| Um amigo de verdade |
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Pedro, desde menino, deu indícios de que era muito afetivo, logo que fez cinco anos isso ficou muito evidente... Pedro não gostava de fazer amizades com seus pares iguais, digo isso no que tange aos humanos; para ele, os melhores amigos eram os bichos de qualquer espécie. Pedro amava toda criatura terrena, as formigas o fascinavam... Uma vez houve uma infestação de formigas na vizinhança e Pedro ficou torcendo para que ela também chegasse até sua casa.
Seu Pai não via aquilo como um comportamento desajustado, ao contrário, sentia orgulho do filho compassivo que tinha. Já sua mãe não encarava com bons olhos essa fixação do menino pelos animais, já que até aquele momento ele não tinha feito nenhum real amigo, a não ser os insetos que rondavam o seu quarto. A mania de Pedro de fitar os animais por horas tentando decifrar cada uma de suas facetas era, no mínimo, muito peculiar e por demais constrangedora. Pérola acreditava que esta fixação estava roubando oportunidades de seu filho. Então, para desviar a atenção do menino por insetos, resolveu comprar um passarinho. Logo apareceu com um canário amarelinho, que encheu a casa de sonoridades. O pai até que ficou contente, jubiloso, eu diria, pois o foco da estima do garoto, apartir daquela data, também passaria a alegrar os seus dias. A ocasião então parecia oportuna, se Pedro se apegasse ao animal, se desviaria do apego aos insetos, assim pensava Pérola; e não estava errada, pois o amor que Pedro nutria pelos animais era mesmo imparcial, fossem eles o que fossem... E o canário... Bem, este passou a ser o centro do universo do pequeno infante. É certo que os dias passaram e continuaram frustrando as expectativas de Pérola, pois Pedro como era de se esperar, continuava imerso no seu mundo de contemplação; passava horas e horas fitando o pequeno amigo amarelo, sorrindo a cada vicissitude do companheiro alegre. Até que um dia o seu universo encantado se desfez. Num momento destes de pura imaginação, ele decidiu que deveria abrir a porta da gaiola, e o esperado aconteceu; o passarinho ganhou forças e fugiu, deixando o pequeno Pedro perdido em sua solidão. Pedro, ao ver o seu grande amigo tomar distância e desaparecer no vazio, ficou inconsolável, como que desfalecido caiu sentado ao chão, e em prantos olhou para o seu pai e para a sua mãe que vieram acolhê-lo sem saber o por que de estar tão aturdido. Viram a gaiola, e entenderam... Agora... O pequeno fechara-se de vez para o mundo. Pedro pouco falava; mas apartir daquele dia ele se calara por completo, pois-se mudo diante da vida, diante da tristeza que o tomara. Até mesmo seu Pai ficou preocupado, João até que se esforçou, falando com o moleque sobre todos os assuntos, esperando que ele reagisse; ansiando até mesmo pelo seu gestual que lhe era tão familiar (balançava a cabeça ao sim e ao não), porém nem os apelos do Pai o encorajavam; o pequeno Pedro continuava alheio a tudo. Sua mãe recrutou uma dezena de terapeutas, apresentando seu filho, ansiando por uma cura; mas os psicólogos diante do desapego do menino, e de tantas sessões infrutíferas; apenas apresentavam soluções paliativas. Um deles até sugeriu que ela o levasse a um Neurologista, pois era possível que o menino fosse autista! Decidida a não abandonar o seu filho que mais e mais estava inundado pela sua solidão e tristeza ela não desistiu. E numa quarta-feira especial, Pérola levou-o a uma Psicóloga amiga de uma amiga da família; Janete era muito intensa; diziam todos os que a consultavam, provavelmente ela encontraria uma resposta para o seu dilema. Foi providencial a visita a Janete, pois ela era daquelas terapeutas que gostava da experimentação, ela decidiu trazer consigo, em uma de suas sessões, a sua filha Mariene que adorava desenhar. A pequena Mariene tinha algo de muito singular também, passava horas e horas contemplando seu mundo imaginário que era traduzido através dos seus rabiscos. Pedro e Mariene então pareciam ser como pedaços de um quebra-cabeça, ou metades de um mesmo universo. Janete pegou uma folha de papel, e como de costume, colocou nas mãos de Mariene que logo tirou um lápis de cor e começou a desenhar. E o Pedro... Pois-se a fitar o seu desenho! Mariene fez uma coisa muita simples, desenhou uma casa com uma janela aberta. Olhou para o Pedro e entregou o seu lápis e o desenho. Pedro vendo o lápis, também se motivou a desenhar e por detrás da janela ele desenhou um pedestal e a gaiola, e dentro da gaiola o seu lindo canário amarelo, além disso, desenhou um menino que sorria para o canário. Ao entregar a folha para Mariene, ela olhou e ficou fascinada com o desenho que viu, tanto que desenhou nele uma menina ao lado do menino, sorrindo. Pedro pegou outra folha e desenhou a mesma cena, mas desta vez, desenhou o menino chorando e uma gaiola com a portinha entreaberta e o canário voando pela Janela; e o entregou à Mariene. Mariene viu o desenho e compassivamente olhou para o Pedro. Tomou a folha de suas mãos e desenhou a menina beijando a bochecha do garoto; esta estava segurando sua mão, tentando consolá-lo. Pedro olhou para o desenho e sentido chorou. Pegou outra folha e desenhou a casa novamente, só que desta vez fechou a janela e abriu a porta, desenhou o menino e a menina juntos, sorrindo juntos, contemplando o canário seguir para o horizonte. Mariene sorriu e Pedro também, e inesperadamente diante de seus pais que olhavam cada gesto das duas crianças; embevecidos de tanta surpresa e êxtase por cada um de seus feitos, ainda ficaram estupefatos com o que veio a seguir: - Olá, meu nome é Pedro! - Oi Pedro, sou Mariene, vamos brincar! E correram alegres pelo consultório como se nada existisse para eles, a não ser a grande conquista que descobriram: A beleza do mundo que se lhes abriu, quando encontraram um amigo de verdade.
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