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| Dick, o filhotinho (capítulo 2) |
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Em Busca de um Abrigo
A casa centenária de Petrópolis vagou. Esteve alugada por mais de dez anos, foi igreja coreana, foi centro de saúde da prefeitura e agora desalugou. Está vazia e eu vou pra lá . Mudança radical, é o que eu preciso. Pensei. Desde que esvaziei a casa em 1992, retirando seus móveis centenários do lugar e após a morte dos pais do Haroldo que moravam por lá, a aluguei trazendo os móveis para o apartamento do Rio, minha vida profissional parou, fiquei doente, primeiro do pé, sendo o único caso de cura total que voltou a andar, depois foi a coluna, mesmo milagre feito na base de trabalho árduo para funcionar, depois colites e por fim uma síndrome paranóide que me tirou do ar em 2002 para só sair desta em 2006. Tudo de fundo psicológico. Medos, foi o diagnóstico de um analista. Ainda sob tratamento de remédio e de acompanhamento médico de análise, tomei a decisão de mudar para lá. Uma síndrome paranóide é um surto psicótico que você jura com certeza absoluta que está sendo perseguido até a perda da noção de realidade já que a perseguição é coisa impossível, não palpável e muito menos plausível. A coisa desaparece com remédio e análise. Rapidamente normal e pasma pelo que passei, resolvi rever os anos que passaram, anos perdidos, com urgência de mudar. Hora de levar todos os móveis centenários de volta para o mesmo lugar e remontar o museu. Nada de alugar mais a casa, pois roubaram até as maçanetas nestas temporadas de aluguel. Preciso de casa que tenha jardim e posso refazer meu estúdio, dar aula de teatro, voltar a trabalhar e a viver. Quero escrever e publicar e, quem sabe, voltar a dirigir teatro, trabalho parado dede 1989 quando bati recorde com seis indicações para o prêmio Mambembe e, em vez da minha carreira como diretora teatral, dramaturga, figurinista e produtora deslanchar, me retirei do mundo. Chega de férias. " De drama, só teatro. Vou voltar a viver e quero, principalmente, escrever vivendo em uma CASA, nada de apartamento e, nada melhor do que aquela casa centenária, tão definitiva no terreno de 1892 que não se vende, é minha, e grande, dá pra tudo. Está reformada. Numa cidade nova, eu vou construir uma vida nova. Nunca vivi nada assim. Sou carioca e sempre morei na zona sul. Vou viver. " Haroldo parou por um segundo ao me ouvir falar e disse que ia também. Quer fazer uma velhice planejada já que, como eu, nunca planejou nada. "Vou reviver minha infância na minha velhice, uma nova fase, Olívia vai morar sozinha mesmo, não vou ficar neste apartamento sozinho. Na minha infância eu veraneei lá, vai ser bom tudo no mesmo lugar, a mesma vista tombada, como nos anos cinqüenta quando tive a Diana que guardava a casa, vou ter, na velhice, o Dick como companheiro e guardião da casa. Podemos pegá-lo em um abrigo para cães, algum cãozinho abandonado para ter uma vida digna, um companheiro para a vida. Vou fazer naquela cidade um paraíso e, a hora de mudar é essa quando estamos todos bem. Você ficou boa e eu estou acabando um filme. Vamos botar os móveis no lugar montando o museu, tudo como era desde 1904. Vou inventar trabalhos naquela cidade. Não é para envelhecer sem fazer nada ainda tenho que fazer outro filme e só preciso acabar o que tenho que fazer nesse filme e aí mudamos", completou ele com animação. E começou a consertar a casa, colecionando tiras do Snoopy, em especial as do concurso do cão mais feio, pensando no Dick, tão diferente da Lindona. Marcamos a mudança para dezembro de 2006, Olívia de férias na Europa comunicou que: Cachorro só na casa, ela não queria nenhum no apartamento por que ela lembraria da Lindona . Concordei. Comecei a juntar recortes de locais que doam cães, abrigos onde são recolhidos de diversas maneiras e depois de um trato tentam doar. Descobri que doações são feitas quinzenalmente na praça N. Senhora da Paz e que, em Petrópolis, sai no jornal Tribuna de Petrópolis uma coluna específica onde são oferecidos cães e gatos. Eles vermifugam os filhotes, os mais velhos são castrados, publicam fotos tentando adoções e é o Gapa que faz este trabalho junto com outras instituições. Apareceu ainda o Dunga, um Fox Paulistinha que estava para cruzar e como ele é muito simpático e não se parece com a Lindona, poderia ser um filhote seu, mais ainda ia demorar ." Fox Paulistinha, não!", esbravejaram os amigos da Olívia. Um labrador é melhor ! Um labrador, não. É muito grande, eu disse e, se não nos adaptarmos na casa de Petrópolis e resolvermos voltar a morar em um apartamento no Rio, é preciso ser um cãozinho pequeno. " Podem ser dois para ele ter companhia e saber que é cachorro, diferente da Lindona, não pode ser branco, nem peludo, nem fêmea. Se forem dois, pode ser um casal, ter filhos e depois liga as trompas ou castra o macho." Haroldo falava sem me dar ouvidos. Dois? Quem vai cuidar, ter filhos? Uns onze de uma vez vai ser uma loucura. Contestei. É melhor um, primeiro um macho, o Dick e depois a gente vê. Coloquei panos quentes no entusiasmo do Haroldo. " Estou queimando as caravelas indo para Petrópolis não tem mais volta para o Rio", como os espanhóis quando invadiram a América do Sul e queimavam as caravelas para não terem como voltar para a Espanha. Haroldo com seus dois cachorros moraria de forma definitiva em Petropólis. Sempre morou provisório brincava, agora era definitivo. A casa na família desde 1904, era de 1893. Uma casa boa, não muito grande, que se divide em alas a primeira, uma suíte, uma sala e uma varanda é a do Haroldo, a segunda, um quarto com banheiro e uma estante enorme no seu pé direito alto, é o escritório, coringa de quarto de hóspedes e da Olívia veranear, até o apartamento do sótão, uma obra inacabada ficar pronto com sala, quarto com banheiro e closet dando para o salão onde é o local de dar aulas de teatro, uma sala de ensaio tipo um teatrinho com uma entrada independente. Tem ainda um salão, a sala de jantar com uma varanda fechada e uma suíte que é o meu lugar. E... quartinhos para fazer camarim de teatro ao lado do salão, um hall do sótão para marcenaria, um quartinho para costura, outro para meditação, uma estufa, copa, cozinha, quintal e jardim onde quero plantar uma árvore frutífera para todos, e a jabuticabeira foi a escolhida. Um paisagismo, junto com a obra do sótão, e uma piscininha já entraram nos meus planos futuros. O Dick vai se perder. É grande a casa para um cão.
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