Cães Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Isabel Maria Figueiredo, em 16-04-2008 01:51
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Através da janela do quarto que ocupo posso ver perfeitamente a aquarela morta acima da cama dela. Ela. Esta mulher que me arrepia os cabelos. Que dança nua diante da cortina, de costas , virada para um espelho. Vejo seu reflexo e sua sombra unidos no meu perverso universo voyerista. Vejo suas nádegas soltas, seus trejeitos histriônicos. A pele lisa e branca de gelo. Os ombros. Às vezes dança a madrugada inteira ( Para o meu desespero!) até escoar-se na banheira e vomitar no chuveiro toda a excitação contida. Outras, põe-se a retirar máscaras sobrepostas sem nunca conseguir enxergar o próprio rosto. Eu a observo desde que se mudou com seu cão infernal.
( É execrável que eu não goste de bichos? Sou incorreta? Gosto de mulheres, perversões e poetas malditos. E detesto anjos e livros de auto-ajuda. Quem me dirá que amanhã não será pior que hoje? E que me importa? Que importa ser feliz e correto?)
Nada me faria gostar daquela bola peluda e mimada, daquela coisa inútil que coabitava sua cama. Detestava quando se deitava no travesseiro dela o dia inteiro. Decepava a luxúria imaginá-la deitada num travesseiro aonde um cachorro ejaculou há alguns segundos. Cachorros não são feitos de brincadeiras e algodão doce. Cachorro faz uma sujeira infernal, não toma banho sozinho, urina aonde lhe apetece, evacua pelas esquinas e acaba com seus sapatos se não sentir-se amado. Bichos indóceis. Melhor ter uma cobra, uma tarântula ou um rinoceronte.
( Que me importa agradar se tenho sob a pele um lobo faminto, um sátiro de pau duro e os olhos em fogo? Talvez eu tenha inveja do pênis. Talvez tenha sonhado em ser homem. Sonho com peitos e lábios e tenho desejos ocultos, de subjugar o outro, de forçar sua cabeça por entre as minhas pernas. Homem, mulher, qualquer ignonímia.
Jamais um cachorro. Antes uma planta carnívora, uma fêmea de Louva-a Deus ou uma barata radioativa. Não quero que me perdoem os puros porque nada realmente importa.)
Perdi o fio do asco, tomada. Aquela criatura peluda e fedorenta dormindo na minha cama, soltando gases e se coçando. Pobres cachorros sem pulgas. Talvez envelheça e arrume um vira-lata que me aguente o humor soturno e a necessidade de solidão. Lembro do homem Tobias e do cão Esaú. E esqueço a idéia da velhice. Ainda prefiro um gato vadio, um gafanhoto assanhado ou uma tartaruga impaciente.
As malditas memórias voltam a me povoar através das figuras dos animais que detesto. Da cadela da vizinha que vivia querendo nos arrancar parte do tornozelo toda vez que saía solta na rua. Tinha tanto ódio daquela filha da puta que até hoje não posso ver um pequinês sem vontade de chutá-lo. Não chuto por imposição. E talvez porque tema que o ser humano que o acompanha venha falar comigo. E se há algo que deteste mais que cães pequineses são seus donos cheios de dengo. Pura frescura.Antes um verme obtuso, uma doninha assassina ou um corvo mudo. Não tenho paciência.
Preciso sair desta janela antes de agarrar a espingarda e atirar no maldito cachorro. Um pequinês. Miserável.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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