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SALOMÉ! UMA NOITE, UM DIA...A SAGRAÇÃO DE EROS Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por RENATO NASCIMENTO DIAS, em 27-04-2008 07:22
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A tarde de final de outono dauquele dia chegou tranquila e suave. O Sol, meio encoberto por algumas nuvens, ainda proporcionava uma luminosidade amarelada e pálida sobre a alameda de buganvílias. O vento, mutante mas em paz consigo mesmo, soprava, deixando no asfalto frio e cinzento um tapete multicolor de folhas e algumas flores. Umas folhas ainda agraciadas com as suas cores e outras completamente secas, mesclavam-se às das amendoeiras plantadas intercaladas. Do início da alameda se podia ver as árvores gigantescas com suas copas de galhos empobrecidos, ávidos de folhas e flores. Algumas ainda insitiam em enfeitá-las, mas com o sopro do vento que ia e vinha, não suportavam, precipitando-se, indo se juntar às outras já caídas sobre a calçada, sobre o asfalto e alguns veículos estacionados.Havia pouca movimentação de carros, facilitando a formação de um verdadeiro tapete multicolor. As imagens das folhas caindo e todo o solo coberto com elas, afiguravam-se à imagens oníricas. A mesma luminosidade que envolvia a alameda como um véu transparente de luz e sombra, invadia a varanda e a sala do apartamento do 4o andar, de um dos prédios bonitos e luxuosos que se erguiam ao longo da rua. A varanda, contornada de plantas encarceradas em vasos de ornamentação rebuscada, parecia abandonada; de tão grandes e opulentos, lembravam guardiões imponentes e imóveis. A mesa e as cadeiras vazias, esperavam por pessoas com suas vozearias para quebrar a solidão e o silêncio profundo. No piso, mais e mais folhas como que estivem ali há dias, dando realmente a impressão de um lugar abandonado. Algumas delas, movimentando-se em frenética e desgovernada dança acompanhando o movimento de um vento repentino e mais forte, outras invadiam o grande salão como que quisessem revelar o que estava acontecendo lá dentro. A grande porta de vidro aberta e as pesadas cortinas vermelhas, descerradas, com detalhes bordados na bainha, pareciam cortinas de um teatro prontas para exibir as cenas de um espetáculo prestes a se iniciar. E exibiam... Defronte à varanda, do rodapé às sancas iluminadas, uma reprodução gigantesca da tela " Judith", de Gustav Klint, também conhecida como " Salomé", roubava a atenção de todos os móveis e objetos neoclássicos de caríssimo valor. Um contraste inesperado e perturbador! Parecia real...Parecia que "Judith" estava alí! Viva! Colorida...Enigmática e voluptuosa...E estava! Deitada nua sobre o tapete, num perfil ameaçador, pronto a se voltar, mas entregando-se aos prazeres da carne, desistia. Parecia mergulhada num êxtase misturado a um torpor indefinível. Sua pele alva e acetinada, provocavam uma excitande oposição aos motivos coloridos e excêntricos que decoravam o tapete. Sobre ele, taças, copos, garrafas vazias e restos de alimentos, - testemunhas de momentos irreveláveis... Alguns incensos, de fragrância exótica e estimulante, ainda queimavam nos incensários, derramando cinzas sobre os móveis antigos, exalando o perfume de uma atmosfera inebriante do dia seguinte após uma noite de intenso prazer. Judith se mostrava em profundo estado de torpor alcoólico, ora se contorcendo, ora vibrando os quadris revelando, sem nenhum pudor, estar possúida pelo espírito de Eros; mostrando conhecer muito bem a arte da volúpia e da sedução. Uma das garrafas, a de vinho tinto, ainda derramava o líquido sobre o tapete, bem perto do seu rosto, e na tentativa de saborear o que ainda restava, se esforçava ao máximo, revirando os olhos entre um sorriso moleque e debochaado. Ela fazia com que suas mãos respondessem aos apelos de seus lábios, escondendo uma delas entre as pernas e a outra deslizando suavemente sobre o seu corpo nu, ardente, provocando em si mesma choques elétricos acompanhados de vibrações e gemidos baixinhos. Naquele momento, Judith queria ter mais do que duas mãos... Milhares delas se fosse possível! E com cada uma delas, afagar o intenso furor sáfico que a dominava. Gemia...Gemia muito! E cheia de gemidos, posições e contorções, ela procurava beber todo o vinho, sugando cada vez mais com força o gargalo da garrafa, encontrando tempo para oferecer suas nádegas macias e carnudas ao vento suave, que invadia o salão do apartamento, suas entranhas...Proporcionando-lhe a excitande sensação de estar sendo possuída...Como se Eros, o enigmático deus do amor, tivesse assumido a forma dos ventos tal como Zeus dominou e possuiu Leda na forma de um cisne. Judith estava realmente possuída por algo estranho...Parecia interminável...Indizível! Ela, então, dedicou a si mesma uma furiosa e apaixonante declaração de amor carnal, louvando a solidão momentânea e o prazer, sufocados pelo cheiro do álcool e da fumaça dos incensos que ainda queimavam. O sangue pulsava rápido e quente nas suas veias...Um calor intenso tomou conta de todo o seu corpo num alucinante frenesi carnal; e sob os olhos semicerrados da Judith da tela do artista, ofereceu-se definitivamente movimentos eróticos, como que quisesse afrontar e se superiorizar à beleza da mulher magiatralmente pintada. E conseguiu! Ela estava alí! Viva! Bem viva, imersa em si mesma e tomada por um indefinível prazer. Exausta, Judith se vira, espreguiçando-se. E no exato momento em que acreditava ter se livrado de possessão tão dominadora, ela percebe que está sendo observada; e com um sorriso de satisfação, continua deitada. Suspira fundo e gosta do que vê: Hebron, seu namorado, está no canto da sala, quase que escondido entre as cortinas. Completamente nu e excitado, ele ameaça aproximar-se, mas falta-lhe forças para sair do lugar. É mais estimulante e perturbador continuar observando Judith, experimentando todas as estranhas, profundas e inebriantes sensações de um autêntico voyeur. Uma de suas mãos busca o vazio,misturando-se com o vento suave, dividindo todos os espaços com as fumaças dos incensos...Um tanse energético toma conta de seu corpo fazendo escorrer o suor pelo seu rosto, tórax, pernas e pés,envolvendo todo o seu ser numa umidade abrasadora. O leve contato com as cortinas aumenta-lhe a excitação, traduzindo-se em vilentos e fustigantes aguilhões à flor da pele. A respiração é tão acelerada e descompassada, que seus lábios se abrem como que quisessem também buscar ardentemente por Judith. A mão que está livre, procurando o vazio, finalmente encontra o seu próprio corpo, massageando o tórax, o abdômen...E vencido pelas alturas e abissais do orgasmo metafísico, ele se agarra às cortinas, aspergindo todo o seu eflúvio divino sobre uma bandeja de frutas, lembrando o célebre afresco representando Príapo Pompei; selando o seu órgão definidor como um ícone enclausurado entre o sagrado e o profano. Um êxtase físico e espiritual em fugaz e contínua comunhão com o Eterno. O solitário, então, enlanguesce, deixando-se cair sobre o tapete... Judith fica admirada com as confidências íntimas feitas aos seus atentos olhares. Foram muito mais do que palavras balbuciadas ou até mesmo claramente pronunciadas pronunciadas. Aquela declaração de amor carnal acaba por ser muito mais do que um ato sexual consumado. Ela gosta do que acaba de ver, mesmo sendo um doce simulacro do que ela realmente gostaria de ter. A noite se aproxima e o grande salão fica na penumbra, apenas iluminado pelas sancas e pelas velas aromáticas que Judith acabara de acender. Exaustos...Somente o som das respirações quebram o silêncio daquele anoitecer de um doce enlouquecimento. Finalmente, Hebron suspira alto e forte chamando a atenção dela, que se vira inteiramente para ele. "Se soubesse que tu estavas me observando..." - murmura. "Não quis te interromper...Estavas tão linda...Tão entregues a ti mesma, que não tive a coragem, muito menos a ousadia de desfazer comunhão tão perfeita! Por alguns instantes senti que minha cabeça se desprendia do meu corpo, perdida em pensamentos...Como que se estivesse separada dele. Pensamentos de unir novamente o meu corpo ao teu... "Dizem que a alma vai aonde o pensamento está..." - responde, com olhar enigmático e um leve sorriso, convidando Hebron a aceitar um irrecusável convite de sedução. "Ah!...Se tu soubesses aonde estavam todos os meus..." - E respira fundo novamente. Esquadrinhando a reprodução da pintura e o corpo de Judith, revela: Eros esteve aqui...E sempre estará!


Publicado em : Eróticos, Contos Eróticos
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Comentários (1)
Postado em Laura Treviso, em 06-05-2008 16:03, , Membro Registado
Oi, Renato! Primeiro queria te agradecer pelo comentário que deixastes para o meu conto. O pessoal por aqui não costuma fazer muito isto. Parece que leem e vão embora sem crítica ou elogio, o que é ruim. Assim, por curiosidade li o teu conto. Achei lindas as tuas descrições. Certamente estavas diante do quadro do Klint quando escrevestes, pois as cores na rua lembram os tons dourados do quadro (aliás, Klint é fantástico), sem falar na sensualidade de Salomé. 
Boa sorte para ti também! Rosane
 
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