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O FUNERAL II CAPÍTULO
No funeral nos despedimos de minha mãe, desabamos em lágrimas... Até mesmo Emma, que não pôde conter suas emoções; vi uma lágrima rolando de seus olhos enquanto Julian soluçava debruçado ao meu colo. Lembrei do quanto mamãe era ardorosa; ela adorava as rosas vermelhas, e num momento de celebração aos dias felizes que ela me deu, motivei-me a colocar uma em sua lápide, nela também deixamos essa dedicatória: “Aqui jaz Lílian Miller, mulher devotada e mãe querida de Emma, Julian e Laura, seus filhos amados. Jamais a esqueceremos, e certamente outra vez nos veremos”. Quando anoiteceu e em instantes após o funeral, como esperado, Tio Charles nos foi apresentado pelo diácono de nossa Igreja; Andrew, homem branco, meio sisudo, mas muito respeitado, que cuidou de todos os detalhes do enterro. Meu Tio propôs-se a pagar as expensas, mas a Igreja comovida com a nossa perda resolvera assumir todas. Também foi nos avisado que seguiríamos com o Tio Charles, que seria a partir daquele momento nosso guardião legal. Ali também ficamos sabendo da Tia May, a irmã do meio de mamãe, e inesperadamente também concebemos a existência de mais uma tia; Tia Lily, a mais velha das três e mais austera de todas as irmãs. Engraçado mamãe nunca as ter mencionado, e mesmo depois de onze anos passados, nunca ter visto foto alguma de nossas parentas; parecia que mamãe as escondia como a um segredo. Essa dúvida ficou me apertando por dentro, mas sabendo que tínhamos de seguir viagem, resolvi apenas protelar essa minha apreensão. Levamos horas no trem e de estação em estação, lágrimas e desafetos eram derramados pelo meu coração, enquanto os pequenos, insones, se apertavam em meus braços, procurando acalanto, que hoje eu sei, eu não podia dar. Quando desembarcamos em Nova Orleans, o tio, levou-nos com seu velho calhambeque ao nosso destino, o velho casarão da família Shelter. Chegamos ao casarão que fora de minha avó Hadassa (que era conhecida como Odessa, graças ao carinho de sua mãe de leite, uma negra chamada Odessa May que a alimentou e a cuidou com muito afinco e amor por toda a sua infância) e deparei-me com uma surpresa, vislumbrei algumas facetas de mamãe ao ver Tia May... Verdade era que, fisicamente, ela parecia não pertencer a nossa família, pois suas madeixas negro-carvão nada se assemelhavam à imensidão de cachos rubros de mamãe, tão pouco sua pele pálida, feito mármore; a de mamãe era corada pelas sardinhas vermelhas. Mas através de um olhar de um bom observador podia se ver os trejeitos e meneios da personalidade acolhedora de Lílian Miller naquela mulher. Custei, é a mais pura verdade, a acreditar que mamãe nos deixara tão cedo e num momento tão inesperado; nós apenas estávamos começando a dar os primeiros passos nesta vida; mas mesmo nesse desapego sôfrego em que nos encontrávamos, Tia May acolhedora e despretensiosamente nos recebeu, tornando-se num fio de esperança neste universo de perfeito caos que agora era as nossas vidas. É bem verdade que Tia May se mostrou meio desajeitada em alguns aspectos, pois logo ensaiou um apertar de dedos nas bochechas de Julian e de Emma, coisa que senti, incomodou-lhes bastante. Mas Julian esperava desesperadamente por momentos de afeto, e quando ela o beijou, vi que seus olhos brilharam. Tia May era uma mulher alta, mas tinha um jeito por demais delicado, nada havia de sombrio naquela criatura, e, no entanto, eu ainda desconhecia os motivos que levaram mamãe a escondê-la de nós... Logo que entramos na casa sentimos também uma atmosfera de amor pairando no ar, as fotos das três filhas de Hadassa povoavam a casa, Tia Lily era loira para minha surpresa, como a vovó Hadassa. Tia May, morena, como já havia dito, mas Lílian, minha mãe, ruiva como uma cenoura. Ao fitar a sala, vi os vários registros de felicidade espalhados nas paredes do velho casarão. E sobre a lareira, o retrato (foto preto e branca) do vovô Rupert sentado em sua velha cadeira de balanço...
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