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| Salvamento |
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Nisso estava concentrado quando ouviu umas frases entrecortadas que lhe chamaram a atenção e lhe tirara de suas cavilações, tentou ouvir melhor, mais simplesmente os passos se fizeram mais fortes e as palavras perderam a sua importância quando a pesada porta se abriu e três homens armados apareceram a seus olhos como uma visão espectral a contraluz.
Seguiram após pelos corredores sombrios então ele quis falar alguma coisa qualquer, mais no momento que articulou a primeira palavra, sentiu o forte golpe da culatra de uma arma bater com violência na suas costas como a lhe lembrar que a proibição de falar estava em pé. Contou. Vinte e cinco portas por onde saíram vinte e cinco homens barbudos descalços e maltrapilhos como ele. Notou que a pesar da barba e da roupa velha todos estavam limpos, cheirando sabão de soda. Cada vez que chegava a uma porta tentava levantar os olhos para ver se enxergava algum conhecido, porem os prisioneiros baixava os seus olhos imediatamente e seguiam o grupo, também em silencio. Com certeza tinham sido castigados e conheciam a disciplina e o regulamento. Foram conduzidos até uma roparia onde cada um recebeu um par de botas militares, grandes, com ponteiras de aço, de couro resistente e rústico. Um poncho de castilha, luvas de couro e gorros de lá. Maquina de barbear! Até parece que estavam sendo levados para uma festa ou uma parada militar, parecia incrível que tantas pessoas juntas não fizeram nenhum barulho. Em grupo de cinco foram tomando banho e fazendo a barba e seguidos pelo olhar atento e disciplinado dos guardas que pareciam estatuas vivas somente dando ordens por sinais. Quando chegou a vez dele atendendo ao sinal do guarda, chegou até o espelho olhou sua imagem com pena e rapidamente, ainda que com grandes dificuldades começasse a raspar, pegando na sua Mão grandes chumaços de pelos ensaboados que ia jogando na pia junto de outro monte de pelos onde se enxergava o movimento de alguns piolhos inquietos pela mudança de domicilio e o incomodo do sabão de soda. Com o rosto avermelhado, ossudo, mais suave em comparação a o que estava. Sentia a leveza. Calçar as botas! Com o pesado poncho, luvas e o gorro, fazendo barulho ao pisar. Foram todos distribuídos cada um em sua cela. Ele tinha visto duas pessoas conhecidas. O ex-prefeito Luis Peratta e o ex-deputado Schumacher, tentaram fazer-se notar mais não tinha conseguido nada. De todos os modos saber que tinha pessoas conhecidas lhe fez sentir uma sensação diferente, como que si ainda estando sozinho e isolado tivesse companhia e estivesse menos desamparado. Ficou ali sentado olhando para seus pés calçados depois de mais um ano. As botas eram grandes demais porem, não tinha importância, muito melhor do que viver com os pés congelados e feridos pelo duro cimento. Era de madrugada quando foram chamados novamente um por um, cela por cela. Todos juntos formando militarmente no campinho de futebol, cada um vestido com botas, gorros, luvas e ponchos, parecendo um bando de corvos negros e mortos de frio. O comandante Frigerio começou a falar como se estivesse falando com seus soldados, vociferando e gesticulando. "agora se faz necessário sair e vamos realizar uma missão de resgate, não adianta nem pensar fugir por que eu estarei lendo os seus pensamentos, não adianta, por que quem tentar ficara enterrado para sempre na montanha. O bom comportamento e a boa vontade significarão benefícios. O mau comportamento significará momentos muito desagradáveis para todos!" Munidos de picaretas, pás, grossas cordas, ganchos, suprimentos, barracas, e algumas llamas, saíram em fila indiana. Quando se abriram os portões, um ar de liberdade encheu os pulmões de todos eles. Olharam o extenso horizonte que se estendia a sua frente. Alguns gêiseres cuspindo águas quentes como gigantescas baleias deitadas, os seus corações batendo aceleradamente, seguramente cada um pensando na liberdade. Todos pareciam animados, esperançosos e com boa vontade iniciaram a caminhada. O solo pedregoso estava úmido. Escorregadio. Pequenas sombras de musgo manchavam a aridez. As botas faziam barulho em um golpetear incessante de tropel descompassado. O lugar inóspito parecia lhes dar uma bem-vinda com os primeiros raios de um sol grande e avermelhado a despontar detrás dos altos picachos da grande cordilheira, marcando siluetas movediças no solo pedrado pela escarcha primaveril. Um total de trinta homens. Vinte e cinco presos e cinco guardas marchavam sem a presença do comandante Frigerio, sendo que o chefe era o cabo Riquelme. Chamado vulgarmente pelos seus companheiros, de Tungo de Touro porque tinha o pescoço grosso como o de um touro. Um soldado ia à frente da fila indiana. Ele era o guia. Outros dois iam detrás, o outro a esquerda e Tungo de Touro à direita. Mais o menos ao meio dia o solo começava a parecer barrento e pequenos filetes de água brilhante e cristalina formavam inúmeros regatos refletindo o sol de forma magistral fazendo parecer um solo tapeado de pedrarias. Era o desgelo da primavera. Ainda com o sol alto a temperatura era baixa, porem eles suava pelo esforço da subida que acontecia entre escorregões e tropeções. O ar estava ficando rarefeito. O peso da roupa cansava mais e nos rostos magros dos prisioneiros se podiam notar o esforço que realizavam. As llamas seguiam sozinhas detrás do grupo evidentemente acostumadas â trilha, ainda que meio arqueadas pelo grande volumem que carregavam. Tungo de touro gritou: Aaaalto! Todos pararam ao mesmo tempo. Deeescansaar! Todos se deixaram cair no chão no mesmo lugar que se encontravam. Mais Tungo de touro disse: Armar acampamento! Os soldados começaram a dar ordens. Os presos pegaram as llamas, desembrulharam as tralhas, entretanto outros pegavam panelas que colocaram em fogões portáteis onde depois de instalar os pequenos botijões de gás, cozinharam o charque de cabra com batatas. O cheiro aromático se elevou pelo ar aguçando o apetite de todos. Tungo de Touro mandou a tirar os ponchos e as luvas. Então uma vez os pratos de latões distribuídos serviram o charque com batatas e todos comeram em silencio. Tungo de Touro disse: A partir de agora vocês poderão conversar moderadamente. Descansaremos esta tarde e ao amanhecer levantaremos o acampamento, aproveitem para descansar bem que amanha começaremos a subir e lá encima a falta de oxigênio e muita, por isso mandarei a distribuir folhas de coca que deverão ir mascando como se fossem chicletes, em todo momento que o cansaço for muito grande administrem bem que não tem mais! Eles montaram cinco barracas e foram distribuídos os presos em grupos de cinco, com mais um guarda. Tungo de Touro ficou na barraca de Ramon. Quando terminaram os trabalhos de erguer o acampamento, deram de comer e de beber a os animais. O sol já estava se escondendo detrás das montanhas. La no horizonte. Eles conseguiam ver como a paisagem ia mudando paulatinamente, mostrando espaços cobertos pela neve que estava em processo de derrete. De pronto uns trovoes fragorosos surpreenderam estrondosamente a todos. Eram as avalanches que durante toda essa noite não pararam de acontecer. Afortunadamente Tungo de Touro e Fadiga o soldado que era o guia, eram experientes na cordilheira e tinham escolhido um lugar bem protegido justamente pelas avalanches. Ainda assim todos eles tinham medo. Quando todos se recolheram as tendas para dormir ainda não tomavam consciência de que podiam falar um com os outros de tão acostumados que estavam a guardar silencio. Como Ramon tinha feito questão de ficar na tenda de Peratta e Schumacher, teve a oportunidade de se emocionar quando eles se reconheceram um ao outro e entre abraços e lagrimas se contaram coisas que cada um deles sabia. Ramon soube por Peratta dos acontecimentos que tinham acontecido no país, e como ele tinha sido preso que era mais o menos igual que ele mesmo, enquanto que Schumacher Tinha sido levado para a Escola da Armada na capital. Tinha passado por uma situação dificílima por que ele havia participado de uma célula terrorista que colocara algumas bombas em embaixadas, então junto com outros como ele, foram num helicóptero para alto mar perto de Tierra Del Fuego e jogados nas águas geladas, mais no instante que chegou o momento dele se salvou por que o oficial que comandava a operação era seu primo irmão. Salvou a sua vida. Intercedeu fazendo que o confinassem na Caixa de Cimento, onde se encontrava padecendo a solidão mais o menos desde a mesma época. Soube que sua esposa continuava a trabalhar no micro hospital, que seus filhos estavam bem até o momento de Peratta ser preso e que a maioria das pessoas pensava que ele tinha sido morto! Tungo de Touro roncava. Entretanto os três continuavam a falar baixinhos e assim os encontrou a madrugada seguinte quando as primeiras ordens de levantar acampamento se fizeram ouvir. Miríadas de estrelas cintilantes como lentejoulas penduradas brilhavam intensamente na abobada azul, entretanto reflexos de uma grande e redonda lua traçavam arabescos na neve, mais acima até aonde a vista alcançava. Começaram a caminhada mascando coca, lentamente procurando se apoiar no barranco rochoso subia um estreito desfiladeiro rodeando o cume da montanha, quando de repente um pedaço de rocha desprendeu cedendo ao peso de Tungo de Touro que dando um grito desesperado se espatifou uns metros abaixo numa saliência. A coluna parou e todos se amontoaram a beira do abismo a olharem consternados. Tungo de Touro estendido grotescamente como um boneco de palha com as pernas entortadas e a cabeça para um lado a dar ais de dor e gemer! Um vento forte assobiava, Zunindo e gelando tudo ao seu passo. As nuvens cinzentas auguravam nevasca. Fadiga chamou num aparte outros dois soldados, que costumavam chamar de Moco Verde e Moco Seco. Eles conversaram gesticulando nervosos procurando uma solução. Era necessário tirar Tungo de Touro, senão morreria congelado. A saliência estava uns três metros para abaixo, mais o espaço onde o cabo estava caído era pequeno, porem debaixo dele se aprofundava um abismo sem fim. Ele não agüentou o impulso da sua alma de samaritano e disse: Eu sou paramédico, deixe-me ajudá-lo! Eles entreolharam e cochicharam algumas coisas. Após disso decidiram. Pediram cordas aos outros presos que correram pressurosos e depois de uns instantes ele estava sendo deslizado com duas cordas atadas na cintura, entretanto o vento soprava com mais forças e a neve começava a cair. Ele apertou os dentes e foi tentando se aferrar com a ponta dos dedos tentando achar um lugar para apoiar os pés. Vertigem. Frio. Medo. Tungo de Touro gemia. Ramón encorajou-se a si mesmo até que finalmente, Conseguiu se ajoelhar ao lado do ferido e pode constatar que estava muito machucado com a perna quebrada e possivelmente com alguma lesão interna, pois sangrava pela boca. Era difícil se movimentar porque o espaço era muito pequeno e somente de pensar na profundidade do abismo dava terror! O vento parecia querer levá-lo voando dali por isso se aferrava na encosta com uma mão e com a outra tentava revisar o ferido. Impossível imobilizá-lo naquela posição por isso desatou uma das cordas da sua cintura e amarrou debaixo dos braços de Tungo de Touro, pediu a os gritos ao que estava acima que puxarem as cordas até o ferido ficar na posição de pé. Amarrou-se a ele costas com costas e começou a escalar penosamente ajudado pelos outros que os içavam com as cordas. O esforço era imenso. O ferido corpulento de peso morto pelo desmaio achatava o corpo franzino contra as paredes de maneira que quase não conseguia respirar. Heroicamente apelou ao seu ultimo fôlego e conseguiu chegar. Uma vez desatado ele foi premiado com longo aplauso e gole do mesmo conhaque que deram para Tungo de Touro reagir. Imobilizou a perna quebrada, entretanto os outros improvisaram uma maca. O ferido conseguiu articular algumas palavras e deu ordens para o Moco Verde que de imediato escolheu cinco presos, e um guarda pra levar Tungo de Touro de volta. Tinham perdido muito tempo e a neve engrossava cada vez mais e o vento formava uma nevoa espessa com a neve que não permitia a visão mais a frente, então Moco Verde ordenou que se encostassem ao barranco e esperassem ate a nevasca amainar. Podiam divisar o grupo que levava o ferido se perder na descida, entretanto todos se protegiam o mais possível enquanto a neve formava flocos, algodonosos por cima de seus corpos.
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