Dick, o filhotinho (capítulo 1) Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por lyscia braga, em 27-04-2008 11:12
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Diário da casa nova
De vira-lata pidão, a vida de barão



No ideograma Chinês:
Crise é igual a oportunidade


Meu próximo cachorro vai se chamar Dick, de Dick Farney, o ídolo do rádio nas décadas de 40 e 50, época em que só se ouvia música americana e muita gente teve cachorro com esse nome. Vai ser meu companheiro e não a minha caçulinha (como foi a Lindona), vaticinou Haroldo, depois de algumas cervejas, antes de tomar o caminho do bar, sonhando com seu companheiro de terceira idade. Lindona havia morrido, de repente, há poucos anos ela era uma cadelinha Tenerife que nos deu alegria por dez anos.

Criada no apartamento da Lagoa, Lindona chegou quando Haroldo tinha quarenta e oito anos, eu trinta e cinco e nossa filha, Olívia, treze.

Isso ocorreu à época de minha separação, o que foi mais uma
evolução de relacionamento. Eu e Haroldo passamos a dividir o mesmo apartamento, com vidas separadas e viramos irmãos por escolha já que convivemos um com o outro mais tempo do que com nossos irmãos originais.

Lindona era o esteio da família, unia todos nós e ueria-nos em casa sempre juntos e, se por acaso todos saíssem e ela ficasse sozinha, ela fazia xixi no meio da sala e latia para a porta o tempo todo. Tínhamos que chamar um dog siter para ficar com ela e, quase sempre, era um amigo da Olívia que fazia este papel, por acaso, seu apelido era Dog. Ela era o nosso bebê e se comportava como uma pessoa responsável e cheia de manias. Quando Haroldo teve um AVC transitório e ficou com um lado paralisado por uma hora e meia, ela foi me avisar. Quando queríamos chamar alguém em outro aposento era só pedir que ela ia até lá, e só aparecia de volta com a pessoa. Estava acostumada a ouvir e a entender tudo o que se falava. Haroldo, pasmo com ela pequena, a chamava de Einstein. Dá certo conversar com os cães, eles entendem tudo. Isso, eu já tinha testado com minha cadela de adolescente, chamada Preta, que, ficou tão inteligente que gostava de sair na rua sozinha e ir até o jornaleiro comprar jornal. Adorava, ainda, andar de elevador já que, morando no segundo andar do prédio, pegava carona e saltava em qualquer andar só pelo prazer de passear no elevador, escutando conversas e decidindo onde ir a partir do papo.

Lindona mal saia de casa, era bonita demais, tinha trinta e cinco centímetros de altura, batonzão, lápis preto nos olhos, pelo parecendo paina branca e barriga rosa. Era tão bonita que dava medo de algum seqüestro, como aconteceu com uma amiga que tinha um Boxer albino e fora perseguida na rua. Também na casa de Petrópolis nos anos oitenta, um Old Sheep Dog foi seqüestrado na calada da noite. Com este acervo de informações, o medo de roubarem a Lindona viveu sempre conosco e ela viveu praticamente presa no apartamento (grande) na Lagoa. Saindo pouco, ela tinha um ídolo, o Encrenca, que ela olhava da janela e sabia que ele era um cachorrinho, coisa que a respeito dela, ela não sabia. Era tão humana, que sua reação ao ver uma barata era imitar Olívia subindo na cama e gritando, como sua irmã de verdade, tendo até uma cama igual no quarto de solteiro da Olívia.

Para caçar barata, era igual a gato batendo com as patinhas e isso porque eu ensinei. Encrenca morava em frente, e ela, da janela, o vigiava já que ele costumava sair à toda hora. Ele era um poodle branco que ela resolveu namorar mas como ele era muito novo não deu.

Arrumei um namorado igual a ela na internet mas ela o esnobou, e, quando fui a um canil com ela, ela se apavorou.

Foi, ainda, visitar um Bichon Frisé com pinta de francês, cuja casa ela bagunçou toda.

Não teve jeito, era seu último cio para ter filhos e ela não quis outro senão o Encrenca. Como não deu, não cruzou com mais ninguém, e o perseguiu, mordendo, pelo resto de sua vida. "Boiola", ela devia pensar, e partia para um ataque ao coitado.

Sua morte deixou um vazio e um medo de se apegar a qualquer coisa, uma urgência de vida nova, vida de solteiro, uma mudança, era hora de mudar, viajar, dar uma guinada na vida para qualquer lado, mudança radical para sairmos do marasmo em que nos encontrávamos. Seus brinquedos espalhados e as fotos em murais nos lembravam, com dor, essa perda e imediatamente o medo do apego aparecia. Lembranças alegres nos faziam chorar à toa. Quando Haroldo falava do seu próximo cachorro, Olívia dizia que não queria ver, não queria se apegar e sofrer, iria morar sozinha e teria um gato. E eu só pensava em cuidar de mim e somente de mim, voltando a trabalhar depois de muito tempo de doenças em série, uma longa hibernação.

Olívia, já com quase vinte e sete anos, resolveu viajar indo para Europa de mochilão. Foi.

Quando voltasse iria mudar e morar sozinha, já era hora. Havia trancado a faculdade de jornalismo esportivo e não queria estudar, queria trabalhar em alguma ONG com crianças, algo ligado a esportes, se inscreveu no Pan Americano e torcia para ser convocada para qualquer coisa, pois queria experiência em algum trabalho voluntário. Filha única, nunca trabalhou na vida. Mimada, só perdia para a Lindona que era a mais mimada.


Publicado em : Livros, Diversos
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