Estou tomando vareniclina há exatas quatro semanas e tenho tido sonhos anormais. Antes não os chamava anormais mas, convencida por uma bula longuíssima e uma abstinência pouco dolorosa, vejo-os como simples danos colaterais. Meu cérebro tem a fibra de uma erva daninha, tem hábitos e raízes arraigadas no cerne da máquina que me põe a funcionar toda manhã. Aconselharam-me a fazer um diário de tais manifestações oníricas, eu ,no canto da sala, duvido que consiga relembrá-los. Tenho a memória curta, impotente e inconsequente, não posso dar asas aos hipopótamos.
Lembro-me de um, e este, repito-o baixinho ao som de uma guitarra e da voz rouca de meu interlocutor já enterrado. Vejo-o dentro dos olhos azuis de uma criatura cheia de tentáculos que me abriga no próprio ventre como cria ou refeição fresca. De seu mundo azul iriático ele diz que venha, que entre no ônibus azul, que o nirvana é aquele mundo coloidal , mundo que já me engole, velhos e cansados ossos, a gordura que se acumula na cintura. E me deixo levar por promessas de estupro e alívio antiácido. Framboesas, vejo frambroesas na xícara de chá que tomamos sentados numa mesa de carvalho. Ele me mostra calado, sua coleção de codornizes. As espingardas limpas, o som ecoando dentro do cubículo-nada. O mundo é um espetáculo indigno e todos os miasmas sempre se misturam. Já não o vejo, começo então a dizer-lhe do quanto sua música me facilita a vida e me mata um pouco o conforto de sentir-me triste. Não quero me suicidar. Outra vez. Ele me oferece um cigarro saindo rapidamente do banheiro. Acendo , trago , engulo a fumaça com a avidez ancestral de hiena. E não sinto nada. Penso: remédio filha da puta e vontade escabrosa de cumprir o devido, que me fizeram parar de fumar! Ele, Kurt, ri da minha cara ostentando um ar apalermado e lunático, com gestos ostensivos me aponta uma concha de aspecto rosado, gelatinosas , minhas pernas sem músculos se fundem à geléia da existência, sou nem ponto, nem vírgula.
Tenho tidos tais sonhos diariamente, com ou sem nicotina, dizem que velhos hábitos são ervas. Daninhas. E viva a saúde dos enfermos! Ninguém há de conhecer estes sonhos repetidos. O sonho em que minhas vísceras, feito cobras, escorregam pelo chão, libertas deste ventre recortado de cicatrizes, tem se repetido de forma consistente. A larva me expeliu entredentes e agora, enquanto me digerem, devo esquecer tais sonhos virulentos. Continuo abstêmia, como um pote de barro malfeito.
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