| A revolta dos meninos |
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Conta a história que numa pequena cidade do interior do país, um grupo de meninos revoltara-se contra os mais velhos em geral, tendo como motivo principal o fato de nunca poderem brincar em suas horas prediletas e também por serem tachados de bagunceiros, desleixados, e mentirosos.
A cidade onde viviam era pequena, para dizer a verdade, um vilarejo com pouco mais de dois mil habitantes, porém, com escola, hospital público, uma praça bem cuidada, a igreja antiga e uma ampla área verde com montanhas, vales e rios. Os animais dos fazendeiros da região pastavam na imensidão dos vales e esse verde colossal era o principal motivo de divertimento dos meninos. Gabriel, um moleque travesso, alto e de pernas finas, carregava consigo um pequeno defeito em sua orelha esquerda que muito o encabulava. Mesmo sendo travesso, respeitava muito uma senhora baixinha, apelidada carinhosamente de "Serrinha", pois ela quando andava, arrastava uma de suas pernas. Era a dona Rosa, proprietária de um pequeno mercado. A velha senhora, sempre dizia para o jovem Gabriel, que um dia ainda iria contar para todas as pessoas o motivo da deformidade da orelha do jovem. Gabriel era o filho mais velho de seu Juvenal, tinha uma irmã, Raquel, menina de olhos azuis, tão bonita que mais parecia uma boneca, porém, tão bagunceira quanto o irmão. Certa vez pegaram o galo do vizinho, de madrugada, e amarraram nas pernas da ave, um sino barulhento e toda vez que o galo andava no meio da noite para subir na árvore, o sino ficava tocando sempre que o galo mexia com as pernas. Isso atormentava a todos os moradores, já que as aves dormiam nas árvores mais próximas das casas, porque podiam cantar quando os primeiros raios de sol despontavam no horizonte, sabendo que quando amanhecesse encontrariam algum farelo de pão ou uma espiga de milho jogada no quintal. Tudo começou quando um velho vizinho, seu Alcebíades, descobriu que um dos meninos foi quem colocara um sino num dos seus galos, e logo o mais bonito, o mais cantador de todos. O velho ficou uma fera ao ouvir seu galo engasgar quando entoava seu canto, pois quando batia as asas, o sino tocava e o bicho espantava-se com aquele barulho. Irado, bateu na porta de seu Juvenal com toda a força, querendo explicações e tentando falar com os meninos. - Toc, toc, toc. - Sou eu Alcebíades seu vizinho. - falou gritando. Seu Juvenal acordou assustado com o barulho das batidas na porta de casa, mas já sabia que era o seu vizinho ranzinza. - Mas o que foi que houve seu Alcebíades? - pergunta seu Juvenal. - Seus filhos. - Foram eles que amarraram um sino nas pernas do meu galo e agora ele se engasga toda vez que canta. - Calma, como é que o senhor sabe que foram eles que fizeram isso? - Eu vi com meus próprios olhos. - Alcebíades gritava tanto que sua veia do pescoço pulsava como se fosse explodir. - Vou chamar o Gabriel, só pode ter sido ele. - diz a mulher de seu Juvenal, sabendo das artimanhas do filho mais velho. Alguns minutos depois, o jovem Gabriel aparece ainda sonolento, na presença do velho Alcebíades. - E aí, seu moleque travesso, por que você fez aquilo com o meu galo? - Agora ele canta fino e engasga. - falou Alcebíades, passando o dedo no bigode branco e segurando o chapéu de palha na outra mão. Com todos olhando o menino com cara feia, ele pede desculpas e diz que foi sem querer. Ao voltar-se para dentro de casa, vira-se para o velho Alcebíades com um sorriso maroto, olha para uma das mãos e faz um movimento, como se estivesse a balançar um sino. O velho, fulo da vida chega a trincar os dentes de tanta raiva de Gabriel, que acaba tendo um ataque de tosse. No dia seguinte, os jovens liderados por Gabriel, entram em contato com os diversos moleques da região e pregam outra peça no velho Alcebíades. Não se sabe onde, mas conseguiram um sino ainda maior e mais potente e quando a noite veio, amarraram o tal sino, numa árvore gigantesca, ao lado da casa de Alcebíades. Gabriel e sua irmã fazem questão que o velho os vejam em casa, bem como seus pais, pois assim, não podem ser acusados de nada. O sino fora colocado cuidadosamente no alto da árvore e seu pêndulo, ficara preso a um pedaço de pano para não denunciar o barulho antes da hora. Naquela noite, os ventos da região pareciam colaborar com os meninos, pois a ventania era muito forte, daquelas que chegam a envergar até pequenas árvores. No interior, todos sabem que quando a noite chega é para valer, já que as ruas são pouco iluminadas, não existindo aquele excesso de lâmpadas acesas que as cidades apresentam. Por volta das dez horas, e com o vento soprando forte, os outros moleques, amigos de Gabriel, retiram o pedaço de pano do pêndulo do sino e descem da árvore correndo. Antes mesmo de chegarem ao chão, o sino começa a tocar de forma intermitente e forte, pois era grande e fora colocado num local onde os galhos envergavam a toda hora pela força dos ventos. Alcebíades acordou momentos depois com uma espingarda na mão, e deu alguns tiros na direção do sino, mas de nada adiantou, pois quanto mais ventava, mais o sino tocava. No dia seguinte, Alcebíades, que era magro como um gafanhoto, acorda cedo, aperta o cinto em sua calça larga e dirige-se até a árvore para ver o sino que ainda tocava lá no alto. Ao se aproximar da árvore, avista seu galo de estimação, caído no chão com o peito vazado por uma bala de espingarda. Ele se abaixa e pega em seus braços, o pobre galo e olha para a casa do pequeno Gabriel e diz gritando feito um doido. - Seus moleques sacanas. - Foram vocês que botaram o sino lá em cima para me sacanear. E dirigiu-se novamente para a casa do seu Juvenal, com o galo nos braços, para fazer nova queixa. Desta vez, bateu na porta com mais força e aos berros chamou pelo filho de seu Juvenal. - Acorda moleque safado. - Venha ver o que você fez com o meu galo. Seu Juvenal, sujeito muito calmo, mas às vezes explosivo, foi até a porta, mas com cara de poucos amigos. - Bom dia Alcebíades. - O que foi desta vez? - Seu filho matou o meu galo. - falou gritando e enfiando o galo na cara de seu Juvenal. - O quê? - olhou detidamente a pequena ave. Esse galo levou um tiro no peito e meu filho não usa armas. - Que negócio é esse? - perguntou Juvenal meio enfurecido. - Foi ele sim. Ele e outros moleques colocaram um sino lá em cima da árvore e não pude dormir com o barulho. Seu Juvenal chamou o filho Gabriel e perguntou na frente do velho Alcebíades. - Meu filho, foi você quem matou esse galo? - Pai, eu não tenho arma e o senhor viu que ontem eu só fui à escola e depois não saí mais de casa. - Quem matou o galo foi esse velho mesmo. - Eu escutei uns tiros ontem à noite. - Pois eu também escutei tiros ontem à noite. - diz seu Juvenal que já mostrava sinais de aborrecimento. O velho Alcebíades percebendo que não tinha razão acabou confessando que só atirou para acabar com o barulho do sino. - Ora, então foi isso? - O senhor atirou no sino e acabou acertando no seu galo e ainda vem aqui em casa esmurrando a minha porta? - falou gritando e olhando na cara do velho. O velho Alcebíades tira o chapéu da cabeça, coloca o galo morto dentro dele, alisa seu bigode branco e ralo e faz uma ameaça ao menino. - Você ainda vai me pagar. - deu uma cuspida no chão e foi embora. Cheio de maldade na cabeça, Alcebíades vai procurar o prefeito da cidade, que pede ao chefe de polícia para cuidar do caso. Não se dando por satisfeito, o velho convoca seus capangas e acaba decidindo que a partir daquele dia, um deles ficará de tocaia nas matas adjacentes para flagrar os meninos e dar uma lição definitiva neles. O chefe de polícia, que é amigo particular de seu Juvenal, percebe a intenção do velho Alcebíades e alerta que alguma coisa poderá acontecer aos meninos se eles continuarem com as brincadeiras. Sabedores da intenção de Alcebíades, Gabriel e Raquel, espalham a notícia aos demais meninos da região que resolvem fazer algo inesperado. Para que ninguém perceba, todos eles, liderados por Gabriel, o menino alto de pernas finas, combinam na escola um plano que consideram diabólico. A execução do plano terá início no dia seguinte e todos os meninos e meninas do vilarejo deverão fazer parte do mesmo. Na manhã de mais um dia ensolarado, a escola pública está completamente vazia. Nenhum aluno na escola, as carteiras vazias e as professoras em sala de aula, sem ter o que fazer, pois não há aluno algum. A merenda, o leite e os biscoitos estão intactos na cozinha da escola e então a diretora resolve liberar todos os funcionários, sem conseguir entender a razão para a falta coletiva. O plano dera certo. Todos os meninos arranjaram o mesmo motivo para não ir à escola naquele dia. Disseram aos pais que estavam com dor de cabeça. No café da manhã, no almoço e lanche da tarde, não beberam nenhum suco de laranja e assim continuaram por mais alguns dias. Ninguém assistia às aulas, ninguém bebia suco de laranja, nem comia carne de frango. A notícia logo se espalhou por todo o vilarejo e atingiu em poucos dias, outras regiões próximas. Os pais dos meninos já não sabiam mais o que fazer para que seus filhos voltassem a freqüentar as aulas. Nem perceberam que também dentro de casa, havia uma mudança no cardápio, pois se recusavam a beber suco de laranja, comer carne de galinha e ovos. O movimento tomou tal vulto que as escolas da região tiveram de fechar as salas de aula por falta de alunos, os professores chegavam e não podiam dar aula porque ninguém estava presente. A merenda dos meninos tampouco era tocada e tudo que chegava às escolas da região ia para o lixo, pois não havia quem comesse. De nada adiantava os pais brigarem com seus filhos porque o pacto feito por eles fortaleceu-se de tal forma que mesmo que quisessem, não havia mais como paralisar. O prefeito da cidade provocou uma reunião de emergência a céu aberto, com os pais dos alunos e todos os comerciantes da região para propor uma negociação a fim de solucionar o grave problema que estava acarretando para alguns comerciantes e para a vida da cidade. No meio da reunião, o velho Alcebíades, acompanhado por dois jagunços e alguns comerciantes, sobe no palanque montado no meio da praça, ajeita sua calça larga, coça o bigode ralo e toma a palavra aos gritos e começa a insultar a todos os meninos da região, dizendo que aquilo que eles estavam fazendo era coisa de criminosos e que todos eles tinham que ir para a cadeia. Seu Juvenal que a tudo assistia calmamente, se vê obrigado a também subir no palanque para defender seus filhos, que a seu ver, não mereciam ser chamados de criminosos. - Minhas senhoras e meus senhores, eu sou o pai de Gabriel e de Raquel, meus filhos são crianças como o de todos vocês que estão aqui. - Não admito que sejam chamados de criminosos e quero que provem o que está sendo dito aqui. - falou olhando diretamente para o velho. Alcebíades, tomado pela ira e com o rosto vermelho de ódio, não se conteve e desafiou a todos, dizendo: - Qual o comerciante da região que não está tendo prejuízo com tudo isso? - Quero saber se os comerciantes estão gostando desse movimento criminoso feito por esses moleques safados?! - apontou gritando para alguns meninos. O prefeito da cidade que até então assistia a tudo calado, tomou as rédeas da discussão e bradou: - Não admito que os meninos sejam chamados de criminosos. - Eles são apenas adolescentes e se são bagunceiros é porque estão na idade de fazer bagunça. Alguém na multidão levanta o braço e pede para subir no palanque, pois tem informações que podem ajudar a solucionar o impasse. Trata-se de dona Rosa, a "Serrinha" dona de uma pensão e desafeta de longa data do velho Alcebíades. A velha senhora encaminha-se para subir no palanque, quando Alcebíades coça o queixo, abaixa-se, olha para um de seus jagunços e fala baixinho: - Tomara que essa velha caia e quebre as pernas. Os jagunços caem na gargalhada, cada um coçando o saco de forma desajeitada. Com dificuldade, dona Rosa consegue subir, pega o microfone e dispara: - Gente, creio que todos vocês já me conhecem. - Eu sou a dona do mercadinho lá do fim da rua. Quase todos vocês compram comigo e eu compro diretamente dos produtores da região. - falou olhando para Alcebíades. - Vocês sabem por que este senhor cercado por dois jagunços está com raiva dos meninos? - falou apontando para o velho bigodudo. - Ele está com raiva porque a maioria do leite que vocês compram comigo, vem das vacas que ele possui. E continuou. - A merenda servida na escola é fornecida por ele e o suco de laranja também. - É por isso que ele está com raiva. - Com a greve dos meninos, ele que é o maior fornecedor da região, está tomando prejuízo todos os dias. - Eu também estou tendo prejuízos, porém, não posso dizer que os meninos são criminosos, são apenas crianças querendo se divertir. - Isso é crime? As pessoas presentes na reunião começaram a raciocinar e entendem perfeitamente as palavras ditas por dona Rosa, que já esboçava sinais de cansaço e uma vontade louca de chorar de emoção. - E tem mais. - falou dona Rosa já totalmente envolvida pela emoção. - Estão vendo aquele menino? - apontou em direção ao jovem Gabriel. - Suba aqui meu filho. - Gabriel olhou para o pai que consentiu. - Vocês estão vendo isso aqui em sua orelha? - Sabem quem fez isso? A multidão calou-se como num passe de mágica. Podiam-se escutar os corações de cada um batendo no peito. Dona Rosa pede para o jovem Gabriel mostrar para o público, sua pequena orelha deformada. - Gabriel, quem fez isso com você? - pergunta a velha senhora. O jovem olhou para o pai, e apontou em direção ao velho Alcebíades. - Foi ele. - Eu nunca quis contar para os meus pais porque sabia que ia dar confusão. - Uma vez ele jogou um facão em minha direção, eu desviei a cabeça, mas acertou na minha orelha. - Eu disse em casa que tinha sido um porco que mordeu minha orelha. As pessoas presentes na reunião começaram a cochichar e a resmungar para o velho Alcebíades. Seus amigos jagunços ameaçaram puxar a faca para defender o patrão que foi saindo de fininho, até que o chefe de polícia que estava sentado atrás do Prefeito, deu voz de prisão ao velho. - O senhor está preso! - e foi logo mandando algemar Alcebíades na frente de todos. - Eu não posso ser preso por algo que aconteceu faz tempo. - falou Alcebíades, tentando ludibriar o chefe de polícia. - Faz tempo que aconteceu é verdade, mas o senhor agrediu a um menor de idade, indefeso e com disposição para tirar a vida do menino. - concluiu o chefe de polícia. O velho Alcebíades saiu escoltado e a multidão aplaudiu a velha senhora pela coragem e determinação. Seu Juvenal e dona Arminda, abraçaram Gabriel e choraram de emoção, por saberem que o filho, no fundo, preservou a sua família, não deixando que aquela agressão que sofrera fosse transformada num episódio de maiores proporções. No dia seguinte ao evento ocorrido na praça, os meninos mais uma vez liderados por Gabriel e sua irmã, entram em contato com os demais jovens da região e pedem para que o movimento iniciado por eles chegue ao fim, pois a justiça fora feita. As aulas recomeçam, os meninos voltam a freqüentar o colégio e a merenda escolar é consumida normalmente. Até mesmo os ovos e o suco de laranja já não sobram nas prateleiras do mercadinho. Ainda tendo que responder pelas ações que cometera contra o jovem menino, o velho Alcebíades recebe uma visita na prisão. Seu Juvenal e dona Arminda entram acompanhados do chefe de policia e logo atrás deles, o jovem Gabriel e sua irmã. Olhando fixamente para o velho, Gabriel dirige duras palavras a ele: - Não vou perdoá-lo, pois o senhor me causou um defeito físico, eu nasci perfeito. - Espero que sua consciência o persiga para toda a sua vida. E deu as costas para o velho, mas antes de sair, sua mãe lhe passa um pacote. - Entregue a ele meu filho. - diz dona Arminda sorrindo. Gabriel pega o pacote grande encaminhando-se para entregá-lo ao velho Alcebíades. O chefe de policia abre a porta da cela e pede para Gabriel entregar o pacote diretamente a ele. - Tome isso, é seu. - fala o menino olhando para ele. Alcebíades abre o pacote e não acredita no que vê, pois dentro dele está o enorme sino, que causara tanta confusão, mas que no fim, acabou fazendo justiça.
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