| Lágrimas de Prata - Queda da França |
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Nos meses seguintes a Janeiro de 1940 várias bases políticas de Europa renderam-se ao poder nazista, tendo de admitir sua derrota e assinar pactos de desarmamento e colaboração. O Japão havia instalado um governo de fachada em Nanquin sob o comando de Wang Jingwei e a Noruega e a Dinamarca haviam sucumbido.
As tropas alemãs começavam a contornar a linha Maginot e se aproximavam de Ardenas pelo sul. O Hospital Saint Bernard ainda era um local limpo e branco. As camas estavam bem feitas com lençóis alvos e os travesseiros eram novos. O pessoal de trabalho sorridente e naquele momento recebia instruções dos oficiais. Ainda havia descrença quanto à duração do combate. As parcas notícias que chegavam via rádio davam conta de colunas de fogo entre navios britânicos e cruzadores alemães no Mar do Norte. O oficial médico diretor do hospital, Coronel Quantau, felicitava os jovens cirurgiões-soldados dispostos a dar o máximo para salvar as vidas dos que talvez precisassem deles e, dirigindo-se para as diversas equipes de enfermagem, pedia que se dedicassem de corpo e alma à causa de salvar vidas e promover a saúde e bem estar dos pacientes. Então, as equipes foram postas para correr as diversas alas do grande hospital, construído há pouco tempo, com três andares contando ao todo cento e vinte leitos, seis salas no centro-cirúrgico, lavanderias, cozinhas, administração, posto de atendimento de emergência, depósito, expurgo, duas salas de parto para procedimentos de urgência, dez leitos para monitoramento constante - as antigas UTIs - e consultórios para atendimento ambulatorial. As enfermeiras foram dividas em profissionais, raras na década de 40, experientes, as mais comuns e voluntárias, basicamente composta pelas mais jovens que tinham de aprender rápido. Liv estava entre as jovens e empolgadas jovens voluntárias. Feliz com seu uniforme imaculadamente branco, de saia até os joelhos, sapatos e meias soquetes brancas, blusa azul com fitas vermelhas nos braços, quepe branco e avental cinza. Essas jovens foram subdivididas em centro de atendimento de politraumatizados, centro-cirúrgico, obstetrícia e atendimento nas alas de pacientes internados. Essas alas foram separadas em centro de queimados, pacientes com diagnóstico cirúrgico e clínico, tendo uma enfermeira responsável pelo trabalho das jovens em cada ala. Liv e mais doze garotas foram postas no centro de atendimento de emergência, recebendo os primeiros feridos e administrando os primeiros socorros sempre sob os olhares de um cirurgião responsável. O major Lambert era médico há quase trinta anos, anestesista de gabarito e ex-médico chefe do Palace dês Champs Élysées, fora posto como médico-chefe de da liga de trauma e tinha como responsabilidade cuidar para que as jovens enfermeiras fossem bem sucedidas em seu trabalho. Numa conversa de instrução percebeu a sagacidade e vontade para o trabalho da jovem Liv Duncan que foi posta para ser sua assistente permanente. Não podia deixar de notar a inveja das demais e uma aparente admiração pelo culto e simpático médico, solteiro segundo as mais afoitas. O doutor Lambert também não era bobo, estava com seus cinqüenta anos, físico perfeito pelos exercícios regulares, olhos azuis e cabelos grisalhos, e a mocinha tinha tornozelos lindos... Longe dali, em Paris as coisas começavam a cheirar fumaça. A agitação na cidade era enorme e o aeroporto de Orly chegou à grande marca de duas decolagens por dia, cujos destinos eram em sua maioria para a América e para a África. O Marrocos não ocupado era o destino de dezenas de cidadão europeus e os amigos de Gascoin tentavam ir pra qualquer lugar. Henry ficara em seu apartamento pago pelos próximos dois meses desfrutando pequenos furtos bem sucedidos. Havia recebido propostas para deixar a cidade e sua crença de que Hitler encerraria rapidamente o avanço começava a traí-lo. Numa tarde de terça-feira um dos moradores em retirada passou pela porta do apartamento, aberta, e viu o rapaz sentado, fumando a ouvindo rádio. __Henry vamos embora, homem! Você não vai querer ficar aqui quando eles chegarem! - advertiu o amigo. __Isso é besteira. Quando chegarem acha que irão matar a cidade toda? Não seja ridículo! Sou insignificante demais para preocupar um bando de alemães irados... O amigo foi com os demais pra qualquer lugar que não fosse a capital. Naquela noite Gascoin ouviu no rádio um informante dizer que chegavam os primeiros feridos ao hospital Saint Bernard e pensou em Liv. "Quem aquela maluca pensa que é para se meter nessa guerra? E ainda dizer que sou covarde!" Achava-se mais inteligente que a maioria e na verdade era, mas faltava-lhe vontade para fazer alguma coisa com isso. Entre uma série de exercícios com os pesos rústicos que fizera e um maço de cigarros, pensava em tomar uma atitude. Foi quando, no final do dia, ouviu um caminhão do serviço militar passar pela avenida um quarteirão adiante de sua casa e resolveu sair daquela casa. __Ei, vocês! - gritou para um soldado fardado sobre o caminhão - Como estão as coisas na linha Maginot? __O que quer saber, vagabundo! Volte para sua toca e deixe que seus irmãos franceses lutem essa guerra por você! - retorquiu bravo o jovem. Gascoin baixou a cabeça e tragou lentamente seu gauloise. __O general De Gaulle é seu comandante? __O general De Gaulle foi substituído por Pétain. Seu amado comandante pediu desligamento ao que parece, para entrar no ramo da política. Gascoin era um patriota de meia pataca, mas jamais imaginaria que De Gaulle, o mito da Divisão de Blindados da Primeira Grande Guerra, deixaria o posto de comandante para sede-lo a um homem pouco experiente como o pomposo Henri Philippe Benoni Joseph Pétain. Sabia pelos jornais que lia diariamente, coletados dos lixos das praças e parques, que Pétain não tinha o respeito da tropa. Acompanhara sua trajetória modesta no conflito anterior e imaginava que De Gaulle tinha planos para ele. Com razão. Ainda que tenha atingido o posto de Marechal, Pétain foi visto como grande responsável pelo fracasso francês na Segunda Guerra e condenado à prisão perpétua pelo Estadista Charles de Gaulle. Gascoin sabia que seu homônimo não tinha voz de comando e isso condenaria Paris. Quando voltou a notar o que acontecia ao seu redor o soldado descera do caminhão e mostrava-lhe uma prancheta co uma caneta pendurada. Pensou em Liv, em Paris, na França e assinou seu alistamento. O soldado não riu. Pelo contrário, bateu a mão em seu ombro e disse... __Estamos perdendo a linha Maginot dia-a-dia. Se quer fazer alguma coisa pelos nossos compatriotas engaje-se em combate e vá para Ardenes, se é que já não é tarde demais. - depois disso subiu novamente no veículo que arrancou estridente com a propaganda de guerra.
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