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Lágrimas de Prata - Nacionalismo Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 09-05-2008 00:33
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Tóquio, numa manha fria e seca. A sede do parlamento japones, o Kokkai Gijidoo, localizado em Kasumigaseki, no bairro Chiyoda, estava mais silenciosos que de costume. Normalmente as reuniões dos parlamentares era bastante diferente da tradição japonesa de quase nunca levantar a voz, senão para o "Kiay!", emitido com os golpes de caratê.
O Primeiro-Ministro Abe Nobuyuki olhava-se num grande espelho em sua sala e nao gostava do que via. Parecia muito mais velho de seus sessenta e três anos. Os cabelos separados no meio e penteados dos lados, simetricamente, junto com o bigode fino sobre o lábio e o rosto arredondado, tudo, agora, ficando mesclado de preto e branco.

Via rugas que pareciam ter surgido na última noite. Via fios prateados que não estavam lá na noite anterior. Via um velho que ele achou que encontraria dentro de muitos anos. Mas o que mais o deixava triste não era sua aparência física. Era sua alma.
O que era aquela tira de pano enrolada em torno do pescoço? E aquele adorno dourado sobre a tira de pano? E aqueles sapatos preto e branco, com uma lingueta de metal decorativa? Onde estava mesmo seu quimono?

E as sandálias de que tanto gostava? Caminhar pela casa da família vestindo-se como um japonês, andando e agindo como um japonês... Era disse que sentia falta!

E aquilo nao era tudo. Havia ainda aquela invasão à China que ele autorizara, mas sob pressão do imperador e dos parlamentares. Os mesmos homens que agora o aguardavam em silêncio para ouvir o motivo daquela reunião extraordinária, em 14 de janeiro de 1940.

"Isso mesmo!", pensou o Premier Japonês. Assim que entrou no Parlamento com os homens postados à direita e esquerda, em colunas perfeitas e foi até o sólio, ficando abaixo de um dossel, ainda decorado de forma oriental, viu que fazia a primeira coisa certa dos últimos meses.

Os homens, senhores feudais, empresários, militares e políticos, espantaram-se.

Nobuyuki-sam vestia um quimono branco decorado de vermelho. As tradicionais sandálias orientais de madeira com meias extremamente brancas. Nenhum dos adornos ocidentais como o anel de Premier, relógio de bolso ou caneta, e uma Katana trespassada do lado esquerdo da cintura.

Ficou em seu lugar e pôs a sessão sob malhete, ou seja, somente ele tinha a palavra, e a mais nenhum parlamentar era permitido falar ou mudar de lugar sem obter permissão. Todos obedeceram.

Nobuyuki-sam tirou a espada samurai da cintura com a bainha junto, segurou com as duas mãos delicadamente e fez referência ao instrumento. Sacou a belíssima Katana de lâmina cinza e menteve diante do corpo, na velha posição de respeito dos mestres do Kendô. Os parlamentares, então, entenderam do que se tratava.

Abe Nobuyuki os estava chamando de volta às antigas tradições japonesas de equidade, equilíbrio e arte.

__Não há que ser contra o povo. Pois o povo é soberano. E soberania é o dom de ditar ordens e fazê-las cumprir. Minha decisão é irrevogável...

Ao final da manhã o Primeiro-Ministro Abe Nobuyuki renunciava ao cargo, deixando o governo nas mãos do Almirante Mitsumassa Yonai, que quinze dias depois conseguiria uma aprovação para aumentar o número de tropas japonesas e o expandir o orçamento militar da ilha para mais da metade do previsto naquele ano.

A guerra transcorria na Europa e Ásia. A União Soviética invade a Polônia e começam os primeiros conflitos com os alemães. Erich von Manstein presenteia Hitler com os planos de invasão da França pela floresta de Ardennes. Em março os soviéticos invadem a maior cidade da Finlândia, que rende-se imediatamente assinando um acordo de cooperação militar com o gigante vermelho.

Mais tropas são chamadas na Inglaterra e França. Todos os homens entre 20 e 27 anos são considerados aptos ao serviço militar de campo nos dois países. Paris respirava guerra e Hitler tomava o Luxemburgo.

Enquanto famílias inteiras corriam para o litoral ou tentavam deixar o país, Henri Gascoin parava um simpatico casal de senhores numa calçada. O homem vestia um terno completo com capa e chapéu. A mulher, um vestido de cor creme decorado com colar de pérolas e pulseiras reluzentes.

__Desculpe, madame, mas acho que a senhora está transgredindo as leis... - disse o cara-de-pau com tota naturalidade. Reservara um roupa decente, deixada por Rick, pouco maior que ele, para tal ocasião.
__Pardon, jeune, mas não estou entendendo... - interveio o marido.

__Minha senhora, estamos em tempos de guerra. Acha que é viável desfilar com esse colar, essas jóias todas e essa bolsa pesada, pelas perigosas ruas de Paris?
__Mas nós moramos nessa vizinhando há anos e nunca nos aconteceu nada!

__E espera que continue assim? - apontou para um grupo de rapazes sentados na sargeta olhando friamente para o casal.

__Mon Dieu! Aquele jovens são perigosos? - perguntou a mulher levando a mão ao colar.

__Muito. Mas como encarregado do mantenimento patrimonial do bairro tenho obrigação de pedir que entregue seus metais ao Departamento de Cura de Paris...

__Departamento de quê...?

__Do cuidado dos patrimônios mais valiosos da nação. Não soube? Estamos em guerra e dizem que logo os alemães chegam à cidade. O que não for calatogado e guardado será considerado patrimônio do Fuher.

Imediatamente o homem retirou o que pode do corpo da mulher e entregou a Gascoin. A um boca-solta qualquer, tudo bem, mas para Adolf Hitler, jamais!

Assim que pegou o que pôde agradeceu e deu às costas ao casal, pouco antes do homem perguntar qual o protocolo para reaver os bens e de Gascoin desaparecer por entre as árvores de um parque.

Depois de dividir o espólio com os comparsas e contar sua parte, ouviu, da janela do minúsculo apartamento o barulho de vozes em coro na rua, abaixo.

Era um chamamento. Desenas de moças vestidas com suas melhores roupas, ainda que vindouras da classes mais pobres, bradavam ao povo francês que levantasse e se pusesse às ordens do serviço militar, para evitar a vitória nazista!

De saia, blusa de lã, sapato de salto e boina, a bela garçonete era uma das piquetes empunhando cartazes com os dizeres "Liberté Égalité Fraternité!", e cantando a plenos pulmões: "...aux armes citoyens! Formes vos bataillons! Marchons, Marchons! Qu'un sang impur abreuve nos sillons..."

Podia ser o imagem que tinha do imponente Charles de Gaulle, ou ainda, a bela mocinha de olhos esverdeados, batom e com os cabelos pretos e curtos balançando naquela multidão, mas o que mais o fez descer e ir para a porta, foi o refrão da Marselhesa.

Gascoin foi até perto dela e perguntou o que era aquilo.

__Volte para as ruas, Gascoin! Você não se encaixa aqui! Essa manifestação é para os homens corajosos de Paris, para as moças que como nós, vão dar seu sangue, se necessário, para que o tirano caia! Não precisamos da sua indiferênça!

Ele franziu a testa e a retirou da multidão pelo braço.

__Covarde! Pois olhe bem, mocinha! Venho das ruas de Paris e me orgulho disso! Não fica dentro de uma casa de freiras brincando de enfermeira bondosa! E você é que não devia se meter nessa guerra. Isso é muito perigoso!

Ela se desvencilhou da mão dele e entre dentes, com os olhos apertados e queixo empinado, desafiou mais uma vez, e seria a última.

__Não estamos brincando! E eu não vou ficar perdendo tempo com você. Quer ser alguma coisa importante? Quer fazer parte de algo relevante, monsieur Gascoin, então apresente-se na junta militar e engaje-se no combate! Do contrário vá roubar suas carteiras e fumar em seu esconderijo. Se Hitler há de marchar sobre Paris, prefiro estar lutando do que entocada como um rato! - empurrou o corpo maior que ela com a força que pode, que não era muita, mas a intensão era despedaçar a covardia de Gascoin e expor o basbaque que ela via naquele momento.

Entrou em formação com os demais manifestantes que engrossavam em coro o refrão do hino nacional e poucas horas depois apresentava-se na junta de serviço voluntário com uma trouxinha de roupas e material de higiene pessoal.

__Próxima! - gritou a mulher que anotava os nomes.

__Nome e endereço - disse sem tirar os olhos da ficha.

__Liv Marie Duncan, moro no pensionato do Convento do Sagrado Coração de Maria.

__É francesa?

__De descendência Escocesa, mas sou francesa.

__Ocupação?
Aí ela nao soube o que falar...
__Garçonete...? - arriscou meio sem jeito.

A mulher levantou os olhos e mediu a morena.
__Hospital Saint Bernard, Ardenas. Embarque na Estação Norte às três horas. - entregou uma ordem de serviço e desejou-lhe boa sorte.


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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Comentários (1)
Postado em Adriana, em 13-05-2008 18:04, , Membro Registado
como sempre tenho só um comentário: Cade o resto? rrrrsssssss :p
 
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