Categories desta Seção

Dick, o filhotinho (capítulo 5) Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por lyscia braga, em 30-04-2008 09:59
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 3907    
Favoritos Nenhum

Está tudo Dominado
Aprendendo a amar

Dick não beija, dá narigada, está aprendendo a amar. Ele veio de um abandono. Não se sabe quem foi seu pai ou sua mãe, se teve gente que amava e cuidava de sua ninhada. Fora abandonado num abrigo de cães ou fora recolhido na rua com seu irmão. Só o que se sabe, é que ele tinha um irmão que foi adotado no mesmo momento que ele por uma menina. Sobrara o pretinho gordinho que ficara dormindo preocupa-se Haroldo, querendo adotar o pretinho também. Raquel e Olívia cortam, depois da adaptação na casa de vocês a gente vê o companheiro para o Dick.
Eu tirei você da lama, repete para o Dick, Haroldo se divertindo levando fotos dele para o bar para mostrar a todos. Anda com uma foto na carteira e o chama de secretário de segurança, coisa que ele ainda não trata, quando chega gente ele se esconde debaixo de um móvel e late com voz grossa, só aparece bem depois, as vezes fica entocado enquanto durar a visita.
Dick está aprendendo a amar e confiar na gente. Sua nova ninhada. Não sabia Amar, é arredio, ao contrário da Lindona que viera de um apartamento no Humaitá uma ninhada cuidada e amada, já veio mimada, desde o primeiro momento, mãe e dona cuidando de tudo, seus primeiros dentinhos chegaram com garantia de ossos de Pet Shop. Tinha vários.
Dick morde a gente e, a tudo com seus novos dentinhos. No inferno do verão no Rio de janeiro, véspera da mudança o apartamento está como uma favela, acumula sacos de lixo preto com roupas embaladas e louças esperando no meio de caixas de papelão para serem guardadas, em campo minado com xixi e cocô que ele faz enquanto aprende a ir no banheiro ganhar biscoito, ele insiste em marcar o território primeiro para depois aprender. Passamos a andar no meio deste inferno alegre com um jornal na mão para fazer barulho e ensinar ele a não morder, problema maior. Biscoitinhos de maisena para premiar cocô e xixi no banheiro, feito em jornais e ainda potes de água espalhados por vários cômodos da casa acrescidos de revistas rasgadas que ele deu para pegar nas primeiras prateleiras de estantes, isopor e sacos plásticos do puxa saco da cozinha se espalham pelo chão num divertimento de abocanhar e pegar ao passar, sacos de lixo do puxa saco. O osso chiclete mais duro não agradou muito, come dois dos que esfarelam por dia, devora, escondeu o chiclete nos seus esconderijos atrás de sacos de lixo preto que estão sendo retirados do chão por que ele está desmontando a mudança rasgando os sacos espalhando panos pela casa. Faz ninhos e as almofadas novas que eu acabara de fazer para Petrópolis são roubadas da cama com ele maiorzinho e arrastadas pelo chão para serem estraçalhadas, antes um xixi marca que aquilo é dele. Cria trincheiras onde ele brinca de coelho louco correndo rápido pelos seus esconderijos guardando seus tesouros, sempre que passa por uma nova aquisição ele cheka. São vários os sapatos dele espalhados pela casa, Olívia deu várias sandálias para ele destruir que depois desta fase de mordidas vão direto para o lixo. Ele os roe com sofreguidão, tudo para conter um pouco a fúria que se abate deste ser tão pequeno que está inclusive aprendendo a morder mais leve, ainda não tem noção quando se empolga, parte para um ataque sério.
Lembra também, da mãe, quando pega uns dedos, como se estivesse Mamando. Ele já está com três meses, dobrou de tamanho, vai crescer muito alguns dizem olhando suas patinhas, tem a patinha grande e as orelhinhas caídas vão emoldurar um carão, tem pata pequena outros dizem, não vai crescer muito, vai ser do tamanho de um vira lata clássico. Na minha opinião ele vai crescer médio, vai ficar magrelo com perninhas longas desajeitado mesmo, que é o jeitinho dele.
Haja dentes finos que destroem tudo mordendo com sua boca sempre em movimento a procura do que morder, morde até ele, com sua boca de jacaré.
Tá tudo dominado nessa favela improvisada todos correndo para cima das camas que ele já aprendeu a subir mas esquece que sabe, e ainda nos refugiamos lá, fugindo do Dick, o pequenino que morde.
Não sabe dar beijos, e está aprendendo a ganhar carinhos na barriga, beijos e a dar também, está ficando mais confiante e calmo mas, é ainda um rapaz de poucos amassos , prefere se entocar debaixo das camas, a ficar em cima ganhando beijos, está aprendendo aos poucos a ser mimado. Beija rápido lambendo dá uma narigada e parte para mordidas fortes se empolgando. O jornal e gritos fazem um efeito médio, ele acha que é brincadeira e quando não acha, disputa por que quer ter a última palavra ou mordida, nem que seja de leve. Ele disfarça, finge que não está mordendo e morde outra coisa qualquer em vez da pessoa ou morde de leve. Ganhando carinhos, ele abre a perninha, se esfrega mas, igual aos beijos ele deixa só um pouco. Lindona pedia carinhos, beijos e ainda pedia a pata das visitas quando tentaram ensinar ela a dar a patinha, queria massagens e dava beijos cheirando para quem não gostava como eu de lambidas na cara. Não dá para não comparar mas, é nossa experiência. Essa fera destruidor de tudo, pega a gente e morde para valer, não é carente, é independente e nos deixou uma semana exasperados até começarmos a lhe dar limites brigando com ele com jornal, dá pena, ainda é pequenininho mas, é cínico e, precisa parar de morder, a solução é todos andando com um jornal na mão e vários espalhados em pontos estratégicos da casa. Parece disputar com Haroldo território, coisa de homens, já que a única cama que ele fez xixi foi a do Haroldo e é a que ele mais gosta de ficar e atacar a mordidas, está aprendendo a amar dando narigadas violentas mais bem intencionadas e gostando dos carinhos na barriga, sai rebolando fazendo festa igual quando chega gente e ele resolve aparecer depois de um teatro onde late e se esconde. Essa casa com decoração de favelão, campo minado de cocô e xixi, com esse calor do verão carioca a 40 graus, me lembra uma história da Índia onde um homem que morava com a família em uma casa de um só cômodo, foi reclamar da vida para um sábio. O sábio então perguntou ao homem se ele tinha uma vaca: Tenho sim respondeu o homem, então o sábio disse : " Pegue a vaca e a coloque dentro de casa por uma semana depois volte aqui." O homem foi embora e fez o que o sábio mandou, uma semana depois o sábio perguntou e ai como está? " Piorou muito a minha vida, a vaca suja a casa toda e o que já era ruim agora está bem pior." O sábio o mandou de volta para casa mandando-o retirar a vaca da casa.
O homem foi agradecido e fez isso voltando ao sábio felicíssimo, sua vida sem a vaca dentro de casa era a melhor, nunca estivera tão bem, havia muito espaço na casa, sua família estava feliz. Tudo limpo ele era um novo homem. Esqueceu assim as reclamações anteriores.
Com o Dick e os preparativos da mudança me sinto com a vaca em casa, sacos de lixo e caixas no meio deste apartamento entupido de móveis centenários fora do lugar, estou vivendo com a vaca. Em Petrópolis iremos retirar a vaca. A casa de Petrópolis está limpa nos esperando toda pintadinha, grande, com poucos móveis em cada cômodo, os móveis desaparecem nos cômodos, é clean apesar de antigo a decoração de Petrópolis, bem leve com muito espaço e o Dick vai estar maiorzinho, já ensinado quanto ao local de ir ao banheiro, sua educação sanitária vai apenas ser adaptada a um corredor externo que parece ser o melhor local por lá e principalmente suas mordidas, com os dentes crescendo e incomodando com o desmame ainda recente já terá mais tempo e ele já confiante terá aprendido a amar; será uma ferinha menos agressiva e nós também já teremos aprendido a amá-lo. É nesse aprendizado observando pequenos cuidados dele para conosco e nosso para com ele esse aprendizado mútuo de carinho e amor, coisa sutil, como alguém nos fazendo um sanduíche de carinho e o outro respondendo com uma doce geléia de amor, nesse aprendizado com pequenas sutilezas, as delicadezas sobre a arte de amar que um cão tão bem sabe ensinar, nos fazem entrar em contato com o amor incondicional, o amor mais refinado que se tem, o amor dos cães.
Estamos assim, construindo no dia a dia com alegria pinçada no cotidiano mais banal, o amor, antecipando essa mudança onde vamos montando o quebra cabeça chamado vida.


Publicado em : Livros, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >