se esvaísse por cada poro de seu corpo - gota a gota. Sentiu asco por estar onde estava. Sentiu repugnância por si mesmo. O rubro do sol agora não passava de sangue a tingir suas penas. A vastidão alaranjada, indiferente vazio que o fazia arder em chamas. E sua palmeira... ah! nem mais sabia onde estava! As luzes dos seus olhos esmoreciam, escurecendo completamente. Suas asas, alquebradas de tanto tremor, fechavam-se em agonia. Apertavam seu corpo como se desejassem daí extrair toda a dor, toda a vida. Consternado até não poder mais, gritou a plenos pulmões contra aquele horrível mundo.
Mas sua voz era pouca também para a sua desgraça. O mundo permanecia imóvel. O sol continuava a queimar o seu agora pálido fogo. E o contorno das montanhas ganhava novos tons - mais concretos, mais distantes. O mundo enchia-se de opacidade, de absurdo, de ofuscamento. Estava exausto, mas por nada se deixaria cair sobre as cinzas de seu pai. Tampouco podia voar para longe. Não teria forças nem fôlego. No entanto, a vida ao redor parecia despertar com toda a intensidade. Os pássaros cantavam no alto dos céus, por entre as brancas nuvens. Passavam em alta velocidade cruzando os ares para o indefinível. Alguns bichos deslizavam-se assustados pelas áridas dunas. Mas nada daquilo lhe dizia respeito. O fel continuava a fervilhar em suas entranhas, corroendo seu corpo, minando sua vontade. O ar saturava-se de desespero - de um silencioso e estático desespero.
Do seu interior, emergiram suaves e tristes assobios. Era um cântico tão oprimido, tão impotente. Derramava-se em lânguida consternação. Vertia-se para sua palmeira - sua solitária palmeira. Vertia-se para os bichos em sua pequenez e debilidade. Vertia-se para as aves no céu em sua longa viagem. Vertia-se para o sol - e ele era azul. Tudo tão triste. Tudo tão efêmero. Tudo tão grande. Como ele devia ter sido - o pai? Como fora seus últimos instantes? Como deveria ser queimar-se até a completa combustão - só? E por quê...? Simplesmente - por quê?
Pôs-se a imaginá-lo, enquanto fitava perplexo seus restos. Mas não conseguia. Qual não deve ter sido o sofrimento paterno! Quantos cantos de dor não devem ter estourado de seu peito, rompido seu coração? Com o roxo desbotado da cauda, o vermelho gasto das asas, o pulmão frágil, frágil, frágil... Pressagiando que seu tempo se esgotava, que o último grão estava por deitar-se, misturando-se com o infinito deserto - o sempre presente deserto. Semicerravam-se agora seus brilhantes olhos. Parecia tomado de certa sonolência. E da persistente pergunta: por quê?
Os raios do sol já caiam verticalmente. Foi quando, atraído pela doce fragrância que o envolvia, voltou seus olhos para as delicadas pétalas das cássias. Não eram muitas - apenas duas ou três flores de um amarelo bem vivo e exuberante, e algumas pétalas aqui e ali, suaves, nas bordas do ninho de canela, quase a cair. Aproximou-se das flores, trazendo-as mais para dentro - com todo o cuidado, com todo o respeito. E lançou seus olhos ao redor, em direção aos quatro pontos cardeais, até o distante horizonte. Onde seu pai as teria colhido? Eram tão bonitas, tão perfumadas. E com um perplexo carinho pensou na terrível beleza do momento final. Um espetáculo fúnebre de voláteis odores queimando por entre vorazes labaredas fulgurantes, a consumir o coração que ainda assim entoava com dignidade o seu último cântico. O mais belo, o mais doloroso. E sentiu medo por si.
Abriu, então, suas asas e mergulhou pelos ares, os olhos fechados, o coração imóvel. O vento cortava-lhe o rosto, atravessava-lhe as plumas. A plumagem dourada no seu pescoço cintilava tal qual uma estrela cadente - de cauda em fogo. Misteriosos e ocultos, todos que ali estavam vislumbraram, estáticos, a dor lancinante daquele brilho. E sofreram do incompreensível.
Alçou vôo. Os olhos fechados. A angústia.
Voou para longe, conduzido por fantástica força.
Aqueles que viviam com medo, naquele momento não a tiveram. Os que estavam ocupados, naquele momento esqueceram. Os habituados ao chão, erguiam o olhar. Naqueles dias e naquelas noites os homens parariam em reverência. Os artistas não criariam, os comerciantes não negociariam, os voluptuosos não se embriagariam, os sacerdotes não rezariam, os trabalhadores não trabalhariam. Todos se perguntavam para onde ia tão maravilhosa estrela. E por que o céu tornava-se tão vazio depois que ela passava. Lágrimas que brotavam de uma estranha alegria, de uma plenitude repleta de compaixão, de uma morte mais cheia de vida que era quase uma ressurreição.
Quando abriu os olhos, deparou-se com um esplêndido jardim, tão lindo como somente em um sonho poderia ser - pois por ali passara seu pai. O milagre das cássias em flor, como um segundo sol, sereno ao seu espírito. Os inúmeros arbustos de mirra por todos os lados, cobrindo a vastidão. Podia vê-lo - o pai - colhendo pacientemente as mirras, as canelas, as cássias. Com o austero porte de quem já sabia o que lhe aguardava, mas que ainda assim não perdia o sublime essencial. Fazendo e refazendo aqueles vôos por horas e mais horas - incansável, invencível.
Curvou-se piedosamente, então, ao primeiro arbusto. Quebrou com o bico a primeira mirra. E assim se sucedeu com todas as demais. Ia e voltava, cruzando os céus, envolto no sagrado. Assim foi por três dias e três noites - incansável, invencível. Modelou com extrema precisão o maior e mais belo ovo que pôde conceber. Perseverante e humilde - perfeito como se o fizesse pela milionésima vez. Pôs dentro os restos do pai. E fechou com o último pedaço de mirra.
Em volta da palmeira, uma multidão admirava com espanto. Um assombro carregado de emoção pairava no ar - sustendo a todos, seus olhares, seus pulmões, suas vidas. O próprio sol escondia-se a fim de tributar respeito pelo que ali ocorria. E por um instante o deserto virou mar.
Agarrou com força o ovo, as pernas firmes como jamais esperaria. E voou, solenemente, acompanhado pelo olhar de todos. Voou para Heliópolis - em direção ao poente.
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